1 - Sequestrada


Capítulo 1

SEQUESTRADA


Ao pôr do sol, seu brilho residual envolve suavemente a antiga e dilapidada vila de Shennvgou (Vale da Deusa).

De repente, um gongo soou rapidamente, rompendo a tranquilidade do crepúsculo. Os moradores que ainda não tinham preparado o jantar saíram correndo de suas casas e se dirigiram para a entrada da vila.

Aconteceu alguma coisa! Aconteceu alguma coisa muito ruim!

A esposa de alguém fugiu? O marido de alguém foi caçar nas montanhas e foi devorado por um javali? Ou será que os funcionários do governo estão aqui novamente para recrutar pessoas para servir na guerra?

Os aldeões, tomados pela tensão e inquietação, chegaram à entrada da aldeia e viram uma mulher, bastante atraente, amarrada debaixo da acácia torta que estava morta há vários anos.

Ela estava vestida com trapos, seus cabelos estavam despenteados e seu rosto, pálido como papel, tomado por um pânico indescritível. Ela gritava em uma língua que ninguém conseguia entender.

A multidão imediatamente irrompeu em alvoroço.

"Essa não é a mulher que Li Dalang (o filho mais velho da família Ameixa) comprou há alguns dias? Por que ela está amarrada aqui?" Alguém reconheceu imediatamente a mulher amarrada.

"Você não sabe, não é? Essa mulher é uma fujona! Ela fugiu secretamente ontem à noite, mas foi pega por pessoas da aldeia vizinha e trazida para cá."

"Ah, essa mulher está mesmo pedindo por isso!"

“Quem disse o contrário? Embora sejamos um pouco pobres aqui, agora que ela está aqui, precisa aceitar seu destino. Acha que pode escapar? A garota que a família de Wu San comprou no ano passado também tentou fugir no meio da noite, mas foi pega antes mesmo de sair da montanha. Ela foi espancada pelos irmãos de Wu e morreu antes do amanhecer.”

"Uma mulher como essa deveria ser espancada até a morte..."

"Tsc, que desperdício de tanta beleza, veja como o rosto dela está pálido…"

…..ooo0ooo…..

Li Man (lenta) olhou horrorizada para a multidão densa, completamente perplexa. Ela não tinha morrido em um acidente de carro? Como ela apareceu amarrada ali? E quem eram aquelas pessoas apontando para ela e cochichando?

Ela gritou desesperadamente por ajuda, tentando implorar para que a deixassem ir, mas além de se aglomerarem e dizerem coisas que ela não conseguia entender, ninguém lhe deu atenção.

Ela não conseguia entender nada do que aquelas pessoas estavam dizendo, mas pelo olhar e pelo tom de voz, tinha certeza de que não era nada agradável.

"Olha só, essa mulher acordou e é realmente linda."

"De que adianta ser linda? Ela logo será enforcada. Qualquer mulher que entrar no Vale da Deusa só encontrará a morte, se tentar escapar."

De repente, uma mulher morena e rechonchuda pegou um punhado de legumes podres de sua cesta, que ela pretendia dar aos porcos, e os atirou no rosto de Li Man.

O incidente causou grande alvoroço, e outras pessoas se juntaram à confusão. Algumas cuspiram em Li Man, outras pegaram pedrinhas e atiraram nela, e duas mulheres ousadas simplesmente se aproximaram e beliscaram sua pele com força.

"Não, vão embora! Quem são vocês? Me soltem!" gritou Li Man. A dor em seu corpo era muito menor do que o medo em seu coração. Tratava-se de um grupo de aldeões incivilizados. Suas roupas eram muito antigas, como as dos personagens dos antigos dramas históricos que ela assistira.

Nesse instante, um senhor idoso aproximou-se com uma expressão severa e expulsou as mulheres, dizendo: "Qual é o problema de vocês? Saiam daqui."

“Chefe da aldeia, estamos com raiva! Essa mulher precisa aprender uma lição. Aliás, ela deveria ser enforcada ou afogada?” Várias mulheres cercaram o velho chefe da aldeia e perguntaram com grande interesse.

O chefe da aldeia lançou-lhes um olhar fulminante: "Saiam da frente, isto é um assunto que cabe à família Li decidir." Em seguida, virou-se para um homem corpulento atrás dele e perguntou: "Wu San (o terceiro filho da família Bruxo), onde está Li Mo (o irmão mais velho da família Li)? Eu disse para você ir buscá-lo, mas ele não deu sinal de vida esse tempo todo."

Wu San deu uma risadinha, mas seus olhos estavam fixos em Li Man. "Os irmãos Li foram todos para a montanha procurar essa mulher, deixando Xiao Wuzi (o bruxinho - o quinto filho da família Li) sozinho em casa. Eu disse a ele para mandar os irmãos para cá assim que retornarem."

O chefe da aldeia franziu a testa, olhou para o céu, que estava escurecendo, e então se virou para Li Man com uma expressão de desgosto no rosto.

A julgar pela atitude da mulher, Li Man percebeu que o velho provavelmente era o líder ali, então ela rapidamente exclamou: "Senhor, por favor, me deixe ir! Vamos conversar, está bem? Não sei como o ofendi, mas se o senhor estiver disposto a me deixar ir, tudo pode ser resolvido. Posso lhe dar dinheiro, posso compensá-lo..."

"Que língua é essa que ela está falando?" O chefe da aldeia virou a cabeça com desgosto e perguntou a Wu San.

Wu San também não entendeu e apenas balançou a cabeça: "Quem sabe o que essa mulher está dizendo? Não vamos dar ouvidos a ela."

Li Man estava desesperada. Ninguém ali a ouvia, nem mesmo aquele velho que parecia ter autoridade. O que ela deveria fazer? O que eles estavam planejando? Queimá-la viva?

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Notas da Tradutora:

O título original da novel é “Esposa de porta em porta afortunada”. Eu não sei se esse seria o sentido, mas a tradução literal ficou assim. Para quem não sabe, uma esposa (ou um marido) de porta em porta, segundo pesquisei, é um cônjuge comprado. Esse cônjuge, que pode ser masculino ou feminino, entra na família e não mantém nem o próprio sobrenome. Por algum motivo que não encontrei explicação, ele (ou ela) é quase como um escravo - embora seja um parceiro(a), é como se fosse de segunda categoria, tem o valor reduzido. A vida desses maridos/esposas de porta em porta não costuma ser fácil - são desprezados dentro e fora de casa. Para quem quer um exemplo disso, leiam a novel “A jovem dama da família de elite e o fazendeiro”, também disponível em nosso blog.

E, para quem acha que a situação da protagonista é fantasia, infelizmente ainda acontece muito pelo mundo, inclusive na China. Algumas vilas são muito pobres e, como o compromisso entre os casais nesses países do Oriente depende basicamente do homem ter condições financeiras de sustentar uma esposa, muitos homens ficam sem ter como casar. É aí que entra o tráfico humano e até os sequestros - sim, corre o risco de você fazer uma viagem turística e desaparecer, ser vendida, servindo de esposa para vários homens, ou mesmo de ‘alívio’ - você entendeu. No fim, jogam o corpo na montanha para os animais selvagens comerem… E o pior - todos os habitantes nas aldeias sabem disso e acobertam uns aos outros, porque admitir a verdade implicaria na morte de toda a aldeia por falta de descendentes. 

No ano passado (2024), uma mulher foi encontrada meio louca (sim, ela perdeu o juízo por conta dos abusos e maus-tratos) em uma aldeia dessas… Ela servia como mulher para vários homens, inclusive emprestada. Ela tinha desaparecido há alguns anos e estava acorrentada pelo pescoço do lado de fora da casa. Foi resgatada, mas é pouco provável que volte ao normal, e o sofrimento dela não se apaga. 

Por isso, nossa prota é uma esposa afortunada; felizmente, terá um destino mais feliz.

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