Capítulo 4 ao 6


 

No dia seguinte.

Ao amanhecer, Ye Chutang foi despertada pelo barulho.

Os aldeões que não estavam ocupados com o trabalho nos campos tinham ido por conta própria até a propriedade para ajudar a limpar o que restava do pavilhão oeste e da cozinha, destruídos pelo incêndio.

A família Liu, de três pessoas, havia sido completamente reduzida a cinzas, restando apenas um monte de pó branco.

Os aldeões queriam reunir as cinzas da família Liu e erguer um túmulo memorial junto com os pertences deles.

Mas então, uma rajada de vento estranha surgiu do nada, espalhando as cinzas e misturando-as com os restos carbonizados do fogo.

— O que... o que devemos fazer agora? — alguém murmurou, assustado.

Ye Chutang saiu de seu quarto e disse:

— Deixem assim. São os céus decretando que eles sejam levados pelo vento.

Ao ouvirem suas palavras, os aldeões estremeceram em uníssono.

A tia Wang esfregou os braços e concordou:

— Então seguiremos a vontade dos céus e deixaremos assim.

Dito isso, ela pegou um cesto do chão e o entregou a Ye Chutang.

— Senhorita Ye, imaginei que a senhora ainda não tivesse tomado café da manhã, então trouxe um pouco de mingau simples com conservas. Não repare na simplicidade.

Ye Chutang recebeu o cesto.

— Obrigada, tia Wang.

— Coma primeiro, senhorita Ye. Nós cuidaremos da limpeza das ruínas queimadas.

— Está bem. Ajudarei assim que terminar.

— Não precisa. Está muito sujo e, de qualquer forma, não restou quase nada para limpar. Nós damos conta.

Ye Chutang não insistiu. Caminhou até o banco de pedra sob a macieira silvestre e se sentou.

Dentro do cesto havia uma tigela de mingau grosso, amarelado — claramente feito de arroz de baixa qualidade.

Havia também dois bolos de legumes engordurados, uma porção de vegetais em conserva e um ovo cozido.

Para ela, esse café da manhã podia ser descrito como grosseiro e mal comestível.

Mas sabia que, para os pobres aldeões daquela época, era um banquete luxuoso que só podiam se permitir algumas vezes por ano.

Ye Chutang comeu apenas um dos bolos secos, que arranhavam a garganta, e bebeu um pouco de água da fonte espiritual.

Depois de cerca de uma hora e meia, os aldeões já haviam retirado a madeira que não queimara e as cinzas, restando apenas dois pedaços de terra chamuscada.

As panelas e tigelas que resistiram ao incêndio também foram esfregadas até ficarem limpas.

A tia Wang enxugou o suor do rosto enquanto olhava para o sol que já se erguia alto.

— Senhorita Ye, o chefe da aldeia já enviou uma mensagem para a Mansão do Ministro. Alguém deve chegar, no máximo, até amanhã.

A propriedade ficava a quase duzentos li da capital. Um cavalo veloz poderia fazer a viagem de ida e volta em um único dia.

Ye Chutang distribuiu a água da fonte espiritual, fingindo que era água de poço.

— Entendido. Obrigada pela ajuda de todos. Bebam um pouco de água para matar a sede.

A tia Wang tomou um gole e seus olhos brilharam.

— A água do poço está tão doce hoje! Senhorita Ye, a senhora colocou açúcar?

Sem mudar a expressão, Ye Chutang assentiu.

— Encontrei um pacotinho de açúcar no pavilhão leste e coloquei um pouco no balde.

Um dos aldeões, que nunca havia provado açúcar, suspirou maravilhado:

— Não é à toa que o açúcar é tão caro nas lojas. Só um gole já me deixou revigorado!

— Pois é! Minhas costas estavam doendo antes, mas depois de beber isso me sinto ótimo!

Todos elogiaram a “água com açúcar”, mas logo ficaram relutantes em beber mais, querendo guardar para os idosos, as crianças e os maridos que trabalhavam duro.

Ye Chutang não se importou.

— Façam como acharem melhor.

— Obrigada, senhorita Ye.

Lembrando que a cozinha da propriedade havia sido destruída pelo fogo, a tia Wang ofereceu:

— Senhorita Ye, até a chegada da família Ye, eu lhe trarei três refeições por dia.

Ye Chutang sabia que a tia Wang tinha boas intenções, mas não pretendia torturar seu estômago. Recusou com gentileza.

— Não é necessário. Há comida e vegetais no porão. Posso montar um fogão simples com algumas pedras e cozinhar para mim mesma.

Ao ver sua determinação, a tia Wang não insistiu.

Depois que os aldeões foram embora, Ye Chutang retirou de seu espaço um mingau quente de ovo centenário com carne de porco magra, acompanhado de rosquinhas fritas crocantes, e saboreou tudo com prazer.

Em seus momentos livres, ela costumava preparar refeições para armazenar em seu espaço, prontas para serem consumidas quando quisesse.

Após o café da manhã, praticou artes marciais sob a macieira silvestre.

Precisava fortalecer o corpo e recuperar sua energia interna.

Mas o físico da dona original era frágil demais. Em menos de uma hora, Ye Chutang já se sentia tonta.

Ela voltou para o pavilhão leste, sentou-se de pernas cruzadas sobre a cama de descanso e regulou o fluxo de energia que estava desordenado.

Quando terminou, já era meio-dia.

Ela comeu uma tigela de arroz com peito de boi ao molho de tomate, tomou banho em seu espaço e depois tirou uma soneca.

Ao acordar, retomou o treinamento.

Após o jantar, deu uma volta pela propriedade para ajudar na digestão.

Ao passar por um grande celeiro, o guarda de plantão a cumprimentou:

— Boa noite, Jovem Senhorita.

Pelas memórias da dona original, Ye Chutang o reconheceu.

— Tio Fu, a família Ye ainda não transportou e vendeu o trigo colhido?

As cem mu de terra fértil da família Ye produziam trigo no inverno, colhido no fim da primavera, e depois arroz no início do outono.

As colheitas eram armazenadas temporariamente no celeiro, guardado por Tio Fu e dez sentinelas em rodízio.

Quando os preços estivessem favoráveis, seriam vendidos, e os guardas retornariam à Mansão do Ministro.

Tio Fu respondeu:

— O mestre tinha intenção de vender, mas o preço do trigo caiu de repente, então ele decidiu esperar.

Ao ouvir isso, os dedos de Ye Chutang coçaram.

Embora a produtividade dos grãos na antiguidade fosse baixa — cerca de trezentos jin por mu —, cem mu ainda somavam trinta mil jin. Nada mal.

Hora de um “passeio de compras” à meia-noite!

Como membro da família Ye, pegar o que era legitimamente seu não era exagero, certo?

Após trocar algumas palavras com Tio Fu para extrair mais informações sobre a família Ye, ela retornou à propriedade.

Treinou até a meia-noite e, então, se esgueirou até o celeiro sob a cobertura da escuridão.

Quatro guardas patrulhavam do lado de fora.

Usando sua habilidade ligada à terra, ela cavou um túnel curto até o interior do celeiro, gastando apenas um ponto de mérito.

Com um aceno de mão, mais de trinta mil jin de trigo desapareceram em seu espaço, enchendo quase um contêiner inteiro.

Ela estendeu o túnel em direção às montanhas — uma distância maior que custou mais dois pontos de mérito — e, em seguida, retornou para dormir.

Ye Chutang havia planejado esperar a família Ye consertar a propriedade para depois voltar à capital com eles.

Mas três dias se passaram. O ferimento em sua testa havia cicatrizado, e mesmo assim ninguém da família Ye apareceu.

Os aldeões começaram a cochichar.

Diziam que Ye Jingchuan tinha abandonado de vez a filha criada no campo e não se importava se ela vivia ou morria.

Diziam que, na capital, só se lembravam da talentosa e bela segunda filha, Ye Anling, e que a primogênita fora esquecida.

Diziam que a pobre Ye Chutang jamais retornaria à Mansão do Ministro e acabaria casada com algum camponês.

Depois de três dias trancada em casa, Ye Chutang sorriu friamente.

— Vou fazer questão de que todos na capital se lembrem do nome “Ye Chutang” — profundamente.

Com isso, arrumou seus pertences e se preparou para partir rumo à capital.

Mas, no momento em que saiu da propriedade, foi barrada pelos guardas do celeiro da família Ye.

— Jovem Senhorita, não lhe é permitido ir a lugar nenhum.

O guarda a encarou, atônito. Mesmo com roupas simples, ela estava deslumbrante.

Como podia ter ficado tão bonita em apenas alguns dias?

Ye Chutang vinha treinando, bebendo água da fonte espiritual e refinando o corpo.

Já não era a garota frágil e amarelada de antes — agora era uma beldade radiante, com pele de jade.

Seu sorriso, por si só, era capaz de enfeitiçar almas.

Enquanto o guarda permanecia atordoado, Ye Chutang se virou e gritou para os aldeões que irrigavam os arrozais próximos:

— O quê? Ye Jingchuan quer me deixar morrer de fome?

O guarda voltou a si, o rosto empalidecendo.

— Jovem Senhorita, não fale bobagens! E a senhorita não deve se referir ao mestre pelo nome!

Ye Chutang revirou os olhos e elevou ainda mais a voz:

— Ye Jingchuan tem vergonha de mim, uma garota criada no campo? Acha que o desonro e que mereço morrer por isso? Mas não foi ele quem me mandou para o campo?

— Se não fosse por minha mãe, Ye Jingchuan não teria tido dinheiro para prestar os exames imperiais, muito menos para se aproximar dos nobres ou conseguir um cargo oficial na capital depois de passar!

— Ye Jingchuan usou o dote da minha mãe para tomar uma concubina — muito bem, deixei passar. Mas agora ele planeja tomar todo o dote para si e ainda quer me ver morta! Será que ele acha mesmo que escapará da punição divina?

Sua voz ecoou, alta o bastante para que toda a aldeia ouvisse.

Os espectadores ficaram chocados: Quem diria que o Ministro Ye era esse tipo de homem!

Horrorizados com o escândalo, os guardas correram para tapar a boca de Ye Chutang.

Mas ela se esquivou com facilidade, a trouxa de viagem já pendurada no ombro, e disparou em direção aos arredores da aldeia.

— Socorro! Eles querem me silenciar!

Os guardas: "..."

Os aldeões murmuravam: O Ministro Ye não tem consciência — nem a própria filha está a salvo!

Os guardas correram atrás de Ye Chutang, implorando à multidão:

— A jovem senhorita perdeu a razão! Não acreditem em nenhuma palavra dela!

Os aldeões reviraram os olhos: Ah, claro. Vamos acreditar mais nos assassinos do que nela.

Ye Chutang correu direto até a entrada da aldeia, quase colidindo com uma carruagem ornamentada que chegava.

Ao se perguntar por que um veículo tão luxuoso viera até aquela aldeia humilde, seus olhos pousaram na placa de madeira pendurada na porta — entalhada com o caractere “Ye”.

Espera aí... poderia ser o verme do meu pai, chegando pessoalmente?

Quando o cocheiro viu o rosto da mulher que quase havia se chocado contra a carruagem, puxou imediatamente as rédeas.

— Ohhh!

— Jovem Senhorita, para onde vai com esse embrulho nas costas?

Não era que o cocheiro reconhecesse Ye Chutang — mas sim porque ela tinha uma semelhança impressionante com a mãe, cerca de sessenta ou setenta por cento parecida.

Dentro da carruagem, Ye Jingchuan ergueu a cortina assim que ouviu a voz.

Fazia quinze anos desde a última vez que vira sua filha legítima mais velha, aquela que abandonara no campo.

A mulher diante dele tinha lábios rosados, dentes como pérolas, delicada e graciosa — exatamente tão ingênua quanto a mãe havia sido no passado!

Ele forçou um sorriso afetuoso.

— Chu’er, ainda se lembra do seu pai?

Ye Chutang olhou para aquele pai hipócrita e canalha de sua vida passada e revirou os olhos com força.

— Por que eu lembraria de uma besta que abandonou a própria filha?

Ye Jingchuan: — ...

Ele retirou o pensamento anterior.

Exceto pela aparência, essa garota não tinha nada da mãe.

Grossa, desrespeitosa e venenosa nas palavras!

O cocheiro, vendo Ye Chutang insultar Ye Jingchuan, a repreendeu:

— Jovem Senhorita, não deve ser tão rude com o mestre!

Ye Chutang deixou escapar um suspiro exagerado.

— Uau, os criados da Mansão do Ministro são tão audaciosos — ousam até dar lição de moral na própria senhorita!

Dito isso, deu-lhe dois tapas no rosto.

O cocheiro tentou desviar, mas falhou; as bochechas calejadas incharam na hora.

A Jovem Senhorita sabia artes marciais?!

Ele ficou boquiaberto de choque.

— Mmm—

Tentou falar, mas a mandíbula havia se deslocado, tornando-o mudo.

Ignorando o cocheiro, Ye Chutang se virou para Ye Jingchuan, que a fitava furioso.

— O quê? Um criado ultrapassa os limites e eu não posso discipliná-lo?

É claro que Ye Jingchuan não podia dizer abertamente que senhores não tinham direito de punir seus servos.

Mas até ao bater em um cachorro, devia-se considerar o dono!

— Chu’er, você é a filha mais velha da Mansão do Ministro. Comporte-se!

Ao ouvir isso, Ye Chutang entendeu na hora — Ye Jingchuan estava ali para levá-la de volta à mansão, e definitivamente tinha más intenções.

— Tive mãe para me dar à luz, mas não pai para me criar. Não é natural que eu não tenha modos?

Humilhado e furioso, Ye Jingchuan saltou da carruagem e ergueu a mão em direção ao rosto dela.

— Silêncio! Não tolerarei tamanha insolên—

Pá!

Antes que terminasse, Ye Chutang interceptou o golpe com um tapa certeiro.

Ye Jingchuan encarou, incrédulo, a palma avermelhada e latejante, tremendo de fúria.

— Ye Chutang! Você não tem noção de decoro ou piedade filial?!

Como ousava levantar a mão contra o próprio pai — isso era pura rebeldia!

Ye Chutang piscou com inocência.

— Ué, não era o senhor que queria bater palma comigo? Eu apenas correspondi. Quão filial da minha parte.

— Quem queria bater palma?! Eu claramente—

— Ah, meu engano. Então o senhor queria mesmo era me bater.

Ye Chutang inclinou a bochecha esquerda, alva e delicada, em direção a ele.

— Vamos lá, então. Bata. Assim estaremos quites pela dívida do meu nascimento, e poderemos cortar laços de vez.

Ela sabia muito bem que Ye Jingchuan não ousaria cortar relações — ele precisava dela.

Do contrário, o ilustre Ministro não teria vindo pessoalmente a esse vilarejo esquecido para reconhecê-la.

Cego de raiva, Ye Jingchuan ergueu a mão inchada.

Mas ao encarar o rosto deslumbrante de Ye Chutang, seus olhos brilharam de cálculo, e o golpe não caiu.

Ye Chutang perdeu a paciência.

— Ministro Ye, meu pescoço já está doendo de tanto inclinar. Vai me bater ou não? Se não, estou indo embora.

Ye Jingchuan baixou a mão com um resmungo frio.

— Que "Ministro Ye"? Eu sou seu pai!

Ye Chutang tornou a revirar os olhos.

— O senhor me largou no campo por quinze anos, e agora aparece de repente fingindo ser pai amoroso? Qual é o esquema?

— Que esquema eu poderia ter? Apenas pensei que, depois de tantos anos de recuperação, você já deveria estar bem para voltar para casa.

Nesse momento, o guarda que a havia perseguido finalmente chegou.

Ajoelhou-se, unindo os punhos.

— Mestre, falhei em vigiar a Jovem Senhorita. Este humilde merece punição.

Ye Chutang arqueou a sobrancelha.

Que conveniente a chegada dele, hein!

— Ministro Ye, então não veio me buscar, afinal. O senhor me deixou passar fome por três dias, e mesmo assim não morri. Que decepção, não?

Ye Jingchuan olhou para a pele radiante de Ye Chutang, sem palavras.

Ela não parecia em nada alguém que passara fome por três dias.

— Chu’er, você é minha própria carne e sangue. Como eu poderia querer sua morte? Se eu não me importasse, por que viria pessoalmente buscá-la?

As palavras transbordavam de falsa sinceridade, mas Ye Chutang não acreditou em uma sequer.

Ela ergueu a mão para sombrear os olhos do sol escaldante.

— Então por que mandou me trancar na propriedade, impedir minha saída e ainda cortar minhas refeições?

Se não fosse pelo plano de recuperar tudo o que era seu na Mansão do Ministro, já teria lançado esse falso com uma bofetada para longe!

Que perda de tempo ficar fingindo sob esse sol ardente.

Ye Jingchuan também suava em bicas.

Ao ver o gesto dela, disse:

— Chu’er, você entendeu mal. Vamos voltar à propriedade e conversar direito.

— Ótimo!

Ye Chutang puxou o cocheiro — ainda segurando a mandíbula deslocada — para fora da carruagem, subiu no assento do condutor e partiu sozinha.

Ye Jingchuan assistiu à nuvem de poeira deixada pela carruagem, com o semblante sombrio.

Virou-se para o guarda ajoelhado.

— Por que ela não é nada parecida com a garota que você descreveu?

O tio Fu e os guardas, que se revezavam na vigilância do celeiro, ficavam períodos na propriedade para cuidar das colheitas de trigo e arroz.

Sempre que retornavam à família Ye, relatavam a condição de Ye Chutang.

Tímida, tola, sem vergonha, egoísta, preguiçosa…

A lista de insultos não tinha fim.

Mas a Ye Chutang diante dele não se parecia em nada com essas descrições!

O guarda também estava confuso.

— Mestre, como forasteiro, raramente vi a Jovem Senhorita. Tudo o que sabia vinha da Ama Liu.

Agora, os três membros da família Liu estavam mortos — e a verdade morrera junto.

Ye Jingchuan não pressionou mais. Sob o sol escaldante, começou a longa caminhada de volta.

O guarda apressou-se em tirar o manto externo e o segurou sobre a cabeça do mestre, para lhe dar sombra.

O cocheiro, Chen Zhong, suportou a dor ao recolocar a mandíbula no lugar e seguiu-os.

— Mestre, a Jovem Senhorita sabe artes marciais.

Ye Jingchuan parou e se voltou para ele.

— Aqueles tapas que levou — não conseguiu desviar, ou não quis?

— Ambos. Mas este humilde confirma: a Jovem Senhorita é muito habilidosa.

Ye Jingchuan franziu o cenho.

A Ama Liu a mantinha sob constante vigilância. Onde teria aprendido artes marciais?

Se não fosse pela semelhança quase idêntica com Tang Wanning, poderia suspeitar que havia sido substituída por uma impostora.

— Chen Zhong, vá depois à vila e reúna informações sobre Chu’er.

Assim que voltassem à Mansão do Ministro, ele mesmo testaria as habilidades dela.

Ye Chutang era valiosa demais para suas ambições políticas — não podia perder o controle sobre ela.

— Sim, Mestre.

O guarda então mencionou como Ye Chutang havia espalhado rumores difamatórios sobre Ye Jingchuan na vila.

Mas como todos ali lhe deviam favores, o Ministro ignorou, confiante de que não ousariam difundir a fofoca.

Acostumado a uma vida de luxo, sentiu cada passo da caminhada sob o sol como uma tortura.

Sedento, viu Ye Chutang bebendo água sob uma macieira-do-paraíso e se aproximou.

— Chu’er, sirva um copo de água ao seu pai.

Ye Chutang não tinha a menor intenção de dividir a água espiritual com Ye Jingchuan.

Virou o bule, inclinando o pulso para baixo, deixando cada gota cair direto em sua boca.

— Acabou.

Ye Jingchuan: — ...

Sua palma voltou a coçar.

Mas a dor persistente o lembrou — se a golpeasse agora, o único a sofrer seria ele.

— Chu’er, seu pai tem estado ocupado com assuntos da corte e não pôde vir antes, mas nunca deixou de pensar em você.

Nunca ordenei que a prendessem ou a deixassem sem comer. No instante em que soube dos seus problemas, arrumei tempo para vir.

Ye Chutang bateu o bule na mesa de pedra com força.

— Lorde Ye, em vez de palavras melosas, por que não oferece algo mais concreto?

Um mau pressentimento cresceu no coração de Ye Jingchuan.

— Chu’er, o que exatamente você quer?

— Quero que me acompanhe em uma maldição contra a besta que tentou me matar de fome.

— ?

— Desejo que ele — tenha os intestinos apodrecidos e a linhagem encerrada!

— !

— Desejo que ele — conheça a miséria e a vergonha de ser corno!

— !!

— Desejo que ele — tenha a família arruinada e o cadáver largado às moscas, sem enterro!

— !!!

Ye Jingchuan não tinha a intenção de deixar Ye Chutang morrer de fome, mas a ordem para que os guardas a vigiassem de perto realmente havia partido dele. Vendo as palavras dela ficarem cada vez mais venenosas, ele a interrompeu rapidamente.

— Chu’er, não se preocupe. Como seu pai, eu vou encontrar quem tentou lhe fazer mal e vou fazê-los pagar.

Tendo dito isso, mudou o assunto depressa.

— Você sofreu todos esses anos. Assim que voltarmos à Mansão do Ministro, vou compensá-la.

Os olhos de Ye Chutang brilharam.

— Não precisa esperar voltarmos. Me compense agora.

Ye Jingchuan: — …

— E como você gostaria que eu a compensasse?

— Primeiro, me dê tudo de valor que tiver com você, como juros. Depois, quando chegarmos, entregue-me dez mil taéis de prata para eu gastar.

Se estivesse bebendo água, Ye Jingchuan teria cuspido na hora.

— Dez mil taéis?! Meu salário mensal é apenas de sessenta dan de arroz. Mesmo que eu não comesse nem bebesse por um ano inteiro, meu salário oficial chegaria apenas a mil e oitocentos taéis!

(Nota: Os salários dos oficiais eram calculados em arroz refinado. Um dan valia dois taéis, embora em anos de fome o preço subisse.)

E isso já contando todos os subsídios e benefícios do tribunal.

É claro, ele também possuía terras férteis, lojas, desviava lucros do Ministério da Receita e aceitava presentes com frequência. Ganhar dez mil taéis por ano não era difícil.

Mas por que deveria entregar seu dinheiro suado a Ye Chutang?

Ye Chutang não se importava se Ye Jingchuan estava realmente falido ou apenas fingindo.

Se ele queria que ela voltasse para a Mansão do Ministro, teria que mostrar sinceridade.

— Ministro Ye, fiquei afastada por quinze anos. Dez mil taéis divididos nesse tempo dão apenas algumas centenas de taéis por ano. Esqueça seu precioso filho — olhe apenas para Ye Anling. Ela deve ter gasto pelo menos cinquenta mil taéis ao longo dos anos, se não cem mil.

— O senhor diz que sentiu minha falta, mas, na realidade, é mesquinho até os ossos, cheio de promessas vazias. Guarde suas palavras doces para Ye Anling. Eu não quero. Adeus.

Dito isso, pegou a trouxa da mesa de pedra e se virou para sair.

Ye Jingchuan lembrou-se de Ye Anling, que havia sido reduzida às lágrimas depois de chamar a atenção do Eunuco De, e agarrou o braço de Ye Chutang.

— Chu’er, não é que eu não queira lhe dar a prata — é que realmente não tenho tanto assim. Que tal cinco mil taéis? São todas as economias que juntei em anos de serviço.

Ye Chutang sacudiu a mão dele, o sorriso não chegando aos olhos.

— Nunca imaginei que o Ministro Ye estivesse tão apertado. Suponho que não deva voltar para não aumentar seu fardo. Adeus!

Ye Jingchuan: — …

— Sem permissão de viagem, aonde você acha que vai?

— Com minha aparência, facilmente me casaria com um rico proprietário local. Melhor que voltar para a Mansão do Ministro para viver na miséria.

— Silêncio! Casar sem o consentimento dos pais é falta de piedade filial. Quer ser açoitada?

Ao vê-lo invocar a lei, Ye Chutang adivinhou seu verdadeiro motivo para trazê-la de volta: um casamento político.

Já que aquele pai desprezível tinha segundas intenções, ela se sentiu ainda mais ousada.

— Falando em casamento, Ministro Ye, sendo o senhor um oficial tão íntegro e incorruptível, certamente não mexeu no dote da minha mãe, não é? As cento e vinte e oito arcas ainda estão intactas? Caso contrário, a grandiosa Mansão do Ministro não teria apenas cinco mil taéis no cofre.

A mãe de Ye Chutang, Tang Wanning, era a filha querida do comerciante mais rico de Jiangnan.

Para o casamento, seu pai encomendara as maiores arcas para guardar o mais luxuoso dote — cada uma tão pesada que precisava de quatro homens para carregá-la.

Foram cento e vinte e oito arcas ao todo, enchendo um navio mercante inteiro que partiu de Jiangnan até a capital.

No dia do casamento, a procissão se estendeu por quilômetros, causando sensação na cidade.

A ascensão meteórica de Ye Jingchuan, tornando-se Ministro da Receita em tão pouca idade, se devia a duas coisas:

Primeiro, o dote da falecida esposa pavimentara seu caminho até o topo.

Segundo, ele ajudou o novo imperador a confiscar as propriedades da Família Tang em Jiangnan, enchendo os cofres imperiais.

Seu sorriso não alcançou os olhos ao encarar a expressão zombeteira de Ye Chutang.

— Nunca imaginei que minha filha fosse tão esperta, lembrando de coisas de quando tinha menos de um ano.

— O senhor me lisonjeia, Ministro Ye. Foi meu avô quem enviou alguém para me visitar no campo e me contou sobre minha mãe. Assim fiquei sabendo que até mesmo um único item do dote dela valia uma fortuna.

Um lampejo de intenção assassina passou pelos olhos de Ye Jingchuan.

Se uma esposa morresse sem deixar filhos, a família dela podia reivindicar o dote de volta.

Era por isso que ele nunca planejou matar Ye Chutang.

Mas agora ela estava de olho naquele dote inestimável!

Ele precisava pôr as mãos na última cópia da lista do dote e destruí-la — só então poderia ficar tranquilo.

— Chu’er, não se preocupe. Eu não toquei no dote da sua mãe. Mas antes de morrer, ela decretou que todos os filhos, fossem da esposa principal ou de concubina, seriam tratados igualmente. O dote deve ser dividido entre todos vocês.

Ye Chutang não acreditou em uma só palavra, mas não viu razão para discutir.

— Muito bem. Voltarei com você. Assim que receber minha parte do dote, irei embora.

Ao ouvir isso, Ye Jingchuan de repente enxergou uma maneira de conseguir a lista do dote.

— Chu’er, o dote só lhe será entregue quando você se casar. Quando esse dia chegar, não apenas darei uma parte maior, como também acrescentarei do meu próprio bolso.

A promessa era grande demais para engolir de uma vez.

Quando Ye Chutang estava prestes a retrucar com sarcasmo, Ye Jingchuan acrescentou:

— Você já sofreu demais todos esses anos. Os dez mil taéis que pediu… vou dar um jeito de conseguir. Apenas comporte-se na Mansão do Ministro e aprenda a etiqueta adequada. Sua mãe arranjará um casamento digno para você.

— Espere — minha mãe está morta. O senhor está planejando um casamento fantasma para mim?

As têmporas de Ye Jingchuan latejaram de raiva.

— Kong Ru agora é a dona da casa. Gostando ou não, você deve chamá-la de "Mãe".

Os olhos de Ye Chutang se tornaram gélidos, seus lábios se curvando em desdém.

— Eu sequer o reconheço como pai. Por que reconheceria uma mera madrasta? Se ela quer ser minha mãe, que morra primeiro.

— Sem negociação!

A frieza no olhar dela fez Ye Jingchuan hesitar.

Ele suspirou.

— Está bem. Você pode chamá-la assim quando aceitá-la. Mas, uma vez de volta, não fale de forma tão imprudente — vai nos tornar motivo de chacota.

— Eu não começo brigas, mas também não engulo insultos. Se o Ministro Ye quer evitar o caos em casa, diga às suas esposas e filhos para não me provocarem.

Ela estendeu a mão.

— Agora, me dê os juros.

Ye Jingchuan se sentiu aliviado por não ter trazido muito dinheiro nessa viagem.

Entregou-lhe o troco da bolsa e duas notas bancárias de cinquenta taéis que guardava na manga.

Ye Chutang não reclamou. Depois de guardar o dinheiro, jogou a trouxa sobre o ombro.

— Vamos…

Antes que pudesse terminar, Chen Zhong entrou correndo no pátio, encharcado de suor.

— Mestre, aconteceu uma desgraça!

Ye Jingchuan franziu o cenho.

— O que aconteceu para deixá-lo tão agitado?

Recuperando o fôlego, Chen Zhong respondeu:

— Mestre, o trigo do celeiro desapareceu.

Depois de reunir informações sobre a jovem senhora na aldeia, ele havia passado pelo celeiro no caminho de volta.

Com as chuvas recentes, quis verificar se o trigo tinha se molhado.

Mas, ao abrir a porta, o armazém estava completamente vazio — não restava um único grão.

A mente de Ye Jingchuan foi imediatamente para uma conclusão:

Um roubo coordenado pelos guardas!

O celeiro era vigiado em turnos. Para todo o trigo sumir sem deixar vestígios, todos os guardas tinham que estar envolvidos.

Como ousavam roubá-lo?!

Nesse momento, o guardião do celeiro, Tio Fu, chegou.

Pálido e trêmulo, ajoelhou-se diante de Ye Jingchuan, suando em bicas.

— Este velho servo falhou em proteger o grão. Castigue-me como achar melhor, Mestre.

Ye Jingchuan lançou-lhe um olhar gelado.

— Duzentos dan de trigo — desaparecidos assim, de uma hora para outra?

(Nota: 1 dan ≈ 150 catties; grão grosso era vendido por 1 tael de prata por dan.)

Ye Chutang observava Ye Jingchuan, prestes a devorar alguém de raiva, e pensou consigo mesma:

Ainda bem que tive a precaução de cavar um túnel secreto antes — caso contrário, teria arrastado junto o único membro da Família Ye que mostrou alguma bondade à anfitriã original.


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