Quanto ao que o Rei Rui havia dito, a Princesa Rui apenas ouviu em silêncio. Quando ela disse a Shen Jin que enviaria membros de sua família para a cidade fronteiriça, não foi da boca pra fora — a decisão foi realmente tomada após discussões internas entre os membros da família.
A Princesa Rui era da família Zhao. Não muito tempo depois de ter se tornado esposa do Rei Rui, seu pai renunciou ao cargo e retornou para sua cidade natal. Hoje em dia, restam poucos membros da família Zhao na capital, mas enviar uma mensagem ainda era possível. A Princesa Rui pediu a um deles que transmitisse o que o herdeiro do Marquês Yongle dissera a Chu Yuan. Os filhos da família Zhao já estavam quase prontos para partir rumo à cidade fronteiriça logo após o Festival do Meio do Outono, mas, ao receberem essa notícia, o atual patriarca decidiu que eles sairiam em no máximo dez dias.
Na verdade, a família Zhao foi deixada ao príncipe pelo antigo imperador e só sobreviveu durante o reinado do Imperador Cheng porque, além de terem casado uma filha com o Rei Rui, também se desfizeram dos elos mais comprometedores dentro da corte. Todos aqueles com cargos importantes haviam renunciado e voltado às suas cidades natais, e os jovens da nova geração ainda não haviam sido nomeados para cargos oficiais. Foi uma manobra de sobrevivência.
— A pessoa a quem mais devo nesta vida... é Yuan’er. — disse Zhao Ru, pai da Princesa Rui, já com mais de cinquenta anos. Apesar de manter o semblante firme, não conseguiu esconder a amargura ao mencionar a filha.
Zhao Qi, seu filho mais velho e irmão da Princesa Rui, disse com pesar:
— Fomos injustos com a minha irmã.
Quando o Imperador Cheng subiu ao trono, a linhagem do antigo príncipe herdeiro foi quase completamente eliminada. Quando Zhao Ru expressou sua intenção de casar sua filha com o Rei Rui, ele o fez para preservar a família. Na época, o imperador Cheng precisava estabilizar os ministros remanescentes e via a lealdade precoce da família Zhao com bons olhos. No entanto, o que ninguém sabia era que, por trás disso, a família Zhao havia secretamente ajudado muitas pessoas ligadas ao antigo príncipe herdeiro a escaparem — inclusive seu segundo filho, que conseguiu fugir da capital graças ao auxílio deles.
Zhao Ru sentia que havia cumprido seu dever com o antigo imperador e o príncipe herdeiro, mas que havia falhado com sua filha. O caráter do Rei Rui era indigno dela. Se ao menos ele a tratasse bem... mas o resultado?
Zhao Qi olhou para o irmão mais novo, Zhao Duan, e disse:
— Prosperidade envolve riscos. Desta vez, ao levar os filhos da família Zhao para a cidade fronteiriça, você precisa mantê-los sob controle, entendeu?
— Sim, senhor. — respondeu Zhao Duan com firmeza.
Zhao Ru se recordou da conversa que teve com a filha antes do casamento. Eles haviam esperado, em silêncio, por todos esses anos, até que finalmente era hora de agir.
— Pai, como está a situação em Shuzhong? — perguntou Zhao Duan. — Posso contar a eles em nome da minha irmã.
Zhao Ru pensou por um momento e respondeu:
— Na verdade, há algo... mas não tenho certeza se está relacionado com os movimentos do imperador Cheng.
Zhao Qi e Zhao Duan o fitaram com atenção.
— Dizem que há um tesouro da dinastia anterior escondido em Shuzhong.
— Isso é possível? — Zhao Qi arregalou os olhos. — Como nunca soubemos disso, pai?
— Quando ajudei o antigo imperador a organizar alguns registros antigos, encontrei anotações que diziam que os imperadores Tai e Zu[1] enviaram pessoas a Shuzhong sete vezes. Não sabiam exatamente o que estavam procurando, mas alguns supunham que era o tesouro da dinastia anterior. — explicou Zhao Ru. — Isso porque, quando os imperadores Tai e Zu invadiram a cidade imperial, o imperador anterior já havia fugido com muitos dos seus bens. No fim, quando foi capturado, não havia mais sinal do tesouro — então se especula que ele foi escondido em Shuzhong.
Zhao Duan ficou surpreso.
— Mas a veracidade disso nunca foi confirmada. — continuou Zhao Ru. — Houve outros imperadores que também mandaram investigar, mas nada foi encontrado, e o assunto acabou sendo esquecido. Só descobri isso porque, ao ver a menção às sete missões enviadas para Shuzhong, fiquei curioso e fui buscar mais informações.
— Se for verdade... por que o Imperador Cheng ordenaria ao Marquês de Yongning que enviasse tropas para lá? — questionou Zhao Qi.
Zhao Ru não soube responder de imediato:
— Quando chegarem à cidade fronteiriça, contem tudo isso ao Marquês de Yongning.
— Sim. — assentiu Zhao Duan.
— Pai, o senhor acha que o Marquês de Yongning vai realmente mandar soldados para salvar o segundo príncipe em Shu? — perguntou Zhao Qi.
Zhao Ru estreitou os olhos e riu com desdém:
— Claro que não.
Seja lá qual fosse o objetivo, era evidente que o Imperador Cheng tinha más intenções. Por que Chu Xiuming se arriscaria?
— Mas isso não seria desobedecer diretamente ao decreto imperial? — Zhao Qi franziu a testa. — Em tempos assim, isso não é arriscado?
Zhao Ru apenas balançou a cabeça, sem responder. Então Zhao Duan comentou:
— Pai, eu sempre achei essa história de tesouro muito suspeita... parece mais um erro antigo.
— É verdade. — respondeu Zhao Ru. — Porque os registros nunca mencionam claramente qual era o propósito das missões enviadas por Tai e Zu. E embora o último imperador da dinastia anterior fosse extremamente extravagante, quando tomaram a cidade imperial, não havia quase nada nos cofres do palácio.
Zhao Duan apenas assentiu. Enquanto conversavam, os jovens Zhao Jun (filho de Zhao Qi) e Zhao Che (filho de Zhao Duan) chegaram apressados. Após se curvarem, Zhao Jun disse:
— Vovô, pai, segundo tio, acaba de chegar uma notícia: o mensageiro enviado pelo imperador Cheng à cidade fronteiriça foi morto por um grupo de bandidos em Yucheng.
— Vovô, precisamos levar mais homens conosco? — perguntou Zhao Che.
— Yucheng? — Zhao Ru estreitou os olhos. — Não é necessário.
Zhao Jun o olhou, confuso, mas Zhao Ru sorriu e virou-se para Zhao Qi:
— Viu só? O que você temia já está resolvido.
— Mas por que Yucheng? — Zhao Jun e Zhao Duan já haviam entendido que isso provavelmente era obra do Marquês de Yongning.
Zhao Ru olhou para os netos:
— Venham aqui.
— Sim. — disseram, aproximando-se.
Zhao Ru molhou o dedo no chá e desenhou um círculo na mesa de madeira de mogno:
— Minzhong.
Depois, desenhou outro círculo:
— Cidade fronteiriça.
Zhao Duan logo entendeu. Zhao Ru então desenhou um terceiro círculo entre os dois anteriores:
— Yucheng.
— Mas se for assim, o Imperador Cheng não vai perceber? — perguntou Zhao Qi.
— E daí se perceber? — retrucou Zhao Ru.
Zhao Qi ficou em silêncio por um momento, e Zhao Duan sorriu:
— Irmão, mesmo que o Imperador Cheng desconfie, ele tem como provar que foi o Marquês de Yongning quem mandou fazer isso? E mesmo que tivesse... No início, ele só ousava usar mulheres contra o Marquês...
Antes que terminasse, Zhao Ru lhe deu um tapa na nuca.
— Se sua irmã escutar isso, quero ver como ela vai te ensinar.
Zhao Duan logo se desculpou:
— O que quero dizer é que, no começo, o imperador só ousava lidar com o Marquês pelas vias do palácio interno, usando artimanhas que normalmente se usavam contra mulheres. Mas agora, com a ameaça do Rei Ying, ele não ousa mais tocá-lo. Só está achando que o comportamento do Marquês mudou.
Zhao Ru assentiu:
— De fato, não achei que isso fosse ideia do Marquês de Yongning. Foi direto demais.
— E isso é ruim, vovô? — perguntou Zhao Che, confuso.
Zhao Ru sorriu:
— Não é ruim. Imagine que você e Jun’er estão disputando a mesma coisa. Antes, por consideração, um usava artimanhas para roubar do outro. Mas aí o pai de Jun’er chega, e ele simplesmente toma o que quer, de maneira direta. O objetivo é o mesmo, só muda o método. E, nas circunstâncias da cidade fronteiriça, agir assim é apropriado.
Zhao Che e Zhao Jun assentiram, parecendo entender melhor agora.
Zhao Ru olhou para os netos e sorriu:
— Há muitos talentos na cidade fronteiriça. Vocês devem aprender com humildade.
— Sim, vovô. — responderam com respeito.
Depois de dar mais algumas instruções, Zhao Ru os dispensou e chamou Zhao Qi de volta:
— Tire um tempo para voltar à capital nesses dias e ver sua irmã.
— Sim, senhor. — respondeu Zhao Qi. — Deseja que eu leve algo a ela?
— Não. Apenas escute tudo o que sua irmã disser quando estiver com ela.
Zhao Qi assentiu, sem qualquer ressentimento:
— Sim.
Naquele momento, Shen Jin, na cidade fronteiriça, ainda não sabia que estava prestes a receber tantos aliados. Desde aquele nascer do sol, todas as manhãs no salão de reuniões haviam sido diferentes. Shen Jin já não podia mais se dar ao luxo de ser tão relaxada. Tanto o gerente Wang quanto Guan Shi gostavam de consultá-la diretamente sobre as decisões.
Shen Jin estava lendo as notícias enviadas por Chu Xiuyuan e comentou:
— Ah, nada de anormal foi encontrado.
O gerente Wang e Guan Shi não disseram nada. Apenas olharam para Shen Jin, que os encarou de volta com desconfiança e perguntou:
— Há algo errado?
Na verdade, Shen Jin sentia que tanto o gerente Wang quanto o gerente Zhao tinham uma certa... falta de tato. Pareciam gostar de brincar de adivinhações com os outros.
— Senhora, sabe onde o general foi? — perguntou o gerente Wang.
Durante esse período, todas as notícias vinham apenas de Chu Xiuyuan, sem nenhuma menção a Chu Xiuming. Mesmo que antes estivessem incertos, agora já era praticamente certo: Chu Xiuming e Chu Xiuyuan haviam se separado. Mas desde então, Chu Xiuming não dera mais notícias, o que inevitavelmente os deixava preocupados.
Shen Jin respondeu:
— Ah, meu marido foi cuidar de uns assuntos. Não me disse para onde estava indo. Pediu apenas para não contar a ninguém.
O gerente Wang e Guan Shi se entreolharam, um tanto pasmos. É mesmo apropriado falar isso com tanta naturalidade? E se ferir os corações dos subordinados fiéis ao general?
Shen Jin continuou:
— Não se preocupem. Ele vai voltar. Dongdong e eu estamos aqui.
Por que parece que a senhora está dizendo que a presença dela e de Dongdong é uma garantia de que o general vai voltar? — pensaram ambos. Mas sabiam, no fundo, que Shen Jin estava dizendo a verdade: enquanto ela e a criança estivessem ali, o general voltaria. Errado! — corrigiram-se mentalmente. Mesmo que eles não estivessem, o general voltaria do mesmo jeito.
— O Festival do Meio do Outono está chegando. Lembrem-se de pedir à princesa Ruyang e à Mamãe que escrevam uma carta e preparem um presente para enviar à capital — disse Shen Jin.
Essas tarefas cabiam ao gerente Wang, que respondeu:
— Sim, senhora.
Shen Jin pensou um pouco e disse:
— Acho que havia um biombo com detalhes dourados? E também...
Após mencionar alguns objetos, percebeu que não gostava muito deles. Eram luxuosos demais, mas não apropriados.
— Além disso, peçam para a princesa Ruyang confeccionar algo para o imperador Cheng, para a imperatriz viúva e para a imperatriz.
O gerente Wang respondeu a cada item com um “sim”. Shen Jin o olhou e acrescentou:
— Pedirei à Mamãe Zhao que embale esses itens para você.
E continuou:
— Ah, e lembre a princesa Ruyang de mencionar na carta a escassez de ervas medicinais, mantimentos e outros suprimentos. Já houve algumas fricções com os bárbaros. Diga isso de forma sutil, mas sem deixar dúvidas.
— Entendido — respondeu o gerente Wang. Afinal, Shen Jin pretendia usar aqueles objetos inúteis para obter recursos mais úteis na cidade fronteiriça.
Como todos permaneceram em silêncio, Shen Jin perguntou:
— Mais alguma coisa?
— Nada mais — respondeu Guan Shi.
Shen Jin assentiu:
— O restante deixo com vocês. Vou voltar agora.
Todos se levantaram e, só depois que ela saiu, voltaram a se sentar para tratar dos assuntos da cidade fronteiriça. Ao retornar, Shen Jin alimentou Dongdong, trocou de roupa e perguntou:
— Certo... quanto tempo falta para ser a vez do Shen Xi descansar?
— Ainda dois dias — respondeu a Mamãe Zhao após pensar um pouco.
Todos os soldados do acampamento militar da cidade fronteiriça tinham um dia de descanso a cada dez dias. Nesse dia, podiam sair do acampamento, visitar a família ou ir às compras. Os descansos eram feitos em revezamento.
Shen Jin assentiu, pensou um pouco, mas não disse nada.
Naquele momento, no palácio, o imperador Cheng acabara de receber a notícia de que seu mensageiro havia sido morto em Yucheng. Cerrando os dentes, exclamou:
— Como pode haver tamanha coincidência? Mandem chamar Cheng En Gong² ao palácio.
— Sim — respondeu Li Fugong. Mas antes mesmo de sair, ouviu o imperador dizer:
— Espere.
O imperador pensava no que acontecia em Shuzhong. Eu, o imperador, ainda não recebi nenhuma notícia, mas Cheng En Gong já foi informado primeiro. Poderia até se justificar dizendo que a imperatriz estava preocupada com o filho e pediu a Cheng En Gong que ficasse atento às informações de lá. Mas ele é egoísta demais. Aquelas palavras de sua mãe ecoavam em sua mente: uma mãe deve sempre priorizar o bem dos próprios filhos.
Às vezes, o imperador Cheng não conseguia evitar de pensar: E se eu e o segundo príncipe estivéssemos em perigo ao mesmo tempo, e a imperatriz pudesse salvar apenas um de nós... quem ela escolheria? Ele tinha quase certeza de que não seria ele.
— Quero ver a imperatriz viúva — decidiu Chengdi após pensar um pouco.
Li Fugong respondeu e foi avisar a imperatriz viúva, enquanto o imperador se dirigia a seus aposentos.
Desde que soubera sobre o Rei Ying, o imperador Cheng passara a consultar frequentemente a imperatriz viúva. Como não confiava plenamente em ninguém, recorria a ela quando precisava de conselhos.
Quando chegou, a imperatriz viúva não estava no salão budista, mas num pequeno canteiro de hortaliças cultivado dentro do palácio. Ao vê-lo, sorriu:
— Mandei preparar um ensopado para você.
— Acompanharei minha mãe na refeição — disse o imperador, sorrindo.
— Algumas das hortaliças que plantei já estão prontas. Pedirei para colherem mais e prepararão algo com elas para você — disse a imperatriz viúva, satisfeita.
— Ótimo.
Após algumas palavras, o imperador comentou:
— Mãe, tenho algo a lhe perguntar.
Ela assentiu, deixou os utensílios de lado e, apoiando-se na mão de Mamãe Zhen, dirigiu-se ao salão.
— Tome um pouco da sopa. Vou me arrumar.
— Sim.
O imperador sentou-se, guiado por uma serva, e em pouco tempo a sopa foi servida. Ele provou e percebeu que era do seu agrado. Quando terminou a tigela, a imperatriz viúva já havia se trocado.
Ela o olhou e perguntou:
— Que dificuldade o imperador está enfrentando?
— Enviei um emissário com um decreto imperial para que o Marquês de Yongning enviasse tropas e contivesse a revolta em Shuzhong... mas o emissário foi morto em Yucheng.
Ao dizer essas últimas palavras, seus olhos estavam sombrios, cheios de fúria.
— Mamãe Zhen, leve os demais com você — disse a imperatriz viúva.
— Sim — respondeu ela, retirando-se com os demais servos.
A imperatriz viúva olhou para o imperador e perguntou:
— E o imperador suspeita de quem?
— Fora o Rei Ying e Chu Xiuming, quem mais teria coragem? — rosnou Chengdi. — E é óbvio que foi Chu Xiuming!
— O imperador tem provas? — perguntou ela, menos exaltada do que ele.
Chengdi franziu ainda mais a expressão.
— Não.
— Então por que acredita que foi ele?
O imperador a olhou e perguntou:
— Sua Majestade ainda se lembra de por que mandou o Marquês de Yongning de volta para a cidade fronteiriça?
— Mas... — hesitou Chengdi.
A imperatriz franziu o cenho:
— Mas por que, então, o imperador quer que Chu Xiuming envie tropas para Shuzhong?
O imperador não respondeu. A imperatriz viúva continuou, em tom firme:
— E o que o imperador acha que acontecerá com essa perda de tempo?
— A senhora sabe dos rumores sobre o tesouro da dinastia anterior? — perguntou Chengdi de repente.
A imperatriz franziu as sobrancelhas.
— Que rumores?
— Quando Tai e Zu tomaram a capital, o último imperador da dinastia anterior já havia fugido com seus homens... — começou ele, e explicou com calma a história. — Tai e Zu enviaram homens a Shuzhong diversas vezes...
— Está achando que o tesouro da dinastia anterior realmente existe? — indagou a imperatriz viúva. — Então não deveria deixar Chu Xiuming ir até lá.
Chengdi estreitou os olhos.
— Suspeito que o Rei Ying tenha encontrado a localização do tesouro.
A expressão da imperatriz viúva mudou para uma de apreensão. Se o Rei Ying realmente tomasse posse do tesouro...
— Se for verdade — disse o imperador, com voz grave —, então o Rei Ying deve ter destacado um forte contingente para proteger o local em Shuzhong. Do contrário, como nosso exército de cinquenta mil poderia ter sido derrotado assim?
Ele não acreditava que menos de mil homens inexperientes fossem capazes de tal façanha.
A imperatriz viúva permaneceu em silêncio, até perguntar:
— Como o imperador soube disso?
O imperador Cheng então disse em voz baixa:
— Na verdade, o segundo príncipe ouviu essa informação por acaso. Mais tarde, foi resgatado por Gao Chang.
— Será que é tão simples assim? — questionou a imperatriz viúva, incrédula.
O imperador Cheng estava com a expressão pouco amigável quando disse:
— No dia em que o filho do marquês Yongsheng foi morto, Gao Chang usou ele e oito mil soldados como isca... e então resgatou as pessoas.
A imperatriz viúva começou a acreditar um pouco. O imperador Cheng prosseguiu:
— Mas, afinal... tudo foi feito em segredo. Como o segundo príncipe trouxe essa notícia, não é algo que se possa simplesmente presumir. Gao Chang mandou que os dois filhos restantes e os outros príncipes voltassem à capital, e assim a informação veio com eles.
— E onde está o segundo príncipe? — perguntou a imperatriz viúva.
— Ainda está em Shuzhong — respondeu o imperador.
A imperatriz hesitou:
— E mesmo assim você quer que Chu Xiuming envie tropas para lá?
O imperador assentiu:
— Quero que os soldados e os cavalos de Yongning Hou explorem o caminho. Agora que o segundo príncipe foi resgatado, é natural que o Rei Ying esteja mais alerta em Shuzhong. Ao ver os homens de Chu Xiuming, ele certamente ficará nervoso... Eu também enviei um homem de confiança junto...
Na verdade, em última análise, o imperador Cheng queria ser o pescador que colhe os lucros³. Chu Xiuming não enviaria muitos soldados, pois precisava manter a estabilidade na fronteira — no máximo de cinco a dez mil. E, depois de lutarem contra o exército do Rei Ying, quantos restariam? Nesse momento, Gao Chang e os outros poderiam aproveitar a oportunidade para buscar o tesouro.
A imperatriz viúva agora entendia. Ao lembrar de Yucheng, perguntou:
— Será que o Marquês de Yongning percebeu algo de antemão?
— Impossível — disse o imperador Cheng. — Eu mesmo não acreditava nesse tesouro da dinastia anterior. Afinal, o primeiro imperador jamais mencionou isso. Só depois que chegaram informações de Shuzhong é que fui consultar os registros dos historiadores da época e confirmei que havia menções.
A imperatriz franziu o cenho, mas permaneceu em silêncio. O imperador acrescentou:
— Então, tirando a desobediência, não consigo pensar em outro motivo.
— Há outra possibilidade — disse a imperatriz viúva de repente. — O imperador mencionou que o Rei Ying está cooperando com os bárbaros. Se quiser usar os bárbaros como aliados, terá que eliminar o Marquês de Yongning ou...
— ...fazer com que eu desconfie ainda mais de Yongning Hou — completou o imperador, agora mais calmo. Franziu o cenho e disse: — E também é possível que o Rei Ying tema que Chu Xiuming tome a dianteira e descubra o tesouro da dinastia anterior...
Na cidade fronteiriça, Mamãe Zhao aproveitava o bom tempo para dar banho em Dongdong junto de Shen Jin. Enquanto lavava a cabeça do menino com algodão embebido em água morna, comentou:
— Imagino que nesses dias o imperador Cheng já deva ter recebido notícias sobre o ocorrido em Yucheng.
— En — respondeu Shen Jin, segurando a cabeça de Dongdong com uma mão e sua barriguinha com a outra, fazendo caretas para diverti-lo.
Mamãe Zhao perguntou:
— O que a senhora acha que o imperador fará?
— Vai ficar com raiva — respondeu Shen Jin após pensar um pouco.
— E se o imperador emitir outro decreto? — Mamãe Zhao achava difícil que ele simplesmente desistisse.
— Diga apenas que o marido está no comando das tropas e que não há ninguém disponível para administrar a cidade fronteiriça — disse Shen Jin.
Mamãe Zhao refletiu por um momento.
— Talvez queiram então ver a princesa Ruyang?
— Diga que o consorte irá junto. Ver a princesa? Ela é nobre demais — não é qualquer um que pode vê-la. É só... não permitir.
Mamãe Zhao sorriu ao ouvir aquilo:
— Sim. De qualquer forma, agora o imperador Cheng não tem meios de lidar com a cidade fronteiriça.
Shen Jin assentiu. Era justamente por isso que ousara mandar gente a Yucheng para eliminar diretamente os enviados. Ela entendia que, mesmo se descobrissem que os assassinos vieram da cidade fronteiriça, o imperador Cheng não teria como agir. Afinal, agora quem mais precisa de Chu Xiuming é o imperador, e não o contrário. Mesmo sem o talismã militar, Chu Xiuming ainda detém controle total das forças ao redor da cidade.
Naquele momento, Shen Jin ainda não sabia que, por conta da suspeita em torno do tesouro, o imperador e a imperatriz viúva haviam decidido não associar o ocorrido em Yucheng a eles. Afinal, o imperador Cheng estava certo de que apenas o Rei Ying tinha acesso a essa informação — e que seria impossível Chu Xiuming saber. Se soubesse, já teria enviado tropas para Shuzhong há muito tempo.
E como o imperador Cheng e a imperatriz viúva haviam decidido manter segredo, era difícil qualquer notícia da cidade fronteiriça chegar até lá. Assim, quando os filhos da família Zhao chegaram trazendo a informação, Shen Jin ficou boquiaberta.
— Tio, quer dizer que pode haver um tesouro da dinastia anterior em Shuzhong? — Shen Jin encarou Zhao Duan, atônita.
Zhao Duan era irmão da princesa Rui e, por isso, Shen Jin o chamava de tio. Não apenas ela estava surpresa, mas também o gerente Wang e Guan Shi. Ao ouvirem sobre a descoberta feita pelo filho do Marquês de Yongle, sentiram um pressentimento estranho.
Zhao Duan respondeu:
— É apenas um rumor — e então contou a Shen Jin tudo que Zhao Ru lhe dissera.
O gerente Wang e Guan Shi começaram a acreditar. Mamãe Zhao franziu a testa e olhou para Shen Jin, que perguntou:
— Então o último imperador da dinastia anterior foi capturado em Shu?
— Não exatamente — explicou Zhao Duan. — Mas, como foi lá que terminou sua fuga, é provável que tenha escondido algo em Shuzhong.
— Por que acham que é um tesouro? E se o Imperador Tai e o Imperador Zu estivessem procurando outra coisa?
— Porque tanto o tesouro interno quanto o real estavam vazios no palácio. O último imperador era famoso por sua extravagância — respondeu Zhao Duan com paciência.
Shen Jin assentiu, embora não soubesse se realmente acreditava. Em vez de insistir, sorriu para Zhao Jun e Zhao Che:
— E quais os planos para esses dois primos, tio?
Zhao Jun e Zhao Che se sentiram um pouco desconfortáveis. Afinal, a família Zhao viera buscar refúgio, mas Yongning Hou ainda não havia se apresentado. Zhao Duan sorriu:
— Yongning Hou cuidará disso.
— Ah, meu marido não está aqui — disse Shen Jin, olhando para ele. — O tio não sabia?
Zhao Duan a encarou com um olhar de como eu saberia?. Quando chegaram, os moradores da cidade fronteiriça os olharam com desconfiança. Se não fosse pelo pessoal da mansão do general tê-los recebido, teriam ficado do lado de fora.
— Yue Wen não contou para o tio? — Shen Jin olhou para a expressão de Zhao Duan e riu, algo sem graça. — Yue Wen é calado, mas se meu marido estivesse aqui, teria recebido o tio pessoalmente.
Zhao Duan e Zhao Jun se sentiram mais à vontade com aquelas palavras. Shen Jin prosseguiu com um sorriso:
— Ah, Xiuyuan também não está. Shen Xi está treinando no acampamento. O marido disse que não daria tratamento especial, então ele só poderá sair no dia de folga.
Longe de se ofender, Zhao Duan ficou satisfeito ao ver a seriedade de Yongning Hou. Se for assim, talvez nossas chances aumentem um pouco.
— Assim deve ser — disse ele.
— Dongdong está dormindo agora. Quando acordar, vou levá-lo para brincar com o tio e os primos — disse Shen Jin, sorrindo.
Dongdong? Zhao Duan ficou atordoado por um instante. Será que é o primogênito de Yongning Hou... e vai nos "levar para brincar"?
Zhao Jun e Zhao Che se entreolharam. Essa prima parece um pouco... imprevisível.
O gerente Wang e Guan Shi tentaram conter o riso, mas, ao verem Zhao Duan mais relaxado, com postura mais natural, também se sentiram mais à vontade.
— Ele é muito esperto. Já consegue rolar — disse Shen Jin, orgulhosa do filho.
Depois de exibir Dongdong, continuou:
— Tio, e os arranjos para os jovens da família Zhao?
Zhao Duan riu, agora com um sorriso genuíno:
— Já que os trouxe comigo, devem seguir as regras da cidade fronteiriça.
Shen Jin refletiu e disse:
— Quem quiser seguir o caminho militar, que vá ao acampamento treinar com Shen Xi. Quem quiser se dedicar à administração, que acompanhe o general Wang. Depois veremos os arranjos.
Zhao Duan assentiu. A decisão era sensata. Afinal, se não conhecessem bem o território, qualquer movimento poderia gerar problemas. O arranjo indicava que Yongning Hou pretendia aproveitar os talentos da família Zhao.
— Quanto ao tio, ficará com o Guan Shi, e mais tarde cuidará dos assuntos de Yucheng junto com ele — completou Shen Jin.
— Yucheng? — Zhao Duan olhou para ela.
— Ah — respondeu Shen Jin com naturalidade —, meu marido achou que havia um bando de bandidos assassinos demais por lá. Pensou bem... melhor eliminá-los logo.
Shen Jin naturalmente jogava tudo nas costas de Chu Xiuming. Era algo sangrento demais, melhor deixar para ele. Eu continuo sendo apenas uma senhorita mimada.
O gerente Wang lançou um olhar para Mamãe Zhao, que permanecia ao lado de Shen Jin com a expressão inalterada. Depois, olhou para o rosto sincero de Shen Jin — até mesmo a pequena covinha em sua bochecha parecia inocente demais para ser real.
Zhao Duan disse com alegria no coração:
— Naturalmente, estou disposto.
Shen Jin assentiu com um sorriso:
— O lugar onde o tio e os primos vão morar fica ao lado da Mansão do General. Se faltar alguma coisa, é só falar com o gerente Zhao.
Zhao Duan sorriu:
— Então não vou me fazer de rogado.
Shen Jin assentiu novamente e, de repente, disse:
— Na verdade... acho que esse tesouro é falso.
Todos ficaram sem reação por um momento, então Shen Jin continuou:
— Quem está fugindo levaria tantas joias e barras de ouro assim? E, mesmo que levasse, como conseguiria tempo e tranquilidade pra esconder tudo direito? No máximo teria escondido às pressas, no caminho.
Por algum motivo, depois de ouvir aquilo, todos começaram a achar mesmo que fazia sentido.
Shen Jin tomou um gole da água com mel, olhou ao redor e perguntou:
— Vocês acham que é verdade?
O gerente Wang e o gerente Guan ficaram em silêncio. Zhao Duan comentou:
— Eu também tive minhas dúvidas.
Shen Jin assentiu:
— Hm. Na verdade, o ponto mais importante é que o último imperador provavelmente não teve tempo de esconder nada direito. Os imperadores Tai e Zu procuraram por tanto tempo e não encontraram... Se houvesse mesmo um esconderijo, teria levado tempo para ser feito, e ele mal teve tempo de fugir. Como teria gente e recursos pra construir algo assim?
Mamãe Zhao sorriu ao ouvir aquilo:
— A senhora tem razão.
Shen Jin semicerrava os olhos enquanto ria:
— Vai ver os imperadores Tai e Zu estavam só tentando encontrar alguém ou alguma outra coisa importante, mas como não acharam nada, não deixaram registros. Caso contrário, se houvesse mesmo um tesouro da dinastia anterior, por que não deixaram pistas para as gerações futuras?
Afinal, já se passaram tantos anos desde o início da dinastia Tianqi, e apenas o imperador Cheng saiu atrás disso — e todo mundo sabia que ele não subiu ao trono de forma muito honesta.
Zhao Jun e Zhao Che se entreolharam. Zhao Che comentou:
— Acho que o que a prima disse faz sentido.
— Mas por que tantas pessoas acreditam nisso então? — Zhao Jun franziu a testa.
— O dinheiro mexe com o coração das pessoas — disse o gerente Guan em tom grave. — E mais ainda se pensarem em tudo de bom que foi acumulado nas últimas sete gerações. Diante de uma tentação assim, muita gente perde o bom senso e nem para pra pensar direito.
— Mas... onde foram parar as joias da dinastia anterior então? — Zhao Che ponderou. — Acredito que muita coisa deve ter sumido, senão esse tipo de boato não teria surgido.
— Não sei — disse Shen Jin após refletir. — Vai ver o imperador gastou tudo. Mesmo que os antecessores tenham guardado muito, não há fortuna que resista a um herdeiro perdulário.
Zhao Duan completou:
— E os dois imperadores que antecederam o último também não eram nenhum modelo de administração.
O gerente Wang bufou:
— E ainda favoreciam traidores. Aqueles bajuladores viviam roubando o tesouro imperial, tanto o externo quanto o interno, e o imperador nem ligava.
Na verdade, como Shen Jin havia dito, nem a maior das fortunas resiste a esse tipo de destruição.
O gerente Guan acrescentou:
— Além disso, antes mesmo dos imperadores Tai e Zu atacarem a capital, o imperador já tinha fugido com alguns ministros e concubinas. Os servos, eunucos e até alguns guardas que ficaram para trás certamente também pegaram alguma coisa.
Nesse cenário, mesmo que houvesse uma montanha de ouro, acabaria sendo saqueada. Por isso, fazia sentido que os imperadores Tai e Zu não tenham encontrado nada.
Enquanto todos falavam, um de cada vez, Shen Jin tomou mais alguns goles de sua água com mel. Então, de repente, comentou:
— Ei... vocês não acham estranho o imperador Cheng não ter feito nada até agora por causa do ocorrido em Yucheng? Não seria porque ele acredita mesmo nesse tesouro?
Todos ficaram paralisados por um instante. Shen Jin continuou:
— Será que o imperador ficou sabendo de algo vindo de Shu e suspeita que o príncipe Ying encontrou o tesouro? Então ele manda meu marido pra lá, querendo que o príncipe Ying entre em confronto com ele? Mas... sem meu marido, quem protegeria a fronteira de Tianqi?
Será que o imperador Cheng seria tão tolo assim? Ou... — Shen Jin franziu as sobrancelhas — será que ele está esperando que o príncipe Ying e meu marido morram juntos?
O gerente Guan e o gerente Wang se entreolharam. A expressão sempre calma de Zhao Duan se contorceu levemente. Será possível que o imperador Cheng tenha realmente esse tipo de plano? Isso seria... demais.
— Ah, talvez o imperador Cheng esteja esperando que meu marido lute com os homens do príncipe Ying. Meu marido não sabe nada sobre o tesouro, mas o imperador sabe... e o príncipe Ying, será que também sabe? Será que foi ele quem fez o imperador Cheng descobrir a história toda? — Shen Jin pegou um pedaço de bolo, comeu, e então olhou para Zhao Duan e os outros. — Nesse caso, o imperador Cheng caiu numa armadilha? Se ele acredita que meu marido não sabe do tesouro, enquanto o príncipe Ying e ele sabem... então, quando meu marido mandar tropas, o príncipe Ying vai se desesperar pra proteger o que achou.
— Seja meu marido indo pessoalmente ou apenas enviando homens, eles vão resistir — comentou Shen Jin, refletindo. — Então, no fundo, o imperador Cheng quer o tesouro, mas não quer enfrentá-lo diretamente com o príncipe Ying... por isso manda meu marido.
Apesar de a explicação parecer absurda num primeiro momento, todos ali — ao lembrarem da personalidade e atitudes anteriores do imperador Cheng — acharam que era algo bem possível.
— E o segundo príncipe? — Zhao Jun foi o que menos conseguiu aceitar aquela lógica.
Zhao Duan respondeu com o rosto carregado:
— Ou já está morto... ou foi resgatado.
Shen Jin permaneceu em silêncio, mas o gerente Guan perguntou:
— O que a senhora acha?
— Hã? — Shen Jin parecia distraída, e demorou a reagir.
O gerente repetiu a pergunta:
— A senhora tem alguma ideia?
Shen Jin respondeu:
— Dongdong deve estar acordando.
Mamãe Zhao sorriu ao ouvir:
— Quer que a velha serva vá ver?
Shen Jin balançou a cabeça:
— Não. Se Dongdong acordar, An Ning vai pegá-lo. Mas... o que será que o príncipe Ying pretende fazer? — Shen Jin realmente não conseguia adivinhar os planos dele. Conseguiu deduzir com tanta precisão os do imperador Cheng por causa da concubina Xu Fang, mas o príncipe Ying...
O gerente Wang semicerrava os olhos e disse:
— Receio que a próxima etapa envolva os últimos remanescentes do antigo regime.
E se fosse isso, então faria todo o sentido o porquê de o imperador Cheng ainda não ter tomado nenhuma atitude contra os enviados.
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[1]: Nota: Tai e Zu referem-se aos imperadores fundadores da dinastia atual (ou anteriores), frequentemente mencionados como Imperador Tai e Imperador Zu, cujas campanhas fundaram o atual império.
² Nota: Cheng En Gong (Duque Cheng En) é um título de nobreza, aqui referindo-se provavelmente a um ministro influente ou membro da aristocracia associado à imperatriz.
³ Nota: “pescador que colhe os lucros” é uma expressão idiomática chinesa que se refere a alguém que espera dois lados brigarem para depois colher os benefícios sem se arriscar.
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