Capítulo 78. Carrasco

A chuva ainda caía, e o ambiente ao redor estava sinistramente silencioso.

Liu Kun sentia o vento frio penetrando pelas frestas dos ossos, e a antiga lesão no joelho, dos tempos em que vendia macarrão, começava a doer novamente.

Ele olhou para a pessoa à sua frente e falou, confuso e sem coerência:

— Como isso é possível? A Pequena Tong não está morta?

A garota diante dele apenas sorriu de leve. Seu sorriso era tão comovente quanto uma pintura em seda.

Liu Kun se lembrou de Tong.

Seu primo, Lu Qilin, tinha duas filhas e um filho. Como Madame Lu quase morreu ao dar à luz a filha mais nova, essa filha era especialmente preciosa. Lu Rou, Lu Qian e Madame Lu a adoravam. Embora Lu Qilin fosse rígido com as palavras, também era indulgente com a filha caçula.

No entanto, quanto mais precioso algo era, mais difícil era escondê-lo. A filha mais nova da família Lu desapareceu quando tinha nove anos. Naquele ano, houve uma epidemia no condado de Changwu e o restante da família Lu havia acabado de se recuperar. A menina saiu à tarde para buscar água e nunca mais voltou.

Naquela época, a família de Liu Kun já havia deixado o condado de Changwu rumo à capital. Ele só soube disso ao receber uma carta de Lu Qilin, que implorava ajuda para procurá-la na capital. Liu Kun concordou, mas suspirou no coração. Neste mundo, uma menina de nove anos desaparecida provavelmente foi vendida por um traficante itinerante. Como poderia ser encontrada?

Ao longo dos anos, fora a família Lu que se recusava a desistir, todos os outros acreditavam que a filha mais nova já estava morta há muito tempo.

Liu Kun também pensava assim.

Ele olhou para a garota à sua frente. Ela era bonita e completamente diferente da menina gordinha de sua memória. No entanto, ao olhar com atenção, havia algo nela que lembrava sua sobrinha Lu Rou, que falecera jovem.

Ao lembrar de Lu Rou, o coração de Liu Kun tremeu, e ele de repente se sentiu um pouco culpado.

Ele perguntou:

— Você... você é mesmo a Tong?

A outra apenas sorriu levemente.

— Onde você esteve todos esses anos? Seus pais procuraram por você em todo lugar. Seu irmão também estava muito preocupado...

Ele falou de forma vaga, sem saber exatamente o que tentava encobrir com aquelas palavras. Ao falar, subitamente caiu em si e parou. Olhou fixamente para a outra e disse:

— Foi você quem escreveu aquela carta?

Por que Tong escreveria uma carta para ele?

A carta mencionava Fan Zhenglian. Será que ela já sabia sobre a família Fan? Até que ponto sabia dos bastidores da Mansão do Grande Tutor?

Seu olhar se perdeu, e involuntariamente, ele estremeceu.

Até que a voz do outro lado o tirou de seus pensamentos:

— Eu escrevi. Tio, você já encontrou meu irmão, não foi?

Assim que essas palavras foram ditas, o silêncio caiu como uma mortalha ao redor.

Depois de muito tempo, Liu Kun ouviu sua própria voz seca forçar um sorriso:

— Sim... eu o vi. Lu Rou havia falecido, e ele veio à capital para o funeral. Também ficou na minha casa por alguns dias.

— Só ficou?

— Só ficou.

— Mais do que isso — disse Lu Tong, com leveza. — Você ainda o traiu.

— Eu não traí! — Liu Kun gritou de repente. Sua voz soou estranha na noite fria e chuvosa, e até ele próprio se assustou.

Ele abaixou a voz, tentando manter a calma:

— Não fui eu. Ele cometeu um crime e estava sendo procurado. Pequena Tong, eu queria escondê-lo em casa, mas o mandado estava espalhado por toda parte. Os oficiais o encontraram na minha casa e eu não tive escolha. O que eu poderia fazer?

Ele dizia isso com sinceridade, como se fosse a mais pura verdade.

Mas Lu Tong sorriu. Seus olhos claros e frios o encaravam, como se pudessem ver o segredo mais sombrio escondido no fundo do coração dele.

— Foi mesmo? Posso perguntar, tio... que crime meu segundo irmão cometeu?

— Ele... ele invadiu uma casa, roubou bens e violentou a filha do dono...

Lu Tong assentiu.

— Um crime tão grave. Tio, o senhor estava acobertando um fugitivo, mas os oficiais não o puniram. Apenas levaram meu irmão. Realmente... muito razoável.

O rosto de Liu Kun empalideceu, os dentes cerrados. Ele suspeitava que a pessoa à sua frente já sabia de tudo, mas não ousava dizer uma palavra.

Lu Tong o encarava, o olhar ficando cada vez mais gélido.

O homem diante dela era covarde, e os olhos fugidios. Naquele rosto familiar, a pobreza e o desespero haviam devorado a consciência, e dele brotaram desejos e ganância.

Seu pai, Lu Qilin, era antiquado e severo, enquanto seu tio, Liu Kun, era bondoso e animado.

Lu Rou era gentil e quieta. Ela e Lu Qian sempre seguiam Liu Kun por toda parte. Liu Kun costumava levantá-la e colocá-la sobre os ombros, usando a barba por fazer para fazer cócegas. Wang Chunzhi lhe trazia frutas cristalizadas vermelhas quando voltava da feira do templo.

Eles costumavam se esconder da chuva sob os beirais das casas vizinhas e comiam da mesma panela. Agora, eram estranhos em lados opostos da estrada, separados por um ódio de sangue que não podia ser apagado.

O farfalhar da chuva noturna não cessava.

Lu Tong disse com calma:

— Tio, eu fiquei pensando...

— Uma pessoa viva sente culpa quando comete um erro? Sente peso na consciência? Fica sem dormir à noite?

— Observei por muito tempo e descobri que não. Nada disso.

O negócio da loja de macarrão da família Liu na Rua Que’er ia muito bem. Liu Zixian era oficial, Liu Zide se preparava para o Exame Imperial de Outono, Wang Chunzhi usava uma pulseira de ouro, e a família Liu planejava se mudar para uma casa maior.

Estava tudo bem, muito bem — tão bem que chegava a despertar inveja.

Liu Kun apertou os lábios.

— Pequena Tong...

Lu Tong o interrompeu:

— Mas todas essas coisas boas foram conquistadas pisando no sangue da família Lu. Como eu poderia não me revoltar?

Liu Kun deu um passo para trás, apavorado.

— Pequena Tong, me escuta. Naquela época, os oficiais estavam vasculhando tudo e encontraram Qian na minha casa. Ele não teve tempo de fugir...

Lu Tong sorriu.

— Tio, o senhor conhece melhor do que eu o tipo de pessoa que meu irmão era. Assim que soubesse que estava sendo procurado, ele cortaria laços imediatamente e se esconderia onde ninguém pudesse encontrá-lo. Mas, no fim, foi encontrado em sua casa.

— O que o senhor deu a ele? Droga?

Os dedos de Liu Kun estremeceram.

Lu Tong fez uma pausa e o encarou com frieza:

— Depois da prisão do meu irmão, o senhor escreveu uma carta para o condado de Changwu avisando. Meu pai sofreu um acidente fatal no caminho para a capital. Não foi o senhor quem acrescentou lenha à fogueira?

— O senhor não traiu só meu irmão. Traiu também meus pais.

A mente de Liu Kun explodiu. Tropeçou numa pedra escura e caiu no chão.

Naquela noite, ele entregou Lu Qian a Fan Zhenglian. Mas vira a “carta” deixada por Lu Qian — a evidência que ele arriscara a vida para conseguir.

Ele fora tímido e honesto a vida inteira, mas naquele momento, teve uma coragem e ambição inexplicáveis. Queria trocar aquilo por riqueza. Queria garantir um futuro brilhante para a família Liu numa cidade próspera como Shengjing.

Então, dissera respeitosamente a Fan Zhenglian, na sala escura do Tribunal Penal:

— Senhor, embora Lu Qian tenha sido preso, meu primo é uma pessoa teimosa. Quando souber disso, é difícil garantir que não causará problemas. É melhor limpar tudo de uma vez, para evitar complicações futuras.

Fan Zhenglian levantou os olhos para ele.

— Oh? Que ideias você tem? Vamos ouvir.

Ele curvou ainda mais as costas.

— Posso escrever uma carta para Lu Qilin e atrai-lo até Shengjing...

Um corvo voou de um galho, batendo as asas e rompendo o silêncio da noite.

Liu Kun a encarou e tentou se defender fracamente:

— Eu não...

— Ouvi dizer que o tio sempre quis comprar uma loja na Rua Que’er, mas o dono desistiu, e o senhor estava com cem taéis de prata a menos. Pouco tempo depois que meu irmão foi preso, o senhor comprou a loja. Coincidentemente, a recompensa pela prisão do meu irmão era de cem taéis de prata.

Ela olhou para Liu Kun.

— Então a vida do meu irmão valia apenas cem taéis de prata.

— Não, não valia! — Liu Kun gritou, tomado de desespero, caindo no chão.

A culpa que ele havia ignorado por tanto tempo veio à tona de uma só vez, acompanhada de pânico e medo.

— As regras do mundo são feitas pela classe dominante. Tio, eu não esperava que o senhor enfrentasse o Grande Tutor, mas pelo menos não devia ter ajudado os malfeitores.

Ao ouvir as palavras "Grande Tutor", Liu Kun voltou abruptamente à realidade. Agarrou as roupas de Lu Tong com força, como se isso fizesse suas palavras soarem mais convincentes.

— É isso mesmo, Pequena Tong. Você sabe que Qian ofendeu o Grande Tutor. Como poderíamos nos dar ao luxo de provocá-los? Eles me forçaram a fazer isso, me forçaram!

— Não podemos nos opor à Família Qi nem à Família Fan. Pequena Tong, se fosse seu pai, ele faria o mesmo! Diante dessas pessoas, só nos resta aceitar o destino, certo?

— Não.

Lu Tong sorriu friamente.

— Eles não estão com problemas agora?

Liu Kun ficou atônito.

A mulher diante dele continuou:

— Ke Chengxing não está morto?

A mão de Liu Kun se afrouxou e ele caiu novamente no chão. Olhou para Lu Tong como se tivesse visto um fantasma.

— Você... você...

Ela sorriu.

— Fui eu quem fez isso.

A chuva na montanha caía como névoa, e os pingos lavavam a lama do túmulo.

A mulher de capa vestia um traje branco. Era fria e bela, com uma flor de seda branca no cabelo. Parecia um fantasma elegante que saíra de um caixão.

O que ela acabou de dizer? Foi ela quem fez aquilo com a Família Ke?

Os olhos de Liu Kun estavam vidrados.

Ele se lembrou de como era a Pequena Tong na infância.

Entre os três filhos da Família Lu, Lu Rou era gentil e generosa, enquanto Lu Qian era brilhante e inteligente. Ambos herdaram a boa aparência dos pais e se destacavam nos estudos. O primo Lu Qilin não dizia muito, mas se orgulhava imensamente dos dois. No entanto, a filha mais nova sempre lhe causava dor de cabeça.

Quando Tong era pequena, não era tão bonita quanto Lu Rou nem tão articulada quanto Lu Qian. Era rechonchuda, não gostava de estudar e frequentemente fazia o pai se irritar. Lu Qilin costumava chamá-la de “rebelde”. Depois de brigar com ela, pedia em segredo para Liu Kun levar-lhe pãezinhos doces como consolo.

Como diz o ditado: criança que chora é a que mama. Entre os três filhos da família Lu, a Pequena Tong era a mais travessa, mas também a mais mimada. Naquela época, Liu Kun gostava de provocá-la. O rostinho infantil e arredondado da garotinha sempre exibia um par de olhos vivos, encantadores à primeira vista.

Muitos anos se passaram, e a menininha rechonchuda crescera e se tornara uma jovem esbelta e elegante. Se olhasse com atenção, ainda era possível ver traços do passado em suas feições. Seus olhos negros já não tinham mais a vivacidade de antes — eram como um lago imóvel.

Ele havia ouvido falar da morte de Ke Chengxing e da ruína da Família Ke. Na época, apenas suspirou, sem pensar muito. Mas agora, Pequena Tong dizia que ela havia feito aquilo. Liu Kun ainda se lembrava da menininha em Changwu que chorava só de ver um rato...

Como isso podia ter sido feito por ela?

Atordoado, ele ouviu a garota à sua frente continuar:

— E também fui eu quem causou o que aconteceu com a Família Fan.

O rosto de Liu Kun ficou pálido, e ele a encarou com medo.

Ela abaixou o olhar e o fitou como se olhasse para um homem morto.

— Agora, é a sua vez.

— N-não...

O cérebro de Liu Kun entrou em colapso. Instintivamente, rastejou até a barra da saia dela. As gotas de chuva caíam em seu rosto enquanto ele agarrava a bainha da roupa de Lu Tong. Seus dentes batiam e sua voz saía trêmula e desesperada:

— Pequena Tong, escuta o tio, eu posso te ajudar!

Lu Tong o olhou, surpresa.

— É verdade! — Liu Kun se apressou em dizer. — Fan Zhenglian prendeu Qian inventando um motivo para executá-lo. Pequena Tong, o tio pode ser sua testemunha! Só eu sei da verdade. Vamos juntos até o fim no caso de Rou e Qian, sim?

Ele a persuadia, como fazia com a sobrinha assustada com ratos anos atrás.

Depois de um breve silêncio, ela disse:

— Obrigada, tio.

Liu Kun esboçou um sorriso torto e ia dizer algo, mas a garota à sua frente se agachou lentamente e abriu a palma da mão diante dele.

À luz fraca do lampião, Liu Kun pôde ver claramente um frasco de porcelana delicado na palma branca e fina.

Sua garganta apertou de repente. Ele olhou para Lu Tong.

— O que é isso?

— Uma oportunidade.

— … Que oportunidade?

— Uma oportunidade para o tio assumir sozinho os pecados da família.

Liu Kun congelou.

Lu Tong sorriu e sussurrou:

— Este é um frasco de veneno. Se o senhor beber, eu perdoarei meus primos e minha tia. Absolvo os três.

— Pequena Tong...

Ela ainda sorria, e seu rosto era belo, mas seus olhos eram como nuvens refletidas em um lago gelado — sem nenhum vestígio de sorriso.

— Tio — disse ela —, eu afoguei Ke Chengxing, mas os boatos dizem que ele caiu bêbado. A Família Ke caiu, e toda sua fortuna desapareceu.

— Eu fiz algo no monte de exames, e o escândalo de conluio entre o Ministério dos Ritos e os candidatos foi revelado. Agora Fan Zhenglian está na prisão e sua reputação está arruinada.

— Veja, fiz tantas coisas... e não fui punida.

Ela olhou para Liu Kun.

— Posso matá-los, e posso matar o senhor também. O tio sabe que sou muito inteligente.

Liu Kun a encarava, incrédulo.

— Eles são seus primos...

— Eu sei — os olhos de Lu Tong se curvaram. — É justamente por serem família que eu não consigo suportar.

Estou dando uma chance ao senhor.

Ela falou devagar, cada palavra como uma faca cravando-se no coração de Liu Kun.

— Meus dois primos estão presos agora. Fraude em exame não é um crime leve, mas não ameaça a vida. Como pode ser? Então, pensei que deveria fazer algo. Ah, esqueci de dizer: agora sou médica. Se eu quiser matar algumas pessoas sem deixar rastros, é fácil. Além disso, meus dois primos não são espertos. São bem mais fáceis de lidar do que as famílias Ke e Fan.

— Tenho confiança de que posso matá-los sem que ninguém descubra.

A última frase soou fria como o suspiro de um fantasma, ecoando silenciosamente no cemitério.

O corpo inteiro de Liu Kun tremeu.

Ele sabia que a garota à sua frente estava certa.

Liu Zixian e Liu Zide eram alguns anos mais velhos que Lu Qian, mas em inteligência e estratégia não se comparavam nem a Lu Qian, muito menos a Tong. E havia também Wang Chunzhi. Só sabia fazer macarrão e cozinhar. Tinha voz alta, mas nenhuma astúcia. Lu Tong derrubara as famílias Ke e Fan — claramente havia se preparado. Contra ela, sua família era fraca, impotente como cordeiros diante do abate. Não tinham chance de resistência.

Lu Tong o fitava e ergueu o braço com leveza. O frasco de remédio em sua mão reluzia estranhamente na escuridão.

— Tio?

Ele estendeu a mão com rigidez para pegar o frasco e olhou para Lu Tong.

— Se eu beber, você vai deixá-los ir?

— Claro.

— Jura?

Lu Tong sorriu, mas não respondeu.

— Tudo bem — Liu Kun retirou a rolha do frasco e olhou para a garota à sua frente. — Pequena Tong, você tem que cumprir sua palavra.

O vento cortante gelava a pele, e a chuva noturna era desolada. A luz fria do lampião quebrado iluminava o túmulo sem nome no cemitério, como se, a qualquer instante, um espírito vingativo fosse emergir da lama para tirar suas vidas.

No meio do matagal, ele levou o frasco à boca e se preparava para beber.

Mas no último instante, arremessou o frasco para longe e avançou contra Lu Tong com uma pedra afiada na mão.

— Foi você quem me forçou!

Por quê?

Por que ele deveria se entregar sem lutar? Por que deveria ser pisoteado? Por mais poderosa que fosse, Lu Tong ainda era apenas uma garota de dezesseis ou dezessete anos. Parecia tão frágil que um vento mais forte a derrubaria. Se ele acertasse a pedra na cabeça dela, poderia matá-la!

Aquele cemitério abandonado era um campo de enterros natural. Se ela fosse enterrada ali, ninguém jamais descobriria!

Ele não queria morrer. Queria matar todos que ameaçavam sua família. Também queria salvar Zixian e Zide!

Sob o céu noturno, seu rosto outrora honesto agora era feroz e selvagem. O medo e a loucura apagaram qualquer resquício de culpa. Em meio ao caos, sua expressão se tornava o rosto de um demônio.

— Pequena Tong, não me culpe! O tio ainda tem uma família, eles não podem morrer!

Ele gritou, brandindo a pedra afiada e mirando violentamente na cabeça dela.

O movimento assustou os corvos ao longe, mas a pedra nunca chegou a atingir a garota.

No momento crítico, uma sensação de sufocamento lancinante surgiu em sua garganta, como se fosse estrangulado de repente. Ele levou as mãos ao pescoço e caiu de joelhos no chão.

Lu Tong suspirou.

Ele se contorcia no chão, segurando a garganta, em pânico:

— O que você fez?

Assim que falou, percebeu, horrorizado, que sua garganta coçava estranhamente, como se milhares de formigas a devorassem.

A resposta veio na voz calma da garota:

— Tio, leu a carta que enviei? Onde está?

— Eu... queimei.

— Que prudente.

Ela parecia elogiá-lo. Disse calmamente:

— Obrigada.

— ... Por destruir as provas por mim.

— Você envenenou a carta?

Ele olhava para Lu Tong, apavorado. Uma coceira insuportável se espalhava pela garganta, como se insetos a corroessem. Ele sentia vontade de arrancar aquilo de dentro de si.

— Isso se chama Rouxinol Livre — disse ela, com serenidade, como se explicasse pacientemente. — Dizem que, há muitos anos, existia uma cortesã na Dinastia Liang. Sua voz era mais doce que a de um rouxinol.

— Mais tarde, provocou o ciúme de outras cortesãs. Alguém envenenou o chá que ela tomava todos os dias. Quando o veneno fez efeito, ela cavou a própria garganta. Ela ficou irreconhecível, a garganta como uma rede de carne apodrecida. Foi horrível.

— Eu pincelei a carta com Rouxinol Livre. Está coçando agora?

Como para provar suas palavras, a coceira tornou-se mais aguda. Liu Kun estava enlouquecendo. Suas unhas cavavam o pescoço. Em poucos instantes, sua garganta estava vermelha. Ele gritava, com expressão de puro pavor:

— Socorro!

Lu Tong o olhou de cima e disse com frieza:

— Alguns venenos causam sofrimento. Outros, aliviam.

Ela caminhou até o frasco que havia sido arremessado, se abaixou e o apanhou. Havia um leve traço de arrependimento em seus olhos.

— Eu lhe dei uma escolha. Infelizmente, o senhor não soube aproveitá-la.

Liu Kun arranhava o pescoço em agonia.

Então era isso.

Ela já havia envenenado a carta. Se ele tivesse bebido o veneno, morreria rapidamente e evitaria aquela dor. Se se recusasse, não sairia vivo do Monte Wangchun.

Desde o início, ela não lhe deu saída alguma.

Desesperado, Liu Kun sentiu algo flutuar em sua garganta. Arregalou os olhos, como se quisesse fixar o rosto da assassina em sua mente para levá-lo consigo ao inferno. Os olhos estavam desfocados quando ele disse, rouco:

— Você está louca... Se me matar, ninguém vai testemunhar por você. Ninguém ousará assumir o caso da Família Lu...

De repente, sua expressão mudou e ele implorou, chorando:

— Pequena Tong... o tio errou. Eu sei que errei...

— Me salva... me salva...

Lu Tong o observava friamente se debater no chão. Seus soluços e gemidos se perdiam sob a chuva noturna de outono. O cemitério era desolado e silencioso.

Depois de um tempo, ela suspirou baixinho. Caminhou até Liu Kun, agachou-se e pegou a pedra que ele segurava quando tentou matá-la, mas havia deixado cair. Colocou a pedra de volta na mão dele.

O rosto de Liu Kun estava tomado pela loucura. Sentindo algo em sua palma, sem pensar, cravou a pedra na própria garganta.

A noite era fria.

Hiss... Ouviu-se um som agudo.

Os gritos cessaram bruscamente.

O sangue jorrou do pescoço e atingiu o rosto da mulher.

Ela piscou lentamente. Uma gota espessa de vermelho escorreu de seus cílios, deslizou por seu rosto e caiu sobre o manto branco.

O homem no chão estremeceu. Depois de um tempo, soltou o último suspiro e permaneceu ali, morto.

Lu Tong se levantou e ficou em silêncio, encarando o corpo imóvel diante de si.

Na lanterna caída ao chão, a chama se apagou sob a chuva noturna. A vegetação selvagem se enredava ao redor, e as sombras entre os túmulos pareciam uma névoa que nunca se dissiparia.

Ela não sentia medo — talvez porque aquele fosse o local de sepultamento de Lu Qian, o cemitério dos prisioneiros condenados pelo Tribunal Penal.

A retribuição viria, cedo ou tarde. Liu Kun morreu ali por causa do karma. Simples assim.

Ela murmurou:

— Ninguém vai ousar assumir o caso da Família Lu?

Esse foi o conselho que Liu Kun lhe deu antes de morrer.

Talvez, aos olhos dele, os nobres de alto escalão controlassem com facilidade a vida e a morte das pessoas. E ela, uma simples plebeia, querer abalar os poderosos, seria apenas uma ilusão de tolos.

Mas...

Ele estava errado.

A garota levantou a mão para limpar o sangue do rosto e disse com calma:

— Por que precisamos que os outros decidam?

— O caso da Família Lu, eu mesma posso julgar...

— ...e também executar.


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