Capítulo 44
FRANGO COZIDO NA PANELA DE FERRO
O Irmão Ji correu até ficar pálido, com o peito arfando como um fole. Shen Miao o puxou rapidamente para o pátio, apressando-se para lhe trazer água, enquanto o repreendia:
"Você se esqueceu de tudo o que eu lhe disse antes? Qual o sentido de voltar correndo assim? Passar no exame é mais importante do que a sua saúde? Seu corpo é a base, a base de toda a sua vida!"
Ela quase deixou escapar essas palavras, mas as engoliu a tempo.
Assim que entraram, Shen Ji se virou de repente e enterrou o rosto nos braços de Shen Miao, envolvendo-a com força, sem dizer uma palavra.
Shen Miao, segurando duas galinhas rechonchudas em uma das mãos, ficou paralisada.
Ao contrário da Irmã Xiang, o Irmão Ji raramente demonstrava esse tipo de afeto. Sempre que a Irmã Xiang se jogava nos braços de Shen Miao para mimá-la, o Irmão Ji apenas ficava de lado e a provocava, chamando-a de bebê por se agarrar à irmã mais velha nessa idade. Nesses momentos, a Irmã Xiang apenas erguia o queixo e abraçava a cintura de Shen Miao com ainda mais força.
Desde que Shen Miao retornara a Bianjing e se tornara parte da vida do Irmão Ji, esta parecia ser a primeira vez que ele expressava suas emoções tão abertamente.
"Fiquei em sexto lugar, Irmã", sua voz abafada contra as roupas dela soava contida, embora, na verdade, ele estivesse tremendo de alegria, mal conseguindo conter as lágrimas. "Eu realmente fiquei em sexto lugar."
Sem a orientação de um tutor, sem colegas para incentivá-lo, sem os conselhos de seu pai — ele tinha apenas três livros antigos dados de presente pelo Nono Irmão e incontáveis noites solitárias, passadas estudando desesperadamente e praticando provas antigas até altas horas da noite.
Ele frequentemente se perguntava se seus esforços realmente valiam a pena. Estaria apenas perdendo tempo, patinando em círculos? Perdido na névoa, dividido entre o orgulho e a insegurança, ele não conseguia nem mesmo se obrigar a expressar esses pensamentos vacilantes para sua irmã mais velha, a quem tanto amava.
Sem ninguém em quem confiar e sem clareza sobre o caminho à frente, ele caminhava penosamente, confuso, sem saber ao certo o quanto já havia percorrido. Mais tarde, não resistiu à tentação de buscar conforto em sua irmã mais velha, como um viajante na noite fria ansiando pela luz.
E conforto ele encontrou. Ele repetiu as palavras dela para si mesmo, revirando-se na cama, tentando se convencer a não se preocupar, a não ter muita esperança, a não se esgotar por um resultado que ainda não havia chegado.
Ele entendia a lógica, mas seu coração se recusava a ouvi-la. Mesmo a caminho da cidade vizinha com o Tio Li para verificar os resultados, seu coração borbulhava como óleo fervente, cada passo repleto de agonia.
Quando chegaram aos portões da Academia Piyong, a enorme lista de nomes já havia sido afixada, cercada por camadas e mais camadas de pessoas.
O Tio Li o arrastou para frente, abrindo caminho com grande esforço pela multidão. De pé sob a lista, seu coração batia tão forte que ele mal ousava olhar para cima.
Com cuidado, ele começou a contar de trás para frente, a partir do 100º candidato admitido. No 70º nome, viu o de Hai Ge’er — mas não o seu.
Seu coração afundou. Hai Ge’er memorizava textos mais rápido e tinha um talento natural para escrever redações. Se Hai Ge’er ficou apenas em 70º lugar, o que isso significava para ele? Ele havia falhado? Contando até o 50º nome, ele ainda não havia se encontrado.
Com medo demais para continuar, ele fechou os olhos.
Li Tiaozi, igualmente nervoso, torceu as mãos e perguntou:
"Irmão Ji, você já viu o nome de Gou Er?" Shen Ji balançou a cabeça e se obrigou a continuar contando.
No 20º nome — o dos melhores candidatos, que haviam sido colocados no "Primeiro Nível" — até a tinta usada para escrever seus nomes havia mudado para um vermelho vivo, brilhante demais para sua visão.
O vigésimo nome não era dele, nem de Gou Er.
O décimo nome — nada. Seu coração disparou.
Desesperado, lançou um último olhar para cima e, de repente, avistou um caractere vermelho "Ji".
Seu olhar parou abruptamente e, então, lenta e cuidadosamente, percorreu o caminho até aquela linha. O nome, no alto da lista, parecia brilhar ao surgir em sua visão turva.
"Primeira Classe, Sexto Lugar: Shen Ji, segundo filho, residente na Rua do Salgueiro Leste, Bairro Yongkang, perto da Ponte do Feijão Dourado…"
O corpo inteiro de Shen Ji estremeceu. Seus olhos se arregalaram em descrença enquanto lia as palavras novamente, letra por letra. Ele até ficou na ponta dos pés para conferir o endereço três vezes, com medo de ser um caso de identidade trocada.
Assim que teve certeza, o coração que quase saltou da garganta não se acalmou — em vez disso, disparou com tanta força que ameaçou romper seu crânio.
Mas ele rapidamente reprimiu esse impulso ao notar que o Tio Li ainda examinava a lista ansiosamente, com o rosto tenso. Embora analfabeto, o homem semicerrava os olhos para o denso mar de caracteres, como se estivesse se esforçando para reconhecer uma forma familiar.
Shen Ji examinou a lista apressadamente mais uma vez, minuciosamente desta vez, mas o nome de Gou Er não estava em lugar nenhum. Suavemente, ele deu a notícia.
Embora o rosto do Tio Li tenha se fechado por um instante, ele logo forçou um sorriso:
"Está tudo bem, está tudo bem. Gou Er tem um ano a menos do que você. Ele pode tentar de novo no ano que vem — sempre há outra chance."
No caminho de volta, o Tio Li, que antes caminhava com passos rápidos, agora arrastava os pés, cada passo pesado com suspiros silenciosos.
Shen Ji o acompanhou por um tempo, mas não aguentou mais. Pedindo desculpas, correu em disparada. Ele não ousava demonstrar sua alegria na frente de alguém tão desanimado, mas queria desesperadamente chegar em casa para contar primeiro à sua irmã mais velha.
Ele tinha passado! Ele realmente tinha passado!
Quanto mais rápido corria, mais sua euforia explodia, o vento uivando em seus ouvidos, seu peito ardendo.
Contudo, toda aquela excitação desenfreada desapareceu no instante em que viu sua irmã mais velha.
Por algum motivo, um leve sentimento de ressentimento surgiu de dentro dele, amargo e lento. Agarrando a cintura fina da irmã, os meses solitários de preparação passaram diante de seus olhos como uma lanterna giratória.
Depois de gaguejar "Fiquei em sexto lugar", sua voz falhou e ele não conseguiu dizer mais nada.
A única resposta foi um leve tapinha da mão de sua irmã mais velha em suas costas. As mãos dela eram mãos de trabalhadora — não delicadas e marcadas por cicatrizes —, mas seu calor o acalmou instantaneamente.
Só quando finalmente se acalmou, percebeu o que tinha feito.
O que ele estava fazendo? Que vergonha!!
Shen Ji deu um pulo para trás como um coelho assustado, com o rosto em chamas, e correu para dentro de casa.
Que drama é esse desse garoto? Shen Miao, ainda segurando as galinhas rechonchudas, balançou a cabeça com uma mistura de divertimento e exasperação, antes de chamar casualmente sua figura em fuga:
"Irmão Ji, descanse um pouco e depois lembre-se de ir buscar a Irmã Xiang e Youyu no beco. Aqueles dois desmiolados levaram o cachorro para fora e sumiram.” Após uma pausa, ela acrescentou alegremente: "Irmão Ji, você se saiu muito bem!"
Cantarolando "Boa sorte esta noite, vamos festejar com frango", ela foi para a cozinha cortar as aves.
Shen Ji enterrou seu rosto vermelho e envergonhado no cobertor por um longo tempo. Só quando o som familiar de um cutelo batendo na tábua de cortar ecoou da cozinha, ele finalmente se levantou e saiu pelo portão dos fundos para encontrar a Irmã Xiang.
Ele espiou pelas portas dos fundos de todas as casas dos vizinhos, mas não conseguiu encontrar a Irmã Xiang em lugar nenhum, até chegar ao moinho de óleo da Família Gu, no final do beco, onde finalmente ouviu a voz dela se misturando com as risadas de outras crianças, brincando de casinha.
A Casa dos Gu era mais espaçosa do que as outras. Seu pátio abrigava um grande moinho de pedra, altas alavancas de madeira e uma enorme panela de ferro para fritar óleo. Ao lado, erguia-se um armazém imponente, repleto de sacos de gergelim. Colza e soja repousavam em prateleiras de madeira elevadas. Assim que se entrava na Casa dos Gu, o aroma rico e perfumado do óleo preenchia o ar.
A geração mais velha da Família Gu já havia falecido há muito tempo, e agora a casa era administrada pelo jovem Gu Dalang, apenas alguns anos mais velho que a Irmã Xiang. Seu jeito afável parecia impregnado de óleo de gergelim, e sua barriga redonda, semelhante a uma melancia, o tornava o favorito das crianças.
Quando o Irmão Ji chegou, a Irmã Xiang estava fazendo o papel de barbeira, com Gu Dalang reclinado em uma cadeira de bambu como seu cliente, deixando-a mimá-lo. Seus filhos gêmeos, Bao e Di, faziam o papel de aprendizes — um fingindo entregar-lhe uma navalha, o outro segurando água quente imaginária, ambos aguardando ansiosamente a próxima tarefa da mestra barbeira.
Lei Ting e Youyu estavam sentados, atordoados, em outras duas cadeiras de bambu, claramente as vítimas anteriores dessa brincadeira. Lei Ting, o cachorro, ostentava duas tranças engraçadas espetadas, enquanto o cabelo de Youyu estava trançado em pequenas tranças irregulares.
Shen Ji não resistiu à tentação de espiar lá dentro.
"Tio, como está minha técnica? Gostaria de sabonete para lavar o cabelo depois, ou não?", perguntou a Irmã Xiang, com uma seriedade exagerada.
Gu Dalang conteve o riso, entrando na brincadeira: "Qual a diferença?"
"Uma diferença enorme! Sabonete afasta piolhos e, depois de uma boa escovação, seu cabelo ficará brilhante e sem nós por dias!"
"Parece ótimo. Então, quero o sabonete."
"São mais trinta moedas. Este é um sabonete de gordura de carneiro de primeira qualidade, sabia?"
Gu Dalang fingiu surpresa, levantando-se da cadeira:
"Não, não, é muito caro. Desisto!"
A Irmã Xiang rapidamente o empurrou de volta para a cadeira:
"Ah, qual é! Você é cliente assíduo — vou te dar um desconto!"
"Quanto desconto?" Gu Dalang já estava tremendo de tanto rir quando se jogou de volta na cadeira.
"Vinte moedas? Rápido, Bao! Traga o sabonete para o nosso bom tio!"
"Já vou!" Bao entrou correndo e saiu de novo, fingindo carregar algo precioso. Então, numa traição dramática, entregou o objeto ao próprio pai, anunciando: "Tio, seu sabonete chegou!"
Gu Dalang deu um sorriso tão largo que suas gengivas ficaram à mostra:
"Tudo bem, tudo bem, vamos lá."
"Tio, o senhor gostaria de fazer a barba? Dez moedas a mais."
Gu Dalang engasgou, em falsa indignação:
"Isso é um roubo! Estou indo embora!"
A irmã Xiang o agarrou pela manga:
"Não vá! Cinco moedas, só para você!"
E assim, em meio ao pátio perfumado com óleo, as crianças riam e se agitavam.
A Irmã Xiang se debruçou sobre Gu Dalang, lavando seus cabelos, penteando seu couro cabeludo e até fingindo fazer a barba dele com uma lasca de madeira. Após o suplício, a Irmã Xiang pediu a Di que buscasse um espelho imaginário e declarou:
"Tio, olha só para você! Todo lavado e barbeado — você está quase apresentável, agora!"
Gu Dalang quase caiu da cadeira de tanto rir. Que tipo de elogio era aquele?
"Tio, quer aparar a barba? Talvez um bigode elegante com as pontas enroladas?"
Gu Dalang, já prevendo o plano dela, deu um tapinha na barriga e sorriu de canto:
"Deixe-me adivinhar — acréscimo no preço?"
"Só cinco moedas! Mas como você é um cliente fiel, vou fazer de graça!"
"Vocês, barbeiros, sempre arranjando um jeito de arrancar moedas das pessoas. Devem fazer uma fortuna em um dia!"
"Dinheiro suado!" A Irmã Xiang esfregou as mãos, com sua expressão adorável, porém astuta, transparecendo. "Não dá para confiar só na aparência, diz minha irmã. Ou você estuda muito ou ganha dinheiro — tem que ter pelo menos uma das duas coisas!"
Gu Dalang gargalhou alto, e até Shen Ji, que ouvia a conversa do lado de fora, não conseguiu conter uma risadinha.
Quando Shen Ji entrou para buscar a irmã, Gu Dalang estava todo desgrenhado — o cabelo todo bagunçado, uma parte da costeleta raspada e vários pelos da barba arrancados. Ao ver Shen Ji, Gu Dalang aproveitou a chance para escapar:
"Seu irmão está aqui! Hora de ir para casa!"
O cliente fugiu antes do toque final — aparar as pontas duplas! Irmã Xiang bateu o pé e olhou, esperançosa, para o irmão:
"Irmão Ji, que tal um corte de cabelo?"
"Corte o seu próprio cabelo! A Irmã está te chamando para casa." Segurando a irmã travessa pela nuca, Shen Ji abriu caminho — uma mão segurando Youyu, a outra guiando o cachorro Lei Ting.
Com essa procissão barulhenta a reboque, ele finalmente libertou a Família Gu do caos infantil.
Enquanto o trio e o cachorro passavam pela Casa dos Li, de repente ouviram os gritos estridentes de Li Gou'er e a bronca de coração partido da Tia Li por trás do muro:
"Criança inútil! Passei noites e noites em claro com você, queimando óleo e gastando cada centavo para te dar aulas particulares — para onde foi todo esse aprendizado? Desperdiçado! Tudo desperdiçado!"
A Irmã Xiang parou, instintivamente esticando o pescoço para espiar pelo portão, mas Shen Ji rapidamente a silenciou e a afastou.
"Será que a Gou'er vai apanhar?", sussurrou ela, ansiosa.
Shen Ji hesitou. Tia Li era notória no beco por sua natureza competitiva, sempre se comparando aos outros.
"É melhor não nos envolvermos. Nos ver só a deixaria mais irritada."
"Por quê?", Irmã Xiang inclinou a cabeça.
Shen Ji suspirou:
"Eu passei nos exames. Gou'er, não. Se entrarmos agora, Tia Li não vai pensar que você está preocupada — ela vai achar que você está se gabando. Além disso, Gou'er está em casa com os pais. Mesmo que ele leve uma bronca, Tio Li o adora. Ele não vai sofrer muito."
"Você passou?!" Irmã Xiang finalmente assimilou a notícia, pulando de alegria.
Shen Ji tapou-lhe a boca com a mão:
"Fale baixo!"
"Mas são boas notícias! Não há nada a esconder…"
Ela parou de falar, olhando para trás mais uma vez. Os gritos de Li Gou'er pairavam no ar como uma corda esticada, deixando-a inquieta. Ela apertou a mão de Shen Ji e o seguiu obedientemente para casa, sem dizer mais nada. ‘Minha Irmã Miao é a melhor. Ela nunca bate em ninguém’. O pensamento passou pela sua cabeça.
Na cozinha, Shen Miao lavava o sangue de frango de uma tigela. Soluços distantes chegavam pela janela, e suas mãos pararam por um instante, antes que ela suspirasse e retomasse o trabalho.
Ela havia pensado que um dia tão bonito pedia que convidasse a família da Tia Gu para comemorar as conquistas do Irmão Ji. Para isso, comprara dois frangos excepcionalmente grandes — rechonchudos, tenros e ainda com ovos dentro. Mas agora, considerando a atitude atual da Família Li, se fizesse muito alarde sobre o sucesso do Irmão Ji, poderia ganhar o ressentimento mesquinho da Tia Li para o resto da vida.
Bem, melhor manter a coisa pequena e simplesmente desfrutar de uma refeição tranquila com a própria família.
Depois de limpar os frangos, ela preparou uma variedade de acompanhamentos na bancada: cogumelos shiitake, sangue de frango, alface, acelga chinesa e pele de tofu frita.
O fogo no fogão já estava crepitando, as chamas intensas. Assim que a panela esquentou, ela colocou um pedaço de banha.
Enquanto o óleo aquecia, ela refogou cebolinha e gengibre, seguidos de pimenta-de-Sichuan e anis-estrelado, deixando o aroma rico se espalhar.
Em seguida, vieram os pedaços de frango, crepitando ao tocarem a panela.
Quando a carne dourou, ela adicionou pasta de soja fermentada, molho de soja, sal e outros temperos.
Shen Miao também despejou uma tigela grande de vinho amarelo, regando a borda da panela. No momento em que a bebida entrou em contato com o calor, um vapor perfumado se espalhou, misturando-se com os temperos e o frango, criando um aroma inebriante.
Assim que o frango estava selado e os sabores totalmente liberados, ela adicionou água suficiente para cobrir tudo, tampou a panela e deixou cozinhar em fogo baixo.
À medida que o caldo engrossava e o aroma do frango se misturava com os outros ingredientes, ela adicionou os legumes restantes e deixou cozinhar, aguardando mais um pouco.
Enquanto esperava, ela começou a sovar a massa para o pão achatado.
O pão para este frango rústico assado na panela tinha um toque especial.
Shen Miao costumava preferir misturar fubá com farinha de trigo para um toque adocicado, mas como não havia milho disponível, a farinha de trigo comum serviria perfeitamente.
Depois de sovar a massa até ficar lisa, ela a dividiu em pequenas porções e as deixou de molho em água fria por quinze minutos.
Em seguida, esticou cada pedaço em tiras compridas e as pressionou ao redor da borda interna da panela de ferro, mantendo-as propositalmente baixas para que a metade inferior absorvesse o rico caldo de frango.
O pão absorveria o aroma do frango, enquanto o frango, por sua vez, absorveria o sabor do pão — uma combinação tão deliciosa que poderia deixar qualquer um tonto de prazer.
Ela também não serviria em tigelas. Enquanto o pão cozinhava no vapor, Shen Miao usou tijolos que sobraram da construção da casa para construir um fogão improvisado no quintal, resistente o suficiente para suportar a panela de ferro. Ela pegou uma assadeira do forno, encheu-a de carvão e acendeu-a embaixo da panela, para que pudessem comer diretamente do recipiente fumegante, mantendo a refeição bem quente do começo ao fim.
Quando o frango ficou pronto, o crepúsculo começava a cair.
Dois frangos inteiros e uma montanha de acompanhamentos encheram a enorme panela de ferro até a borda. Quando Shen Miao a ergueu com um suspiro profundo, o caldo, recém-saído do fogo, ainda borbulhava levemente, soltando pequenos goles sonoros.
Assim que a panela foi colocada no fogão de tijolos, Youyu trouxe banquetas, ansiosamente.
O Irmão Ji e a Irmã Xiang distribuíram pauzinhos e tigelas.
O cachorrinho, que havia vagado o dia todo, de alguma forma sentiu o cheiro e voltou trotando, abanando o rabo em forma de leque, antes de se jogar firmemente aos pés de Shen Miao, recusando-se a sair, não importando o quanto ela o espantasse.
Lei Ting, no entanto, mostrou-se muito mais digno, caminhando lentamente até finalmente se sentar aos pés do Irmão Ji.
O céu estava baixo, ainda tingido de índigo, com algumas estrelas prateadas que o atravessavam.
A brisa quente de verão soprava sobre o muro do pátio, mexendo as brasas do fogão, que crepitavam e soltavam faíscas intermitentemente.
O frango na panela borbulhava vigorosamente quando Shen Miao levantou a tampa, liberando uma onda de aroma que se espalhou como névoa, preenchendo o pátio e arrancando um "Uau!" de admiração da Irmã Xiang.
Os quatro se reuniram ao redor da panela, com dois bancos extras colocados entre cada dupla para tigelas de vinho e pratos de osso.
Como as crianças não podiam beber álcool, Shen Miao serviu a si mesma e a Youyu taças de vinho de folhas de cipreste gelado, resfriado no poço. O Irmão Ji e a Irmã Xiang receberam suco de ameixa azeda enviado por Mei Sanniang.
Beliscando os lábios franzidos da Irmã Xiang — que poderiam conter uma garrafa de óleo —, ela ergueu alegremente sua tigela e convidou todos a brindarem:
“Hoje estamos celebrando a admissão do nosso Irmão Ji na Academia Biyong! E não em qualquer turma — na prestigiosa Divisão A! Você é incrível! De agora em diante, você estudará na melhor academia, e seu futuro será tranquilo e brilhante!”
“Tranquilo e brilhante!”, exclamou a Irmã Xiang em voz alta.
“E cheio de felicidade!”, acrescentou Shen Miao.
“Ah! Ah!”, exclamou Youyu, animadamente.
Quatro mãos ergueram tigelas de barro, que tilintaram sob o céu noturno, tendo como pano de fundo o fogão crepitante e a panela borbulhante. Vinho e sopa transbordaram, enquanto risos e votos de felicidades pareciam fluir como o luar que se insinuava nas copas das árvores, inundando o pequeno pátio.
Depois disso, eles se entregaram à refeição com total concentração — a comida estava tão deliciosa que não havia espaço para conversa. O frango estava macio, o pão embebido em um caldo tão saboroso que quase os fez morder a língua de tanto prazer.
No meio da refeição, a Irmã Xiang lembrou-se de jogar alguns ossos com carne para Lei Ting e o cachorrinho, que os roeram, satisfeitos.
Assim que a refeição terminou, Shen Miao fritou o pão que sobrou e misturou com caldo de osso de porco para os cachorros. Até Lei Ting comeu e ficou com a barriga redonda, desabando na varanda como se estivesse cheio demais para se mexer.
A Irmã Xiang, tão empanturrada que precisou se agarrar a uma coluna para se apoiar, se jogou sobre Lei Ting e se recusou a se mexer, com os olhos semicerrados.
O Irmão Ji não estava muito melhor, andando em círculos pelo quintal.
Youyu obedientemente foi lavar a louça, enquanto Shen Miao usava uma longa vara de bambu para abaixar as lanternas do pátio, acendendo-as, antes de içá-las novamente.
O brilho quente se espalhava pelo chão iluminado pela lua, transformando a luz prateada em um dourado cintilante e aquoso.
Apenas o pequeno cão amarelo saiu correndo novamente, retornando depois de um tempo com algo preso na boca.
O coração de Shen Miao afundou ao ver a cena. Aquele filhote havia se tornado mais travesso com a idade — ultimamente, ele tinha o hábito de sair escondido e trazer de volta sapatos fedorentos, sempre o mesmo par, roubado de sabe-se lá onde. Ela até havia colocado uma cesta no beco para que as pessoas recuperassem seus calçados perdidos.
Então, quando viu o cãozinho voltando orgulhosamente com outro prêmio, ela presumiu que fosse mais um sapato. Seu couro cabeludo formigava de exasperação enquanto corria até ele, repreendendo-o e puxando sua orelha:
“Quantas vezes preciso te dizer? Nada de roubar! Se você não obedecer, Lei Ting vai te dar uma lição dolorosa! Onde você encontrou esses sapatos? E o que é isso na sua boca agora? Depressa, devolva-os…”
Antes que pudesse terminar, o cachorro cuspiu no chão o que havia pego.
Shen Miao olhou para baixo. Não era um sapato, mas um rato grande, peludo e multicolorido, se contorcendo fracamente.
Ela engasgou, dando um passo para trás.
Ao olhar mais de perto, percebeu que não parecia bem um rato. Existem ratos em várias cores? Não eram todos cinzas?
E então o “rato” soltou um som pequeno e lamentável “miau… miau…”
Shen Miao teve uma vaga sensação de presságio. Ela se agachou e cutucou delicadamente algo com o dedo — macio e quente. Quando ela virou a tigela, lá estava: um gatinho com os olhos quase fechados!
Pintado de amarelo, branco e preto, a criaturinha estava encharcada da baba do filhote, com apenas um olho entreaberto, ainda sem conseguir enxergar direito, miando fracamente enquanto rastejava desajeitadamente pelo chão.
"Peralta!... De onde você roubou esse gatinho?!" Shen Miao apontou para o filhote, exasperada. "O que vamos fazer agora? Não tem mãe gata, nem leite de cabra... como vamos manter essa coisinha viva? Rápido, leve-o de volta antes que a mãe perceba!"
O filhote latiu inocentemente, abanando o rabo.
Shen Miao pegou a bacia que costumava usar para alimentar as galinhas, colocou o gatinho dentro e levou o filhote para fora, procurando por toda parte por sinais de uma gata mãe com filhotes recém-nascidos. Ela vasculhou o Beco Leste do Salgueiro até o Beco Oeste do Salgueiro, perguntou a outros donos de gatos e até atravessou a Ponte Golden Beam para procurar — mas não encontrou nada.
Por fim, ela até encontrou o grande gato malhado — desde que Shen Miao parou de montar sua barraca na Ponte da Viga Dourada, ele havia levado sua pequena gangue para a peixaria de um bondoso vendedor, onde agora "ajudava" a guardar a barraca em troca de alguns peixinhos todos os dias.
Desanimada, Shen Miao voltou para casa cabisbaixa, segurando o gatinho na bacia e arrastando o filhote atrás de si, completamente perdida.
De repente, ouviu alguém chamando-a à distância. Virando-se, avistou um cavalo castanho familiar puxando uma carruagem pela multidão agitada, lutando para chegar até ela.
"Uau!" Zhou Da enxugou o suor da testa, enquanto finalmente parava a carruagem em frente a Shen Miao.
Xie Qi, surpreso e encantado, desceu rapidamente:
"Shen Miao, não esperava te encontrar na feira noturna."
Feira noturna? Ela tinha sido completamente sabotada pelo próprio cachorro! Shen Miao deu uma risada amarga.
"Eu... bem... na verdade, eu estava procurando um gato."
Xie Qi olhou para baixo e viu a bacia rasa de barro em seus braços, onde ela segurava um gatinho pouco maior que um rato.
"Ah", assentiu. "Encontrou? Você tem outro gato em casa?"
"De jeito nenhum! A culpa é toda dele!" Shen Miao desabafou, relembrando os crimes do cachorrinho — como ele havia roubado sapatos e, agora, este gatinho. Sua frustração animada tornou a história ainda mais divertida, animando Xie Qi, apesar da melancolia que o consumia.
Naquela noite, ele havia se despedido de seu terceiro irmão, Xie Tiao, que estava deixando a cidade.
Xie Tiao havia tomado sua decisão abruptamente, recusando-se a ouvir qualquer pessoa — até mesmo o Pai Xie, que passou uma hora depois da audiência tentando dissuadi-lo.
Agora, com apenas dois criados e dois cavalos, ele partiu, sob a proteção da noite.
Xie Qi o acompanhou até a estrada principal da cidade, antes que Xie Tiao finalmente o convencesse a voltar.
Sob o céu noturno límpido, com a antiga estrada estendendo-se atrás dele, Xie Tiao montou em seu cavalo e disse, com um sorriso triste:
"Este irmão mais velho é inútil. De agora em diante, deixo nossos pais e a Velha Senhora Xie aos seus cuidados." Ele riu com autodepreciação. "Mas estou me preocupando à-toa — você sempre foi mais responsável do que eu. Mesmo sem minhas palavras, você se sairia muito bem."
A garganta de Xie Qi se apertou e, no fim, tudo o que ele conseguiu dizer foi:
"Irmão mais velho, cuide-se."
Xie Tiao riu de coração.
"Não se preocupe, eu não vou morrer." Mas, apesar do tom leve, sua expressão logo se tornou solene. Após pensar um pouco, ele fez um gesto para que Xie Qi se aproximasse e desceu do cavalo para sussurrar: "No meu quarto, a quarta telha debaixo da cama está solta. Debaixo dela estão as provas que reuni anos atrás sobre o caso da Família Xu — pagas com esta minha mão quebrada. Há três anos, também localizei dois vigias noturnos que testemunharam alguém escalando os muros da casa da Família Xu na noite em que foram envenenados. Mas, no dia seguinte, um cavalo desgovernado os atropelou e matou no centro da cidade, junto com outros vendedores inocentes. O cavaleiro alegou que foi um acidente, e o assunto foi abafado. Se eu voltar vivo, como o Marquês Bowang reabrindo a Rota da Seda, então esqueça o que eu disse — trate como bobagem. Mas se..." Xie Tiao fez uma pausa, depois sorriu e deu um tapinha no ombro do irmão. "Se algum dia chegar a notícia da minha morte, não se esqueça deste caso. Se você tiver a oportunidade, continue a investigação por mim. Não deixe tantas almas injustiçadas sem vingança."
Dito isso, ele se endireitou, lançou um último olhar demorado para Xie Qi, apertou as rédeas com a única mão boa e esporeou o cavalo rumo ao oeste como uma estrela cadente — sem olhar para trás.
Depois que Xie Tiao partiu, Xie Qi ficou sozinho na escuridão por um longo tempo.
Seus pais e a Velha Senhora Xie queriam se despedir do irmão, mas ele recusou, dizendo que não queria uma despedida lacrimosa. Ele alegou já ter decepcionado muitos nesta vida — professores, amigos — e que só queria que o Nono Irmão o acompanhasse neste último trecho.
Talvez ele tivesse planejado tudo desde o início — poupando seus pais de mais sofrimento, guardando essas palavras finais apenas para Xie Qi.
Pensando em Xie Tiao, o olhar de Xie Qi voltou-se para o gatinho nos braços de Shen Miao, e seu coração doeu novamente.
Seu irmão mais velho mantinha dois gatos gordos em seu quintal — criaturas preguiçosas que nunca caçavam ratos, preferindo, em vez disso, arranhar as cortinas da cama. Como resultado, todas as cortinas da cama de Xie Tiao ficaram rasgadas e desfiadas.
Agora que ele tinha ido embora, os gatos foram transferidos para o pátio da Velha Senhora Xie. Xie Qi só podia esperar que eles não reduzissem suas cortinas ao mesmo estado.
"Ugh, andamos em círculos e ainda não encontramos a mãe deste gatinho ou alguma gata amamentando disposta a adotá-lo. Talvez pudéssemos pagar alguém para deixar sua gata amamentá-lo por um tempo. Que dor de cabeça", suspirou Shen Miao.
Sob a luz bruxuleante das lanternas do mercado noturno, as sobrancelhas franzidas dela pareciam ondulações refletindo o luar — uma beleza como flores vistas através da água.
Xie Qi olhou para ela, depois desviou o olhar rapidamente, deixando escapar sem pensar:
"Eu tenho gatos em casa. Talvez eu possa cuidar dele por um tempo, até que seja desmamado, e depois devolvê-lo para você."
Shen Miao se animou instantaneamente:
"Então, sem vergonha nenhuma, o deixarei aos cuidados do Nono Irmão!"
O jeito como os olhos dela se curvaram em crescentes fez as bochechas de Xie Qi corarem. Ele pegou o gatinho do tamanho da palma da mão dela, acariciando suas costas minúsculas distraidamente:
"Como devemos chamá-lo?"
"Ah, nós o encontramos agora — ainda não tem nome." Shen Miao coçou a cabeça timidamente e apontou para o cachorro aos seus pés. "Sou péssima para dar nomes às coisas. Este vira-lata está comigo há tanto tempo e ainda não tem um nome decente."
Xie Qi pensou por um momento e sorriu. "Já que você tem Lei Ting (Trovão), por que não chamar este de Zhui Feng (Vento Perseguidor)? Isso abrange dois dos Quatro Símbolos — vento e trovão. Quanto a este pequenino, com aquela mancha dourada na testa e o rabinho curto, vamos dar a ele o elemento fogo — que tal Qi Lin (Kirin)?"
Shen Miao assentiu, com entusiasmo. Finalmente, alguém havia dado nomes apropriados a eles! Agora a Tia Li não precisaria mais lançar-lhe olhares fulminantes.
Após se despedir da Senhora Shen, Xie Qi se viu embalando um gatinho chamado Qilin em seus braços.
Ele olhou para a pequena criatura, que não parava de se aconchegar em seu peito, e cutucou suavemente seu pelo macio, murmurando para si mesmo:
"Você é o gato da Senhora Shen, embora vá ficar com a Família Xie por enquanto. Já que você pertence a ela, seu nome completo será Shen Qilin. Quando você crescer, eu lhe darei um nome de cortesia…"
A carruagem balançou suavemente enquanto se movia, e Zhou Da, que o acompanhava, ouviu os murmúrios sem sentido do Nono Irmão e balançou a cabeça. A Velha Senhora Xie estava certa — o Nono Irmão realmente parecia ter perdido o juízo.
Ao retornar para casa, Xie Qi correu para o pátio de sua avó em busca de uma gata amamentando, mas quando levantou os rabos dos dois felinos rechonchudos que lá estavam, ficou estupefato — ambos os gatos de seu irmão mais velho tinham sacos redondos e peludos embaixo. Como podiam ser ambos machos?
A Velha Senhora Xie estava de luto pela partida repentina do Terceiro Irmão, chegando a compartilhar uma refeição chorosa com o Pai Xie. Ela acabara de ser consolada pela Senhora Xie e estava começando a se conformar com sua tristeza, quando o plano equivocado de Xie Qi de encontrar uma gata amamentando a fez rir tanto que quase cuspiu o chá. Acenando com um dedo trêmulo, ela gargalhou:
"Nono Irmão, oh Nono Irmão! Não só esses dois são machos, mas mesmo que houvesse uma gata, como ela poderia produzir leite sem ter parido? Você nunca criou criaturas peludas antes — que falta de bom senso! Bem, Babá Yu, vá preparar uma tigela do meu pudim de leite de cabra de sempre. Vamos colaborar com o nosso Nono Irmão!"
Aliviado, Xie Qi levou o leite de cabra e o gatinho de volta para seus aposentos, resignando-se a uma noite em claro como um pai de gato improvisado.
Na manhã seguinte, com olheiras profundas, foi chamado por sua mãe, Senhora Xi.
Seus passos estavam trêmulos de exaustão — Shen Qilin miava faminto a cada hora e meia, obrigando-o a acordar repetidamente para alimentá-lo. Tão jovem, ele já sofria as provações da paternidade.
Quando entrou, a Senhora Xi ainda estava absorta em seus livros de contabilidade. Sem levantar os olhos, ela girou as contas do ábaco e perguntou:
"Não tive tempo ontem, mas agora me lembro — como foi sua conversa com a Senhora Shen sobre o trabalho?"
"Trabalho?" Xie Qi ficou paralisado por um longo momento, antes que a lembrança viesse à tona.
Ele bateu na testa — sua mente ainda estava cheia de miados incessantes. Encontrando o olhar confuso de Lady Xi, ele sorriu amargamente.
"Lady Shen concordou imediatamente, mas... ela mencionou algo sobre uma 'barreira de segurança' e separação de finanças... esqueci os detalhes…"
Lady Xi: "…"
Observando Xie Qi bocejar incontrolavelmente, ela suspirou e fechou seu livro-razão.
Tudo bem, ela mesma iria hoje. Seu filho estava se comportando de forma estranha ultimamente — já era hora de ela descobrir o que realmente estava acontecendo.

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