Capítulo 5: Aparência Encantadora


 Ao perguntar aos guardas, Gu Fuyou sentiu que Zhong Michu levava mesmo uma vida extremamente solitária.

Normalmente, permanecia reclusa em sua residência, sem jamais cruzar os portões principal ou secundário, dedicada de corpo e alma ao cultivo do caminho dos sábios.

Com uma prática tão pura, havia o receio de que acabasse por cortar as sete emoções e os seis desejos.

Talvez beber um pouco de chá e tocar cítara a impedisse de perder completamente o contato com o mundo mortal.

Uma ideia lampejou na mente de Gu Fuyou. Chá!

Ela tinha a sorte de ter lido uma grande variedade de livros no passado, adquirindo um pouco de conhecimento sobre tudo.

Fazer chá? Ela sabia como!

Beber chá verde no outono era perfeito. Certo. Naquela ocasião durante a caçada ao cervo, o lugar onde o Cervo Zhuo Yue estava escondido tinha uma grande árvore de chá, com folhas espessas e crescimento exuberante.

Plantas que crescem em locais ricos em energia espiritual tendem a ser vibrantes e cheias de vitalidade. Usar tais folhas para preparar chá certamente resultaria em um sabor excelente.

Gu Fuyou foi colher as folhas de chá e as trouxe de volta. Após secá-las ao sol, começou a torrá-las. Procurando por equipamentos adequados para o processo, encontrou o forno alquímico de Si Miao, que parecia perfeito.

Um forno alquímico tinha suas vantagens. O controle de calor era preciso, e Gu Fuyou ficou muito satisfeita com o resultado final.

Contudo, ao descobrir que seu forno havia sido usado, Si Miao agarrou Gu Fuyou na cama, segurando-a pelo pescoço:

— Gu Fuyou! Meu forno agora está impregnado com o cheiro do seu maldito chá! Como ousa usar meu forno alquímico pra torrar folhas de chá? Que nunca mais nos encontremos nesta vida!

Desesperada, Gu Fuyou ficou batendo no braço de Si Miao, implorando:

— Cunhadinha, cunhadinha! Sou a futura cunhada! Se você me matar, vai ficar presa pro resto da vida com meu segundo irmão como um casal de ressentidos!

O rosto de Si Miao ficou vermelho enquanto ela afrouxava a mão, soltando um palavrão:

— Que absurdo! Você usa esse truque desde que éramos crianças.

Gu Fuyou virou-se de lado, tossindo e esfregando o pescoço. Si Miao realmente não tinha piedade ao bater. Sempre detestou que mexessem em seu forno alquímico, e só Gu Fuyou era corajosa (ou tola) o bastante para desafiar a fera mesmo sabendo que era proibido.

— Você bagunçou meu forno alquímico, não pense que um pedido de desculpas basta pra resolver.

— Eu vou lavá-lo completamente, por dentro e por fora, e depois colocá-lo de volta ao fogo para temperá-lo de novo!

Si Miao cruzou os braços:

— E mais?

— Um frasco de Pílulas Zhuling.

— Feito.

Só assim Gu Fuyou conseguiu salvar a própria pele. Pegou seu conjunto de chá e entrou sorrateiramente no pico traseiro da Montanha Jingdu para ver Zhong Michu.

Ao chegar ao muro do pátio, viu folhas caídas espalhadas por todo lado. O pátio estava silencioso, sem ninguém praticando espada.

As portas e janelas do pátio dos fundos estavam abertas, e via-se a cortina de bambu erguida por dentro, com as cortinas da cama ondulando suavemente.

O som de uma cítara soava ao longe, acompanhado por uma fragrância morna, que se espalhava lentamente.

Gu Fuyou chamou suavemente:

— Irmã Sênior Zhong, Irmã Sênior Zhong?

Uma voz fraca respondeu:

— Entre.

Gu Fuyou murmurou um pedido de desculpas:

— Desculpe incomodar.

Ela saltou por cima do muro do pátio. Agachada ali, abriu a caixa de comida e começou a ferver água para preparar o chá.

Se o chá fosse preparado antes e levado até lá, o sabor se alteraria. O melhor era fazê-lo na hora, para não prejudicar o gosto.

Depois de preparar tudo, Gu Fuyou, com o conjunto de chá nas mãos, entrou no quarto, chamando:

— Irmã Sênior Zhong?

Seguindo o som da cítara, contornou as cortinas da cama e viu Zhong Michu ajoelhada diante da estante, com uma cítara de jade à sua frente sobre a mesa, alguns livros empilhados ao final do instrumento, e um pequeno incensário com cabeça de besta, de onde se erguia um fio de fumaça azulada.

Gu Fuyou viu as mãos que saíam das mangas de seda, dedilhando e pressionando as cordas com dedos esguios. A música da cítara soava como o gotejar de água. Não pôde evitar de se lembrar de uma frase de uma peça que assistira no Pavilhão Yinxue:

“Delicados como brotos de bambu, finos e brancos como cebolinha, úmidos e perfumados, puros e imaculados.”

Provavelmente, estavam descrevendo mãos como aquelas.

A música cessou. Zhong Michu ergueu a cabeça e a olhou:

— Por que veio?

Gu Fuyou colocou o conjunto de chá sobre a mesa e tocou a lateral da xícara com as costas da mão. Ainda estava morna da água quente usada para enxaguar:

— Para te agradar.

Zhong Michu demonstrou uma expressão de confusão. Após um longo silêncio, disse:

— Já que concordei em responder ao seu chamado, minha palavra é minha honra. Não precisa ir tão longe.

Gu Fuyou sorriu:

— A cortesia exige reciprocidade. Se um dia eu me encontrar em perigo e buscar sua ajuda, não posso esperar por isso sem fazer nada em troca. É só que meu poder espiritual é limitado, então só posso fazer pequenas coisas. Se a Irmã Sênior Zhong precisar de algo no futuro, é só pedir.

Gu Fuyou ofereceu uma xícara de chá a Zhong Michu, dizendo:

— Irmã Sênior Zhong, experimente. Eu mesma torrei esse chá. Acho que ficou bem saboroso.

Zhong Michu lançou um olhar a Gu Fuyou. Como ela não aceitava a xícara, Gu Fuyou se inclinou sobre a mesa, aproximando ainda mais a xícara de Zhong Michu.

Zhong Michu desviou o olhar do rosto dela para o chá diante de si.

Um bom chá se define por sua cor, aroma, sabor e aparência.

Aquele chá tinha um tom verde brilhante e tenro, com folhas frescas e viçosas. Exalava também um aroma rico e duradouro, e seu sabor doce era de fato tentador, fazendo a boca salivar e ansiando por mais.

Zhong Michu hesitou. Será que existia mesmo no mundo um aroma de chá tão encantador?

Seu olhar, de repente, se fixou em Gu Fuyou, percebendo então que aquele doce perfume vinha do corpo dela.

Zhong Michu levantou-se bruscamente, esbarrando na mão estendida de Gu Fuyou. A xícara se inclinou, o chá espirrou e, assustada com o líquido quente, Gu Fuyou soltou a xícara. O chá se espalhou por todos os livros sobre a mesa.

Antes que pudesse entender por que Zhong Michu havia se levantado tão repentinamente, Gu Fuyou viu os livros encharcados de chá e percebeu o desastre que causara. Apressou-se a limpar o líquido com a manga da roupa, dizendo:

— Desculpa, Irmã Sênior Zhong. Eu não fiz de propósito.

Pegou um dos livros, tentando secar as manchas por dentro. Como o livro estava aberto, a capa não protegera as páginas, e agora manchas escuras e avermelhadas se misturavam por elas.

Livros impressos comuns não teriam a tinta borrada por um pouco de chá. A razão do borrão era que alguém havia circulado e pontuado as palavras com canetas vermelha e preta, anotando pensamentos e observações. Em contato com a água quente, a tinta se dissolveu.

Gu Fuyou encarou o livro, atônita por um momento, e virou algumas páginas rapidamente.

Então, caiu na gargalhada.

Aquele “Novas Interpretações das Formaçōes” era seu livro. As anotações e reflexões escritas ali eram todas dela. De tanto ler, o livro já estava quase gasto; ela conhecia cada parte de cor. Não havia como se enganar.

Ela havia deixado esse livro em seu próprio estúdio. Mais tarde, quando foi procurá-lo, ele simplesmente havia sumido. Revistou todo o local e não o encontrou.

Como foi parar ali?

Zhong Michu, ao ver o livro agora parcialmente arruinado, franziu o cenho. Respirando fundo, falou num tom contido:

— Esse livro foi um presente do Ancião Liuhe para que eu estudasse formações. As anotações únicas nele são inestimáveis, e só existe essa cópia. Você...

Gu Fuyou se levantou e se aproximou de Zhong Michu. Sua voz, clara e com um tremor de entusiasmo, declarou:

— Irmã Sênior Zhong, esse livro é meu. De verdade. Veja aqui, sublinhei com tinta vermelha. Esses dois caracteres, embora rabiscados, formam “A-Man”, que é meu apelido. Eu perdi esse livro e nem fazia ideia de que ele estava aqui.

Enquanto falava, Gu Fuyou se aproximava mais. Mas, ao se aproximar, o aroma que a envolvia se tornava mais evidente, fazendo Zhong Michu dar um passo para trás, com as sobrancelhas ainda mais franzidas.

Gu Fuyou achou que ela não acreditava e, então, abraçou o livro, levantando quatro dedos ao céu:

— É sério! Eu... eu juro, juro pelos céus!

Zhong Michu virou ligeiramente o rosto, erguendo o braço de modo que as amplas mangas escondessem seu nariz.

O gesto deixava claro que Zhong Michu havia detectado algum cheiro insuportável.

Gu Fuyou se cheirou, mas não sentiu nada estranho.

Ao contrário, Zhong Michu parecia visivelmente incomodada, com o olhar escuro e resistente. Isso fez Gu Fuyou se perguntar se havia algo errado com seu próprio olfato.

Dando um passo para trás, Gu Fuyou propôs:

— Irmã Sênior Zhong, eu farei uma nova cópia para você e incluirei todas as anotações e insights.

Ela sorriu, o rosto brilhando de empolgação.

Sem esperar por uma resposta, Gu Fuyou correu porta afora, gritando:

— Vai ser igualzinho ao original!

— Eu te entrego em três dias, prometo!

Tão animada estava que esqueceu completamente seu propósito inicial e deixou o conjunto de chá para trás. Em vez de sair pelo portão principal, correu direto para o muro e o escalou com agilidade.

Depois que Gu Fuyou partiu, Zhong Michu ficou por um bom tempo olhando na direção por onde ela se fora. Com um aceno da manga, um sopro de vento fresco varreu o perfume persistente do ambiente, fazendo as cortinas de bambu farfalharem.

Já em casa, Gu Fuyou abraçou o livro manchado de chá e rolou pela cama:

— Ah ah ah ah ah!

— Si Miao, Si Miao, a Zhong Michu estava lendo o livro com minhas anotações!

Si Miao rogou aos céus, exasperada. Mais cedo, quando Gu Fuyou voltara de repente, fazendo estardalhaço, quase causara a explosão de um forno de pílulas medicinais:

— Você já disse isso umas mil vezes! Meus ouvidos já estão criando calo!

Gu Fuyou continuava gritando de alegria, agarrada ao livro, rolando de um lado para o outro. Só parou quando Si Miao atirou um frasco de remédio nela e acertou.

Si Miao comentou com desprezo:

— É só um livro com suas anotações. Precisa de tanto escândalo?

Sentando-se ereta, Gu Fuyou sorriu suavemente:

— Você não entenderia.

Zhong Michu nasceu com raiz espiritual da água, cultivando técnicas internas e externas. Não havia completado nem cem anos e já alcançara o estágio do Núcleo Dourado. Seu talento e compreensão estavam entre os melhores.

Nos Cinco Continentes e Quatro Mares, pessoas como ela podiam ser contadas nos dedos de uma mão. Nem mesmo o irmão de Gu Fuyou se comparava a ela.

Essa era a pessoa que Gu Fuyou mais admirava, que considerava mais extraordinária. Fora a inveja pela bênção concedida pelos céus, não seria exagero dizer que Gu Fuyou venerava Zhong Michu.

E agora, essa pessoa, que parecia tão distante dela, estava lendo um livro anotado por suas próprias mãos. Pelo tom de voz de Zhong Michu, parecia que ela valorizava muito aquilo.

A expressão de pesar que Zhong Michu demonstrou, ainda que por um breve momento, por causa daquele livro, fez o coração de Gu Fuyou estremecer de alegria.

Essa alegria, nascida do contraste, era algo que Si Miao jamais conseguiria entender.

Gu Fuyou saltou da cama, pegou um exemplar novo de “Novas Interpretações das Formaçōes” que ficava ao lado da cabeceira e, caminhando até a escrivaninha, disse:

— Não vou mais falar com você. Vou copiar um livro para minha Irmã Sênior Zhong.

Si Miao balançou a cabeça, sem se dar ao trabalho de responder.

O livro original havia sido encharcado com chá quente, fazendo com que as páginas enrugassem e a tinta borrasse. A maior parte do texto tornara-se ilegível, restando apenas alguns trechos ainda nítidos.

Quando Gu Fuyou costumava ler esse livro, anotava seus pensamentos conforme surgiam. As anotações estavam espalhadas por todo lado, e sua caligrafia era extremamente desleixada. Às vezes, quando não havia espaço suficiente, ela chegava a escrever por cima do texto original, o que deixava tudo bastante bagunçado.

Gu Fuyou tocou uma linha de texto no canto inferior do livro, onde se lia: “Observar o mundo desperta sentimentos profundos.” Sua caligrafia errática havia espremido esses caracteres no canto.

A caligrafia era ereta e graciosa. Diziam que a escrita refletia o caráter de uma pessoa, e isso era verdade. Gu Fuyou pôde reconhecer pela escrita que era de Zhong Michu.

Segurando o rosto com a mão e olhando fixamente para aqueles oito caracteres, Gu Fuyou sorriu em silêncio. Estava tão absorta que nem percebeu a tinta vermelha do pincel que segurava manchar-lhe o rosto.

Gu Fuyou levou três dias para transcrever suas anotações de memória no novo livro. Desta vez, ficou muito mais organizado que o original.

Ela levou o novo exemplar para encontrar o Ancião Liuhe, planejando pedir que ele o revisasse antes, para ver se havia algo a acrescentar ou alterar, e também para perguntar como o livro original fora parar em suas mãos.

A Seita Xuan Miao era composta por nove picos, e cada pico possuía seu próprio salão, supervisionado por um ancião. Cada ancião era responsável por tarefas específicas como guarda de livros, refino de pílulas, domesticação de feras, domínio de formações, entre outras.

O Ancião Liuhe residia no Pico Xiyi e era o responsável pelas técnicas de formação e refino de artefatos da seita. Tinha grande conhecimento nessas áreas e havia projetado pessoalmente as formações de defesa na entrada da seita.

Gu Fuyou não sabia como o Ancião Liuhe havia tomado conhecimento de sua existência. Certo dia, de repente, ele enviou um mensageiro em forma de flor de ameixeira para entregar um documento na Cidade Xiaoyao, dizendo que ela era proficiente em técnicas de formação e possuía talento notável, recrutando-a especialmente para a Seita Xuan Miao, para permanecer ao seu lado como aluna.

A Seita Xuan Miao dividia seus discípulos entre internos e externos. Os discípulos internos eram aceitos pelos grandes anciões e especialistas da seita e ensinados pessoalmente por eles, enquanto os discípulos externos apenas tinham seus nomes registrados na seita e recebiam aulas em grupo ministradas por membros da seita.

Embora Gu Fuyou tivesse sido convidada pessoalmente pelo Ancião Liuhe para ingressar na Seita Xuan Miao, ela não fora oficialmente aceita como discípula direta dele, o que a colocava numa posição ambígua entre discípula interna e externa.

Todos os dias, ela precisava se apresentar no Pico Xiyi. Fora isso, praticava e assistia às aulas junto com os discípulos externos.

Às vezes, quando Gu Fuyou não queria assistir às aulas dos outros anciões, escapava em segredo e se escondia no Pico Xiyi.

Quando Gu Fuyou chegou ao Pico Xiyi, viu discípulos varrendo do lado de fora do salão.

Enquanto caminhava, perguntou:

— Irmão Sênior, o ancião está aqui?

O discípulo respondeu:

— O ancião está em seu estúdio.

Olhando para o interior através da cortina de franjas floridas, o Ancião Liuhe usava um manto daoísta preto com padrão floral disperso. De tanto passar anos ao lado do forno de forja, seu rosto era avermelhado e bronzeado, e a barba branca no queixo parecia seca como capim, tremendo enquanto ele ria de cabeça erguida.

O Ancião Liuhe segurava um livro e o lia, conversando com a pessoa ao lado. Essa pessoa vestia um manto verde-acinzentado, ouvia atentamente com os olhos baixos. Era Zhong Michu.

— As anotações neste livro foram mesmo feitas por aquela garotinha — suspirou levemente o Ancião Liuhe —. Aquela pequena esforçou-se bastante nas técnicas de formação. Hoje em dia, são poucos os que se dedicam de coração a esse campo obscuro das formações. Embora tenha alguns insights, seu talento para cultivo é fraco. Temo que seu cultivo dificilmente chegará ao estágio de Núcleo Dourado, e sua expectativa de vida será pouco mais de duzentos anos. O tempo voa. Duzentos anos passam num piscar de olhos. Por mais esforço que ela deposite nas formações, limitada por sua longevidade, será difícil alcançar grandes feitos. Que pena.

Depois de expressar seus sentimentos, o Ancião Liuhe perguntou:

— Acho curioso como ela conseguiu formar um contrato com você. Sabe a razão?

Zhong Michu hesitou por um momento antes de balançar a cabeça.

— Ela já se aproveitou do contrato para lhe causar algum mal?

Zhong Michu balançou a cabeça novamente.

O Ancião Liuhe continuou:

— Aquela menina é astuta e inquieta. Temo que já tenha lhe causado muitos incômodos. Você já a encontrou algumas vezes. O que acha dela?

Zhong Michu pausou por um instante, depois sussurrou:

— Eloquente por fora, rara sinceridade por dentro.

Do lado de fora, Gu Fuyou ouviu essas palavras. Cruzou os braços, refletindo sobre o significado mais profundo da declaração de Nanzhu Jun.

No entanto, mesmo sendo boa com as palavras, não acreditava ser tão manipuladora quanto Zhong Michu dava a entender.

No máximo, era só um pouquinho.

O Ancião Liuhe fechou o livro com uma gargalhada:

— E ainda diz que ela não lhe causou problemas.

— Aquela menina foi mimada pelo pai e pelos irmãos. Às vezes, enxerga apenas a si mesma. É apenas travessura de criança, mas sua natureza não é má. Você é sua irmã sênior, afinal. Se houver coisas que puder relevar, então releve. Quando for hora de guiá-la, também deve guiá-la.

Zhong Michu respondeu suavemente:

— Esta discípula compreende.

Enquanto refletia, Gu Fuyou percebeu, pelo tom do Ancião Liuhe, que ele parecia conhecer seu pai. Aproximou-se e cumprimentou:

— Mestre Liuhe.

Ao vê-la, Liuhe soltou uma risada:

— Estávamos falando de você, e eis que aparece, surgindo em silêncio.

Do outro lado, ao ver sua chegada, Zhong Michu se despediu do Ancião Liuhe e saiu.

Ao passar pela cortina de contas, partiu sem sequer lançar um olhar para Gu Fuyou.

Gu Fuyou disse uma palavra ao Ancião Liuhe e correu atrás dela, interceptando Zhong Michu nos degraus.

Aproximou-se e entregou o livro recém-transcrito:

— Irmã Sênior Zhong, transcrevi as anotações deste livro para você. Aqui está.

Havia apenas a distância de um livro entre elas. Um perfume doce e sutil, familiar, pairava ao redor do nariz de Zhong Michu. Ela deu um passo para trás:

— Já que este livro é seu, não há necessidade de devolvê-lo para mim.

Zhong Michu recusou-se a recebê-lo, então Gu Fuyou deu mais um passo à frente, estendendo o livro diretamente a ela, sorrindo:

— Então considere um presente.

Gu Fuyou queria, de fato, presentear Zhong Michu com aquele livro. Não era para agradá-la ou remediar algo, mas porque era a primeira vez que alguém valorizava e elogiava tanto suas anotações. Isso a deixava genuinamente feliz.

Ela desejava que seus escritos encontrassem alguém que os apreciasse.

Zhong Michu havia lido apenas os primeiros capítulos e os achara interessantes. Após hesitar por um momento, finalmente aceitou o livro.

— Então... obrigada — disse ela, dando um leve passo para o lado e, disfarçadamente, prendendo a respiração.

Gu Fuyou notou a expressão estranha de Zhong Michu e pensou no fato de ter acabado de se aproximar, e Zhong Michu ter recuado.

A princípio, achou que Zhong Michu estava incomodada com ela, que não queria estar por perto. Mas ao lembrar do gesto de Zhong Michu erguendo a manga no dia anterior, de repente percebeu: ela estava prendendo a respiração.

Ao se dar conta disso, Gu Fuyou ficou chocada. Instintivamente, cheirou a si mesma, mas não detectou nenhum odor estranho. Quando estava prestes a perguntar algo, Zhong Michu já havia se afastado apressadamente.

Deixando Gu Fuyou ali parada, sentindo-se um tanto quanto perdida ao vento.


Postar um comentário

0 Comentários