Capítulo 47


 Capítulo 47

Depois que Li Mo terminou de maquiar as duas senhoras, já era quase meio-dia, hora do almoço.

Era impossível para Li Mo voltar para casa ao meio-dia, então ela teria que fazer uma refeição simples na cidade.

Ela estava prestes a ir ao barraca de macarrão lá fora para comer uma tigela de macarrão quando a Irmã Yue a parou.

— Irmã, de agora em diante, você pode almoçar aqui na loja. Tem uma cozinha pequena nos fundos, e a comida vai ficar pronta já já.

Li Mo recusou rapidamente:

— Irmã Yue, eu posso comer lá fora. Eu nem paguei para fazer a maquiagem na sua loja, e agora ainda vou comer da sua comida… isso seria constrangedor.

A Irmã Yue pegou a mão de Li Mo e não deixou que ela saísse.

— Você está enganada. Mesmo você não tendo me pago, com certeza vai me trazer muitas clientes no futuro, então isso é só uma forma de agradecer. Além disso, eu tenho que comer quando você está aqui, e tenho que comer quando você não está. Não me importo com a comida que você come. Fico feliz de ter alguém para comer comigo. Eu costumava comer sozinha, era muito solitário, então fique e coma comigo.

Quando a dona da loja percebeu a hesitação de Li Mo, ela franziu o rosto e perguntou:

— Você acha que a comida daqui não é boa? Então pode sair para comer.

Li Mo sabia muito bem que a Irmã Yue tinha dito aquilo de propósito. Dado o quanto ela já havia insistido, seria mesquinho recusar de novo. Então Li Mo assentiu e concordou, sentindo-se ainda mais grata pela Irmã Yue.

Nesse momento, Song Dashan entrou na loja com Xiao Bao nos braços.

Li Mo o cumprimentou, pegou Xiao Bao no colo e lhe deu um beijo. Depois o apresentou à Irmã Yue:

— Irmã Yue, este é meu marido, Song Dashan, e este é meu filho, Xiao Bao. Xiao Bao, chame ela de tia Yue.

Song Dashan assentiu educadamente, e Xiao Bao chamou:

— Tia Yue.

O Xiao Bao de agora já não era mais magrinho e ossudo como quando Li Mo o conheceu. Agora tinha a pele branquinha, bochechas e corpinho cheios, e com as roupinhas fofas que Li Mo fazia para ele, parecia um bolinho — adorável demais.

A Irmã Yue, que não tinha filhos há muitos anos, sempre gostara muito de crianças. Ao ver a fofura de Xiao Bao, se apaixonou por ele na mesma hora. Não resistiu e estendeu os braços para pegá-lo.

— Xiao Bao, deixa a tia Yue te dar um abraço?

Xiao Bao piscou. Pensou um pouco e então estendeu seus bracinhos gordinhos.

A Irmã Yue ficou radiante, pegou Xiao Bao rapidamente e o apertou no colo, passando a mão com carinho em suas costas rechonchudas. Quanto mais sentia o corpinho fofinho dele, mais gostava, e acabou dando um beijo em sua bochecha redondinha.

Xiao Bao sorriu ao ser beijado e, imitando o que fazia em casa com Li Mo, deu um beijinho no rosto da Irmã Yue. Isso a deixou surpresa.

— Ah, por que você é tão fofo assim?

Xiao Bao caiu na risada.

O sorriso de Li Mo se abriu, deixando os dois brincarem. Ela olhou para Song Dashan e perguntou:

— Por que você não voltou para a aldeia?

— Você não pode voltar para casa ao meio-dia, então eu não sabia se você tinha comido. Vim ver você. Mais tarde volto para a aldeia e depois venho te buscar à tarde.

Sabendo que ele estava preocupado com ela, Li Mo contou a Song Dashan que a Irmã Yue tinha oferecido que ela almoçasse ali, então ele não precisava se preocupar.

Vendo que já estava ficando tarde, Song Dashan quis levar Xiao Bao de volta para casa. Mas a Irmã Yue logo falou, querendo que Xiao Bao ficasse:

— De qualquer forma, você tem que vir buscar a Irmã Li à tarde. Por que não deixa o Xiao Bao aqui? A gente cuida dele, vai ficar tudo bem.

Song Dashan temia que deixar Xiao Bao lá atrapalhasse os negócios da dona da loja. Antes que pudesse recusar, Li Mo o impediu.

— Está tudo bem. Deixe o Xiao Bao ficar.

Ela podia ver que a dona da loja gostava muito de Xiao Bao e queria brincar com ele, então não havia problema em deixá-lo ficar. Assim, ela também poderia passar mais tempo com ele.

Vendo que Li Mo concordou, Song Dashan assentiu, despediu-se da dona da loja e saiu para voltar para casa.

A dona da loja, muito feliz, levou Xiao Bao direto para a cozinha nos fundos. Colocou-o no banquinho pequeno ao lado da mesa e chamou Li Mo e Xiao Bao para comer.

Durante a refeição, a dona da loja foi ainda mais cuidadosa e atenciosa do que a própria Li Mo. Ela enchia o pratinho de Xiao Bao com legumes o tempo todo, deixando a barriguinha dele bem redonda.

Li Mo podia ver que a Irmã Yue realmente gostava de crianças. Ao perceber que a Irmã Yue já tinha seus 30 anos, não pôde deixar de perguntar, curiosa:

— Irmã Yue, quantos anos tem seu filho? Quem está cuidando dele em casa?

Quando ouviu a pergunta de Li Mo, o rosto da Irmã Yue entristeceu. Ela suspirou, impotente:

— Meu marido e eu somos casados há mais de dez anos, mas, infelizmente, nunca engravidei. Já procurei inúmeros médicos para ver o que havia de errado comigo, mas ninguém encontrou problema algum. Agora, já desisti. Talvez seja arranjo de Deus. Não adianta forçar.

Li Mo já tinha visto muitos casais no mundo moderno com o mesmo problema que ela. Muitos eram sem filhos não porque houvesse algo de errado com seus corpos, mas porque a gravidez simplesmente não acontecia — algo destinado a chegar tarde. No entanto, no mundo moderno existiam bebês de proveta[1], mas não na antiguidade. Só restava esperar pelo tempo destinado por Deus.

[1]: bebês de proveta = fertilização in vitro

Li Mo deu um tapinha na mão da Irmã Yue para confortá-la:

— Irmã Yue, talvez seja só que Deus arranjou para o seu filho vir um pouquinho mais tarde. Não se preocupe. Se seu corpo está saudável, você vai ter um filho mais cedo ou mais tarde.

A Irmã Yue sabia que Li Mo estava tentando consolá-la, mas não se importava muito. Ela já tinha pensado nisso muitas vezes. Felizmente, seu marido realmente a valorizava. Mesmo ela não podendo engravidar, ele sempre a tratou bem e nunca teve outros pensamentos, muito menos a culpou por não ter um filho. Ela já era sortuda assim. Outras coisas não podiam ser forçadas.

A Irmã Yue não pretendia continuar nesse assunto e mudou para falar da maquiagem de Li Mo.

— Irmã Li, você fez um ótimo trabalho maquiando aquelas duas senhoras. No futuro, mais gente vai te procurar. As famílias daquelas duas são de comerciantes. São de entre os maiores comerciantes da cidade. Os negócios delas são grandes e elas têm muitos contatos. Elas sempre conversam e tomam chá com as esposas das grandes famílias. Pode esperar: quando elas espalharem a notícia, todas vão atrás de você, e tenho medo que você fique ocupadíssima nessa época.

Li Mo ficou feliz ao ouvir essa informação. Ela sorriu depressa:

— Quanto mais ocupada, melhor. Isso só mostra que os negócios da loja estão chamando cada vez mais atenção e clientes. Assim vamos poder ganhar mais dinheiro.

A Irmã Yue concordou com a cabeça.

No entanto, “daqui a alguns dias” acabou chegando cedo demais, porque alguém soube da novidade naquela mesma tarde.

A pessoa que veio era novamente a Senhora Lin, mas desta vez havia uma mulher atrás dela.

A Senhora Lin entrou não muito depois de as três terem terminado de comer, e a dona da loja estava segurando Xiao Bao e conversando com ele.

Assim que entrou, a Senhora Lin chamou:

— Dona, voltei!

A Irmã Yue olhou para quem a seguia e entendeu imediatamente o que estava acontecendo, mas mesmo assim colocou Xiao Bao no chão com calma e se levantou para recebê-la.

— Senhora Lin, o que a trouxe aqui de novo?

A Senhora Lin puxou a mulher atrás dela e sorriu para a Irmã Yue:

— É por causa da maquiagem que sua maquiadora fez em mim hoje. Minha cunhada viu e quis vir para que sua maquiadora a maquiasse também. Por isso a trouxe.

A Senhora Lin sorria, mas por dentro estava irritada.

Sua cunhada tinha um gênio ruim e era cabeça-oca. Normalmente, vivia apoiada no amor do marido e não dava a mínima para a Senhora Lin. Gostava de competir com ela. Sempre que algo bom acontecia com a Senhora Lin, ela ficava descontente. Toda vez que a Senhora Lin comprava algo, a cunhada pedia também — e como o marido adorava sua única irmã, sempre cedia. Assim, sempre que a Senhora Lin comprava cosméticos bons, eles iam parar na caixa de maquiagem da cunhada.

Na verdade, ela não se importava em dar seus cosméticos, mas o problema era outro: a cunhada passava uma quantidade absurda de pó no rosto. Todos os dias, usava uma maquiagem tão pesada que ninguém conseguia ver seu rosto de verdade.

Tudo bem usar maquiagem, mas o problema é que essa cunhada e seu marido eram quase idênticos. Ela até lembrava o falecido sogro. Como a considerava família, era difícil comentar isso.

Ela não era bonita, mas gostava de se arrumar. Por isso, era difícil encontrar algo que lhe caísse bem. Sempre achou que era atraente. E ficava furiosa ao pensar em parecer feia quando saía com a Senhora Lin.

Hoje, depois de se maquiar, Madame Lin voltou para casa toda feliz para mostrar ao marido como estava bonita. Mas foi vista pela cunhada, que imediatamente deu um pulo e perguntou o que ela tinha feito.

Ao ver a inveja e o ciúme nos olhos dela, e seu jeito aflito, a Senhora Lin já sabia que, se contasse, a cunhada viria correndo para se maquiar também.

Dito e feito: mal tinha terminado a refeição e já foi arrastada às pressas até a loja. Sem nem recuperar o fôlego, com uma fina camada de suor no rosto, quase estragou a maquiagem de hoje.

A dona da loja também conhecia bem o temperamento da cunhada da Senhora Lin e a discordância entre as duas, mas não comentou nada. Apenas as recebeu com um sorriso e as conduziu para dentro.

— Por sorte, agora não temos clientes. A senhorita Lin poderá fazer a maquiagem logo. Me sigam. — disse a Irmã Yue, levando as duas para a sala de maquiagem.

Li Mo viu a Senhora Lin entrar e se levantou para cumprimentá-la.

A Senhora Lin sorriu, pegou a mão de Li Mo e disse educadamente:

— Senhora Song, esta é minha cunhada. Gostaria que você a maquiasse. Vou te incomodar um pouco.

Na verdade, a Senhora Lin achava que estava mesmo incomodando Li Mo. Afinal, pelo rosto da cunhada, seria extremamente difícil deixá-la bonita, e pelo temperamento complicado, se não ficasse satisfeita, poderia colocar a culpa na Senhora Song. Mas ela não tinha escolha: a cunhada implorou que viesse chamar a maquiadora, então ela só podia trazê-la.

Se a cunhada causasse problemas para Li Mo, ela a impediria.

Li Mo não fazia ideia da culpa escondida da Senhora Lin. Depois de cumprimentar, pediu que a cunhada dela se sentasse diante da penteadeira.

A Senhorita Lin não tinha dito nada desde que entrou, mas ao ver a maquiadora que sua cunhada dizia ter habilidades excelentes, finalmente falou:

— Você é a maquiadora que fez a maquiagem da minha cunhada? Tem que me deixar muito mais bonita do que ela. Se não, então você só sabe tocar sua própria trombeta[2].

[2]: Tocar sua própria trombeta = se gabar dos próprios feitos.

Li Mo contraiu os cantos da boca e pensou em silêncio: De onde saiu essa esquisita? Como consegue ser tão desagradável falando desse jeito?

Antes que Li Mo pudesse dizer qualquer coisa, o rosto da Senhora Lin escureceu e ela a repreendeu:

— O que você está dizendo? Como pode ser tão grosseira e sem noção?!

A Senhorita Lin ignorou a bronca da Senhora Lin e declarou com naturalidade:

— Eu não falei nada errado. Eu sou muito mais jovem que você, ainda sou uma moça solteira. A maquiagem em mim não deveria ficar melhor do que em você? Se não ficar tão boa quanto, o problema é a habilidade dela.

— Você… — A Senhora Lin ficou indignada. Mais jovem que ela? E daí?! Desde quando ser mais jovem significa automaticamente ficar mais bonita? Como ela conseguia dizer coisas tão absurdas com a maior cara de pau? Parecia nem saber mais o significado da palavra “vergonha”.

Claro, a Senhora Lin não ousou dizer em voz alta o que pensou. Se dissesse, não voltaria viva para casa.

Na verdade, não era só a Senhora Lin que pensava assim. Com exceção de Xiao Bao, todos ali estavam chocados com a completa falta de autopercepção da Senhorita Lin.

Li Mo também ficou constrangida; aquela moça ia mesmo dar muito trabalho.

Embora a Senhora Lin não fosse bonita, pertencia ao tipo de aparência comum — nada extraordinária, mas nada feia. Com boa técnica de maquiagem, era fácil deixá-la bem-apresentada. Já a Senhorita Lin… seu rosto era de aparência comum, não exatamente feia, mas longe de agradável. Seria fácil deixá-la mais bonita com maquiagem, em circunstâncias normais. Mas essa Senhorita Lin… ninguém teria coragem de elogiá-la. Com aquele rosto, mesmo sendo jovem, não havia muito o que salvar. Torná-la mais bonita que a Senhora Lin seria extremamente difícil.

Vendo que Li Mo demorava, a Senhorita Lin franziu o cenho, irritada:

— Por que ainda não começou? Não é capaz de me deixar bonita? Estava só se gabando?

Li Mo realmente queria mandar aquela esquisita calar a boca. Mas levando em conta que seu negócio de maquiagem estava apenas começando e ela ainda trabalhava dentro da loja da proprietária, não seria bom ofender uma cliente. Assim, ela engoliu o aborrecimento e ficou em silêncio.

A Irmã Yue também franziu o cenho, contrariada. Se não fosse pela presença da Senhora Lin, que lhe suplicava com o olhar, ela teria recusado esse serviço na hora. Quem se importava em ganhar 20 wen desse tipo de pessoa!

A Senhora Lin sabia que sua irritante cunhada estava ofendendo as pessoas de novo e estava furiosa, mas só podia tentar apagar o incêndio. Repreendeu duramente:

— Se você não parar de falar, ninguém vai te achar muda. Não é seu papel comentar a habilidade dos outros! E se continuar, não vou me importar se ninguém conseguir transformar você!

A boca da Senhorita Lin tremeu, mas ela não disse mais nada. Não se sabia se realmente temia que Li Mo desistisse de maquiá-la.

Li Mo respirou fundo, afastou mentalmente tudo o que tinha acontecido e passou a tratar a pessoa à sua frente como qualquer outra clienta.

Todas as pessoas que sentavam diante dela, independente de quem fossem ou do temperamento que tivessem, ela sempre dava o melhor para alcançar o melhor resultado possível. Essa era sua ética profissional.

Depois de se preparar psicologicamente, Li Mo finalmente começou.

A primeira coisa que precisou fazer foi remover a maquiagem da Senhorita Lin, que era tão pesada que escondia completamente suas feições naturais.

Como a maquiagem estava grossa demais, demorou para retirar tudo. A água precisou ser trocada três vezes antes que o rosto verdadeiro da Senhorita Lin aparecesse.

Li Mo percebeu que, com ou sem maquiagem, aquela moça parecia exatamente igual. Ela usava maquiagem para esconder seu rosto real — e, sem exagero, sem maquiagem ele era realmente pouco agradável.

Para ser sincera, era a primeira vez, desde que chegou a esses tempos antigos, que Li Mo via um rosto sem defeitos aparentes ser tão feio.

Aquela Senhorita Lin também era surpreendente. Nenhuma de suas feições era boa. E embora não fosse extremamente feia, a combinação de suas características lembrava a de um homem.

Sim, aquela Senhorita Lin tinha um rosto masculino.

Li Mo não pôde deixar de pensar no filme moderno com a personagem Ruhua[3]. Ela não esperava ver alguém assim nos tempos antigos.

[3]: Ruhua é uma personagem de um filme de Stephen Chow.

Se esse rosto estivesse em um homem, seria comum, mas, em uma mulher, tornava-se feio.

Li Mo nunca havia maquiado esse tipo de rosto.

Maquiar uma cliente assim, desta vez, seria interessante.


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