Lu Tong estava parada na brisa outonal, fitando diretamente a pessoa à sua frente.
Quando o Jovem Mestre Pei sorria, seus olhos eram sempre brilhantes e claros, mas quando não sorria, seus traços se tornavam afiados. A luz fria da lua acrescentava uma camada de gelidez às suas vestes oficiais vermelho-escuras. Até mesmo seu olhar era cortante como lâmina, sem um traço de calor.
Shen Ying Feng ficou momentaneamente sem palavras, de repente percebendo o dilema em que estava.
Há pouco, ele havia elogiado o pessoal daquela pequena clínica por serem sensatos. Como podiam se tornar tão insensatos de uma hora para a outra?
O que significava aquilo de "o ladrão gritando 'pega o ladrão'"? Que palavras desagradáveis! Mais importante ainda, a evidência do crime agora apontava para a Guarda Imperial. Como oficial da patrulha militar, ele deveria continuar investigando?
Se continuasse, inevitavelmente ofenderia a Guarda Imperial. Se não o fizesse, diante de tanta gente, pareceria que tinha culpa no cartório.
É claro que também estava com medo.
Mas e se alguém de língua solta decidisse comentar isso mais tarde? Ele ainda conseguiria continuar sua carreira em Shengjing?
O coração de Shen Ying Feng estava em tumulto, mas a jovem médica ainda não sabia a hora de parar e o lembrou:
— Oficial, não pretende dar uma olhada?
Shen Ying Feng: …
Ela realmente tocou num ponto sensível!
Do outro lado, Du Changqing já estava cheio de ressentimento pelas acusações infundadas. Ao ver Lu Tong se manifestar, aproveitou o momento para atiçar ainda mais a situação:
— Os outros acusam nossa clínica sem provas, e os oficiais vêm aqui e revistam tudo. Agora que encontraram um cadáver do lado deles, por que os oficiais ainda estão enrolando aqui?
— Ai ai… — suspirou alto — Eu realmente não me comparo a certas pessoas. Como era mesmo o poema do Erudito Wu? Algo sobre mudas e pinheiros? Algo sobre altos e baixos?
Lu Tong respondeu:
— “Mudas na montanha e pinheiros no vale, o terreno acompanha altos e baixos.”
— Ah, isso mesmo! Eles são os da montanha, e nós os pinheiros no chão!
Shen Ying Feng: …
Teria sido melhor se ele não tivesse citado isso. No instante em que o fez, o rosto de Shen Ying Feng ficou verde de vergonha.
Todos sabiam que, por causa do caso do Erudito Wu no Salão de Exames, toda a corte estava em pânico. Aquele poema era como um presságio de morte. Em poucos dias, já implicara muitos oficiais. Fora o Censorado, todos na corte tremiam ao ouvir aqueles versos. Tinham medo de que alguma acusação caísse sobre suas cabeças.
Céus! Ele só estava cumprindo ordens para prender uma pessoa. Por que agora estava sendo rotulado daquela forma?
Que clínica amaldiçoada era essa? Um bando de insolentes! Nenhum deles disposto a seguir as regras!
Shen Ying Feng estava num beco sem saída. Justo quando tentava pensar em uma desculpa, ouviu Pei Yunhuan dizer:
— Vamos, Mestre Shen.
Ele ficou atônito:
— Comandante?
Aquilo implicaria a Guarda Imperial. E agora, com toda a burocracia de Shengjing já em caos, se algo acontecesse com a Guarda, Pei Yunhuan, como comandante, também enfrentaria dificuldades.
Pei Yunhuan sorriu, como se o frio em seus olhos antes tivesse sido apenas uma ilusão.
— Já que houve perda de vidas, e há envolvimento da Guarda Imperial, é natural que devamos ir verificar. — Falou com leveza. — Irei com você.
Embora estivesse falando com Shen Ying Feng, seus olhos estavam fixos em Lu Tong.
Lu Tong o encarou com tranquilidade.
Shen Ying Feng suspirou de alívio.
Se Pei Yunhuan quisesse ir com ele, melhor ainda. Como lidar com a situação e quais ações tomar seriam decididas por Pei Yunhuan. Assim, se algo acontecesse no futuro e alguém cobrasse explicações, ele poderia dizer com segurança que não teve nada a ver com isso. Afinal, Pei Yunhuan era o herdeiro do Duque Zhaoning, e ele, Shen Ying Feng, não era ninguém importante. Aos olhos dos colegas, era igual ao dono daquela clínica: uma cebolinha no chão... quer dizer, um pinheiro na base da montanha.
Shen Ying Feng chamou os soldados atrás dele:
— Irmãos, parem de cavar. Vamos todos para a Montanha Wangchun agora!
Os soldados começaram a juntar seus pertences. O pátio estava um caos. Lu Tong observava silenciosamente quando, de repente, uma sombra alta bloqueou a luz à sua frente.
Lu Tong ergueu o olhar.
Pei Yunhuan estava diante dela. Usava um cinto na cintura e uma espada de prata na lateral. Seus traços irradiavam um brilho distinto, e a luz da lua dava um tom frio às suas vestes coloridas, evocando um poema que Lu Qian havia aprendido quando começou a estudar:
O sol se põe, o vento de outono é frio.
Será que o velho amigo virá esta noite,
fazendo alguém esperar à sombra do plátano?
Infelizmente, o homem que aguardava na brisa outonal era apenas uma bela casca, incapaz de despertar nela qualquer emoção além da vigilância.
Lu Tong pensou em silêncio.
Desde o início até agora, exceto por um instante de frieza nos olhos ao ouvir o nome “Duan Xiaoyan”, ela não conseguira ver nenhuma outra mudança em suas emoções.
Mesmo que ele soubesse, naquele momento, que ela o havia incriminado.
Ela se recompôs e voltou a encará-lo:
— O comandante tem mais alguma instrução?
Pei Yunhuan olhou para baixo, para Lu Tong, e de repente deu uma leve risada. As covinhas nos cantos de seus lábios mal se distinguiam sob a luz.
— Desculpe por incomodá-la esta noite, Doutora Lu — disse em tom sugestivo. — Nós nos veremos novamente.
Do outro lado, Shen Ying Feng apressava os soldados. Inclinou-se profundamente para escoltar Pei Yunhuan na saída. Antes de partir, lançou um olhar furioso para Bai Shouyi, que estava de lado com uma expressão apreensiva.
Quando fez a denúncia, falara com tanta certeza que achava que teriam uma grande descoberta naquela noite. No fim, foi tudo em vão. Aquela clínica não tratava e salvava pacientes — passava o dia se difamando mutuamente! Quando esse assunto terminasse, ele com certeza faria uma reclamação ao Departamento Médico para que esses curandeiros fossem punidos!
Eles chegaram com estardalhaço, mas partiram em silêncio.
Num piscar de olhos, restava apenas o caos no pátio.
Ainda havia metade de um cadáver de porco ensanguentado no chão. Dai Sanlang, que havia vindo ajudar, olhou para Lu Tong e sugeriu gentilmente:
— Doutora Lu, ainda vai precisar desse porco? Se não precisar, eu o levo embora agora. Apesar do clima frio, um pedaço tão grande de carne vai feder se ficar aqui à noite.
Dai Sanlang era muito devotado a Lu Tong. Para ele, ela era um Bodisatva vivo que salvara sua vida. Se Lu Tong não tivesse preparado o Xianxian, ele não teria aquele corpo forte e robusto, muito menos teria conquistado a atenção da viúva Sun. Um homem devia ser grato.
Lu Tong se curvou para ele:
— Obrigada, Irmão Dai.
Dai Sanlang rapidamente balançou a mão:
— É bobagem, não precisa me agradecer. — Então, foi até a árvore no pátio, amarrou de novo o saco com o porco, agachou-se, levantou o pedaço de carne com facilidade e, casualmente, jogou a cabeça de porco ainda não apodrecida sobre o ombro. Com passos leves, saiu da clínica.
Depois que ele se foi, Bai Shouyi também se curvou para Du Changqing e forçou um sorriso:
— Jovem Mestre Du, já que foi só um mal-entendido, vou me retirar primeiro.
Du Changqing não disse uma palavra. Apenas o encarou e zombou.
Bai Shouyi cerrou os dentes, parecendo relutante em sair de mãos vazias. Com um ar embaraçado, curvou-se novamente e saiu da clínica, ignorando o olhar decepcionado de Xia Rongrong.
Xia Rongrong observou enquanto Bai Shouyi a deixava para trás e a fazia encarar sozinha o caos no chão. Subitamente, seus olhos se encheram de lágrimas e ela instintivamente olhou para Du Changqing:
— Primo...
A situação daquela noite fugira completamente às expectativas de Xia Rongrong.
A princípio, ela achou que, embora Du Changqing pudesse ficar bravo por ela ter se envolvido com Bai Shouyi em segredo, diante da gravidade do caso, ele acabaria entendendo suas boas intenções. Afinal, ela ajudou Du Changqing a enxergar a verdadeira face de Lu Tong, o que, no fim das contas, era para o bem da clínica.
Mas ela não esperava que, no final, Lu Tong saísse ilesa e ela se tornasse motivo de chacota. Até o “mérito” que pensava ter obtido com seu “arrependimento” desaparecera. E por isso, seu pequeno envolvimento com Bai Shouyi tornara-se imperdoável.
— Primo...
— Não diga mais nada — disse Du Changqing. — Já está tarde. Amanhã eu a levo de volta.
Xia Rongrong ficou atônita. Até esqueceu as lágrimas nos olhos.
Du Changqing... queria mandá-la embora?
Ela o conhecia há muitos anos e compreendia bem o caráter do primo. Era bondoso e facilmente influenciável. Se não fosse por isso, como poderia ter aceitado ser explorado por seus pais por tantos anos sem reclamar?
Mas agora... ele a estava expulsando sem piedade?
Xiangcao viu que Xia Rongrong ficou paralisada com a frieza de Du Changqing e apressou-se a dizer:
— Jovem Mestre, foi um mal-entendido esta noite. A senhorita estava preocupada com o salão médico, por isso agiu assim. Por favor, não entenda mal.
Mas Du Changqing não estava tão gentil quanto de costume.
Parado nos degraus, ele os encarava friamente, com um tom levemente sarcástico:
— Mal-entendido? Eu não acho. Como poderia haver mal-entendidos entre familiares? Agora que minha prima estabeleceu amizade com o Mestre Bai do Salão Médico Xinglin, ela tem um apoio mais confiável em Shengjing do que eu. Como primo, posso finalmente ficar tranquilo.
— E esses dias, adquirimos alguns novos materiais medicinais. O depósito já não é suficiente. É perfeito para esvaziar o quarto onde minha prima mora e usá-lo como armazenamento.
— Amanhã, você vai sair do salão médico. Minha casa é pequena e não consegue acomodar um Buda tão grande como minha prima. É melhor ela procurar outro lugar.
— Prima, você não acha?
Xia Rongrong ficou atônita.
Afinal, ela ainda era uma jovem moça, e nunca havia sofrido muito na vida. Quando fora tratada de forma tão cruel por alguém? Sem conseguir se conter, desatou a chorar. Ignorando as outras pessoas no pátio, abaixou a cabeça e correu para seu quarto.
Xiangcao bateu o pé de frustração e rapidamente a seguiu.
Restavam ainda menos pessoas no pátio.
Du Changqing ignorou Xia Rongrong, que se escondia no quarto chorando, e voltou o olhar para Lu Tong.
— Pois bem, já terminei de falar. Agora vamos falar de você. Doutora Lu, você está tão pálida que parece assustada. O que aconteceu esta noite…
Lu Tong pegou a lanterna e entrou no quarto. Fechou a porta com um estrondo e só deixou para trás uma única frase:
— Está muito tarde hoje. Falamos amanhã.
Du Changqing ainda segurava uma lanterna na mão. Ficou pasmo por um momento antes de perceber que Lu Tong havia batido a porta em sua cara. Apontou para a porta, indignado:
— Olha só essa atitude!
Yin Zheng tentou amenizar a situação:
— Mestre Du, nossa senhorita esteve ocupada o dia inteiro, e ainda se assustou à noite. Ela precisa descansar bem. Se tiver alguma dúvida, pode perguntar amanhã. Veja, já está tarde, e ainda preciso levantar cedo para limpar o pátio. Dá um trabalhão…
Du Changqing ficou sem palavras. Ah-Cheng também o aconselhou a ir embora. Assim, ele saiu contrariado e resmungando.
Depois que ele se foi, Yin Zheng parou diante do quarto de Lu Tong e bateu levemente na porta:
— Senhorita?
As luzes no quarto se apagaram. Depois de um tempo, a voz calma de Lu Tong soou:
— Estou cansada. Você também deve descansar.
Yin Zheng sempre obedecia às ordens de Lu Tong. Ao ouvir que sua voz não tinha nada de errado, respondeu e voltou ao seu quarto com a lanterna.
A silhueta do lado de fora da janela se afastou, e a luz da lua voltou a ser fria.
Após se certificar de que não havia mais ninguém, Lu Tong soltou a mão e, com ela, o gemido de dor que vinha tentando conter.
Gotas grossas de suor frio escorriam por sua testa. Seus lábios estavam tão brancos que quase pareciam transparentes. A coluna, que sempre mantivera ereta, agora estava completamente curvada. Ela apertava o peito e, por fim, não conseguiu mais suportar: caiu no chão, sem forças para se levantar.
Sua velha enfermidade havia retornado.
Ela sofria dessa condição duas ou três vezes por ano. Quando confrontou Pei Yunhuan no pequeno pátio momentos atrás, quase não conseguiu se manter de pé.
Mas naquele instante, não podia deixar que ninguém percebesse, então forçou-se a resistir. Mordia os lábios para manter o sangue circulando. Enquanto suportava a dor, ainda precisava lidar com os outros como se nada estivesse acontecendo.
Por isso, depois que despediu os soldados, quando Du Changqing tentou falar com ela, não hesitou em bater a porta em seu rosto.
Não era arrogância — se tivesse permanecido por mais um segundo, teria sido descoberta.
Uma dor intensa se espalhava a partir de seu coração. Aquela dor parecia viva, movendo-se do peito para os membros e ossos. Era como se alguém estivesse arrancando sua carne com uma lâmina, pedaço por pedaço. Ou como se uma palma gigantesca tivesse brotado de seu abdômen, segurando seus órgãos internos e os apertando brutalmente.
Lu Tong sentia tanta dor que caiu no chão, encolheu-se em posição fetal e cerrou os dentes com força para impedir qualquer som de escapar por seus lábios. Seus cabelos longos estavam encharcados de suor, uma mecha colada à bochecha.
O chão estava bagunçado pela busca caótica dos soldados. O papel de arroz da mesa havia sido jogado por toda parte, caindo como grandes flocos de neve.
Ela jazia em meio a esse caos, em agonia, sua consciência desvanecendo. Mal conseguiu distinguir uma figura embaçada se aproximando.
A figura caminhou lentamente até ela. Vestia uma jaqueta carmesim e uma saia de seda branca. O rosto era fino, a cintura esguia.
Ela descia calmamente da encosta coberta de flores de ameixeira vermelhas. A lanterna entalhada em sua mão iluminava a neve enlameada. Na escuridão da noite, parecia um vaga-lume fraco num cemitério.
Lu Tong murmurou:
— Senhora Yun…
A mulher abaixou os olhos para ela e sorriu levemente. Seu tom era calmo e arrepiante.
— Pequena Dezessete, para onde pensa que está fugindo?
…
Era o segundo ano desde que Lu Tong chegara ao Pico Luomei.
Ela decidira fugir.
A jovem Lu Tong não conseguia se adaptar ao clima frio do Pico Luomei, nem suportar a dor causada pelos testes de medicamentos da Senhora Yun a cada poucos dias. Certa noite, após suportar novamente a tortura causada por um novo remédio, Lu Tong, coberta de suor, deitou-se no chão e olhou para a lua brilhante além da janela. Estava determinada a fugir daquele maldito lugar.
Quando não estava testando medicamentos, a Senhora Yun passava a maior parte do tempo fora da montanha. Na cabana no Pico Luomei, só restava Lu Tong.
Ela passou muito tempo explorando uma rota segura e preparou carne seca e água suficientes. Pensava ter sido paciente e cautelosa o bastante.
Depois que a Senhora Yun desceu a montanha novamente, Lu Tong pegou sua trouxa e a seguiu em segredo.
Achava que, ao chegar ao sopé da montanha, poderia voltar ao condado de Changwu.
Ainda havia uma certa distância entre Sunan e Changwu, mas ela pensava em como seguiria viagem, de barco ou a pé. Eventualmente, conseguiria voltar para casa.
O dia em que Lu Tong fugiu foi numa noite de primavera.
A neve do Pico Luomei acabara de derreter. As flores de ameixeira vermelhas exalavam um aroma suave. Ela caminhou por um dia e uma noite. Quando viu que havia chegado ao pé da montanha e que a pequena cidade estava próxima, seu peito começou a doer.
A dor era leve no início, mas logo se tornou insuportável. Ela se encolheu no chão, contorcendo-se de dor. Não sabia o que estava acontecendo com seu corpo.
Justo quando achou que iria morrer, a Senhora Yun apareceu.
Ela desceu a montanha com uma lanterna para procurá-la.
Parou nos degraus e olhou para Lu Tong, que se retorcia de dor. A luz iluminava o rosto da Senhora Yun e o sorriso em seus lábios.
Seu tom era mais gentil que o normal. Parecia nem ter notado o fato de que Lu Tong havia fugido.
Ela sorriu e perguntou:
— Pequena Dezessete, o que faz aqui?
Lu Tong gemeu.
A mulher a observou com atenção e, surpresa, disse:
— Será que você queria fugir?
A dor era tanta que Lu Tong não conseguia falar. Quase mordeu os lábios de tanto sofrimento.
A voz da Senhora Yun era indiferente, como uma maldição impossível de quebrar:
— Você se vendeu para mim em troca da vida de seus pais e irmãos. Essa dívida ainda não foi paga. Por que quer ir embora?
— Para onde pensa que pode fugir?
Era primavera. A neve da montanha havia derretido. Após o degelo, o solo era mais frio do que no inverno. Era como se o frio pudesse penetrar até o coração.
Lu Tong sabia que não poderia escapar. Então, com dificuldade, disse:
— Me desculpe, Senhora Yun… Eu… eu sinto falta da minha família…
A Senhora Yun suspirou.
— Quando fizemos nosso acordo, ficou muito claro: a menos que eu morra, você não pode deixar a montanha. — Ela lançou um olhar para o rosto contraído de dor de Lu Tong e sorriu. — Entendeu?
Se Lu Tong não havia entendido antes, naquele momento compreendeu completamente.
Ela não podia deixar o Pico Luomei. E a Senhora Yun nunca permitiria que ela o fizesse.
A Senhora Yun era a melhor médica do mundo — e também a melhor mestra dos venenos. Antes que Lu Tong percebesse, já havia sido envenenada. Ela jamais conseguiria sair do Pico Luomei.
As lágrimas escorriam pelo rosto de Lu Tong.
A garotinha rastejou alguns passos à frente. Ao lado dela, estavam pedaços de carne seca e comida espalhada no chão. Ela se arrastou até os pés da mulher e agarrou a barra da saia. Chorando, implorou como na primeira vez em que se encontraram:
— Senhora Yun… eu errei… não vou fugir mais…
— Por favor… me salve…
Ela não podia morrer.
Ela não podia morrer ali.
Tinha que viver. Somente vivendo poderia ver seus pais e irmãos novamente. Somente viva poderia ter uma chance de mudar seu destino.
A neve de primavera na montanha estava parcialmente derretida. As flores de ameixeira eram finas como jade e perfumadas. A saia da Senhora Yun também carregava o aroma leve das flores. Ela a encarou por muito tempo, interessada, como fizera incontáveis vezes no passado.
Agachou-se, pousou a lanterna entalhada ao lado, pegou um lenço de seda e gentilmente enxugou o suor da testa de Lu Tong. Sorriu de leve:
— Eu a perdoo, Pequena Dezessete.
— Que isso lhe sirva de lição. Não pense em fugir no futuro.
Ela a repreendeu com seriedade e paciência, como uma mestra instruindo uma aluna:
— Uma pessoa sem integridade é imprevisível. É preciso cumprir a palavra.
…
A lua clara iluminava suavemente a janela. Os brotos frios do lado de fora ainda não haviam florescido, e apenas os galhos recortados das ameixeiras projetavam suas silhuetas graciosas no papel da janela.
No meio da bagunça, Lu Tong estava caída no chão. Seu corpo inteiro encharcado de suor. Assim como há muitos anos, no Pico das Ameixeiras Caídas, ela recitava em silêncio.
— Ser indiferente ao favor ou à desgraça: o fígado, elemento madeira, permanece tranquilo… Ser respeitoso ao se mover: o coração, elemento fogo, mantém-se em paz… Ser disciplinado ao comer: o baço, elemento terra, não excreta… Ser silencioso ao regular a respiração: os pulmões, elemento metal, permanecem perfeitos e íntegros… Ser feliz e ter poucos desejos: os rins, elemento água, sustentam-se…
Ela superaria aquilo. Toda a dor desapareceria.
Era assim há tantos anos. Nada havia mudado.
Um choro feminino baixo ecoava vagamente do pequeno pátio. Era Xia Rongrong chorando para Xiangcao dentro do quarto.
Assim, os gemidos abafados vindos de outro cômodo também foram engolidos pelo silêncio da noite.
0 Comentários