144 - A roda do destino


Capítulo 144

A RODA DO DESTINO


Num piscar de olhos, o Ano-Novo chegou novamente.

Um ano atrás, nessa mesma época, Luo Huai Yuan e Yan Yan já haviam chegado ao seu feudo e passado um Ano-Novo bastante solitário. Este ano, a residência do Príncipe Yun acabara de ser concluída e, naturalmente, eles não poderiam passar a data da mesma maneira.

Era o primeiro Ano-Novo em que o Príncipe Yun receberia as autoridades do feudo em sua residência e lideraria a cerimônia de oferenda aos céus, oficializando assim o estabelecimento do feudo.

Em comparação com o Príncipe Yun, que vivia discretamente há algum tempo, os Príncipes Jin e Qi eram figuras de muito mais destaque.

No ano anterior, o Imperador Xi havia convocado ambos de volta à Capital para o Ano-Novo e já havia emitido o decreto de convocação para este ano também. Eles gozavam de grande favor imperial e estavam sempre em evidência; praticamente ninguém ousava contestá-los.

Além do Príncipe Yun — que claramente não gozava do favor imperial —, havia outra pessoa ainda menos estimada pelo Imperador Xi: o quinto príncipe, Luo Jing, que acabara de receber o título de Príncipe Jing.

O quinto príncipe, Luo Jing, era mudo de nascença e possuía uma personalidade extremamente apática e inexpressiva. Se diziam que o Príncipe Yun não era favorecido, dizia-se que o Príncipe Jing era odiado. Isso ocorria porque a existência do quinto príncipe lembrava o Imperador Xi de suas próprias falhas e incapacidades.

Felizmente, muitas pessoas estavam cientes da loucura que acometera a Venerada Concubina naquela época.

Todos presumiam que o estado do quinto príncipe era consequência de a Venerada Concubina ter enganado o monarca. Caso contrário, o nascimento de um príncipe com uma deficiência congênita na Família Real seria visto como um presságio de mau-agouro. Na pior das hipóteses, havia até a possibilidade de o Imperador Xi sofrer um processo de deposição.

Por isso, o quinto príncipe, Luo Jing, raramente aparecia em público. O Imperador Xi também permanecia indiferente a ele.

A situação chegou a tal ponto que bastou o Ministério dos Ritos fazer uma única pergunta, para que o Imperador Xi ordenasse que o quinto príncipe — que acabara de atingir a maioridade — partisse para o seu feudo. Isso deu a todos a impressão de que ele estava sendo expulso da capital.

Naturalmente, o discreto quinto príncipe nunca havia realmente chamado a atenção de ninguém. Ninguém sentia escárnio nem simpatia; era como observar uma pessoa insignificante deixando um lugar ao qual não pertencia.

Quando Luo Huai Yuan deixou a Capital, lamentou que seu cortejo não pudesse ser comparado ao esplendor dos cortejos dos Príncipes de Jin e de Qi, sendo ridicularizado por Yan Yan por sua vaidade.

O cortejo do Príncipe de Jing era ainda mais precário. Os guardas, as damas-de-companhia e até mesmo as carruagens pareciam ter sido reunidos às pressas. Eles seguiam em uma fila longa e desorganizada, mas, ao observar mais de perto, via-se que todos pareciam bastante desanimados. Afinal, ter de viajar para a Província de Jing, com seu frio cortante, em uma época daquelas, deixaria qualquer um com uma expressão de quem acabara de perder o pai.

Embora as pessoas que acompanhavam o Príncipe de Jing não gozassem de grande prestígio, a Capital ainda oferecia mais oportunidades de ascensão. Ir para a Província de Jing significava, na prática, o exílio.

O cortejo contava com duas carruagens extremamente luxuosas, que claramente não se destinavam a pessoas comuns.

Em uma delas estava a Consorte de Jing, do Clã Xiao. Naquele momento, seu rosto transbordava ressentimento, enquanto ela reclamava amargamente com a dama-de-companhia ao seu lado.

Primeiro, ela reclamou que o Imperador Xi fora cruel demais ao expulsar o filho e a nora da capital em um momento como aquele. Depois, queixou-se da Imperatriz Xiao. Apesar de ser sua tia e pertencer ao mesmo clã, por que ela não assumira alguma responsabilidade? Partir da Capital às pressas fizera o clã Xiao perder muito prestígio.

Ela reclamava principalmente do próprio marido, o Príncipe Jing. Queixava-se de que ele era incapaz e também mudo, obrigando-a a sofrer junto com ele.

A criada do Palácio não ousava interrompê-la, conhecendo bem a personalidade da Consorte Jing. Se alguém discordasse, ela discutia sem parar. Era melhor deixá-la desabafar um pouco e encerrar o assunto. Felizmente, as pessoas na carruagem eram todas de sua confiança. Se o Príncipe Jing ou o pessoal dele descobrissem…

Se fosse apenas o Príncipe Jing, tudo bem; ele não tinha um temperamento difícil. Mas, quando a ama-de-leite de Xiao Shi, Nana Li, recordava-se da expressão do Eunuco-Chefe Fu, não conseguia evitar um arrepio:

"Consorte, a senhora deveria falar um pouco menos. Sua Alteza teve febre ontem e ela ainda não baixou. Não deveria enviar alguém, para ver como ele está?"

A relação entre Nana Li e Xiao Shi era muito próxima; ela a havia criado desde pequena. Após o casamento de Xiao Shi, Nana Li foi para o palácio como parte de seu dote. Naturalmente, ela não precisava ser tão contida em suas palavras.

Os lábios de Xiao Shi se curvaram em um sorriso de escárnio:

"Como eu disse, gente distorcida gera distorções. Parece que esse mudo também aprendeu a fazer barulho. Infelizmente, ninguém o ama e nem se importa com ele. Mesmo tendo adoecido, ele foi expulso da Capital.”

Nana Li não ousava mais falar, aterrorizada com a ideia de que a consorte pudesse dizer algo ainda mais chocante.

Na verdade, Xiao Shi não costumava ser tão dura. É que, devido à expulsão da Capital naquele momento, o ressentimento por ter se casado com um príncipe mudo tornou-se ainda mais pesado.

Xiao Shi era a filha legítima de um dos ramos colaterais do Clã Xiao. Seu casamento fora arranjado cedo com o primo com quem crescera brincando.

Inesperadamente, a Imperatriz Xiao interveio e a uniu ao quinto príncipe.

Esse casamento não foi feliz desde o início. Xiao Shi estava cheia de ressentimento. Ao ver seu marido mudo — que também parecia um pedaço de madeira, sem qualquer emoção —, ela amaldiçoava os céus e culpava os outros ainda mais.

Embora o quinto príncipe não pudesse falar e não demonstrasse muita emoção, ele não era tolo. Ele também tinha suas próprias opiniões sobre a esposa. Os dois não desenvolveram afeto como recém-casados, e as coisas ficaram ainda mais monótonas depois. Eles gradualmente se tornaram estranhos.

Claro, Xiao-shi ainda mantinha as aparências quando necessário — por exemplo, dentro do Palácio. Se a situação saísse do controle, ela seria a primeira a cair.

Por outro lado, na carruagem do quinto príncipe…

Como a viagem era longa, a carruagem do príncipe era, naturalmente, extraordinária. Ela não era apenas extremamente luxuosa por fora, mas também muito espaçosa por dentro; parecia um cômodo móvel.

Era dividida em duas partes. A dianteira contava com uma mesinha, cadeiras, armários e uma escrivaninha, assemelhando-se a uma sala de estar. A parte traseira tinha uma cama para descanso e até mesmo um banheiro.

Na parte da frente, uma serva mais velha do palácio estava sentada, soluçando. Um eunuco estava ao lado dela, tentando consolá-la:

“Não chore mais. O Médico Imperial Hu está nos acompanhando. Antes de partirmos, também ordenei que preparassem algumas ervas medicinais. Sua Alteza certamente ficará bem."

"Diga-me, como pode Sua Majestade ser tão cruel? Acaso ele não é seu próprio filho? Sua Alteza está gravemente doente, mas foi expulso às pressas mesmo assim."

O eunuco aparentava ter cerca de quarenta anos; seu rosto era pálido e sem pelos. Havia rugas finas ao redor dos olhos, revelando que ele era alguém que costumava sorrir. Naquele momento, suas bochechas se contraíram e ele suspirou:

"Chega, não diga mais coisas assim daqui para frente. Pense desta forma: é bom termos deixado a Capital. Estar longe daquele lugar significa dias mais tranquilos no futuro."

A Tia Qi enxugou as lágrimas e disse:

"Eu também sei disso. Mas sinto pena de Sua Alteza."

O Eunuco Fu revirou os olhos e disse, com uma expressão sombria:

"Por que sente pena? Quem deveria sentir pena não sente, mas você, em vez disso, sente." Suas palavras referiam-se ao Imperador Xi, mas também eram uma crítica à consorte Xiao Shi, que estava na carruagem logo atrás deles.

Para a Tia Qi, parecia que ele se referia mais a Xiao Shi. Afinal, como esposa do Príncipe Jing, ela nunca viera ver como ele estava, apesar de a febre não baixar. A Tia Qi suspirou:

"Essa consorte é verdadeiramente indigna!"

O Eunuco Fu zombou friamente. Só então seu rosto, habitualmente sorridente, revelou certa malícia:

"Não a chame assim daqui para frente. Como ela poderia ser digna? Xiao Shi... eu me lembrarei disso!"

"Chega, você deve levar em consideração a honra de Sua Alteza."

…..ooo0ooo…..

Luo Jing estava deitado na cama, encarando o teto da carruagem.

Seus ouvidos estavam atentos aos movimentos do lado de fora. Ele tinha a ponte nasal alta e lábios finos e pálidos. Seu perfil era elegante e suas sobrancelhas pareciam ter sido desenhadas a tinta.

Luo Jing era um homem extremamente belo — tão belo que possuía um ar levemente andrógino. O único detalhe era que ele não demonstrava emoções no rosto; à primeira vista, parecia uma escultura de jade.

Na verdade, Luo Jing havia despertado há algum tempo. Ele apenas permanecia ali, perdido em pensamentos.

Muitas coisas passavam por sua mente. Coisas que ele não ousava imaginar, mas que não tinha escolha a não ser aceitar. Isso, porque outra pessoa era ele, e ele também era outra pessoa.

Em suma: Luo Jing era alguém que vivia duas vidas.

Em sua vida passada, ele havia acabado de morrer após beber uma taça de vinho envenenado. Quando abriu os olhos novamente, era a véspera de sua partida para o seu feudo.

…..ooo0ooo…..

“… Você passou a vida inteira vivendo à deriva, sem rumo, sem conquistas, sem ambição. No fundo, você não passava de um covarde sem fibra. Você queria paz e tranquilidade, mas será que este é um mundo pacífico? Você não lutou nem batalhou por nada e, ao fim, este é o resultado….”

O rosto de Xiao Shi estava terrivelmente distorcido. Aquela mulher, que deveria ser sua esposa, de repente parecia uma completa estranha.

Luo Jing sempre pensou que detestava tal desprezo e desdém. No passado, quando se deparava com isso, sentia-se desconfortável, embora não demonstrasse nada externamente. Tendo se convertido ao Budismo recentemente, ele havia encontrado paz interior.

No entanto, ao olhar para o rosto distorcido da mulher à sua frente… Ele... ele, na verdade, achava aquilo um absurdo.

“… O trono do seu principado pertencerá ao nosso Heng’er, no futuro... Sua Majestade disse que, assim que você morrer, tudo pertencerá a nós, mãe e filho... Pare de resistir, não adianta resistir...Você é apenas um mudo. Manter um mudo vivo é apenas desperdício de recursos…”

Luo Jing apenas observava em silêncio. Ele contemplava a aparência transtornada dela.

“… Que tal você beber pacificamente? Não me force a fazer isso. Sua Majestade disse que, se você não quiser beber, eu mesma posso forçá-lo…”

A mão de Luo Jing — branca como jade, porém ressecada — segurou a taça de vinho e ele bebeu o conteúdo. Ele bebeu da mesma maneira que costumava beber vinho: postura normal, expressão normal, olhar indiferente.

No entanto, continuou a encará-la.

O rosto fortemente maquiado da Consorte Jing foi subitamente inundado por lágrimas. Ela parecia chorar e rir ao mesmo tempo. Ela curvou-se e cobriu o rosto com as mãos, mas não conseguiu conter o fluxo de lágrimas que caíam:

“Luo Jing, não me culpe. Eu não tive escolha. As pessoas são criaturas egoístas. Foi pelo bem de Heng’er... Se você não morrer, meu filho terá de morrer... Só me resta este único filho; não posso deixá-lo morrer…”

Luo Jing sentiu algo escorrer pelo canto dos lábios. Ele abriu a boca... Ele realmente queria dizer: que burra... Mas não conseguiu dizer em voz alta…

A história era como uma tragédia-clichê.

A vida passada de Luo Jing era igual à sua vida atual, antes de deixar o Palácio. Ele nasceu mudo e sua expressão inexpressiva era incapaz de demonstrar emoções.

Tal príncipe estava destinado a ser rejeitado por todo o Palácio. Até mesmo seu próprio pai o evitava. Poderia ele esperar que alguém agisse de outra forma?

Felizmente, isso também serviu como uma camada de proteção, permitindo que ele amadurecesse, se casasse e partisse para o seu feudo.

Era impossível não sentir ressentimento.

No entanto, o ressentimento era um fardo extremamente pesado para Luo Jing — tão pesado que ele não conseguia suportá-lo. Ele não sabia no que se tornaria, se deixasse esse sentimento crescer e se enraizar. Só lhe restava fazer o possível para ignorar tudo e isolar-se de qualquer negatividade.

Ele conhecia o seu lugar e deixou a Capital obedientemente. Cumpriu, com respeito e cautela, tudo o que se esperava de um príncipe-vassalo. Tudo o que desejava era paz e tranquilidade, afastando-se das questões mundanas.

Infelizmente, ele avaliou mal o coração dos outros.

Em sua vida passada, o Príncipe de Jin havia se rebelado enquanto ainda era um príncipe-vassalo. Como ele próprio havia usurpado o trono do irmão, compreendia claramente a ameaça oculta representada pelos outros príncipes-vassalos. Assim que consolidou sua posição, começou a lidar com eles.

O primeiro a cair foi seu próprio irmão, o Príncipe de Qi, que o havia ajudado a chegar ao trono. Quando isso aconteceu, Luo Jing soube que estava em perigo.

Como era de se esperar, o cerco se fechou passo a passo.

O Imperador de Jin usava constantemente todo tipo de desculpa para retirar os direitos dos príncipes-vassalos, deixando-lhes apenas o título hereditário. Ele chegou a restringir os príncipes aos limites de seus próprios feudos, tratando-os como prisioneiros.

Para dissipar a desconfiança do Imperador de Jin — ou talvez para deixar aos seus filhos uma chance de sobrevivência —, Luo Jing escolheu converter-se ao Budismo. Não foi apenas um gesto superficial: além de não raspar a cabeça nem abandonar o lar, ele se abstinha de carne e dedicava-se à oração e à meditação. Sem desejos ou ambições, ele não diferia em nada de um monge.

Contudo, no final, o Imperador de Jin não o poupou. Uma taça de vinho envenenado pôs fim à sua vida prematuramente.

Em sua vida passada, Luo Jing morreu aos trinta e três anos.

…..ooo0ooo…..

Luo Jing moveu-se levemente e entreabriu os lábios:

"Fu…"

Sua voz estava rouca e fraca. Era impossível ouvi-la, sem prestar muita atenção.

Luo Jing ainda não estava acostumado a usar a voz. Ele estendeu a mão, pegou um sino dourado que estava sobre a mesinha ao lado e o tocou.

Ouviu-se o farfalhar de tecidos e as portas divisórias foram abertas.

“Vossa Alteza, já acordou!”

“Que bom que acordou, que bom que acordou! O que Vossa Alteza deseja? Água?”

“Água.”

A Tia Qi e o Eunuco Fu trocaram olhares com uma empolgação que não conseguiam esconder.

“Vossa Alteza realmente consegue falar…” A Tia Qi enxugou as lágrimas. Eram lágrimas de alegria.

Quando Luo Jing desmaiou ontem, ele havia dito de repente “que burra” ao acordar, dando um grande susto na Tia Qi e no Eunuco Fu.

Depois disso, ele não abriu mais a boca.

Os dois presumiram que tinham ouvido errado. Inesperadamente, tiveram uma surpresa maravilhosa hoje.

Aquela voz não era agradável; poderia até ser descrita como feia. No entanto, para os dois, soava como música celestial:

“Guardem... segredo.”

O Eunuco Fu e a Tia Qi assentiram.

Ambos haviam sobrevivido aos trancos e barrancos no Palácio por muito tempo. O motivo pelo qual conseguiram proteger o Quinto Príncipe até que ele crescesse foi justamente a sua condição de mudo. Até mesmo Luo Huai Yuan sentia inveja de Luo Jing por ter conseguido evitar grande parte do sofrimento do Palácio durante a infância. Claro, isso também se devia ao fato de ter dois servos leais e competentes ao seu lado.

A carruagem continuou a avançar, e a roda do destino começou a girar lentamente.

…..ooo0ooo…..

Notas do autor:

(Olhos brilhando) O Jing Recalcado está de volta!!!

O Gordinho também está prestes a entrar em ação.

Lembro-me de alguns leitores preocupados se haveria sobreposição com o romance do Jing Recalcado. Não se preocupem, não haverá.

As partes que se sobrepõem serão resumidas brevemente. As partes que precisam ser mencionadas serão escritas sob uma perspectiva diferente.

Por exemplo, esta parte não foi escrita em detalhes no outro romance. Usei uma perspectiva diferente, para mencionar o conflito entre Xiao Shi e Luo Jing, bem como o que aconteceu no passado.

O Príncipe Yun e sua esposa continuam sendo os personagens principais. Este autor não vai fugir do assunto.

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