Capítulo 7
Zhu Qing teve uma noite agitada na residência Sheng.
As desconfortáveis camas de armação de ferro do orfanato e os beliches desbotados do dormitório da Academia de Polícia de Wong Chuk Hang pareciam insignificantes em comparação ao luxuoso quarto de hóspedes que lhe fora designado na mansão. Contudo, as anotações cada vez mais numerosas em seu caderno a lembravam: aquilo não era férias, mas uma missão.
Tanto Xu Jiale quanto Zhu Qing ficaram acordados até o amanhecer. Após o café da manhã, trazido pela empregada, Irmã Ping, seus colegas do CID chegaram.
— Vieram nos render?
Zhu Qing balançou a cabeça. — Não, é o relatório da autópsia do Maltese.
A noite passada fora uma exceção, mas hoje tudo voltara à rotina.
Quanto ao motivo de o CID ter corrido para lá tão cedo — ironicamente, a equipe jurídica da família Sheng concluíra todos os trâmites com agilidade. Enquanto o relatório de DNA acelerado dos restos mortais humanos ainda pendia, o relatório da autópsia de Bo Bo, o cachorro, já havia sido entregue.
"Sem anormalidades na causa da morte de Bo Bo."
O relatório estava repleto de jargões técnicos, mas o olhar de Zhu Qing fixou-se na linha: "Trauma externo descartado".
Tio Li deu uma olhada no relatório e zombou.
A Segunda Senhorita Sheng apertou a saia, murmurando: — Foi mesmo apenas um acidente?
Tio Li virou o rosto.
Matar um cachorro — que bobagem vinda de uma herdeira mimada. O assassino temia que o cão herdasse a fortuna da família? Ou o cão presenciou o crime e precisou ser silenciado?
Estupidez era o que mais o irritava.
Quando Zhu Qing partiu, a cama de hóspedes permanecia impecavelmente arrumada.
Na maior parte dos dias, o mundo do jovem mestre Sheng Fang restringia-se ao berçário do terceiro andar e ao corredor. Agora, com a passagem secreta selada pelo marido da Segunda Senhorita Sheng, Marysa o vigiava como um sistema de vigilância humano.
Sheng Fang descansou o queixo arredondado no corrimão da escada, observando Zhu Qing preparar-se para partir.
— A polícia não deveria proteger as pessoas?
— Estamos trabalhando no caso — respondeu Zhu Qing, friamente, embora suas palavras tenham se suavizado. — Comporte-se, e eu vou te indicar para um Prêmio de Bom Cidadão.
O menino fez um bico, imitando um vilão de desenho animado. — Pfft, como se você pudesse resolver casos.
Ninguém sabia de onde o garoto tirara tanta autoconfiança.
Quando seu colega a chamou, Zhu Qing lançou um casual "Até mais" por cima do ombro. Mas a voz de Sheng Fang soou novamente.
— Me dê seu número!
Zhu Qing virou-se. — Não tenho.
— Um pager?
— Nem isso.
Marysa, sempre observadora, absorveu a troca como uma lição de idiomas — esquerda, depois direita, analisando o mandarim lacônico.
O jovem mestre examinou Zhu Qing. — Você é... pobre?
— Você é... novo-rico?
Silêncio mortal.
Marysa prendeu a respiração — será que o pequeno mestre havia perdido novamente?
...
Uma década atrás, o empreiteiro por trás da construção da mansão Sheng havia fundado, desde então, um negócio próspero de materiais de construção. Embora agora de grande porte, os primeiros dias da empresa foram caóticos, sem registros adequados da equipe original. Ainda assim, o cruzamento dos contratos da equipe jurídica, faturas de materiais e os registros de visitantes do administrador do imóvel gerou pistas.
Depois de deixar a colina, Zhu Qing e Tio Li dirigiram-se à Yongjian Materiais de Construção. A placa dourada na entrada brilhava de forma ostensiva. Uma secretária os levou ao escritório de He Yongjian.
— Então você é o "Cimento Jian"? — Tio Li o observou.
He Yongjian, agora envolto em etiquetas de grife e exibindo dentes com capas de ouro, irritou-se com o antigo apelido. Até os ex-colegas de trabalho o chamavam de "Chefe He".
O olhar de Zhu Qing varreu a sala, pausando em uma estátua de Guan Gong antes que ela se sentasse à mesa de chá de jacarandá.
He Yongjian a estudou e, então, sorriu. — Uma dama bonita como você... que tal um dim sum no Zhou’s depois do trabalho?
O rosto de Tio Li escureceu, mas Zhu Qing apenas traçou uma linha sobre os relatórios enviados por Yongjian com sua caneta.
— Chefe He, a contagem de hidrantes de dois anos atrás não condiz com a inspeção de hoje.
O sorriso desapareceu. Tio Li conteve uma risada.
Aquela novata tinha garras.
He Yongjian engoliu o chá para disfarçar o desconforto antes de se recompor.
— Naquela época, fazíamos turnos noturnos. A equipe não reclamava — dinheiro extra para o Ano Novo Lunar.
— Os veteranos das cortiços no sopé da colina ficavam jogando água em protesto. O Velho Sheng aumentou o pagamento em 30% e nos disse para resolver. Para os ricos, o dinheiro resolve tudo.
Zhu Qing recordou o relato do administrador do imóvel, o Velho Lam —
O capataz disse que o Velho Sheng mudou de ideia depois, interrompeu os turnos noturnos e atrasou o progresso por meses.
— Por que a interrupção? — ela pressionou.
He Yongjian franziu a testa, revirando memórias.
— Interrupção... ah, é verdade! — Ele deu um tapa na própria coxa. — O Sr. Chen disse para não termos pressa — eles não estavam com pressa.
— Qual Sr. Chen?
— Quem mais poderia parar uma equipe inteira? O marido da Segunda Senhorita Sheng.
— Ele supervisionava tudo? E o genro mais velho?
— Nunca apareceu. O Velho Sheng preferia o segundo — dizia que ele "sabia como lidar com as pessoas". O mais velho? Apenas um professor, destilando teorias chatas.
Tio Li interrompeu: — Algum problema durante a instalação da lareira?
— Nenhum. — He Yongjian gesticulou, desdenhoso. — Policiais já perguntaram antes. Se houvesse problemas, eu teria mencionado.
Zhu Qing verificou as plantas e os registros. — 19 e 20 de dezembro — um trabalhador chamado Li Fa desapareceu logo depois.
— Centenas de pessoas entraram e saíram. Espera que eu me lembre? — Ele mexeu na sua chaleira. — Nenhuma lembrança desse Li Fa.
Zhu Qing sustentou seu olhar. — Tudo bem. Continuaremos investigando.
A xícara de chá chacoalhou quando a mão de He Yongjian tremeu.
— Não quereríamos atrasar sua fortuna — observou Tio Li, de forma incisiva, sinalizando a saída.
Mas, assim que chegaram ao elevador, He Yongjian os perseguiu de repente.
— Policiais!
— O mármore para o relevo da lareira atrasou. Depois chegou de repente, mas minha equipe foi transferida para uma obra em Repulse Bay. Então trouxe meu primo, Ah Fa...
— Ele apressou o trabalho — terminou em dois dias em vez de cinco. Me contou depois, enquanto bebíamos.
O caso do esqueleto na lareira Sheng gerara indignação pública. He Yongjian temia que a exposição na mídia sobre os riscos potenciais do trabalho apressado manchasse o nome de sua empresa.
— Honestamente, policiais — ele implorou —, a lareira não tinha defeitos. Podemos... manter isso fora da imprensa?
Tio Li e Zhu Qing trocaram olhares.
A preocupação deles não tinha nada a ver com o fato de a reputação de ouro da construtora ser manchada ou não.
Assim que as portas do elevador estavam prestes a se fechar, He Yongjian lembrou-os urgentemente —
— Mantenham confidencial!
Dentro do elevador confinado, Tio Li perguntou: — O que você acha?
Depois do que pareceu uma eternidade, a especulação de Zhu Qing chegou aos seus ouvidos.
— Li Fa pode não ter agido sozinho.
— Apressar o trabalho para terminar em dois dias? O assassino provavelmente escondeu o corpo na lareira muito antes.
...
Quando Zhu Qing e Tio Li retornaram à delegacia, Hao Zai estava se gabando de sua noite na boate com Mo Shazhan.
— Aquela garrafa chamava Louis alguma coisa — embrulhada em papel alumínio ouro rosa, e eles até usaram luvas brancas para abrir!
— O saca-rolhas era cravejado de rubis. Disseram que pertencia ao Chefe Huang, o magnata do setor imobiliário — usado mês passado na festa de aniversário de sua quinta esposa...
Xu Jiale suspirou de inveja.
Que azar o dele, Mo Shazhan não tê-lo levado para a experiência.
— Você não está perdendo nada — provocou Xiao Sun. — Você até ficou em uma mansão de luxo na colina.
— Uma mansão mal-assombrada na colina, você quer dizer!
Mo Zhenbang agitou a pasta do caso, sinalizando a todos que se reunissem na sala de conferências.
— A comida do Mo Shazhan chegará logo — disse a Irmã Zhen, a oficial administrativa. — Ele pediu especialmente tortas de ovo do Lee Kee e chá com leite tipo "silk-stocking" para todos vocês.
— Sabendo que vocês não trabalham se não estiverem alimentados.
Zeng Yongshan correu imediatamente para a sala de conferências, pegando a cadeira dobrável perto da porta. — As tortas de ovo do Lee Kee são crocantes e cheirosas — recém-saídas do forno, você tem que lutar por elas!
— Vamos ao trabalho! — Hao Zai caminhou até o quadro branco, pegando a pasta do caso das mãos de Mo Zhenbang antes que este pudesse repreendê-lo.
— Os colegas na boate disseram que He Jia'er era querida. Todos adoravam essa garota de elite da universidade — ela recebia tratamento especial.
— Os pais da vítima suspeitavam que ela tivesse feito inimigos no clube... mas a verdade é que He Jia'er não apenas não tinha inimigos — ela estava prosperando.
— Nas duas semanas antes de desaparecer, ela foi presenteada com joias novas, roupas e sapatos — os presentes acumulavam-se mais rápido do que ela podia abrir. Toda noite, depois do trabalho, um carro de luxo vinha buscá-la.
— Suas amigas disseram que ela havia arrumado um "sugar daddy"... mas, apesar de ser amigável com todos, He Jia'er mantinha o bico fechado. Nunca soltou uma palavra.
Xu Jiale: — Talvez a identidade do cara fosse sensível demais para revelar?
— Sugar daddy? — Zeng Yongshan zombou. — Que homem decente frequenta esses lugares? Provavelmente algum babaca casado.
Toc, toc, toc —
A batida firme interrompeu seus pensamentos.
Um perito entregou um relatório de DNA urgente. — Inspetor Mo, o Inspetor Ge pediu para eu trazer isto.
O relatório estava mais fresco do que as tortas de ovo fervendo do Lee Kee. Mo Zhenbang rasgou o envelope.
Sem surpresas — a vítima foi confirmada como sendo He Jia'er.
Todos os olhares voltaram-se para as notas rabiscadas no quadro branco.
Os motivos do assassinato resumiam-se a alguns clássicos: vingança, amor, dinheiro...
Mo Zhenbang: — Notifiquem a família.
— Aquela mansão na colina era famosa por sua segurança rigorosa naquela época. Até os trabalhadores da construção precisavam de identificação para entrar. He Jia'er era uma estranha...
— Quatro guardas estavam de serviço simultaneamente durante cada turno — não havia como uma estranha ter entrado. — Tio Li captou o raciocínio de Zhu Qing, compartilhando suas descobertas na Construtora Yongjian.
Zhu Qing: — Mas se fosse alguém de dentro, nenhum registro seria necessário.
Xu Jiale franziu a testa. — Claro que você não se registra ao chegar em casa — qual seria o sentido?
Entre os murmúrios dispersos, o olhar de Mo Zhenbang pousou em Zhu Qing. — Continue.
— Os residentes das mansões na colina dirigem diretamente para suas garagens — disse Zhu Qing. — Assim que a equipe de construção foi embora, o assassino enfiou o corpo em um compartimento oculto atrás da lareira.
Mo Zhenbang: — Talvez o foco nunca tenha sido os trabalhadores da construção escondendo o corpo.
A família Sheng — exemplo máximo de "cidadãos exemplares" — ainda não havia se mudado para a mansão quando o crime ocorreu. A instalação da lareira exigia profissionais, e até os tabloides mais sensacionalistas evitaram especulações selvagens, apenas lamentando o feng shui amaldiçoado da mansão por atrair tal tragédia...
Quando os restos mortais foram posteriormente expostos, a família Sheng cooperou totalmente com a polícia — álibis inquestionáveis, imagens de vigilância de uma década atrás restauradas, depoimentos de servos — tudo era impecável.
— He Yongjian mencionou — refletiu Tio Li —, que o segundo genro disse especificamente para a equipe de construção encerrar o expediente pontualmente às 20h.
A tensão na sala finalmente quebrou enquanto os oficiais trocavam olhares significativos.
Parecia que era hora de convidar este "cavalheiro íntegro" para uma conversa com um café.
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