Capítulo 7 ao 9

 

O Tio Fu percebeu que Ye Jingchuan o suspeitava de ter roubado dos armazéns da família.

— Mestre, por favor, seja justo. Este velho servo realmente não sabe como o trigo desapareceu. Temos feito a guarda em três turnos, sem um momento sequer de negligência.

Após o período chuvoso, ele até havia aberto o celeiro para verificar — o trigo ainda estava lá.

Ye Jingchuan ouviu aquela explicação frágil e zombou:

— Você mesmo acredita no que acabou de dizer?

O Tio Fu sabia o quão absurda sua justificativa soava — ninguém acreditaria.

Seus lábios tremiam. — Este velho servo não fala nada além da verdade!

— E acha que uma simples "palavra verdadeira" fará com que este oficial arque com o prejuízo de duzentos dan de trigo?

Quando o Tio Fu estava prestes a assumir a culpa, Ye Chutang, que observava a cena em silêncio, abriu a boca:

— Trigo não some no ar. Vocês estavam apenas vigiando do lado de fora... e se alguém tiver cavado um túnel até o celeiro?

Um brilho de esperança iluminou os olhos apagados do velho. — Este servo vai verificar imediatamente!

Ye Jingchuan lançou um olhar a Chen Zhong, que entendeu na hora e o seguiu.

No tempo de queimar um palito de incenso, o eficiente Chen Zhong voltou primeiro.

— Mestre, de fato há um túnel em um canto do celeiro, seguindo em direção às montanhas. Os guardas foram investigar.

O rosto de Ye Jingchuan escureceu, seus olhos tomados de intenção assassina.

— Ousam roubar deste oficial? Mandem os guardas notificar as autoridades. Aqueles ladrões precisam ser capturados!

— Sim, Mestre.

Chen Zhong voltou ao celeiro e retornou com o Tio Fu.

Ye Jingchuan olhou para o velho, que parecia aliviado.

— Você e os guardas fiquem aqui. Esperem até que os oficiais recuperem o trigo.

Em seguida, virou-se para Ye Chutang:

— Chu’er, vamos. De volta à Mansão do Ministro.

O caminho do solar até a capital tinha duzentos li — pouco mais de duas horas de carruagem.

Ao meio-dia, os três pararam em uma estalagem para almoçar.

Ye Chutang pediu os pratos mais caros.

Embora o sabor fosse mediano, os ingredientes eram de primeira qualidade.

Enquanto Ye Jingchuan e Chen Zhong não prestavam atenção, ela discretamente guardou alguns no seu espaço.

Chegaram à capital pouco depois do meio da tarde, no auge do calor.

Ye Chutang ergueu a cortina da carruagem, admirando as ruas movimentadas e o burburinho da cidade antiga, tudo enquanto planejava sua vingança.

Ela não apenas retomaria o que era de direito da dona original daquele corpo — faria seu pai canalha se arrepender e arrancaria tudo de sua madrasta!

Ye Jingchuan confundiu sua curiosidade com ingenuidade e assumiu o papel de pai carinhoso:

— Chu’er, quando o sol não estiver tão forte, deixe Ling’er acompanhá-la pela cidade. Compre alguns pós de arroz, joias e vestidos novos.

— Quem vai pagar?

— Seu pai cobre. Duzentos taéis — o suficiente para vários conjuntos.

— Nesse caso, tudo bem... Ministro Ye.

A forma como ela o chamou o desagradou.

— Agora que estamos de volta à capital, você deveria me chamar de "Pai".

Ye Chutang baixou a cortina e sorriu de lado. — Sem problema. Mas vai ter que pagar uma "taxa de troca de nome".

— Eu sou seu pai. Por que deveria pagar?

— Não discuto isso. Mas o senhor me esqueceu por quinze anos. Para ser justo, eu só vou lembrar que é meu pai dentro de quinze anos. Aí eu o chamo.

Ye Jingchuan: — ...

— Onde você aprendeu essas besteiras?

— Sozinha. Parece que o fruto não cai longe do pé.

Ele, de repente, sentiu-se grato por tê-la enviado ao campo — caso contrário, ela já o teria levado à sepultura.

— Não prometi dez mil taéis como compensação por esses quinze anos?

A insinuação era clara: aceitar o dinheiro significava aceitá-lo como pai.

Ye Chutang encostou o dorso da mão na testa dele.

— Sem febre. Mas ainda assim o Ministro Ye continua delirando. Aqueles dez mil eram apenas a condição para eu voltar.

Ao ver sua expressão ávida por dinheiro, ele respirou fundo.

— Quanto você quer por essa "taxa de troca de nome"?

Ela ergueu um dedo. — Não muito. Só mais dez mil.

Ye Jingchuan quase engasgou de raiva.

— Impossível!

Imperturbável, ela deu de ombros.

— Que drama por tão pouco. "Ministro Ye" sai bem natural da boca — respeitoso até.

Ele esteve a ponto de arrastá-la direto ao palácio e jogá-la nos braços do Eunuco De.

Diria ao velho devasso: "Minha filha mais velha é bem mais bonita que a segunda. Faria companhia muito melhor para o senhor!"

Mas não ousou.

Embora tivesse trazido Ye Chutang de volta exatamente para casá-la no lugar de sua filha favorita, não podia deixar isso tão óbvio.

Do contrário, o Eunuco De poderia pensar que ele não queria se desfazer da talentosa e bela segunda filha e havia desenterrado uma camponesa bonita apenas como substituta de má vontade.

Rangendo os dentes, Ye Jingchuan cedeu:

— Muito bem. Nem que eu tenha que vender panelas e potes, vou juntar mais dez mil!

Só mais três dias. Ele só precisava aguentar três dias!

Ye Chutang não esperava que ele aceitasse.

Agora estava realmente curiosa — que tipo de casamento valia tanto engolir humilhação?

— Nesse caso, agradeço desde já... Ministro Ye.

Ela não se importava de chamá-lo de "Pai". Fazia parte do plano de vingança.

Logo, a carruagem parou diante da Mansão do Ministro.

Chen Zhong desceu e ergueu a cortina. — Mestre, chegamos.

Ye Chutang foi a primeira a olhar para fora.

Os caracteres dourados de "Mansão do Ministro" pairavam acima da entrada — nem elegantes, nem imponentes.

— Quem escreveu essa placa? É tão—

Antes que pudesse dizer "feia", um horrorizado Ye Jingchuan a interrompeu:

— Essa placa foi escrita pessoalmente por Sua Majestade! Representa a honra da família Ye — segure a língua!

Entre os seis ministros, apenas sua residência ostentava a caligrafia do imperador, recebendo o título singular de "Mansão do Ministro".

Os outros cinco precisavam se contentar com seus sobrenomes nos portões.

Ye Chutang se inclinou, sorrindo. — Então até o Ministro Ye acha que a letra do imperador é horrível.

— Você— Como ousa!

—Não grite. Se me assustar, talvez eu acabe soltando algo… imprudente. Não iria querer ofender Sua Majestade e condenar a família Ye.

Dito isso, ela ignorou a expressão furiosa dele e saltou da carruagem.

Pela primeira vez, Ye Jingchuan se perguntou se trazê-la de volta não teria sido um erro.

Um mau pressentimento o invadiu — de que ela não apenas destruiria a família Ye, mas arrastaria junto toda a capital.

Sua segunda esposa, Kong Ru, havia acabado de sair para recebê-lo quando viu uma mulher esbelta e de beleza deslumbrante saltar da carruagem.

Ela parou, surpresa.

Esperava uma garota tímida, malnutrida, saída do campo — não essa beldade radiante.

Apesar dos modos rudes, ela se portava como alguém da nobreza.

Kong Ru rapidamente se recompôs e desceu os degraus com um sorriso.

—Você deve ser Chu’er. É a cara da sua mãe.

Virando-se para as criadas, ordenou:

—Venham saudar a jovem senhorita.

As servas se curvaram.

—Bem-vinda, Jovem Senhorita.

Ignorando-as, Ye Chutang examinou a mulher no vestido de gaze azul, com os cabelos pesados de joias — sem dúvida, Kong Ru, sua madrasta.

Sem rodeios, comentou:

—Se não consegue administrar uma casa, não deveria estar no comando das finanças.

Kong Ru: —???

—O que quer dizer com isso, Chu’er?

—A família Ye está tão pobre que mal consegue comprar arroz. Está claro que você não tem talento algum para lidar com riqueza. Comparada à minha mãe, você não serve nem para lamber os sapatos dela.

O sorriso forçado de Kong Ru congelou no rosto, suas unhas cravaram nas palmas enquanto usava a dor para se lembrar de manter a compostura.

As criadas ficaram atônitas — como a jovem senhorita, criada no interior, ousava ser tão insolente com a senhora da casa?

Quando uma delas estava prestes a repreendê-la, Kong Ru a silenciou com um olhar afiado.

Pelo bem da filha, precisava aguentar!

Seu olhar se voltou para Ye Jingchuan, que se aproximava, e ela rapidamente deu alguns passos à frente para saudá-lo com uma reverência:

—Meu senhor, deve estar exausto da viagem. Trabalhou duro.

Ye Jingchuan fez um leve aceno com a cabeça.

—Vamos conversar dentro.

Em seguida, voltou-se para Ye Chutang, a expressão severa.

—Chu’er, a capital não é como o campo. Você precisa vigiar suas palavras e ações, ou acabará atraindo desgraça para si mesma — pode até perder a vida.

—Fique tranquilo, lorde Ye, prezo muito a minha vida.

Ye Chutang sabia perfeitamente bem que, para prosperar nesse mundo no qual transmigrou, precisava assimilar-se por completo.

Não como naqueles romances de transmigração, em que a protagonista acreditava tola e arrogantemente que poderia sozinha subverter as regras de toda uma era.

Quanta idiotice!

O que ela precisava fazer era aprender as regras, usá-las a seu favor e dominá-las.

E, dentro de suas capacidades, acumular o máximo de mérito possível.

Ao entrarem na Mansão do Ministro, passaram pelo muro de proteção, percorreram o corredor coberto e chegaram ao salão principal do pátio da frente.

Ye Jingchuan sentou-se no assento de anfitrião, enquanto Kong Ru e Ye Chutang tomaram seus lugares abaixo.

O mordomo Chen prontamente serviu chá aos três.

Sabendo que seu senhor tinha assuntos a tratar, ele conduziu as criadas e os servos para fora do salão.

Ye Jingchuan ergueu a xícara de barro roxo, varrendo as folhas de chá flutuantes com a tampa, e perguntou a Kong Ru:

—O pátio de Chutang já está preparado? Todos os móveis necessários foram adquiridos? As criadas e os servos designados para ela são competentes?

Kong Ru respondeu:

—O Pátio Ningchu para Chutang já está pronto. Os móveis são da melhor qualidade, e as criadas e servos podem ser escolhidos pela própria Chutang.

—Você pensou em tudo, como sempre — disse Ye Jingchuan. — Leve Chutang para se instalar em seu pátio. Depois, dê a ela duzentos taéis de prata e mande Ling’er acompanhá-la para comprar cosméticos, joias e roupas.

—Como desejar, meu senhor.

—Prepare um jantar luxuoso esta noite. Ninguém deve faltar — deixe que Chutang conheça todos.

—Entendido, meu senhor.

Ye Jingchuan tomou um gole de chá e lançou um olhar para Ye Chutang, que observava seu novo ambiente.

—Chutang, se precisar de algo, basta avisar Madame Kong. Contanto que seja razoável, ela providenciará.

Ye Chutang sorriu.

—Então não vou me segurar.

Ao ouvir isso, Ye Jingchuan sentiu uma dor de cabeça se formando.

Mais uma despesa.

Ele pousou a xícara e acrescentou:

—A partir de amanhã, você deve aprender etiqueta adequada. No banquete de retorno daqui a três dias, muitos oficiais e suas famílias estarão presentes. Não envergonhe a família Ye.

Ye Chutang sorriu maliciosamente:

—Contanto que os presentes sejam generosos, eu os receberei com um sorriso.

Ye Jingchuan: "..."

—Presentes devem ser retribuídos. Eles pertencem à família Ye, não a você pessoalmente.

—Ah, entendi. Tudo bem.

Sua conformidade fácil surpreendeu e até agradou Ye Jingchuan — mas apenas por um momento, antes que suas próximas palavras destruíssem seu alívio:

—Imagino que o banquete de retorno daqui a três dias será bastante animado.

No instante em que ouviu isso, seu couro cabeludo arrependeu-se.

Ele não podia se dar ao luxo de perder a face diante de seus colegas, nem queria que Ye Chutang irritasse Eunuch De.

—Chutang, você pode ficar com os presentes, mas não deve causar problemas no banquete. Você não é mais uma criança. Deixe uma boa impressão para que possamos arranjar um casamento favorável para você.

—Contanto que eu receba os presentes, não causarei problemas. Mas meu casamento é decisão minha — não arranje um pretendente sem meu consentimento.

Kong Ru observava Ye Chutang desafiar Ye Jingchuan e sorria sarcasticamente por dentro.

Você realmente acha que temos medo de você?

Espere só pelo banquete de retorno, quando for forçada aos braços de Eunuch De. Você vai chorar então!

Por fora, ela sorriu e disse:

—Claro.

Vendo como eles cediam tão facilmente, Ye Chutang deduziu que o banquete guardava uma “grande surpresa”.

—Vamos. Quero ver meu pátio agora.

Antes de sair, lembrou Ye Jingchuan:

—Ministro Ye, não se esqueça dos vinte mil taéis.

Kong Ru parou no meio do movimento, surpresa:

—Que vinte mil taéis?

Ye Jingchuan ignorou-a e acenou com a mão, dispensando-a:

—Leve Chutang ao pátio primeiro.

Sem ousar discutir, Kong Ru se curvou:

—Sim, meu senhor.

Com isso, conduziu Ye Chutang ao Pátio Ningchu, seguida por duas criadas pessoais.

Pelo caminho, os servos fingiam deferência a Ye Chutang, mas assim que ela passava, sussurros surgiam.

—Essa cara de raposa — claramente é problema.

—Se fosse decente, esses boatos escandalosos não teriam vindo atrás dela.

—Se não fosse pela Segunda Senhorita, o mestre jamais teria…

Ye Chutang, com sua audição aguçada, percebeu as duas criadas lançando insultos cruéis e rapidamente decidiu dar um exemplo.

Mas, ao fazer isso, tropeçou em um segredo chocante.

Olhou para os dois rostos aterrorizados flagrados e sorriu de orelha a orelha.

—Eu só estava entrando no clima — por que parar agora?

Eles a trouxeram de volta por causa de Ye Anling, e isso envolvia um arranjo de casamento.

Será que Ye Anling se recusou a casar e queria que ela tomasse seu lugar?

Enquanto Ye Chutang refletia, as criadas caíram de joelhos, curvando a cabeça como codornas.

—A senhorita ouviu errado. Não dissemos nada.

Serviam no pátio da Velha Senhora, favorecidas a ponto de conhecer alguns segredos.

Geralmente caladas, apenas murmuravam entre si — sem jamais esperar que o assunto de sua fofoca ouvisse!

Ye Chutang segurou seus queixos com as duas mãos, o sorriso desaparecendo enquanto seu olhar se tornava afiado e perigoso.

—Estão dizendo que meus ouvidos falham?

—Essa serva não ousaria!

—Não ousaria? Acho que ousam bastante!

As criadas estremeceram, lágrimas surgindo enquanto suas mandíbulas doíam sob sua pressão esmagadora.

—Poupe-nos, Senhorita! Nunca mais faremos isso!

Ye Chutang sorriu com escárnio:

—Se pedidos de desculpa resolvessem tudo, para que serviriam as leis e regras?

Ela apertou ainda mais.

—Terminem o que estavam dizendo. Se mentirem, vou vendê-las para o bordel mais baixo da cidade.

Pálidas e tremendo, as criadas hesitaram — seus contratos eram mantidos pela madame.

Trair a Segunda Senhorita as condenaria pior do que qualquer bordel!

As mãos de Ye Chutang deslizaram até seus pescoços finos, apertando lentamente.

—Mudei de ideia. Suas bocas imundas não merecem viver.

Ofegantes, os rostos passaram do vermelho ao roxo, olhos saltando das órbitas.

O terror da morte aguçou seus instintos de sobrevivência até o limite.

—Eu… vamos… falar…

Ye Chutang afrouxou a pressão o suficiente.

—Vocês têm uma chance. Escolham sabiamente.

Entre tosses, uma criada conseguiu balbuciar:

—A Segunda Senhorita… estava…

Quando a verdade estava prestes a ser revelada, a criada pessoal de Kong Ru correu, suando profusamente:

—Senhorita, por que voltou correndo? Essas duas a ofenderam de algum modo?

Kong Ru apareceu momentos depois, grampos tortos de tanto se apressar.

—Chu’er, se as servas lhe desrespeitaram, deixe que o mordomo Chen cuide delas. Não há necessidade de sujar suas mãos.

Que susto!

Se chegasse um instante depois, seus planos para daqui a três dias teriam sido arruinados.

Ye Chutang sabia que as criadas agora ficariam caladas. Soltou-as e se virou para Kong Ru, que enxugava a testa com um lenço, e sorriu friamente.

—De alguma forma, ninguém mais percebe essas servas ultrapassando os limites. Eu mesma precisei intervir.

—Ah, sim, Madame — disseram as criadas — mencionaram que o Lorde Ye me trouxe de volta para substituir Ling’er em um casamento.

Kong Ru não esperava essa bomba.

Sua mão tremia, borrando a maquiagem com o lenço.

—N-não pode ser!

As criadas não deveriam ter falado nada!

Como essa garota miserável descobriu?

Negue — a todo custo!

—Chu’er, não acredite nas mentiras delas. Ling’er ainda nem está noiva. Que “substituição” poderia haver?

As criadas, ainda tossindo, se apressaram em negar a acusação de Ye Chutang.

—Madame, nunca dissemos tal coisa! A Jovem Senhorita está nos difamando!

—Jovem Senhorita, não prejudique a reputação da Segunda Senhorita com falsidades!

Kong Ru não sentiu nenhum alívio.

Pois, independentemente de as criadas terem escorregado ou não, Ye Chutang já tinha deduzido o motivo de tê-la trazido de volta à mansão.

Ela lançou um olhar furioso às duas criadas.

—Por difamar a jovem senhorita, deem-se trinta tapas!

—Sim, Madame!

As criadas sabiam que, se não se punissem severamente, a fabricação de rumores sobre sua senhora não seria perdoada.

Bateram em seus próprios rostos com força brutal, o som seco dos tapas ecoando um após o outro.

Kong Ru se voltou para Ye Chutang e a tranquilizou:

—Chu’er, não se preocupe — não haverá casamento substituto. No banquete de retorno, você poderá observar os jovens talentosos da capital. Se algum chamar sua atenção, pedirei ao seu pai para arranjar o casamento.

Ye Chutang observou as expressões culpadas de Kong Ru e das criadas, ajustando suas suspeitas anteriores.

Provavelmente, alguém de alta posição havia se interessado por Ye Anling.

Mas Ye Anling não tinha interesse nessa pessoa e, como o casamento não podia ser recusado, tramaram para fazê-la ser a noiva substituta.

Ela ignorou a tentativa de acalmar de Kong Ru, mantendo o olhar fixo nas duas criadas que ainda se batiam.

—Madame, essa punição não é leve demais para essas criadas?

Kong Ru entendeu que Ye Chutang queria dar um exemplo.

Coincidentemente, ela há muito queria lidar com essas duas criadas do pátio da Velha Senhora. Agora era a oportunidade perfeita.

—Como deseja que elas sejam punidas, Chu’er?

Ye Chutang sabia que Kong Ru havia lhe dado autoridade para decidir a punição das criadas apenas para manchar sua reputação, fazendo-a parecer alguém que maltratava os servos.

Ela olhou para a mulher ardilosa com escárnio nos olhos.

—Primeiro, envenenem-nas para ficarem mudas, depois vendam-nas para o bordel mais baixo.

O motivo pelo qual ela aceitava cair na armadilha de Kong Ru era simples: ser uma verdadeira vilã era muito mais fácil do que fingir ser virtuosa.

As duas criadas ainda batiam em seus próprios rostos, as bochechas inchadas como cabeças de porco, sangue escorrendo pelos cantos da boca.

Ao ouvir as palavras de Ye Chutang, explodiram em lágrimas e imploraram a Kong Ru por misericórdia.

—Madame, admitimos nossos erros. Por favor, tenha compaixão e nos poupe desta vez.

As palavras saíam arrastadas, mas o sentido ainda podia ser vagamente compreendido.

Kong Ru assumiu a autoridade rígida da matriarca da casa, observando friamente as criadas com o rosto molhado de lágrimas.

—Como servas, vocês ousaram fofocar sobre suas senhoras. Merecem nada menos que a morte.

Percebendo a implicação de suas palavras, as criadas rapidamente se voltaram para Ye Chutang, curvando-se pesadamente.

—Jovem Senhorita, estávamos erradas! Por favor, nos dê outra chance!

Ye Chutang as observou — batendo nos próprios rostos enquanto simultaneamente encostavam a cabeça no chão — e maravilhou-se de como conseguiam executar esses dois movimentos descoordenados com tanta perfeição.

Ela lançou um olhar para Kong Ru e disse:

—Suas vidas estão nas mãos da Madame. Suplicar a ela é mais útil do que suplicar a mim.

Se Kong Ru podia armar armadilhas, ela também podia.

Naturalmente, Kong Ru não se oporia a Ye Chutang por causa de duas criadas fofoqueiras.

—Chu’er, você é a jovem senhora da Mansão do Ministro. Tem autoridade para disciplinar os servos. Faça como achar melhor.

Em seguida, voltou-se para sua criada pessoal:

—Chun Tao, convoque o mordomo Chen e providencie a venda delas conforme instruído pela jovem senhorita.

—Sim, Madame.

—Servimos no pátio da Velha Senhora—

As criadas tentaram desesperadamente se salvar, mas antes que pudessem terminar, os servos as amordaçaram e arrastaram embora.

Ye Chutang não sentiu o menor medo da Velha Senhora e continuou seguindo Kong Ru até o Pátio Ningchu.

Durante toda a viagem, Kong Ru caminhava tensa, temendo que Ye Chutang pudesse fugir de repente e causar problemas novamente.

Felizmente, chegaram sem incidentes.

O Pátio Ningchu ficava no lado leste da Mansão do Ministro, próximo ao jardim dos fundos.

Embora não fosse grande, estava elegantemente arranjado, adornado com vasos de plantas e flores.

Um denso bambuzal junto à parede conferia uma atmosfera refrescante e agradável.

Kong Ru ajeitou o grampo que ameaçava cair de seu cabelo e alisou os fios soltos nas têmporas.

—Chu’er, este é seu pátio. A casa principal inclui um salão central, um salão lateral e suas câmaras privadas. A ala leste abriga as criadas, enquanto os servos masculinos ficam no pátio externo à noite e vêm trabalhar durante o dia. A ala oeste possui uma pequena cozinha, e o banheiro fica nos fundos.

Ye Chutang percorreu o local, assentindo com aprovação.

—Um belo pátio.

—Enquanto estiver satisfeita. Se precisar acrescentar algum móvel, basta pedir às criadas que me avisem.

Kong Ru então se voltou para outra criada pessoal.

—Qiu He, traga os servos que selecionamos anteriormente para a jovem senhorita.

—Sim, Madame.

Logo, oito criados e oito criadas estavam reunidos no Pátio Ningchu, ocupando o espaço já modesto.

Kong Ru olhou para a indiferente Ye Chutang.

—Chu’er, você vai ficar com todos ou escolher apenas alguns?

Ye Chutang sabia muito bem que eram espiões de Kong Ru espalhados ao seu redor.

Após análise cuidadosa, escolheu duas criadas e um criado — este para trabalhos pesados, aquelas para atendimento pessoal.

Os três servos deram um passo à frente e se curvaram em uníssono para Ye Chutang.

—Esta humilde criada/servo cumprimenta a jovem senhorita. Por favor, nos dê nomes.

—Um, Dois...

Kong Ru esperava que Ye Chutang continuasse com algo como “Três”, mas, em vez disso, disse:

—Fortuna.

Kong Ru quase não conteve o riso.

Realmente, uma caipira ignorante — capaz apenas de inventar nomes tão vulgares!

Criadas e servos não tinham direito de recusar os nomes dados, então expressaram gratidão respeitosamente.

—Chu’er, descanse por enquanto. Se precisar de algo, apenas instrua os criados e criadas. Ling’er virá mais tarde para levá-la às compras.

—Tudo bem. Não deixe a porta bater na saída.

Kong Ru não se deu ao trabalho de discutir com Ye Chutang e se virou para sair.

Ye Chutang olhou para as duas criadas.

—Vão arrumar suas coisas e se instalem.

—Sim, jovem senhorita.

Depois que as criadas saíram, ela se voltou para o criado.

—Vá ao depósito e traga minha mesada mensal e os itens de uso diário.

—Este servo obedece.

Assim que o criado partiu, Ye Chutang entrou em suas câmaras.

O quarto estava resfriado com blocos de gelo, recebendo-a com uma brisa refrescante ao entrar.

Cama com dossel, chaise longue, penteadeira, mesa baixa de chá, mesa de jantar redonda, guarda-roupa, biombo e banheira — tudo estava presente.

Os móveis eram de mogno, embora não fossem novos.

O quarto estava relativamente limpo, e o edredom feito de seda fina, leve e respirável.

Ye Chutang colocou seu feixe de disfarce no guarda-roupa e sentou-se ao lado da bacia de gelo para descansar.

Não demorou para que as duas criadas voltassem com pacotes de pertences e se instalassem na câmara leste.

Após arrumar o quarto e guardar as coisas, saíram justamente quando o criado retornava.

Fortuna carregava uma grande bandeja.

Nela, estavam vários conjuntos de roupas novas, duas caixas de joias, cinco taéis de prata e uma nota de duzentos taéis.

Atrás dele vinham outros dois — um com diversos itens de uso diário, o outro com frutas e doces.

Os três colocaram tudo sobre a grande mesa redonda no salão principal.

Ao ver Ye Chutang sair de seu quarto, imediatamente se curvaram:

—Jovem senhorita.

Ye Chutang acenou com a mão.

—Vão cuidar de suas tarefas.

O criado partiu, enquanto as duas criadas entraram no salão principal para atendê-la.

Ye Chutang pegou a prata e a nota, guardando-os na manga, mas na verdade os armazenou em seu inventário espacial.

—Um, organize essas coisas. Dois, me conte sobre as pessoas da Mansão do Ministro.

—Sim, jovem senhorita.

Logo, Ye Chutang compreendeu a dinâmica familiar da casa Ye.

Ye Jingchuan tinha uma mãe viúva que não se envolvia mais nos assuntos da casa, passando os dias mimando os netos em aposentadoria tranquila.

Tinha também uma madrasta e duas concubinas.

Sua madrasta, Kong Ru, dera-lhe dois filhos e uma filha.

A filha mais velha, Ye Anling, tinha dezesseis anos e era famosa na capital como uma beleza talentosa.

O filho mais velho, Ye Anzhi, com quatorze anos, era o xodó da Velha Senhora.

O filho mais novo, Ye Anjun, com cinco anos, fora frágil desde o nascimento, sendo o filho tardio.

A concubina Jiang dera à luz uma filha, Ye Siyin, agora com quinze anos, já prometida em casamento até o fim do ano.

A concubina Liu, dançarina exótica concedida ao Ye Jingchuan pelo imperador anos atrás, não tinha filhos, mas gozava de favor excepcional.

Ye Chutang ficou surpresa ao saber que Ye Jingchuan tinha apenas duas concubinas, uma delas sem filhos.

Não era comum que os antigos se preocupassem em “expandir a linhagem familiar”?

Curiosa, perguntou a Double:

—A madame é tão rígida que o Lorde Ye não ousa ter mais concubinas?

Double abaixou a cabeça, assustada com a ousadia de Ye Chutang.

—Jovem senhorita, a madame é benevolente e mantém uma relação harmoniosa com o mestre.

Quanto a assuntos de concubinato, não era lugar de servo questionar ou comentar.

Ye Chutang perguntou novamente:

—Ye Siyin já vai se casar, então por que Ye Anling ainda não foi prometida?

—A mais velha — não, a Segunda Senhorita é talentosa e virtuosa, sensata e filial. O mestre e a madame querem mantê-la em casa por mais um ou dois anos.

Após uma pausa, acrescentou:

—Há muitos pretendentes nobres na capital desejando sua mão em casamento.

—Então algum nobre velho e feio se interessou por Ye Anling?

—Jovem senhorita, por favor, seja cautelosa com suas palavras. Desrespeitar a família imperial é crime punível.

Ye Chutang zombou.

—Estamos apenas conversando em família, em particular. Não vai correr ao palácio me denunciar, vai?

Shuang’er caiu de joelhos alarmada, jurando lealdade.

—Shuang’er jamais trairia a Mansão do Ministro, mas a Jovem Senhorita deve tomar cuidado com ouvidos alheios.

—Verdade. Espiões estão por toda parte.

Com isso, Ye Chutang levantou o queixo de Shuang’er, encarando-a nos olhos.

—Então, vocês três são espiões enviados pelo mestre e pela madame para me vigiar?


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