Capítulo 73


 Quando a Senhora Zhen chegou, Chu Xiuming estava pintando um retrato de Shen Jin. Ela usava uma saia de cintura alta de brocado cor de água com reflexos de luar, a barriga saliente e reclinada em um divã cercado por almofadas fofas, os cabelos soltos. No início, alguns fios estavam mais soltos ao redor, e havia algumas flores de ameixeira em um vaso ao lado — mas Shen Jin era ainda mais encantadora do que as próprias flores. Depois de algum tempo deitada, ela começou a ficar sonolenta, num estado de meia vigília, com uma expressão preguiçosa e satisfeita.

Madame Zhao entrou e anunciou a chegada da Senhora Zhen. Chu Xiuming disse:

— Como se trata de um assunto privado, não quero que muita gente saiba sobre a Imperatriz Viúva. Apenas peça que a Senhora Zhen entre.

Shen Jin abriu os olhos com relutância.

— O que houve?

— A Senhora Zhen, que serve à Imperatriz Viúva, veio — explicou Chu Xiuming, enquanto pousava o pincel, ia até o divã e ajudava Shen Jin a se sentar.

Shen Jin assentiu com um som suave e perguntou:

— Terminou a pintura?

— Ainda não — respondeu Chu Xiuming com um leve sorriso. Ele a estava observando naquele momento e, subitamente inspirado, decidiu pintá-la naquela pose.

Shen Jin apenas assentiu. Chu Xiuming então a ajudou a caminhar até a sala de estar. An Ning trouxe um copo de água morna, mas foi Chu Xiuming quem o pegou, pressionando Shen Jin a beber um pouco. Ela acariciou a barriga e acenou para An Ning.

— Quero trocar de roupa.

Chu Xiuming compreendeu o gesto discreto de Shen Jin. An Ping e An Ning a acompanharam até os aposentos internos. Com o avanço da gravidez, as idas para se arrumar tornaram-se mais frequentes. Quando Shen Jin retornou vestindo um novo traje, encontrou a Senhora Zhen na sala. Ela fez um aceno de cabeça e, esperando que a outra se curvasse, disse:

— Pode se levantar. Sente-se, Senhora Zhen.

Shen Jin se acomodou ao lado de Chu Xiuming. An Ping colocou uma almofada para apoiar sua cintura. Senhora Zhen agradeceu e sentou-se. Shen Jin então perguntou:

— Como está a avó do imperador?

— Em resposta à senhora Bo, a Imperatriz Viúva está com boa saúde. Hoje pensou na senhora Bo e pediu que esta serva viesse visitá-la — respondeu a Senhora Zhen com um sorriso amável.

Shen Jin assentiu.

— Na verdade, sou eu quem deveria visitar a avó do imperador.

— A Imperatriz Viúva sabe que a senhora está em condição delicada e disse que pode se cuidar. No futuro, poderá até levar o bebê ao palácio — comentou a Senhora Zhen.

Shen Jin sorriu, mas ponderou com alguma dúvida:

— Isso ainda vai demorar um pouco.

Senhora Zhen ficou ainda mais certa de que a senhora Bo não era do tipo calculista ou desconfiada.

— Tudo depende da saúde da senhora — respondeu, com brandura.

— A avó do imperador é realmente uma boa pessoa — suspirou Shen Jin.

A Senhora Zhen apenas sorriu e não disse mais nada. Perguntou então algumas trivialidades, como se Shen Jin estava comendo bem e dormindo direito. Shen Jin, acariciando a barriga, respondeu:

— A comida não está muito boa.

"..." A Senhora Zhen havia perguntado apenas por cortesia, como forma de mostrar que a Imperatriz Viúva se importava. Não esperava que Shen Jin fosse levar a pergunta a sério.

Shen Jin começou a reclamar com uma expressão abatida:

— Eu penso assim... — e seguiu dizendo que o cordeiro estava com gosto muito forte, a carne de boi era dura, e havia pouco peixe. Nada realmente agradava seu paladar.

A Senhora Zhen teve um leve espasmo no canto dos olhos ao ouvir as queixas continuarem — agora sobre os doces, que tinham pouca variedade, e que não havia biscoitos como os do Velho Qiao... Chu Xiuming, sentado ao lado, apenas escutava pacientemente, sem demonstrar aborrecimento. Serviu mais um copo de água, entregando-o a Shen Jin. Ela bebeu um gole e continuou:

— Até os vegetais não estão do meu agrado. Uma vez comi um rolinho de fios de ouro no palácio da imperatriz que era delicioso, mas ninguém sabe fazê-lo aqui...

Enquanto isso, no palácio da Imperatriz Viúva, a imperatriz estava sentada rigidamente, visivelmente mais magra. Já fazia meia hora que esperava, sem ouvir uma única palavra, e nem mesmo havia visto o rosto da Imperatriz Viúva. Era impossível não se sentir desconfortável.

Após uma hora sentada num banco frio, finalmente surgiu uma dama do palácio saindo dos aposentos internos. A imperatriz reconheceu a serva como alguém de confiança da Imperatriz Viúva. A moça curvou-se respeitosamente e disse:

— A Imperatriz Viúva disse que não tem tempo para ver a Imperatriz hoje. Pediu que Vossa Majestade retorne ao seu palácio.

O rosto da imperatriz se alterou.

— Não sei se a Imperatriz Viúva...

A criada sorriu e interrompeu respeitosamente:

— Se Vossa Majestade me permite, a Imperatriz Viúva pediu que eu transmitisse uma mensagem: "O pequeno eunuco já foi tratado. Espera-se apenas que a imperatriz compreenda o que significa ser uma imperatriz."

Após isso, a criada abaixou a cabeça e se manteve ao lado.

A imperatriz apertou o lenço com força e forçou um sorriso.

— Não compreendo bem o que quer dizer... Será que posso ver a mãe imperial pessoalmente?

— A Imperatriz Viúva já se recolheu — respondeu a criada com reverência.

Não era de se admirar que a Imperatriz Viúva tivesse convocado a imperatriz de surpresa e a deixado esperando tanto tempo. Um sentimento de opressão apertava seu peito. Não podia ser... tudo havia sido planejado. Por que ela desconfiaria de mim?

A imperatriz saiu pálida, com passos apressados e trêmulos.

Na mansão do marquês de Yongning, ao final da visita, a Senhora Zhen quase saiu fugida. Deixou os presentes da Imperatriz Viúva e foi embora com o pequeno eunuco. Quando retornou ao palácio, o menino havia desaparecido. Como se nem sequer existisse. A Imperatriz Viúva perguntou diretamente:

— E então, o que achou?

— O marquês de Yongning ama profundamente a terceira princesa — respondeu a Senhora Zhen, lembrando-se dos gestos sutis entre o casal. A forma como ele oferecia água a Shen Jin no momento exato em que sua garganta ficava seca, sua paciência constante...

A Imperatriz Viúva girava lentamente seu colar de contas.

— O destino entre as pessoas...

Senhora Zhen sabia que a Imperatriz Viúva estava recordando o passado e abaixou a cabeça, sem ousar interromper. Só quando ouviu uma nova pergunta, ergueu levemente os olhos.

— E quanto àquela pessoa?

— A terceira princesa é muito viva — respondeu. — Fala com alegria e chegou até a mencionar os rolinhos de fios de ouro do palácio da imperatriz.

— Ela não perguntou sobre o pequeno eunuco? — questionou a Imperatriz Viúva.

— Não — respondeu a Senhora Zhen.

A Imperatriz Viúva semicerrava os olhos.

— E o marquês de Yongning?

— Ele não disse uma palavra — respondeu a Senhora Zhen com respeito.

A Imperatriz Viúva assentiu.

— Também é alguém sensato.

Senhora Zhen, mais corajosa que outras servas por servir há tanto tempo, arriscou um leve sorriso:

— A criada acredita que a terceira princesa provavelmente nem sabe que o pequeno eunuco foi levado.

A rainha-mãe ficou surpresa ao ouvir isso e, após um longo silêncio, apenas respondeu:

— Hum. — Tomou um gole de chá e não disse mais nada.

Na mansão de Bo Yongning, Shen Jin também estava um pouco cansada e olhou para Chu Xiuming com expectativa:

— Marido, você tem algo para fazer?

— Nada. — respondeu ele, apertando de leve a orelha dela com um gesto carinhoso.

Shen Jin se levantou com a ajuda de An Ning:

— Então vou trocar de roupa.

— Tudo bem — disse Chu Xiuming. — Espero você no escritório.

Shen Jin sorriu e assentiu, lançando um olhar para a ama Zhao, que acabava de sair:

— Por favor, organize com cuidado as recompensas enviadas pela rainha-mãe.

Ama Zhao assentiu. Shen Jin trocou o vestido por um modelo Yuehuajin e voltou ao mesmo lugar onde estava deitada antes. Reclinou-se confortavelmente, apoiada em uma almofada macia, observando Chu Xiuming pintar com seriedade. As cores da pintura não eram sedutoras, mas ele parecia encantado. Shen Jin observou por um tempo, acariciou a barriga, bocejou suavemente e começou a cochilar de novo.

Meio adormecida, ouviu a voz da ama Zhao entrando no cômodo.

Ela trazia uma presilha de magnólia nas mãos:

— Esta foi encontrada entre os tecidos de cetim enquanto o velho escravo organizava os pertences.

Era uma presilha de jade branco que Chu Xiuming pegou. Simples, mas feita de jade de altíssima qualidade, polida pelo uso frequente, com uma textura oleosa e reluzente. Chu Xiuming olhou fixamente para a ama Zhao.

Ela sussurrou:

— Era propriedade do príncipe herdeiro.

Chu Xiuming franziu o cenho ao pegá-la:

— Tem certeza?

— Sim — confirmou a ama Zhao com firmeza.

Ele examinou o objeto por um longo tempo antes de perguntar:

— Tem alguém da comitiva da rainha-mãe aqui?

— O velho escravo não sabe — respondeu ela com respeito.

Nesse momento, ele viu Shen Jin acordada no divã, abraçando a almofada, observando curiosa. Chu Xiuming deixou a presilha de lado e foi até ela, afastando os fios de cabelo do rosto dela com carinho:

— Acordou e não disse nada?

A ama Zhao trouxe um pouco d'água. Chu Xiuming ajudou Shen Jin a se sentar.

Ela tomou alguns goles e disse:

— Estou com um pouco de fome. O marido já terminou a pintura?

— Está praticamente pronta — respondeu ele, ajoelhando-se sobre um joelho, calçando os sapatos de Shen Jin, e levando-a até a mesa para ver a pintura da "bela adormecida".

Shen Jin ficou maravilhada:

— O marido é mesmo incrível.

— Ainda não chega nem perto da beleza da senhora — disse Chu Xiuming.

Shen Jin sorriu, os olhos semicerrados:

— Meu marido é mesmo adorável.

Ele sorriu também, satisfeito por vê-la feliz. Shen Jin notou a presilha de magnólia sobre a mesa:

— De quem é isso?

A ama Zhao olhou para Chu Xiuming. Depois que ele assentiu, ela contou a história. Shen Jin olhou mais uma vez, mas não pareceu se importar.

— O que a senhora acha disso? — perguntou a ama Zhao.

— A pintura está linda — respondeu Shen Jin, referindo-se ao retrato.

A ama Zhao sorriu:

— Ainda assim, não se compara com a senhora.

Shen Jin deu uma risada alegre. Chu Xiuming perguntou:

— E o que a senhora acha que devemos fazer com essa presilha?

— Já sabem quem colocou isso aqui? — retrucou Shen Jin.

— Não — respondeu a ama Zhao.

— Está na lista de inventário?

— Não.

— Então guardem e deixem de lado — decidiu ela, de forma natural.

Chu Xiuming estreitou os olhos. De fato, não sabiam se quem colocou o objeto era amigo ou inimigo, nem qual o objetivo. Veio do palácio da rainha-mãe — que, apesar de atualmente viver em oração, fora uma mulher astuta em sua juventude. Chegar ao posto de rainha-mãe a partir de serva exigiu inteligência e manipulação. Se alguém está tentando sondá-los, qualquer reação seria cair na armadilha. Melhor manter-se em silêncio e observando. Quem faz o primeiro movimento costuma deixar rastros.

A ama Zhao, que havia se preocupado com aquela presilha, se acalmou e disse:

— Já que a senhora está com fome, vou apressar a cozinha.

Shen Jin assentiu. Chu Xiuming pegou a presilha e a entregou à ama Zhao. Shen Jin franziu o cenho:

— Posso dar uma olhada?

A ama Zhao sorriu e colocou a peça nas mãos dela. Shen Jin a examinou com atenção e a devolveu:

— Está bem.

— An Ping, vá com a ama Zhao até a cozinha e traga alguns bolinhos para a senhora comer — disse ela.

An Ping obedeceu, saindo com a ama Zhao. An Ning também saiu do escritório, fechando a porta por fora. Shen Jin olhou para as três se afastando e perguntou, piscando para Chu Xiuming em voz baixa:

— Como elas sabiam que eu queria conversar com meu marido?

Chu Xiuming sorriu e deu um leve toque no nariz de Shen Jin. O rosto dela era transparente demais. Estava cheia de hesitação e expectativa.

Como ele não comentou, ela também não insistiu. Apenas sentiu que aquelas mulheres estavam próximas a eles. Abraçou a barriga:

— Acho que já vi algo parecido com a concubina... parece um pouco com isso.

Chu Xiuming observou as habilidades de dedução dela. Shen Jin pensou um pouco mais antes de dizer:

— Não era exatamente assim. A qualidade do jade era um pouco inferior. E as pétalas da magnólia pareciam ligeiramente enroladas, como estas...

— A princesa gostava muito de flores de magnólia naquela época — disse Chu Xiuming. — Por isso, muitos passaram a usar joias no estilo magnólia.

Shen Jin assentiu. Ainda assim, essa presilha era diferente das demais. Então Chu Xiuming acrescentou:

— Lembro que a ama Zhao disse que os desenhos das joias da princesa eram todos feitos por ela mesma.

— Oh. — Shen Jin ergueu os olhos de repente. — Quando o marido vai desenhar para mim?

Chu Xiuming sorriu:

— Quando quiser.

Shen Jin ficou satisfeita e esqueceu completamente da presilha de magnólia. Segurou a mão de Chu Xiuming e começou a falar sobre suas preferências — gostava de flores coloridas, vibrantes e alegres... Chu Xiuming abraçou-a pela cintura e caminhou com ela em direção à sala de jantar. Já tinha uma ideia em mente e, de fato, achava que sua esposa combinava com cores vivas.

Mamãe Zhao pediu que Anping saísse e servisse alguns bolinhos como desculpa. Logo a comida ficou pronta. Depois que Shen Jin lavou as mãos, sentou-se à mesa, e Chu Xiuming se acomodou ao seu lado. Quando estavam só os dois, as refeições não eram extravagantes. Sempre escolhidas entre os pratos preferidos — especialmente os de Shen Jin: mingau de arroz vermelho e pequenos pãezinhos no vapor. Shen Jin parou de comer quando já estava cerca de 80% satisfeita, e Chu Xiuming terminou o restante. Era o suficiente para os dois. Mamãe Zhao nunca preparava comida demais.

À noite, quando estavam deitados, Shen Jin se lembrou de algo e perguntou:

— Marido, onde está o eunuco?

Chu Xiuming acariciava suas costas com suavidade e respondeu:

— Foi levado pela mamãe Zhen, a mando da rainha-mãe.

— Ah... — Shen Jin fechou os olhos, preocupada. "Será que... ele não sobreviveu?" Levou a mão à barriga com cuidado. "Eu não tinha inimizade com aquele eunuco... Mas ele me usou por egoísmo. No fim das contas, ninguém aqui é realmente inocente." Pensando nisso por um tempo, ela acabou adormecendo.

Enquanto isso, no palácio, a rainha não conseguia dormir. Yuzhu levantou-se e perguntou:

— Alteza, deseja tomar um pouco d’água?

A rainha suspirou e sentou-se. Yuzhu rapidamente trouxe suas roupas e ajudou-a a se vestir. Uma criada acendeu a lamparina, e a rainha disse:

— Me sirva um copo d’água.

— Sim. — Outra criada se adiantou e trouxe a água.

A rainha tomou um gole, mas franziu o cenho:

— Troque.

Yuzhu pegou o copo e, desta vez, ela mesma serviu a água. Quando a rainha estava com o coração inquieto, preferia beber água ligeiramente morna. De fato, depois de beber, ela disse:

— Yuzhu, fique. As outras podem se retirar.

— Sim. — As criadas recuaram com pressa e fecharam a porta.

Yuzhu ajoelhou-se aos pés da rainha e começou a massagear-lhe as pernas:

— O que preocupa Vossa Majestade?

— Aquilo... será que ninguém vai descobrir? — disse a rainha com hesitação.

Yuzhu respondeu com respeito:

— Alteza, não se preocupe. Tomei todas as providências. Não vão conseguir rastrear isso até a senhora.

A rainha ainda franzia a testa:

— Mas... e a rainha-mãe?

— Alteza — disse Yuzhu com suavidade —, se a rainha-mãe realmente tivesse provas, acha mesmo que a situação estaria como está agora?

— Além disso — acrescentou —, o tal eunuco só foi à mansão Yongning esta manhã. Foi tempo demais para preparar algo tão complexo.

A rainha estreitou os olhos. Fazia sentido. Se a rainha-mãe tivesse mesmo provas, não teria sido assim. Tudo não passava de um teste. Se ela demonstrasse qualquer hesitação...

— Hm. — A rainha assentiu. Olhou para Yuzhu e disse:
— Prossigam com o plano.

Yuzhu respondeu de imediato:

— Nada do que for feito agora terá ligação com Vossa Majestade. No fim, tudo parecerá como se a senhora tivesse sido vítima de armação.

A rainha assentiu novamente. Yuzhu então perguntou:

— Deseja mais água?

— Não precisa. — Ela fez um gesto com a mão, agora mais tranquila. — Apague as luzes.

— Sim. — Yuzhu esperou até a rainha se deitar novamente, arrumou com cuidado as cortinas da cama e apagou a luz. — Ficarei aos pés da cama. Caso precise de algo, é só me chamar.

A rainha permaneceu em silêncio, mas estava cheia de pensamentos. O que a rainha-mãe realmente queria com aquela tentativa de sondagem? "Se eu pudesse escolher, você acha que eu queria estar nessa posição?" — pensou. "Se Sua Majestade tivesse nomeado meu filho como príncipe herdeiro logo, eu não estaria tão insegura como rainha." O imperador ainda sonhava com outra concubina nobre. A concubina Lan tinha os favores do imperador, a concubina Chang tinha um filho... Nenhuma delas era fraca, e agora, com aquelas jovens concubinas ganhando espaço...

A rainha levou a mão ao próprio rosto. "Neste harém, só serei verdadeiramente segura quando me tornar rainha-mãe."

Ao lembrar da rainha-mãe, um sentimento de mágoa surgiu. Ela tinha o apoio da rainha-mãe, mas mesmo com sua aparência devota e budista, a rainha-mãe nunca havia cedido poder. A rainha temia — e ao mesmo tempo respeitava — essa mulher.

Naquele mesmo momento, as concubinas Chang e Lan também estavam acordadas em seus respectivos palácios.

Concubina Lan era lindíssima, com um ar frio e elegante, como uma orquídea isolada no vale. Mesmo agora, mantinha um ar sereno, como se nada pudesse abalá-la. A criada-chefe Jingxi, preocupada, comentou:

— Será que alguém tentou incriminar Vossa Graça de propósito? Quem mandou aquela informação?

— Acho difícil que algo assim seja forjado — respondeu Lan, balançando a cabeça.

Jingxi franziu o cenho, claramente nervosa:

— E se a concubina Chang achar que foi a rainha? Isso também envolve ela.

— Prepare um presente. Quero ver a concubina Chang amanhã — disse Lan.

Jingxi hesitou:

— Vossa Graça... poderia ser a concubina Chang tentando incriminá-la? Afinal, aquela concubina nobre...

Concubina Lan apenas lançou um olhar para Jingxi, que calou-se de imediato.

— Já vou providenciar — murmurou a criada, saindo em silêncio.

No palácio de Changfei, as luzes também estavam acesas. Caixuan trouxe uma xícara de chá quente:

— Vossa Graça quer descansar?

— Caixuan, quem você acha que foi? — perguntou a concubina Chang, com o cenho franzido.

— A criada não saberia dizer — respondeu com respeito.

Changfei tomou um gole do chá e disse:

— Vá dormir.

— Sim. — Caixuan esperou a senhora se deitar e ficou por perto.

Deitada, Changfei também não conseguia dormir. "O imperador ainda não nomeou o príncipe herdeiro... por que eu não deveria lutar por isso? Você acha que os filhos da rainha vão proteger o meu?" Sorriu com desdém. "O primeiro filho do rei Rui acabou morto... nem sequer virou príncipe."

Lan Fei? Não era possível. Ela não era tola, e não tinha filhos. Por que ofenderia a mim e à rainha por um título de concubina nobre?

"Então quem foi?" Pensando nisso, adormeceu aos poucos.

Como a rainha-mãe era devota e se retirava constantemente para orações, as concubinas não precisavam mais cumprimentá-la pela manhã. Apenas se reuniam no palácio da rainha para uma saudação formal antes de se retirarem. Concubina Lan e concubina Chang trocaram olhares ao entrarem. Sentaram-se, mas ninguém falou. A rainha não apareceu. Pouco depois, Yuzhu saiu e anunciou:

— A rainha não se sente bem hoje. Todas podem voltar aos seus palácios.

Sem objeções, as concubinas se retiraram. Ao chegar em seus aposentos, concubina Chang pediu chá e bolinhos. Pouco depois, concubina Lan chegou com sua criada. Changfei não se surpreendeu:

— Irmã, venha provar o chá que preparei.

Concubina Lan assentiu, entregando o presente que trouxera:

— Hoje vim conversar com minha irmã.

— Então vamos para dentro — disse Changfei, conduzindo-a.

Assim que entraram, mandaram as criadas saírem e abriram portas e janelas. Lan Fei foi direta:

— Minha irmã sabe que ontem um eunuco usou o cartão do palácio central para convidar a senhora de Yongningbo ao palácio.

— Sei. E também sei que esse eunuco foi buscado por alguém do meu próprio palácio — respondeu Changfei.

— O que minha irmã acha disso? — perguntou Lan.

— E você, o que acha? — devolveu Changfei.

Concubina Lan baixou os olhos:

— Minha irmã deve saber que eu nunca poderei engravidar de novo.

Changfei se surpreendeu:

— Mas eu me lembro que você já...

— Sim, foi por causa daquele filho. O parto me feriu. A rainha-mãe e o imperador sabem disso. — Mesmo com seu habitual autocontrole, havia tristeza e amargura no rosto de Lan. — Mas já passou. Não quero relembrar.

Olhou para Changfei e disse:

— Mas o inimigo da minha irmã... talvez seja o mesmo que o meu.

Changfei entendeu imediatamente. Aquela criança provavelmente fora morta pela rainha. E se a rainha matou o filho da concubina Lan e ainda assim ela conseguiu manter sua posição sem filhos nem apoio familiar... era porque tinha o favor do imperador. Se tivesse um filho, teria se tornado concubina nobre há muito tempo. E alguém que teve o filho morto pela rainha nunca mais poderia ser mãe. "Se fosse comigo... também não a perdoaria."

Ela agora estava certa: tudo indicava que quem fez aquilo foi mesmo a rainha. Um ladrão acusando outro, apenas para impedir o imperador de considerar a promoção da concubina Li a nobre consorte.


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Notas:

 

[1]: Marquês de Yongning / Senhora Bo: "Bo" aqui refere-se ao título nobre de Chu Xiuming, que é "Yongningbo" (marquês de Yongning). Shen Jin, sendo sua esposa, é tratada como "senhora Bo" ou "senhora marquês".



[2]: Rolinhos de fios de ouro: Um tipo de doce refinado mencionado como lembrança do paladar da princesa.



[3]: Pequeno eunuco: Alusão a um evento político ou disciplinar interno — não explicado neste trecho, mas sugerindo que o garoto foi punido ou removido por ordens da Imperatriz Viúva.




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