Com um clarão de luz, Zhong Michu apareceu do nada.
Ao vê-la, a boca de Gu Fuyou se contraiu involuntariamente.
Zhong Michu estava descalça, seus dedos de jade pressionando a neve. A faixa de seu manto estava desamarrada, e ela segurava uma fita branca como a neve, ocupada em prender o cabelo.
O momento da invocação não foi dos melhores; provavelmente, ela pretendia tomar banho.
Por sorte, não foi invocada completamente nua. Se fosse o caso, essa pessoa provavelmente não viria salvá-la, e sim matá-la.
Ainda assim, quando Zhong Michu virou o rosto, sua expressão estava longe de satisfeita.
Ela amarrava o cabelo com indiferença, e os fios negros em suas têmporas ainda estavam penteados com perfeição, escondendo parcialmente uma das orelhas.
Gu Fuyou exclamou com voz fraca:
— Salve-me!
Invocá-la naquele momento não foi uma escolha, e sim uma necessidade.
Zhong Michu lançou-lhe um olhar e, após uma breve pausa, perguntou:
— Este lugar é Xian Luo?
Gu Fuyou assentiu. No entanto, Zhong Michu se virou para partir e disse:
— A jornada por Xian Luo existe para o cultivo. Todas as provações servem para temperar o espírito, e todas as tormentas e trovões, para forjar o corpo. Se você busca ajuda externa diante de cada dificuldade, como poderá progredir? É preciso encontrar oportunidades em meio ao perigo.
Em sua mente, Gu Fuyou pensou: “Já encontrei dificuldades demais. Se eu não buscar ajuda agora, não será mais um tempero — será minha morte direta!”
Gu Fuyou apressou-se em detê-la:
— Você me prometeu que eu poderia invocá-la em situações desesperadoras!
Zhong Michu respondeu:
— Isso é válido em circunstâncias normais. Nosso secto proíbe a entrada em Xian Luo sem permissão prévia. Além disso, o líder da seita me proibiu expressamente de pisar em Xian Luo. Você sabe disso.
— Eu… — Gu Fuyou sabia que invocar Zhong Michu a faria desobedecer tanto as ordens do mestre quanto as regras da seita, e era por isso que não a havia invocado antes; do contrário, já o teria feito no primeiro confronto com Dizang.
— Me desculpe… Quando sairmos daqui, explicarei tudo ao líder da seita e assumirei a responsabilidade. Mas agora que você já veio, pode me ajudar? Meu irmão e Si Miao ainda estão presos. Eu…
No momento, estava separada de Gu Huaiyou e Si Miao, exausta e sozinha. Já era difícil superar aquele obstáculo, quanto mais resgatar os dois.
Zhong Michu permaneceu em silêncio. Respirando fundo, Gu Fuyou exclamou:
— Não me importo! Você não pode ir embora! Originalmente, era permitido trazer bestas espirituais para viajar por Xian Luo. Permitir que sua própria besta espiritual ajude não conta como depender de forças externas! Você aceitou o papel de minha besta espiritual, então tem que se responsabilizar por mim até o fim!
Gu Fuyou já não se importava com as consequências. Mesmo que precisasse agir de forma irracional e insistente, não podia deixar Zhong Michu partir.
Se Zhong Michu a deixasse ali, ela certamente morreria.
Quando Zhong Michu se virou novamente, notou um urso da neve se aproximando com um rugido, e sua expressão se alterou ligeiramente.
O urso vinha com um ímpeto feroz, imponente, e seu poder parecia ter alcançado um estágio elevado.
Gu Fuyou não estava mentindo; sua vida realmente estava por um fio.
Zhong Michu ponderou sobre as palavras de Gu Fuyou, permanecendo em silêncio por um momento, evidentemente hesitante.
Gu Fuyou fixou o olhar na nuca de Zhong Michu, aguardando uma resposta. Vendo que ela ainda não dizia nada e temendo que alçasse voo, lançou-se de repente para frente e agarrou-se às pernas de Zhong Michu.
Zhong Michu enrijeceu, sua expressão se contraiu de surpresa, e ela exclamou:
— O que está fazendo?!
Gu Fuyou retrucou:
— Se você não vai me salvar, então vamos morrer juntas!
— Você! Solte!
O rosto de Zhong Michu corou.
Enquanto as duas falavam, o urso da neve já havia se aproximado perigosamente, prestes a saltar.
Zhong Michu agarrou Gu Fuyou pelo braço e gritou:
— Gengchen!
Um brilho de espada emergiu de sua manga, erguendo ambas no ar e as levando a dezenas de metros de distância.
Zhong Michu disse:
— Vou ajudá-la. Agora solte.
Gu Fuyou, achando que talvez tivesse ouvido mal, ergueu o rosto e perguntou:
— Você vai me ajudar?
Ao ver a seriedade no rosto de Zhong Michu, Gu Fuyou relaxou o aperto em silêncio, posicionando-se atrás dela e apenas espiando por sobre seu ombro para observar o urso da neve que se aproximava.
O urso, com as quatro patas no chão, avançava rapidamente. Quando se aproximou, de repente se ergueu em duas patas, saltando cerca de três metros no ar com uma agilidade surpreendente que fez Gu Fuyou exclamar:
— Que agilidade!
Zhong Michu lançou-lhe um olhar de soslaio. Com um gesto da mão esquerda, o vento e a neve se ergueram, girando para o alto e envolvendo o urso da neve no centro.
Com um estalar de dedos, a neve macia e fofa transformou-se instantaneamente em um pilar de gelo duro e cristalino, prendendo as patas do urso e suspendendo-o indefeso no ar.
Gu Fuyou ficou espantada. Zhong Michu não possuía uma raiz espiritual da água? Como podia utilizar técnicas de gelo com tanta destreza?
Enquanto Gengchen levava Zhong Michu mais perto do urso, este, ao vê-las se aproximar, começou a golpear furiosamente com os braços ainda livres.
Zhong Michu estendeu a mão direita, sinalizando para que parasse.
O urso da neve aquietou-se de imediato, embora seus olhos bestiais ainda estivessem vermelhos, e ele rosnava suavemente para Zhong Michu.
Gu Fuyou pensou consigo mesma que Zhong Michu devia ter domínio sobre a arte de domar feras.
Parecia que o urso tentava se comunicar com Zhong Michu, então Gu Fuyou perguntou:
— Irmã Sênior Zhong, o que ele está dizendo?
Zhong Michu voltou-se para encarar Gu Fuyou com um olhar penetrante e perguntou:
— Foi você quem matou o filhote dele?
Gu Fuyou não entendeu o motivo do olhar escrutinador. Na verdade, Zhong Michu estava surpresa por o filhote de urso das neves — já no estágio inicial de Fundação — ter sido morto por Gu Fuyou, que possuía apenas o cultivo completo do Estágio de Treinamento do Qi, e ainda assim sem sofrer ferimentos graves. Tal feito não seria possível para cultivadoras comuns e medíocres.
No entanto, Gu Fuyou acreditava que Zhong Michu já sabia que aquilo tudo era culpa dela. Com um sorriso sem graça, explicou:
— Eu só... só caí por engano na caverna daquele urso das neves e atrapalhei a hibernação dele sem querer. Ele começou a me perseguir feito louco e não ia parar até me matar. Eu não tive outra escolha a não ser revidar...
O urso das neves rugiu mais algumas vezes. Gu Fuyou perguntou:
— O que ele disse?
Ela sempre teve a sensação de que as bestas espirituais demonstravam um respeito peculiar diante de Zhong Michu. Até mesmo seus rugidos furiosos pareciam contidos. Suspeitava que fosse alguma técnica de domar feras, e já planejava pedir aulas a Zhong Michu quando surgisse a oportunidade.
Zhong Michu ainda não havia respondido, quando Gu Fuyou arriscou um palpite:
— Ele vai me poupar desta vez por sua causa, e não haverá uma próxima?
Mal terminara de falar, o urso das neves rugiu alto e, com um estalo seco, libertou-se da coluna de gelo, aterrissando sobre a superfície plana do gelo despedaçado, pronto para saltar novamente.
Dessa vez, estava preparado. Não seria facilmente contido pelas técnicas de Zhong Michu.
Zhong Michu falou com calma:
— Ele disse: “A vingança pela morte de meu filhote é irreconciliável. Mesmo que me custe a vida, exigirei sangue por sangue.”
Gu Fuyou não acreditou que uma besta espiritual pudesse articular palavras tão sofisticadas. Estava convencida de que Zhong Michu havia apenas embelezado a intenção do animal e dito aquilo só para assustá-la.
Mas, quando estava prestes a retrucar, o urso das neves investiu. A ponta da espada Gengchen se ergueu de repente, perfurando o céu.
Num instante, a espada dispersou a neve e o pó. O urso tentou persegui-las, mas não conseguia acompanhar a velocidade e rugiu para o céu, frustrado.
Zhong Michu poderia ter derrotado o urso, mas não viu razão para envolver-se em combate desnecessariamente. Além disso, sentia compaixão pela criatura que havia perdido seu filhote, por isso preferiu fugir para conservar energia.
Zhong Michu carregou Gu Fuyou rumo ao leste em sua espada. Gu Fuyou não fazia ideia de que parte de Xianluo havia sido transportada pela formação de teleporte. Só via que a floresta nevada abaixo terminava abruptamente num penhasco. Lá embaixo, as ondas bravias batiam contra a costa, e à frente, as águas verdes fundiam-se ao céu, formando um mar sem fim.
Zhong Michu pousou na praia arenosa abaixo do penhasco. Guardou a espada Gengchen e pisou na areia fina e macia.
Gu Fuyou também saltou para a praia, encontrou uma pedra onde se sentar e respirou fundo, enquanto sua mente fervilhava de pensamentos sobre como retornar à floresta desolada.
Zhong Michu lançou-lhe um olhar, enfiou a mão na manga e tirou um lenço, estendendo-o enquanto dizia:
— Limpe.
Gu Fuyou o pegou com ambas as mãos, olhando para ela com ar atônito.
Zhong Michu acrescentou:
— O rosto.
Só então Gu Fuyou percebeu que fora atingida anteriormente pelo Man Tian Xing e que havia se ferido na testa, com sangue escorrendo pelo rosto. Ao tocar, notou que o sangue já havia coagulado, deixando até os cabelos colados.
— Obrigada, Irmã Sênior.
Quando Gu Fuyou viu seu reflexo na água, não pôde deixar de sentir pena daquela figura desleixada diante de si.
Molhou o lenço no mar e começou a limpar o sangue do rosto, tingindo de vermelho vivo o tecido branco com um único gesto.
Gu Fuyou pensou consigo mesma: “Sempre que convoco Zhong Michu, as coisas só vão de mal a pior.”
Zhong Michu arrumava a barra de sua roupa, que havia sido bagunçada quando Gu Fuyou se agarrou às suas pernas. Enquanto alisava o tecido, o leve e sedutor aroma do corpo de Gu Fuyou ainda pairava sobre suas vestes.
Ao recordar o modo desesperado como Gu Fuyou se agarrou a ela, Zhong Michu suspirou suavemente:
— Como pode haver uma moça como você neste mundo?
Zhong Michu havia enfatizado “uma moça como você”. No entanto, aos ouvidos de Gu Fuyou, a ênfase recaiu apenas sobre “moça”.
Depois de lavar o lenço ensanguentado no mar, Gu Fuyou se virou e sorriu com malícia. Indicando o próprio peito, disse:
— Irmã Sênior Zhong, você acha que eu não pareço uma dama? Quer conferir?
A expressão de Zhong Michu escureceu.
— Frívola.
Gu Fuyou não conseguiu conter uma gargalhada. Já esperava aquela resposta palavra por palavra. O alívio por ter sobrevivido a fazia sentir-se eufórica. Riu tanto que lágrimas se formaram nos olhos.
Enquanto ria, pelo canto do olho, percebeu algo se movendo na areia ao seu lado. Quando olhou diretamente, uma criatura emergiu da areia, balançando duas grandes pinças e se arrastando em sua direção — um caranguejo.
Ela deu um pulo, horrorizada, porque, no lugar de uma carapaça comum, as costas daquele caranguejo exibiam um rosto humano. Embora pequeno, o rosto estava completamente formado, com todos os traços.
Era um caranguejo de rosto humanoide.
Os cabelos de Gu Fuyou se arrepiaram.
— Aaaaaaahhhhhh!
Aquele rosto humano mantinha os olhos e a boca cerrados. Quando Gu Fuyou gritou, o rosto abriu a boca de repente e a acompanhou:
— Aaaaaaahhhhhh!
Seu grito agudo e cortante sobrepujou completamente a voz de Gu Fuyou.
A areia ao redor começou a se mover, e um por um, mais caranguejos de rosto humanoide emergiram, cercando Gu Fuyou por completo.
Gu Fuyou soltava gritos histéricos — e eles gritavam de volta, ainda mais alto. Quanto mais desesperadamente ela gritava, mais ferozes eram os gritos deles.
Aqueles uivos perturbadores eram suficientes para despedaçar a sanidade de qualquer um.
Zhong Michu observava de lado, visivelmente irritada com a algazarra.
Gu Fuyou olhou para ela em desespero, a voz trêmula e entrecortada por soluços:
— Irmã Sênior Zhong, me salva!
Zhong Michu respondeu com calma:
— Caranguejos de rosto humanoide. Eles não fazem mal a ninguém.
— Mas são nojentos demais! — Gu Fuyou gritou de volta.
Por que todo tipo de demônio e criatura repulsiva tinha que aparecer justo para ela?
Só de ver aqueles rostos humanos nos caranguejos já ficava arrepiada. Se tocasse em um deles, um calafrio subia de seus pés até a cabeça. Tinha vontade de amputar os membros que encostassem naqueles horrores.
Mas Zhong Michu não demonstrava a menor intenção de ajudar. Suas mangas esvoaçavam ao vento, os cabelos presos por uma fita, enquanto contemplava o céu azul e o mar, como se estivesse desfrutando tranquilamente da paisagem, alheia ao caos ao seu redor.
Gu Fuyou achava que Zhong Michu ainda estava magoada por ter sido invocada bem na hora do banho, além de ter sido agarrada pelas pernas, sem poder sair — por isso agora apenas assistia, indiferente.
À medida que os caranguejos de rosto humanoide avançavam, Gu Fuyou foi forçada a recuar em direção ao mar.
Estava apavorada com a multidão de caranguejos, mas tentava se convencer de que, se fechasse os olhos e corresse por entre eles, tratando-os como pedras no caminho, conseguiria chegar até Zhong Michu.
Porém, o medo a paralisava. Estava à beira de um colapso.
— Nanzhu Jun!
O olhar de Zhong Michu se voltou imediatamente, a expressão nada amistosa.
Gu Fuyou se lembrou da promessa de não forçar Zhong Michu a nada e rapidamente mudou o tom, dizendo com suavidade:
— Irmã Sênior Zhong...
— Boa irmã sênior... Irmãzinha! Irmã querida!
Depois de implorar várias vezes, Zhong Michu pareceu momentaneamente surpresa.
Gu Fuyou insistiu:
— Use seus poderes divinos, por favor...
Antes que pudesse terminar, o mar atrás dela começou a se agitar. No instante seguinte, uma figura branca e esguia irrompeu da água, enroscando-se em sua cintura e puxando-a com rapidez.
Gu Fuyou foi arrastada para o alto, gritando:
— Zhong Michu aaaaaaaaah! — Sua voz variava em pânico, subindo e descendo de tom à medida que se afastava cada vez mais.
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