O couro cabeludo de Lin Jiu ficou gelado com o choque do terror. Ela o viu erguer uma mão tomada por veias negras e, num instante, essa mão se fechou ao redor de seu pescoço. Os dedos eram longos, as unhas ainda mais longas, raspando umas nas outras atrás de sua cabeça com um rangido agudo que fez seus dentes doerem.
Ela não se sentiu estrangulada. Ele não estava tentando sufocá-la — estava forçando-a a olhá-lo.
O rosto de Wei Liang, normalmente belo além de qualquer comparação, agora estava marcado por veias negras grossas, pulsando e se contorcendo grotescamente sob a pele.
Ela não conseguiu evitar o suspiro travado. Ele apertou um pouco mais. Sua respiração começou a vacilar. Sua boca se abriu, lutando por ar, um leve gemido de dor escapando de sua garganta.
— Estou te assustando… desse jeito?
Ela viu um sorriso distorcido se espalhar pelos lábios dele. Sentia seu próprio pulso batendo freneticamente sob aqueles dedos, frágil além das palavras.
É só uma ilusão, Lin Jiu disse a si mesma. Confie em Wei Liang.
Poucos instantes antes, ela estava nos braços dele. Não acreditava que qualquer força pudesse arrancá-la daquele abraço.
— Oh? Não está com medo? Assim eu não te assusto?
O aperto dele se intensificou. Mas o que mais incomodava Lin Jiu eram aquelas unhas longas e afiadas raspando atrás de sua cabeça. O som era horrível, como unhas arranhando um quadro-negro!
Sua cabeça começou a girar. Sua boca se abriu ainda mais, como um peixe morrendo, tentando desesperadamente engolir um ar que não chegava aos pulmões.
Ele se inclinou e a beijou.
Os lábios dele estavam pálidos como a morte, e entre eles brilhou um lampejo de dentes e língua escurecidos atrás de um sorriso malicioso.
A sensação de sufocamento fez seu corpo tremer. Ela lutou contra o impulso de resistir e se forçou a fechar os olhos.
— Não tenho medo — ela murmurou, a voz partida e fraca. — Não importa como você pareça… eu não tenho medo. Enquanto for você, Wei Liang.
Sua boca não conseguia se fechar totalmente. Sua língua escapou um pouco. Ela nem sabia se ele conseguia ouvi-la.
No instante em que os lábios dele tocaram os seus, uma onda de ar fresco invadiu seus pulmões. Ela engasgou, tossindo com força.
Sua mente clareou num piscar de olhos. Só então percebeu — não havia mãos enegrecidas ao redor de seu pescoço. Tudo aquilo fora uma ilusão. Ela mesma havia prendido a respiração e cortado o próprio fluxo interno.
Ela ergueu o olhar e viu os olhos de Wei Liang ardendo com uma chama gélida. Ele ainda a segurava firme, um braço envolvendo suas costas, enquanto a outra manga cortava o vento. Cada arco que descrevia liberava um estalo seco que se espalhava pela escuridão.
— Hmph, essa ilusão aí não foi algo que você mesmo criou a partir dos seus próprios pensamentos para testá-la? Por que me bater? Brutamonte sem coração — se eu não tivesse intervindo, aquele pequeno fantoche de sangue já teria escapado faz tempo…
Uma voz suave e sussurrante ecoou por todo o espaço escuro. Era a voz de uma mulher, sedutora ao extremo, a ponto de deixar os ossos trêmulos.
— Procurando a morte — Wei Liang cuspiu as palavras entre os dentes cerrados.
Lin Jiu nunca o ouvira falar com um tom tão assustador.
— Hehe, eu não vou lutar com você. Não seja tão feroz, meu querido marido — está planejando assassinar sua esposa? Venha então, estarei esperando por você na Borda do Céu. Você vai voltar para mim eventualmente… Eu não me importo com as florzinhas e matinhos com quem você brincou lá fora. Você vai descartá-las assim que se cansar delas, de qualquer jeito…
Seu tom era sedutor e insinuante. Depois de um toque agudo e cristalino, a voz desapareceu de repente.
Antes que Lin Jiu pudesse se recompor, o rosto de Wei Liang já estava colado ao dela. Ele esfregou a bochecha contra a sua, canalizando sua energia fria e poderosa para dentro do corpo dela, ajudando-a a se recuperar. Sua voz saiu baixa, contida, cheia de fúria.
— Não acredite nela.
Lin Jiu já havia estabilizado a respiração. Sua garganta ainda estava rouca, e falar ardia com uma dor seca. Ainda assim, ela sorriu e disse:
— Você disse uma vez que casar dá trabalho — uma vez basta. Eu acredito em você.
Qualquer pessoa com olhos podia ver o quanto Wei Liang era bom para ela. Embora seus sentimentos talvez ainda não fossem profundos, certamente não eram rasos o bastante para serem abalados por algumas palavras provocativas de uma estranha.
— Mm. — Um som abafado escapou do fundo de seu peito, como se ele não soubesse o que dizer.
— A Borda do Céu — Lin Jiu perguntou suavemente — é… de onde você veio?
— É. — A palma de Wei Liang roçou de leve os cabelos escuros dela.
A Borda do Céu. A Borda da Terra., Lin Jiu repetiu em silêncio. Ela ergueu o olhar e viu que o enorme cadáver que havia despencado antes agora não deixara sinal algum.
No instante seguinte, ela ouviu o som das ondas quebrando abaixo deles. Olhando para baixo, viu que o mar sem fim de sangue agora estava aterrorizantemente próximo.
Suspenso acima do mar… havia uma pessoa. O corpo inteiro tingido de vermelho-sangue, o líquido fervente havia moldado feições belas — meio líquidas, meio sólidas — mas inconfundivelmente, era o rosto de Wang Weizhi.
E ele… não era mais humano. Aquilo era um fantoche de sangue, um que havia tomado a forma de Wang Weizhi. A aura maligna ao redor era avassaladora, impossível de ignorar. O fedor de sangue era tão intenso que deixou Lin Jiu enjoada.
Suas pupilas se contraíram ao máximo enquanto ela encarava o fantoche em choque. Pelo canto do olho, de repente percebeu algo se movendo entre as ondas sangrentas abaixo.
Olhando com atenção, ela viu o cadáver de Wang Weizhi. Ele flutuava de costas, os olhos escancarados num olhar furioso, a expressão distorcida de agonia. Havia um buraco do tamanho de uma tigela em seu abdômen, sua pele estava pálida e murcha, sem uma única gota de sangue restante em seu corpo.
Mas ele nunca havia cedido. Seu rosto não mostrava nenhum traço de medo. O tormento não quebrara sua vontade — mas nem mesmo a vontade mais forte podia impedir a morte.
Ji Yuan flutuava ao lado do cadáver, ainda usando aquela túnica vermelha brilhante. O pó cintilante que antes enfeitava suas pálpebras havia sido substituído por longas faixas de sangue, borradas por dedos desde os cílios até as têmporas.
— Heh… heheheh… — Ji Yuan gargalhou num tom sinistro quando viu Wei Liang. — Minhas desculpas — confundi o grande Lorde Demônio com o Monarca da Espada. Mas que vergonha!
Wei Liang não olhou para ele. Seu olhar gélido estava fixo no fantoche de sangue que se parecia tanto com Wang Weizhi.
Ji Yuan sorriu de forma cruel.
— O grande Lorde Demônio retorna da morte em outro corpo. Como um humilde servo como eu poderia deixar de preparar um presente digno para homenagear sua ressurreição?
Quando seus olhos passaram por Lin Jiu nos braços de Wei Liang, ele não se deu ao trabalho de fingir medo dela dessa vez. Em vez disso, sorriu de leve e desviou o olhar sem qualquer preocupação.
A audácia destemida dele vinha do fato de que o fantoche de sangue havia alcançado sua forma completa. Na história original, uma vez totalmente formado, nem mesmo Wei Liang podia derrotá-lo — e agora eles estavam naquele lugar estranho e inquietante, onde, por razões desconhecidas, o mar de sangue agitava-se sem fim. Lin Jiu tinha a forte sensação de que tanto o fantoche quanto seu mestre estavam obtendo um poder inimaginável daquele domínio sombrio.
O pensamento de Lin Jiu se aguçou, e ela perguntou em voz baixa:
— Este lugar… é a “Borda da Terra”?
— É o limite dela — respondeu Wei Liang sem dar importância, embora uma camada de geada branca já começasse a surgir em seus olhos.
Antes mesmo de concluir a frase, o sorriso perverso de Ji Yuan congelou. Aquele rosto sedutoramente belo ficou rígido quando uma fissura de gelo lentamente se abriu no canto de sua testa.
Wei Liang atacou com um golpe para matar, em força total. Ele não se importava com pretextos de cortesia — se quisesse lutar, atacava sem aviso. Ji Yuan esperava ao menos algumas trocas verbais, mas um instante de descuido lhe rendeu um golpe feroz.
Felizmente para ele, o mar revolto de sangue estava logo abaixo. Seu corpo imediatamente se dissolveu numa poça espessa e misturou-se às ondas carmesim.
Nesse exato momento, o fantoche de sangue se moveu!
O fantoche com a aparência de Wang Weizhi abriu a boca. Começando pelo maxilar, tremores rápidos se espalharam para fora. A vibração fez seu corpo semilíquido girar num enorme vórtice humanoide e, com uma velocidade quase imperceptível ao olho nu, ele se lançou de repente contra os dois inimigos de seu mestre.
Wei Liang ergueu uma mão, palma aberta. Camadas de barreiras intrincadas e deslumbrantes de gelo se manifestaram uma após a outra. À medida que o fantoche colidia com cada barreira, elas se despedaçavam com estalos nítidos e gélidos.
Ao mesmo tempo, uma camada de geada branca começou a se formar na superfície do corpo do fantoche. Mas o sangue em vibração por dentro continuou a agitar-se e, num instante, as partes congeladas derreteram, rompendo o domínio do gelo.
O fantoche se aproximava.
A figura de Ji Yuan se reformou acima do mar de sangue, depois de ter injetado toda a sua essência sanguínea no cadáver de Wang Weizhi.
Assim como o “Wang Hanling” daquela vez, Ji Yuan retorcia grotescamente o corpo de Wang Weizhi, puxando inutilmente a carne apodrecida ao redor do buraco aberto em seu abdômen, como se tentasse se remendar.
— Lorde Demônio… — Ji Yuan prolongou as palavras na própria voz de Wang Weizhi — Seu sempre leal subordinado — que sou eu, claro — tinha originalmente a intenção de usá-lo como ingrediente principal para um novo fantoche de sangue. Mas, infelizmente, não havia nem vestígio da sua presença restante neste mundo. Achei que tivesse retornado ao vazio e passei muitos dias lamentando sua partida…
Ele enxugou os olhos de forma zombeteira.
— Se eu soubesse antes que havia possuído o corpo de Wei Liang, como poderia me contentar com migalhas como Huang Yinyue e Wang Yangyan? Mesmo que custasse minha vida, eu teria rastejado até você! Mas agora, fazer o quê? Eu já escolhi Wang Weizhi. Acho que vou ter que desapontá-lo — e respeitosamente mandar você para a morte!
— Ah, certo — Ji Yuan ergueu um dedo e tocou o centro da própria testa — Este idiota… bastou eu vazar um pouquinho de notícia falsa — de que Wang Yangyan estava aqui na Serra Jimo — e ele veio correndo, pronto para matar o próprio pai! Hilário!
Lin Jiu apertou os lábios e ignorou as bobagens de Ji Yuan, concentrando-se na batalha entre Wei Liang e o fantoche de sangue.
Quatro lótus dourado-escuras giravam na borda da luta, vigiando e protegendo contra qualquer ataque surpresa de Ji Yuan — embora, francamente, Wei Liang talvez nem precisasse de sua ajuda.
Ela percebeu que Wei Liang claramente estava se contendo contra o fantoche.
— Jiu’er — os olhos dele irradiavam um branco intenso, e sua voz carregava um leve traço de hesitação — Wang Weizhi ainda tem um fio de vida. Você estaria disposta a salvá-lo?
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