Capítulo 71


 O Imperador Cheng parecia estar em constante conflito com Chu Xiuming. Com ele presente na capital, o imperador não tinha um único dia de sossego. Ainda antes do fim do ano, chegaram-lhe notícias de uma rebelião popular em Shuzhong¹. Ao ouvir isso, o Imperador Cheng, que estava prestes a visitar um pequeno nobre que lhe era querido, ficou completamente sem ânimo. Quase chegou a desmaiar.

— O que você disse?! Quantos revoltosos há?! — exclamou, furioso.

O pequeno eunuco que havia trazido a notícia prostrou-se no chão, sem ousar levantar a cabeça. Atrás do imperador, o velho eunuco Li Fu soltou um suspiro, olhando para o jovem com certa pena. A voz do eunuco tremia quando respondeu:

— Em resposta a Vossa Majestade... são milhares de pessoas.

O Imperador Cheng desferiu um chute no pequeno eunuco, jogando-o ao chão, e ainda o golpeou mais algumas vezes. O rapaz não ousou sequer chorar. Quando o imperador terminou de descarregar sua raiva, o eunuco jazia sangrando, encolhido no chão, com a respiração fraca e irregular. Ainda assim, o Imperador Cheng parecia ainda mais irritado.

— Levem-no daqui! — ordenou, com o semblante carregado.

Li Fu apressou-se em chamar dois outros eunucos para carregarem o rapaz para fora do salão e o enviou até os portões do palácio. Tirando discretamente algumas moedas de prata do bolso, entregou-as aos dois:

— Está é uma época de festas... tentem salvá-lo.

Aquilo havia sido um verdadeiro desastre. Ainda assim, era melhor que o imperador extravasasse sua fúria em outros do que nele próprio.

Os dois eunucos assentiram com força, claramente apreensivos, mas não ousaram aceitar o dinheiro. Mesmo assim, Li Fu empurrou as moedas para eles e retornou para o interior do palácio. Aquelas moedas não eram para os que carregavam o ferido, e sim para os que cuidariam dele depois. Li Fu suspirou para si mesmo — quanto mais envelhecia, mais mole seu coração ficava.

Ao retornar, viu o Imperador Cheng sentado em sua cadeira. O sangue no chão já havia sido limpo, como se nada tivesse ocorrido. Li Fu serviu-lhe um copo d’água. Não era chá — apenas água fria. Em dias normais, ele jamais ousaria servir aquilo ao imperador. Mas quando Chengdi estava com raiva, era exatamente isso que preferia beber.

De fato, o imperador tomou dois copos seguidos antes de perguntar:

— E aquele pequeno eunuco... está bem?

— Em resposta a Vossa Majestade, ele não corre risco. Assim que foi carregado para fora, já conseguiu caminhar por conta própria — respondeu Li Fu, com os olhos levemente abaixados.

Só então o imperador assentiu:

— Mandem cuidar dele.

— Sim, senhor. — Li Fu conhecia melhor que ninguém o temperamento de Chengdi: tirânico, desconfiado, mas extremamente preocupado com sua reputação. — É uma bênção para aquele jovem.

Na verdade, o imperador não estava tão preocupado com os milhares de rebeldes. Ele tinha um exército de um milhão de soldados... mas a maioria não estava sob seu comando direto. Ao pensar nisso, seu semblante se fechou ainda mais. Aqueles inúteis, o que estavam fazendo? Enviou tanto grão e provisões para ajuda humanitária e, mesmo assim, houve rebelião. Quanto mais pensava, mais enfurecido ficava.

— Isso não pode chegar aos ouvidos de Chu Xiuming — declarou com firmeza.

Li Fu manteve-se em silêncio, como se sequer tivesse escutado. O imperador não esperava que um servo se intrometesse. O problema de Minzhong havia se resolvido recentemente, e Chu Xiuming já não era alguém que pudesse ser controlado com facilidade. Agora havia mais esse problema em Shuzhong... E os dois locais foram entregues por ele mesmo! Se a situação se repetisse, o que diriam? Que o imperador era incompetente e não sabia escolher seus homens?

— Vá e mande chamar o Duque Cheng En² — ordenou o imperador, com voz fria.

Li Fu acenou com reverência, mas então o imperador mudou de ideia:

— Espere até amanhã. Vamos chamá-lo amanhã. Se for agora, à noite, soaria estranho demais. Diga que a imperatriz está com saudades da família.

— Sim, senhor — respondeu Li Fu. No fundo, sabia que essa situação seria difícil de esconder por muito tempo. Isso não era um problema pequeno. O imperador Cheng estava obcecado com Yongning Bo³ — ou melhor, tinha medo demais de Chu Xiuming.

Na mansão de Yongning Bo, Chu Xiuming escutava as palavras de Yue Wen e apenas assentiu:

— Entendido.

Guan Shi olhou para ele e disse:

— Ainda não há nenhum movimento vindo do palácio. Imagino que o imperador não queira que as pessoas saibam. Mas... dá mesmo para esconder algo assim?

Chu Xiuming franziu levemente o cenho. Havia subestimado os pensamentos do imperador. Ou talvez fosse mais correto dizer: ninguém com um raciocínio normal poderia compreender o que se passava na mente de Chengdi.

— Qual o plano do general? — indagou o mordomo Zhao.

— É provável que o imperador me mande sair da capital antes do Festival da Lanterna⁴ — respondeu Chu Xiuming.

Guan Shi arregalou os olhos e, ao pensar na gravidez da esposa do general, entendeu por que o semblante de Chu Xiuming estava tão sombrio.

— Será que o imperador pensa que, sem o senhor na capital, não ficaria sabendo das notícias? Ou... quer enviá-lo para Shuzhong a fim de sufocar a revolta?

Chu Xiuming balançou a cabeça. O imperador não era tão ingênuo. Desde o ocorrido em Minzhong, era improvável que confiasse a questão de Shuzhong a Chu Xiuming. Para o imperador, a situação de Minzhong foi como “tentar roubar a galinha e acabar perdendo o arroz”⁵. Mesmo que mandasse outros oficiais para lá, a autoridade real já havia sido esvaziada — quem realmente mandava em Minzhong não eram mais os enviados do imperador. E Chengdi não permitiria que Shuzhong também caísse nas mãos de Chu Xiuming.

Guan Shi refletiu por um momento e perguntou:

— E quanto à senhora general?

Chu Xiuming apenas assentiu, sem dizer nada. Enquanto houvesse um trono e um imperador, certas coisas simplesmente não estavam sob seu controle.

Quando retornou ao quarto, Shen Jin ainda não estava dormindo. Conversava tranquilamente com a Mamãe Zhao. Ao ver Chu Xiuming, Mamãe Zhao se despediu com um sorriso e se afastou. Shen Jin estava sentada na cama e perguntou:

— O que houve?

Chu Xiuming tirou as roupas e as botas antes de se deitar. Esticou a mão e tocou a barriga de Shen Jin:

— O bebê está aprontando?

— Não. — Shen Jin recuou, rindo, com cócegas ao ser tocada. — Está se comportando muito bem.

Chu Xiuming hesitou por um instante, então contou a ela sobre a situação em Shuzhong. Shen Jin arregalou os olhos:

— Isso... — murmurou, surpresa. — Até onde chegaram para obrigar o povo a esse ponto? — balançou a cabeça com pesar. — Devem estar sem nenhuma esperança de sobrevivência. Se houvesse outra saída, jamais fariam algo assim.

— En. — respondeu ele com seriedade. — Fiquei sabendo disso hoje no palácio.

— Vou buscar suas roupas. — Shen Jin se levantou, pensando que ele entraria no palácio. — Está frio lá fora, é melhor levar um pouco de sopa quente...

— Não se preocupe. — interrompeu Chu Xiuming. — O imperador Cheng não tem a menor intenção de convocar ninguém ao palácio.

— Hã? — Shen Jin realmente se surpreendeu dessa vez. — Mas... não houve um incidente em Shuzhong?

Chu Xiuming não escondeu nada dela. Apesar de manter a expressão neutra, seus olhos estavam repletos de sarcasmo. Shen Jin, hesitante, acariciou a própria barriga e perguntou:

— Por acaso... ele está esperando passar o Ano Novo para não causar alvoroço? — Depois de dizer isso, percebeu o quão absurdo soava. — Ou será... que ele está com medo de passar vergonha?

Chu Xiuming segurou a mão de Shen Jin e a pousou sobre a barriga dela junto à sua.

— É provável que eu precise deixar a capital em poucos dias.

Shen Jin parou de pensar no motivo pelo qual o imperador não chamara ninguém, e imediatamente se voltou para Chu Xiuming com expectativa nos olhos. Ele beijou o canto de seus olhos e disse:

— Vou dar um jeito de permanecer aqui.

Ela estava grávida de quase sete meses. Chu Xiuming não se atrevia a levá-la numa viagem longa. Não importava se fosse voltar para a cidade fronteiriça ou seguir até Minzhong, a jornada levaria dois meses de carruagem. Na mansão de Yongningbo, tudo já estava preparado para o parto, mas na estrada... Esse era o primeiro filho de Shen Jin, e Chu Xiuming não podia se arriscar.

A única saída era garantir que permanecessem na capital até o fim do resguardo.

Shen Jin ainda estava meio confusa:

— Você não disse que pode ter que sair em poucos dias? Por que, então, quer dar um jeito de ficar?

Chu Xiuming deu um leve tapinha em sua barriga. Shen Jin abaixou os olhos e, só então, entendeu. Ficou tocada, mas ainda assim preocupada:

— Isso pode atrapalhar as coisas.

— Não vai atrapalhar em nada. — respondeu ele com firmeza. — De todo modo, não pretendo sair da capital.

Shen Jin achou as palavras dele um pouco confusas. Refletiu por um momento, então percebeu o mais importante: embora Chu Xiuming possa ser obrigado a sair da cidade, ele não pretende ir e ainda assim não atrasará os assuntos importantes. Isso significava que ele ficaria ao lado dela. Com o coração aliviado, bocejou:

— Então vamos dormir.

— Está bem. — disse ele, abraçando-a. — Durma tranquila.

Saber que Chu Xiuming não a deixaria e ainda assim não comprometeria o que fosse necessário deixou Shen Jin satisfeita. Antes mesmo de se ajeitar completamente na cama, adormeceu, sem dar tempo para ele dizer mais nada.

Na manhã seguinte, quando acordou, Chu Xiuming já havia saído. Após tomar leite de cabra ainda meio sonolenta, foi ajudada por Mamãe Zhao a se arrumar. Como não receberia visitas, Shen Jin manteve-se simples: um pouco de unguento no rosto ao invés de pó facial, e pronto. Após o desjejum, sentia-se disposta.

An Ping a encontrou e disse:

— Por que a senhora não chama o Xiao Budian[6] para brincar?

Como Shen Jin sentia muito frio — e Mamãe Zhao e as criadas temiam que ela se resfriasse —, mantinham bastante carvão aceso no cômodo. Dentro de casa, bastava um casaco leve de algodão. Já os cães, no inverno, usavam casacos grossos. Por isso, não gostavam muito de ficar dentro da casa. Quando entravam, deitavam-se no chão, arfando baixinho. Shen Jin olhou com pena e disse:

— Melhor não... pode acabar passando calor.

Mamãe Zhao riu:

— Que tal começar a pensar num nome para a criança?

— Verdade! — Shen Jin sorriu, animada com a lembrança. — Meu marido disse que eu podia escolher o apelido.

Durante o Ano Novo, não se pode usar agulhas nem linhas[7], então passaram o tempo brincando. Da última vez, Shen Jin disse que gostava de jogar shuang qiao[8]. Desde que receberam a caixa com o jogo, An Ping e An Ning estudaram com atenção, até pedirem orientação a Mamãe Zhao — que, para surpresa delas, sabia vários truques e ensinou as duas. Agora, ambas praticavam com dedicação e, segundo Mamãe Zhao, já estavam ficando boas.

Shen Jin achava ótimo. Sempre se considerou esperta, mas em jogos de habilidade com cordas era desastrada; quando tentava jogar, tudo virava um caos.

— Na verdade, sou boa mesmo é em bordado. — murmurou, encostando-se confortavelmente nas almofadas. — Antes de me casar, entre as irmãs, eu fazia os mais bonitos.

Com um leve ar de orgulho, Mamãe Zhao comentou, sorrindo:

— A velha criada também acha isso. Ouvi dizer que o Senhor Guanshi comentou com a senhora Zhao que o jovem general recebeu os protetores de mão e orelha feitos pela senhora, e logo os usou, guardando-os com muito carinho.

— Guardou? — Shen Jin riu. — Da próxima vez que meu marido escrever ao meu irmão, lembre-me de dizer que fiz aquilo para ele mesmo. Se estragar, posso fazer outro. — Apesar das palavras despreocupadas, Shen Jin ficou contente.

Mamãe Zhao sorriu sem dizer nada. O jovem general realmente gostara muito, mas ficou um pouco envergonhado de levá-los ao quartel. Shen Jin havia escolhido as melhores peles: eram peças macias, bonitas, quentes e confortáveis. Porém, a aparência... Quando usou pela primeira vez no acampamento, foi zombado pelos outros. Como ainda era jovem, ficou embaraçado e acabou guardando o presente para si. Mal podia esperar para usá-lo, mas como passava a maior parte do tempo entre o quartel e a mansão, pouco teve oportunidade. Claro, isso Mamãe Zhao jamais contaria a Shen Jin.

Mesmo com almofadas macias, Shen Jin se sentia cansada depois de um tempo sentada, então An Ping e An Ning a ajudaram a caminhar lentamente pela casa. Mamãe Zhao falava sobre os preparativos para o parto:
— A parteira e o médico foram especialmente enviados da cidade fronteiriça pelo general. Pode ficar tranquila quanto a isso.

— E a ama de leite? — Shen Jin queria amamentar o próprio filho, mas e se não tivesse leite suficiente e o bebê passasse fome? Era melhor ter uma ama preparada.

— Foi a princesa quem ajudou a encontrá-la. Ela está morando temporariamente no Palácio do Príncipe Rui — respondeu Mamãe Zhao. — Assim que a criança nascer, ela virá para cá.

Shen Jin assentiu. Mamãe Zhao então disse:
— Senhora, a velha criada gostaria de lhe perguntar uma coisa.

— Oh! — Os olhos de Shen Jin se iluminaram. Sempre achara que Mamãe Zhao sabia tudo, então agora que ela vinha pedir conselhos, Shen Jin se sentiu ainda mais inteligente. Afinal, sua mãe costumava dizer que depois de dar à luz, a mulher ficava "três anos mais boba". Talvez estivesse recuperando sua inteligência.

Mamãe Zhao lançou um olhar significativo para as criadas. Shen Jin ainda aguardava ansiosa pela pergunta, mas quando viu a troca de olhares, piscou e olhou ao redor até exclamar:
— Ah, entendi. Podem sair, deixem só An Ping e An Ning de guarda.

— Sim, senhora — disseram as servas, saindo rapidamente. An Ping ficou junto à porta, e An Ning, perto da janela.

Era a primeira vez que Shen Jin percebia que Mamãe Zhao se importava tanto com formalidades, e comentou animada:
— Pronto, agora não tem mais ninguém. Na verdade, não é vergonha nenhuma fazer perguntas, sabia?

Mamãe Zhao não sabia se ria ou chorava, mas respondeu com paciência:
— Tem razão.

— Então pergunta logo! — instigou Shen Jin, entediada por passar o dia inteiro dentro de casa.

Mamãe Zhao lhe entregou um copo de água antes de dizer:
— O imperador Cheng chamou o antigo primeiro-ministro ao palácio logo cedo hoje, dizendo que a imperatriz estava com saudades da família.

Shen Jin assentiu. Era uma desculpa plausível, mas... tão cedo assim? Pelo visto estavam ansiosos. Com certeza havia algo por trás — provavelmente queriam pressionar seu marido. Mas ele já devia estar ciente... Quando ele voltasse, seria bom fazer aquele peixe agridoce no almoço. Ontem, Mamãe Zhao comentou que havia peixes criados especialmente para isso no solar...

Mamãe Zhao observava Shen Jin com os olhos arregalados, percebendo que a jovem estava completamente distraída. Mesmo assim, preferiu não interromper. Quando Shen Jin terminou de devanear, disse animada:
— Mamãe, no almoço vamos comer peixe agridoce.

— Claro — respondeu Mamãe Zhao, compreendendo que ela tinha “voltado ao presente”. — Depois eu dou as instruções na cozinha.

Shen Jin acariciou a barriga com satisfação:
— E também aquele cozido de vegetais, mas frite o tofu antes.

— Sim, senhora — assentiu Mamãe Zhao.

Shen Jin refletiu um pouco e perguntou:
— Ah, mamãe disse que a imperatriz chamou os pais ao palácio... E então?

Mamãe Zhao retomou o assunto:
— Como a senhora acha que eles pretendem lidar com o general?

Shen Jin pensou por um instante, tomou um gole de chá e então se lembrou do que Chu Xiuming havia dito na noite anterior:
— Agora entendi por que meu marido falou que não podia sair de Beijing.

Mamãe Zhao assentiu:
— Sim. O general acredita que o imperador Cheng quer forçá-lo a deixar a capital.

— Faz sentido — respondeu Shen Jin.

— E o que a senhora pensa disso?

— Ele quer mandar meu marido embora — respondeu Shen Jin, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Mamãe Zhao ficou sem palavras, mas ao ver a expressão de Shen Jin — como uma raposinha satisfeita por roubar uvas — não conseguiu refutar.
— A senhora está certa — disse, sorrindo.

Shen Jin balançou os pés e disse com um risinho:
— Não vou contar mais!

Mamãe Zhao riu:
— Então a velha aqui vai mandar preparar aquele docinho que a senhora gosta para a tarde.

Shen Jin, mesmo sem compreender completamente os desdobramentos da situação, ainda comentou com Mamãe Zhao:
— Acho que o imperador Cheng está com medo de passar vergonha. Por isso quer mandar meu marido embora. Sem ele na capital, ninguém teria coragem de dizer nada aos ministros e oficiais.

Ela acariciou suavemente a barriga, refletindo. Mamãe Zhao não a interrompeu. Apesar de a justificativa parecer absurda, havia algo nela que... fazia sentido. Talvez fosse o olhar sincero de Shen Jin, ou talvez fosse o histórico de atitudes do imperador Cheng que a tornava uma hipótese bastante plausível.


Depois de ouvir tudo, Mamãe Zhao chamou as criadas de volta para cuidar de Shen Jin. Em seguida, foi até a cozinha preparar os pratos que ela havia pedido. Shen Jin, por sua vez, abraçou a barriga, recostou-se nas almofadas... e então se lembrou de algo.

Já que Chu Xiuming havia prometido à esposa que ficaria na capital, ele precisava fazer mais arranjos e encontrar uma justificativa convincente para não poder sair de Beijing antes que o imperador Cheng dissesse algo.

Guan Shi perguntou:
— O general já decidiu?

— Sim. Além disso, ainda não encontrei nada — respondeu Chu Xiuming.

Ao falar disso, a expressão de Guanshi Zhao também se tornou séria. O principal objetivo deles em vir à capital era justamente encontrar aquilo. Chu Xiuming não disse mais nada. Guanshi Zhao, com o semblante carregado, comentou:
— Temo que esteja mesmo dentro do palácio.

Chu Xiuming assentiu. Os lugares onde algo assim poderia ser escondido não eram muitos — o mais provável era no antigo palácio da primeira esposa imperial. Contudo, desde que o imperador Cheng subiu ao trono, ele havia lacrado o local. Ninguém sabia se fora por culpa ou por estar procurando os tais objetos. No final das obras, o pátio foi trancado e vigiado por homens de confiança. Ninguém tinha acesso. Aquele era originalmente o maior e mais luxuoso entre os palácios imperiais, depois dos aposentos do imperador e da imperatriz viúva. Agora, estava praticamente abandonado como o Palácio Frio[9].

— Não deve estar no Salão do Príncipe — disse Chu Xiuming. Se estivesse, o imperador já teria encontrado. Afinal, ele chegou a revirar aquele salão inteiro, destruindo até os caligrafias do príncipe.

Ao pensar nessas coisas, Chu Xiuming conseguia manter a calma, mas Guanshi Zhao já tinha o rosto contraído de raiva e os olhos avermelhados. Ao lembrar do príncipe — talentoso, gentil e humilde — ele rangeu os dentes. Chu Xiuming, vendo aquilo, estendeu a mão e segurou o punho cerrado do homem, fazendo-o relaxar.

Guanshi inspirou profundamente algumas vezes antes de conseguir se recompor.
— Desculpe-me, perdi a compostura.

Só então Chu Xiuming soltou sua mão, mas não disse nada. Guanshi Zhao tomou o bule e, em vez de usar a xícara, bebeu direto, engolindo quase todo o chá até se acalmar de vez.
— Então... segundo o que o general propôs, devemos seguir com esse plano? Vai contar à senhora?

— Sim — respondeu Chu Xiuming, baixando ligeiramente os olhos. — É necessário.

Os dois aperfeiçoaram ainda mais o plano. Só depois disso Chu Xiuming voltou para casa e viu sua esposa no meio de um devaneio. Aproximou-se e tocou de leve seu rosto:
— Em que está pensando?

Shen Jin piscou algumas vezes, olhou para ele e então sorriu:
— Marido...

Chu Xiuming assentiu e perguntou:
— O que estava pensando?

Assim que ele entrou, Anping e An Ning se retiraram para o cômodo ao lado. Shen Jin se aninhou nos braços dele e reclamou:
— Minhas pernas estão desconfortáveis...

Chu Xiuming prontamente começou a massagear suas pernas. Ultimamente, especialmente à noite, Shen Jin sofria com câimbras e dores. Quando isso acontecia, ela nem sempre acordava — apenas soltava alguns gemidos baixos. No início, Chu Xiuming não sabia o que fazer e até chamou Mamãe Zhao. Com o tempo, aprendeu que precisava massagear as pernas dela para aliviar o incômodo.

Se não fosse por Mamãe Zhao, que havia lhe contado isso em segredo, Shen Jin nunca saberia.
— Mamãe Zhao conversou comigo... — Shen Jin contou sua hipótese e algumas ideias.

Chu Xiuming, ao ouvir, teve a sensação de que toda aquela discussão com Guanshi Zhao talvez não passasse de uma grande volta... para chegar à mesma conclusão simples da esposa.
— Eu também tenho algo para lhe contar — disse ele.

Shen Jin ouviu atentamente, e Chu Xiuming explicou com cuidado:
— Não poderei sair de Beijing por enquanto. Há algo que ainda preciso resolver.

Quem diria que, ao terminar, Shen Jin não apenas não demonstrou preocupação ou culpa... como ainda o olhava com uma expressão de quem observava um tolo. E de fato — assim que ele terminou de falar, ela segurou a barriga e começou a rir alto:
— Vocês são tão bobos!

Chu Xiuming a segurava com cuidado, temendo que ela se machucasse ao rir. Mesmo com pausas, ela ria e voltava a rir, até que comentou:
— Marido, você já pensou que... se fingir tão bem assim, e acabar sendo ferido num atentado, o imperador Cheng talvez se dê conta de tudo?

Eles haviam considerado essa possibilidade, é claro. Shen Jin, então, fingiu-se de séria e disse:
— Na verdade, tem um jeito bem simples...

Shen Jin estava especialmente satisfeita naquele dia. Não só Mamãe Zhao viera lhe pedir conselhos, como até mesmo Chu Xiuming queria ouvir sua opinião. Feliz, ela balançava os pés de um lado para o outro, olhando para ele com expectativa — como um bichinho esperando um petisco.

Chu Xiuming apoiou a mão no divã macio, inclinou-se e beijou o cantinho dos lábios dela.
— Minha doce senhora, poderia me dizer o que pensa?

Shen Jin respondeu:
— Você está complicando demais.

O rosto de Chu Xiuming, belo como uma escultura de jade, ganhou um charme extra quando ele sorriu levemente. Seu olhar era envolvente, quase hipnótico. Shen Jin não resistiu e entrelaçou os dedos no dorso da mão dele, dizendo:
— Na verdade, quando o imperador Cheng disser algo, é só recusar. Ele por acaso vai amarrar você e te arrastar pra fora?

Chu Xiuming ficou sem palavras por um momento, olhando para ela com expressão surpresa. Logo depois, sorriu.
— Penso demais mesmo. Minha senhora tem razão.

Shen Jin semicerrava os olhos, satisfeita.
— Hmph. — Afinal, a melhor forma de lidar com alguém como o imperador Cheng — que gostava de jogos e manipulações — era ser direto. Assim, ele não teria por onde escapar. — Quando chegar a hora, é só dizer que quer ficar comigo. Pronto.

Chu Xiuming assentiu.
— Sim. Quero acompanhar minha Jiaojiao.

Ao ver o ar todo convencido de Shen Jin, Chu Xiuming passou a mão suavemente por seu pescoço, enquanto a outra escorregava pela cintura e entrava por baixo da saia dela.
— Minha Jiaojiao...

O corpo de Shen Jin pareceu derreter sobre o divã, tornando-se mole e quente. Seu rosto corou intensamente, e não só o rosto — estava inteira vermelha. Mexeu as pernas levemente e murmurou:
— Mm… não… não… — A voz baixa, suplicante, soava como um gatinho manhoso, o que só fez Chu Xiuming se inclinar ainda mais sobre ela, com todo cuidado para não pressionar sua barriga.

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Notas:

[1]: Shuzhong (蜀中) – Região do sudoeste da China, aproximadamente correspondente à atual província de Sichuan.

[2]: Duque Cheng En (成恩公) – Título nobre; nesta história, trata-se de um aliado próximo ou familiar do imperador.

[3]: Yongning Bo (永宁伯) – Título de nobreza de Chu Xiuming, traduzido livremente como “Conde de Yongning”.

[4]: Festival da Lanterna (元宵节) – Comemorado no 15º dia do primeiro mês lunar, marca o encerramento das celebrações do Ano Novo Chinês.

[5]: “Tentar roubar a galinha e acabar perdendo o arroz” (偷鸡不成蚀把米) – Provérbio chinês que significa tentar se aproveitar de algo e acabar saindo no prejuízo.

[6]:  Xiao Budian (小不点): apelido carinhoso que significa algo como “pequeno”, “baixinho”, ou “pequeno fofo”. Muitas vezes usado para crianças ou filhotes.

[7]: Durante o Ano Novo Chinês, é tradição evitar o uso de objetos cortantes como tesouras e agulhas, pois acredita-se que "cortar" durante esse período possa simbolizar o rompimento da sorte.

[8]: Shuang Qiao (双桥): um tipo de jogo tradicional chinês com elásticos ou cordas, semelhante àquelas brincadeiras de "cama de gato" entre os dedos, praticadas por jovens garotas.

[9]: Leng Gong (Palácio Frio): Local onde eram mantidas em reclusão esposas ou concubinas imperiais que caíam em desgraça. Na cultura dos dramas históricos chineses, é sinônimo de abandono ou esquecimento.


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