Nas ruas de Qinghe, ao sul da cidade, carroças luxuosas e cavalos disputavam espaço, enquanto sons de risos e músicas vindos dos prédios vermelhos do mercado ecoavam noite adentro. Na noite do décimo quinto dia, cada família realizava um banquete noturno, e sobre a ponte sob a lua, havia duas luas redondas — uma no céu e outra na água — iluminando toda a cidade de Shengjing com um luar brilhante.
Enquanto a cidade era tomada por cantorias e brindes, um certo pátio na Mansão do Príncipe Wen parecia excepcionalmente desolado e silencioso.
Dentro do quarto, uma luz fraca vinha da lareira. A cama havia sido trocada por uma roupa de cama limpa. A cortina de gaze cortada pela lâmina fora substituída por uma cortina verde e limpa. O tecido, macio e delicado, envolvia gentilmente a pessoa deitada na cama.
Pei Yunshu estava muito fraca após o parto. Estava tão exausta que adormeceu. A recém-nascida já havia sido alimentada com um pouco de leite pela ama de leite. Seu rostinho enrugado parecia o de um macaquinho recém-nascido e frágil. Ela se encolhia no embrulho, aconchegada ao lado da mãe.
A “Tristeza da Criança” que a afligia ainda não estava completamente curada. A indução do parto antes que o veneno se espalhasse por completo deu àquela garotinha uma tênue chance de sobrevivência. Yun Niang havia dito que a “Tristeza da Criança” era incurável — mas ela se referia aos casos onde o veneno já estava profundamente enraizado. Por sorte, ainda havia tempo.
Entretanto, ela ainda era jovem demais para tomar remédios fortes. Precisaria de cuidados constantes até que o veneno fosse completamente eliminado de seu corpo.
Por ora, Pei Yunshu e sua filha estavam fora de perigo. Os criados da mansão do príncipe limpavam apressadamente a bagunça do quarto. Lu Tong sentava-se a uma mesa no canto, segurando pincel e papel, refletindo sobre o antídoto.
O ambiente estava silencioso. De tempos em tempos, uma criada se aproximava e perguntava, em voz baixa, sobre os cuidados na decocção das ervas. Yin Zheng havia retornado à clínica. Os subordinados de Pei Yunhuan a trouxeram de volta. O ocorrido daquele dia foi tão repentino que ninguém teve tempo de avisar Du Changqing. Se ele não entendesse a situação e insistisse em esperar por Ah-Cheng no banquete caro do Restaurante Renhe até tarde da noite, isso não seria nada bom.
Sob a luz fraca, Lu Tong pegou o pincel e escreveu algumas palavras no papel. Em seguida, franziu o cenho e riscou o que havia acabado de escrever. Os caracteres rabiscados foram apagados. As marcas de tinta foram se desfazendo lentamente, como as estrelas dispersas da noite além da janela.
Ela se lembrou, de repente, que naquela noite era o Festival do Meio-Outono.
Os caracteres à sua frente tornaram-se ainda mais embaçados, como se tivessem ganhado vida. Emitiam risadas e conversas, cujas vozes ecoavam nos ouvidos dela, sussurrando incessantemente, delineando os caminhos escuros do Condado de Changwu.
As pedras na entrada do pequeno caminho haviam sido alisadas com lajes de pedra, e entre suas frestas crescia musgo verde e fofo. Uma luz amarela tênue brilhava pela janela no fim do caminho, projetando uma sombra longa e antiga sobre o chão de pedra azul, refletindo a imagem dela mesma.
Ela estava parada diante da porta e ouvia, ao longe, as risadas da família toda. Lu Tong hesitou por um instante, então empurrou a porta e entrou.
Sua mãe estava à porta preparando incenso para a oferenda à lua, quando ouviu Lu Rou e Lu Qian conversando no pátio. Ela caminhou pelo corredor e viu que a mesa de pedra no pátio estava coberta com um pano rústico, repleta de doces fritos com mel e bolinhos fofos comprados no mercado noturno. Lu Rou arrumava frutas frescas sobre a mesa de pedra, enquanto Lu Qian posicionava um grande prato de porcelana cheio de bolos da lua.
—Recheio de pinhão com creme, recheio de tâmara com creme, recheio de frutas com gergelim, recheio de pasta doce... — Lu Qian ergueu os olhos e suspirou. — Todos são doces demais. Mãe, a senhora não precisa fazer os bolos da lua do jeitinho que a minha irmã gosta.
Lu Rou franziu os lábios num sorriso.
—Você pode comer só a massa e deixar o recheio pra Tongtong.
—Ainda alimentando ela com esses recheios... — o menino revirou os olhos. — Se ela comer mais doces, não vai caber no vestido novo.
O pai saiu de dentro de casa acariciando a barba.
—Hoje é dia quinze. Consegui uma pintura chamada Luar e Sons de Outono na academia. É uma boa oportunidade para testar vocês. Cada um vai pensar num poema e escrevê-lo depois da cerimônia de oferenda à lua. Quem não conseguir, será punido.
Assim que terminou, uma voz contrariada se fez ouvir:
—Pai, por que temos que escrever poema no dia quinze? Não quero! Quero ir ao templo ver as lanternas flutuantes!
A voz era clara e cheia de arrogância infantil, mas fez Lu Tong estremecer.
Uma menininha de cinco ou seis anos saiu correndo de dentro de casa. Vestia uma jaquetinha amarelo-claro com uma saia simples por baixo. Dos dois lados do cabelo, usava enfeites em formato de borboletas recortadas em papel dourado escuro. Era como uma borboleta viva — num piscar de olhos, voou para o pátio. Seu rostinho redondo estava corado de raiva, tão irritada que até as borboletinhas em seu cabelo tremiam.
—Lu Tong! — o pai gritou, com o rosto vermelho de raiva. — Como uma mocinha pode sair correndo assim, sem rumo? O que isso significa?
—Hoje é o dia quinze. Não me importo! — a garotinha correu e se escondeu atrás da mãe. — Quero ir ao templo ver as lanternas!
—Não vai!
A menininha bateu o pé.
—Eu vou!
Lu Tong ficou ali, parada, encarando por muito tempo aquela garotinha destemida escondida atrás da mãe. O sorriso vívido e inocente em seu rostinho fazia com que Lu Tong ficasse tonta por um instante.
Essa era eu... mas tão distante, tão estranha — parecia outra pessoa.
A pequena Lu Tong, com cerca de cinco ou seis anos, passou correndo por ela como uma rajada de vento. Instintivamente, ela seguiu sua sombra e viu a garotinha parada atrás dela, olhando-a com espanto:
—Quem é você?
—Quem... sou eu? — Lu Tong repetiu, num murmúrio.
A lua foi sendo encoberta por nuvens escuras, já não tão brilhante quanto antes. Seus antigos familiares estavam juntos, olhando para ela com desconfiança, como se enxergassem uma estranha perigosa que havia invadido o lar de repente.
Lu Rou segurava com força a pequena Lu Tong. Lu Qian olhou para ela e gritou surpreso:
—Sangue!
Lu Tong baixou os olhos.
Sua mão estava coberta de sangue, e o líquido espesso escorria de seus dedos, formando uma pequena poça no chão.
Ela olhava, atônita, para aquela cena.
Sim, eu matei alguém. Minhas mãos estão manchadas de sangue.
Ela não era mais a protegida, despreocupada, Terceira Jovenzinha da Família Lu. Não era mais o xodó da família. A partir do momento em que matou alguém, não havia mais volta.
Alguém chamou seu nome com ternura e afeto.
—Pequenina Dezessete...
Ela se virou de repente. Senhora Yun estava atrás dela. O padrão de caquis em sua jaqueta cor-de-rosa era deslumbrante. Ela segurava uma tigela de remédio marrom e acenava com um sorriso.
—Venha.
O vento frio entrou pela janela e a luz da vela na mesa tremeluzia.
Lu Tong estremeceu — e acordou do sonho.
Não havia pátio da Família Lu em Changwu, nem cerimônia de oferenda à lua no pátio quinze, nem pais, nem irmãos, nem Senhora Yun.
Ao longe, uma cortina azul pendia. O quarto estava aquecido e vivo. Aquilo não era Changwu. Era o quarto da Princesa Wen — Pei Yunshu.
Foi apenas um sonho...
A luz fraca da vela parecia um véu tênue sobre seu corpo. Ela sentou-se ali, atônita, até ouvir alguém chamá-la:
—Doutora Lu.
Lu Tong ergueu o olhar, confusa.
Na mesa, Pei Yunhuan notou sua expressão e se surpreendeu levemente.
Já era bem tarde. Pei Yunshu e a filha estavam fora de perigo por enquanto. Os criados no pátio ainda trabalhavam. Pei Yunhuan pretendia perguntar a Lu Tong sobre Pei Yunshu. Assim que entrou no quarto, viu Lu Tong sentada à mesa no canto, cochilando.
Ela havia chegado à Mansão do Príncipe Wen logo cedo. Diziam que estava ali apenas para entregar chá medicinal a Meng Xiyan, mas acabou ficando por acaso. Depois de um dia tão atribulado, devia estar exausta e adormeceu ali mesmo, sentada.
Ele deu a volta na pequena mesa, prestes a cobri-la com um cobertor fino, quando percebeu que Lu Tong franzia o cenho. Antes que pudesse reagir, ela abriu os olhos, como se tivesse sentido sua aproximação.
Provavelmente ainda estava meio perdida do sonho. Seus olhos não mostravam o mesmo foco e clareza de sempre — pareciam vidrados e vagos, como um vaso de porcelana cheio de rachaduras, prestes a se partir.
Os olhos de Pei Yunhuan brilharam.
Após uma pausa, ele perguntou:
—Você está bem?
Ao ouvir isso, o olhar perdido de Lu Tong se dissipou. Voltou a ficar límpido. Ela olhou para Pei Yunhuan e assentiu.
—A irmã está dormindo — disse ele, olhando para a cama. Depois, com voz baixa: — Vamos sair um pouco e comer algo?
O lembrete a fez perceber a fome. Não havia comido nada o dia todo. Guardou o papel e o pincel sobre a mesa e saiu com Pei Yunhuan.
Já era quase meia-noite. A lua brilhava no pátio. Debaixo da árvore de osmanthus do pequeno jardim, havia algumas frutas sobre a mesa de pedra. O jardim da Mansão do Príncipe Wen estava sempre repleto de flores — osmanthus dourado, osmanthus prateado, osmanthus vermelho... Quando o vento soprava, as flores caíam com um leve ruído, espalhando seu perfume por todo o pátio.
Lu Tong sentou-se em meio à fragrância das flores de osmanthus.
Pei Yunhuan acomodou-se diante dela. Sobre a mesa repousava uma bandeja de chá vermelha com flores de macieira. Havia seis pequenos bolinhos da lua sobre ela, além de um pote de doces de osmanthus, um prato de bolinhos cozidos no vapor com castanhas e osmanthus, e várias tigelinhas de porcelana azul e branca decoradas com padrões de lótus, cheias de bolinhos doces.
Ele pegou o bule de porcelana e serviu o chá, dizendo:
— Já está tarde. O chá e os petiscos são simples. Doutora Lu, peço que nos perdoe.
— Obrigada — respondeu Lu Tong, pegando uma das pequenas tigelas com bolinhos doces. Usando uma colher de prata, colocou um na boca.
Os bolinhos eram macios e pegajosos. Havia osmanthus e nozes em seu interior. O sabor era perfumado e adocicado. Depois de comê-lo, seu corpo aqueceu.
Ao ver que Lu Tong estava gostando dos bolinhos doces, Pei Yunhuan sorriu e empurrou para ela a xícara de porcelana azul e branca.
Lu Tong lançou um olhar para a xícara.
Pei Yunhuan disse:
— Não é vinho. É apenas chá vermelho de osmanthus.
Lu Tong nunca tinha provado aquilo antes. Ao ouvir isso, deu um pequeno gole. Tinha um leve sabor adocicado e um perfume suave de chá.
A lua estava brilhante, e o vento era sereno. A luz das velas era tênue. Não havia mais ninguém no pátio. Apenas o som de uma cítara vinha de fora dos muros. A melodia flutuava sobre os bordéis iluminados, pelas ruas perfumadas e jardins floridos, pelos becos tranquilos, pelos muros vermelhos das residências sombrias, até se perder sob a sombra da árvore de osmanthus.
Lu Tong escutou por um tempo. Sentiu que o som da cítara era melancólico. Em meio a esse festival alegre de reencontros, transmitia a tristeza de não poder reunir-se sob a lua brilhante, a amargura da vida residia no sentimento da separação.
Ela franziu levemente a testa e ergueu o olhar, apenas para encontrar o olhar pensativo de Pei Yunhuan.
Ao vê-la olhar para ele, ele sorriu.
— Isso é da parte Quebrando Galhos de Osmanthus, de Peregrinação à Montanha de Jade.
Lu Tong não disse nada.
Havia muitos livros em casa, mas nenhum instrumento de cítara. Uma boa cítara era muito cara.
Lu Rou gostava de tocar cítara, então seus pais economizaram algum dinheiro e compraram uma antiga para ela.
Lu Rou tocava bem e era bonita. Muitos jovens que secretamente a admiravam se agachavam em frente à porta da família Liu à noite para ouvi-la tocar. O vendedor de sementes de melão da casa ao lado costumava se assustar com o grupo de rapazes que se aglomerava em sua barraca tarde da noite. Mais tarde, a cítara foi vendida — os vizinhos eram rancorosos demais.
— Ouvi dizer que a doutora Lu é de Sunan? — a voz interrompeu suas lembranças. Pei Yunhuan olhava para ela com um sorriso. — Como a doutora costumava celebrar o Festival do Meio do Outono?
Ela reuniu os pensamentos e respondeu friamente:
— Eu não celebrava o Festival do Meio do Outono no passado.
Isso não era mentira. Pelo menos nos anos em que viveu no Pico Luomei, a lua do décimo quinto dia do oitavo mês não era diferente da lua de qualquer outro dia.
Ao ouvir sua resposta vaga, Pei Yunhuan suspirou e olhou para ela com um olhar que misturava sinceridade e brincadeira:
— Doutora Lu, não precisa estar tão na defensiva comigo. Pelo menos esta noite, não deveríamos ser inimigos.
Ela acabara de salvar sua irmã e sobrinha. Então, por ora, ele não se voltaria contra ela.
Lu Tong ergueu os olhos com calma e encarou o homem à sua frente.
O vento da noite era tranquilo. A luz da lua cobria o uniforme escarlate do jovem com uma camada de geada prateada, tornando seu rosto belo ainda mais marcante.
Sua voz era clara, e seu sorriso, radiante. À primeira vista, via-se que tivera uma boa educação. Sabia se portar com elegância, sendo cortês e gentil com os outros. Mesmo quando suspeitou que ela havia matado alguém, manteve o sorriso no rosto, como se nada no mundo o preocupasse.
Mas Lu Tong se lembrava de que, não muito tempo atrás, diante da cama de Pei Yunshu, ela havia visto — através da fresta da cortina — o momento em que ele desembainhou sua longa espada de prata. Foi a primeira vez que presenciou o lado assassino de Pei Yunhuan.
Por muito tempo, ele havia se mantido altivo e seguro, como um enigma impecável diante dos outros, impossível de se decifrar. Mas naquele momento, ela viu a falha oculta nas profundezas desse enigma, ou melhor, sua fraqueza.
Pei Yunshu era sua fraqueza.
Sua fraqueza era sua família.
Ao notar que ela permanecia em silêncio, Pei Yunhuan a analisou com o olhar.
— Por que não está dizendo nada?
Lu Tong respondeu com indiferença:
— O que o senhor Pei quer que eu diga?
Pei Yunhuan pensou por um momento, pousou a xícara e olhou para ela.
Sob a sombra das flores de osmanthus, a luz sobre a mesa de pedra era tênue. Os olhos escuros dele refletiam o brilho da lua enquanto a observava. Não havia mais sondagem ou arrogância em seu olhar. Em vez disso, havia uma leve despreocupação, algo raro de se ver nele.
— Obrigado — disse ele.
O tom era solene.
Lu Tong ficou surpresa.
Embora não tivesse convivido muito com Pei Yunhuan, acreditava conhecer um pouco sobre ele. Para jovens mestres de famílias nobres como ele, a cordialidade era apenas uma máscara para demonstrar educação. A chamada polidez era, na verdade, distância. E a cortesia, arrogância disfarçada.
Mas naquele momento, sua gratidão era sincera. Talvez fosse porque Pei Yunshu e sua filha realmente significassem muito para ele.
Pessoas com fraquezas são sempre mais fáceis de lidar.
Enquanto pensava nisso, ouviu Pei Yunhuan dizer:
— Obrigado por ajudar hoje. Para ser honesto... — Ele olhou para a xícara à sua frente e sorriu. — Achei que você não ajudaria.
Lu Tong zombou por dentro.
Aos olhos de Pei Yunhuan, ela era uma assassina, uma caluniadora, alguém de intenções obscuras e métodos cruéis. Seria demais esperar que ele acreditasse que ela era uma bodisatva viva, capaz de curar doenças e salvar vidas.
Ela usou a colher de prata para mexer os bolinhos doces na pequena tigela diante de si e respondeu:
— Inicialmente, eu não ia salvá-las.
Pei Yunhuan arqueou as sobrancelhas.
— Então por que mudou de ideia?
Lu Tong sorriu e encarou diretamente os olhos dele.
— Porque, se eu não salvasse, não teria a chance de fazer o senhor Pei me dever um favor.
Pei Yunhuan ficou paralisado ao ouvir isso.
Uma rajada de vento soprou e as folhas do osmanthus sussurraram. A brisa da noite, misturada à chuva dourada das flores, caiu sobre eles, espalhando seu perfume.
Parecia ser uma certa tarde na rua Qinghe, em frente à casa de penhores, quando o jovem comandante pagou pelo grampo de flores para a médica que estava sem dinheiro. Ele se colocou diante dela com um sorriso ambíguo.
"Porque, se eu disser, então não haverá chance da doutora Lu me dever um favor."
Em poucos meses, ela havia devolvido as mesmas palavras. Ninguém sabia se era coincidência... ou vingança.
O jovem estalou a língua e lembrou:
— Não pode dizer isso. Contando aquela vez na Torre Baixiang, eu já salvei você duas vezes.
— Oh? — Lu Tong não demonstrou gratidão. — Mas hoje eu entrei em perigo porque salvei a princesa Wen. Além disso, sou uma pessoa comum. Minha vida não tem o mesmo valor que a da princesa e de sua filha. Pensando bem, o comandante é quem me deve mais.
Ao falar sobre o valor da vida, seu tom era calmo, mas seus olhos não conseguiam esconder certo desprezo.
As sobrancelhas de Pei Yunhuan se moveram, e ele provocou com um sorriso:
— Quem disse isso? A doutora Lu é médica. Como pode haver distinção entre alto e baixo valor da vida em seus olhos?
— Aqueles que são abençoados são servidos. Os que não são abençoados... servem aos outros.
— A princesa Wen é servida pelos outros. Eu, sirvo aos outros. Essa é a diferença entre alto e baixo.
O sorriso dele enfraqueceu um pouco.
— Tão vulgar assim?
— Os pobres sempre são vulgares.
Ele assentiu e se inclinou levemente para frente. Fitou Lu Tong com seus olhos escuros e curvou os lábios.
— Sempre são os vilões que fingem ser heróis. Por que a doutora Lu faz o contrário?
O coração de Lu Tong bateu mais rápido.
Os olhos pretos e brilhantes dele pareciam capazes de enxergar dentro de sua alma. Suas covinhas apareciam suavemente sob a luz da lua. Era encantador.
Lu Tong abaixou os olhos.
Ele era realmente bonito... mas isso não adiantava de nada. Remédio com aparência agradável podia servir para fazer veneno. Homens bonitos... eram apenas isso: bonitos.
Pei Yunhuan também observava Lu Tong.
No fim da noite, sob a lua encantadora, a mulher sentada sob a luz tênue era bela. Comparada às mulheres deslumbrantes de Shengjing, ela lembrava mais a delicadeza das belezas do sul. Seu corpo era esguio e leve, como se uma rajada de vento pudesse carregá-la.
Seu vestido azul antigo, bordado com padrões semelhantes a algas, estava manchado de sangue — provavelmente adquirido durante o parto — e os punhos já apresentavam sinais de desgaste. Seus cabelos negros estavam trançados — talvez por praticidade ao preparar medicamentos. Estavam um pouco desalinhados agora. A flor de veludo azul presa à têmpora era a mesma que usara quando se encontraram pela primeira vez, na Torre Baixiang. Estava ensanguentada, não muito limpa. Mas sob a luz da lua, parecia difusa. Dava a impressão de que ela estava ali sozinha — e profundamente solitária.
Os olhos de Pei Yunhuan brilharam por um instante.
Ela parecia muito econômica. Embora tivesse dito a Duan Xiaoyan que as roupas de Lu Tong custavam caro, tinha que admitir que, na maioria das vezes, ela usava trajes velhos. Nunca ostentava joias. Era tão simples que nem parecia uma moça de dezessete ou dezoito anos.
No entanto, o Salão Médico Renxin havia ganhado muito dinheiro nos últimos seis meses.
A luz da lua caía sobre a mesa de pedra através das sombras das árvores. A noite ainda era longa, e o amanhecer estava distante.
Ele tomou um gole de chá e sorriu.
— E então, quanto a doutora Lu quer?
Lu Tong permaneceu em silêncio.
Pei Yunhuan a encarou com calma.
Após um tempo, Lu Tong falou:
— Senhor Pei, vamos fazer um acordo.
— Que tipo de acordo?
— Eu salvei a princesa e sua filha. Duas vidas. Uma é para retribuir a que o senhor me salvou na Torre Baixiang. A outra é para que finja que nada aconteceu na Montanha Wangchun. O mal-entendido é deixado de lado — Lu Tong manteve-se serena.
A curto prazo, não queria ter mais envolvimento com os Guardas Imperiais.
Aquele homem era realmente difícil de lidar. Se tentasse se livrar dele, inevitavelmente levantaria suspeitas. Mas, vendo o quanto ele se importava com Pei Yunshu, ao menos nesse assunto, ele lhe devia um favor.
Pei Yunhuan não esperava que essa fosse a condição de Lu Tong. Ficou surpreso por um instante, depois riu suavemente. Olhou para ela com um olhar sutil.
— Por que não mencionou o Mestre Ke?
— Doutora Lu, está tentando se safar?
Lu Tong arqueou ligeiramente a sobrancelha. Ele havia adivinhado corretamente.
Ela sorriu de leve.
— Tem alguma prova?
O jovem suspirou.
— Não.
Balançou a cabeça e riu:
— Fechado. Não me importo com as desavenças pessoais entre vocês.
— Não vou mais me envolver nesse assunto. Mas da próxima vez, não cobrirei você.
Lu Tong ficou surpresa. Achou que ele tentaria sondá-la primeiro. Não esperava que ele aceitasse tão rápido. Estava sendo mesquinha.
Pegou um bolinho da lua do prato e comeu. Era do tipo que ela mais gostava: recheado com creme e pinhão. Era tão doce que chegava a ser um pouco enjoativo. Comeu devagar. Pei Yunhuan, sentado à sua frente, a observava comer, até que de repente perguntou:
— Doutora Lu, quem é seu mestre?
Lu Tong parou.
Pei Yunhuan olhou para o bolinho da lua que restava sobre a bandeja de chá vermelha com flores de macieira na mesa.
— Você disse que o veneno no corpo da minha sobrinha era difícil de neutralizar. Se a sua mestre pudesse ajudar...
Essa também era uma pergunta que Pei Yunshu já lhe fizera. Lu Tong respondeu:
— Minha mestre faleceu.
Pei Yunhuan engoliu as palavras que estavam por vir.
Lu Tong pensou por um instante.
— Farei o meu melhor para desintoxicar a jovem princesa. Senhor Pei, pode ficar tranquilo por enquanto.
Essas palavras soaram como uma promessa séria — diferente da habitual frieza com que contava pequenas mentiras.
Pei Yunhuan sorriu.
Na verdade, ele estava sendo paranoico. Havia tantos médicos no Hospital Imperial. E ainda assim, apenas Lu Tong havia descoberto a verdade sobre o envenenamento de Pei Yunshu. Pelo menos em Shengjing, suas habilidades médicas não deviam ser subestimadas.
À medida que a noite se aprofundava, a alegria do lado de fora dos muros seguia ininterrupta. Em meio à melancólica música de flauta, o orvalho outonal cintilava como pérolas, e a lua de outono lembrava um disco de jade. À sombra oscilante das árvores de osmanthus, a luz fluida fazia a mulher parecer-se com Chang’e no Palácio da Lua, distante do mundo.
Chang’e talvez se afastasse do mundo, mas ainda assim tinha um gosto por doces.
Pei Yunhuan viu Lu Tong pegar mais um pedaço de bolo de castanha cozida no vapor com osmanthus. Não pôde evitar de rir. O vento soprou os cabelos de Lu Tong. Ele se deteve por um instante e, de repente, congelou.
No rosto claro da mulher, havia uma mancha de sangue muito leve logo abaixo da orelha. Provavelmente causada pela espada durante a luta no quarto. Era como uma garrafa de porcelana branca e jade que de repente apresentava uma rachadura. Muito chamativo. Antes, estivera coberta por seus cabelos desgrenhados, mas agora estava exposta.
Ele hesitou.
—Seu ferimento...
Lu Tong tocou o local de maneira casual e disse:
—Está tudo bem. Vai sarar depois que eu passar um pouco de remédio em casa.
Ao ouvi-la, Pei Yunhuan se lembrou da primeira vez em que se encontraram na Torre Baoxiang. Naquela ocasião, ela era mantida como refém e havia sangue em seu pescoço. Ele, com certa gentileza, lhe entregou um frasco de remédio para remover cicatrizes. Ela o deixou na loja de cosméticos sem nem ao menos olhar.
Ela era muito fria.
Pensando nisso, seu olhar recaiu sobre a flor de veludo azul presa no cabelo de Lu Tong.
As três agulhas de prata escondidas atrás da flor de veludo azul eram afiadas — mais letais do que armas ocultas comuns. Ele também se lembrou do corpo do guarda que viu quando correu para o quarto de Pei Yunshu à tarde, cercado por pedaços de um vaso quebrado. Mais tarde, quando Fangzi lhe contou sobre a situação, sua voz estava cheia de incredulidade. Ela ficou chocada com a frieza daquela frágil médica.
Pei Yunhuan pensou, com certa indiferença, que talvez Lu Tong sequer tivesse se ferido se ele não tivesse chegado naquele momento. As agulhas escondidas em sua flor de veludo eram realmente afiadas. Ela nunca foi alguém que esperaria a morte de braços cruzados.
A música da cítara havia cessado em algum momento, e a luz da lua, junto com a fragrância dos osmanthus, caía sobre ela no pátio. Lu Tong ergueu os olhos e cruzou o olhar com o de Pei Yunhuan. Os olhos dele eram escuros e brilhavam sob a luz. A túnica escarlate de oficial lhe dava um ar menos rígido e mais romântico. Ele estava extraordinariamente bonito.
O céu parecia água. Em uma noite tão bela, com osmanthus frios, chá leve, música de cítara e velas, dois indivíduos bebiam juntos no pátio à luz da lua. O jovem de vestes negras era belo, e a jovem era suave e delicada. Pareciam velhos amigos que se conheciam há muito tempo.
Lu Tong disse:
—O veneno no corpo da Consorte Princesa se acumulou por muito tempo. Está muito bem escondido. Quem a envenenou certamente está escondido dentro da residência.
—Você vai deixar isso passar assim?
Seus olhos se moveram ligeiramente. Ele arqueou uma sobrancelha e sorriu:
—Doutora Lu, o que sugere?
Lu Tong pegou o bule de porcelana sobre a mesa e serviu uma xícara de chá para si. Ergueu a xícara na direção de Pei Yunhuan.
Disse suavemente:
—Comandante, permita-me oferecer-lhe um presente.
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