A entrada do Tribunal de Tributos estava cheia de candidatos que se preparavam para entrar no exame.
O Exame Imperial de Outono da Dinastia Liang era realizado a cada dois anos. Coincidindo com o exame do Palácio Real, por isso também podiam participar naquele ano. Eram três fases no total, cada uma durando três dias. Além do conhecimento, era um teste de resistência.
Na frente da carruagem, Madame Dong segurava a mão de Dong Lin e o examinava dos pés à cabeça. Murmurou:
— Não está um pouco fino demais esse seu roupa? Ouvi dizer que o dormitório é muito frio. Nem tem fogareiro a carvão. E se você pegar um resfriado?
Dong Lin, mimado desde pequeno, sentiu um pouco de incômodo. Havia muitos candidatos entrando e saindo da entrada do Tribunal de Tributos, e ele era o único que chegava numa carruagem com um séquito de criados. Parecia destoar do lugar.
— Mãe, eu estou bem — respondeu.
— Só estou preocupada com você. Quando entrar no Tribunal de Tributos, vai ter que ficar lá até o exame acabar para poder sair. E se ficar com fome ou com frio? Sheng Quan — Madame Dong chamou o guarda ao seu lado — confira a cesta do jovem mestre de novo. Será que ele esqueceu algo?
— Sim, senhora.
Naquele momento, um estudioso passou por ali e, ao ver a cena entre mãe e filho, ficou pensativo.
Wu Youcai parou, um tanto atônito.
Nos últimos anos, sempre que participava do exame, sua mãe o acompanhava até a entrada do Tribunal de Tributos e não parava de dar instruções. Ela nunca se preocupava se os textos dele seriam bons ou se ele se tornaria oficial. O que mais falava e mais preocupava era se o dormitório seria frio, se ele teria roupa suficiente e se comeria bem.
No fim, ela sorria para ele e dizia:
— Mãe vai esperar você terminar o exame em casa!
Mas agora, ninguém o esperava em casa. Na frente do Tribunal de Tributos, não haveria mais lembretes de uma mãe amorosa.
Alguém bateu em seu ombro:
— Youcai!
Wu Youcai se virou e viu um mestre vestido de estudioso. Usava uma camisa verde de tecido simples e um lenço quadrado na cabeça. A barba era branca, o rosto pálido e magro. Ele segurava uma velha cesta de exame. Wu Youcai ficou surpreso:
— Pai Xun?
Wu Youcai conhecia esse homem; era um mestre que morava perto da entrada do templo. Tinha mais de setenta anos. Desde que alcançou a maioridade, fazia o exame imperial há décadas, mas nunca passara nem uma vez. Ouviu dizer que sua saúde piorava e que mal conseguia andar. Quem diria que ainda participaria do exame neste ano?
— Vi você de longe — disse o Mestre Xun, com a barba branca enrolada e o rosto enrugado sorrindo. — Vi seu número no registro há pouco. É ao lado do meu. É um bom presságio. Quem sabe, talvez nós dois passemos dessa vez.
Wu Youcai observou seus passos trôpegos e ficou em silêncio.
Mestre Xun não percebeu a estranheza na expressão dele. Apenas olhou para os jovens candidatos que entravam e saíam ao redor, seus olhos revelando um misto de saudade e inveja.
Chegou a hora, e os examinadores começaram a chamar os candidatos. Eles entravam um a um no Tribunal de Tributos, suas cestas de exame eram conferidas antes de entrarem nos dormitórios.
Os dormitórios ficavam em fileiras voltadas para o sul, com um total de sessenta e seis quartos. O dormitório de Wu Youcai ficava no meio, e o do candidato vizinho era justamente o do Mestre Xun. Ao se aproximarem da porta, o Mestre Xun disse misteriosamente:
— Escreva bem. Anteontem tive um sonho de que nós dois vamos passar neste ano!
Wu Youcai apenas sorriu e entrou com sua cesta.
Ao longe, as portas do salão de exames se fecharam.
O prédio parecia um monstro adormecido em Shengjing, silencioso, engolindo milhões de estudiosos enquanto aguardava.
Havia três fases no Exame Imperial de Outono, cada uma durando três dias. A primeira sobre os Quatro Livros e Cinco Clássicos, a segunda sobre políticas, e a terceira sobre poesia. Durante esse período, os candidatos tinham que comer, beber e se aliviar no dormitório, sem permissão para sair.
Wu Youcai sentou no dormitório, olhando para as provas espalhadas à sua frente. Lia com cuidado, uma a uma. Como fazia há doze anos, pegou o pincel e inclinou-se sobre a mesa para responder às perguntas.
O tempo passou lentamente. O céu no salão mudou do branco para o preto, depois do preto para o branco.
No intervalo, houve duas trocas de turno, e quando o último após a prova de política começou, uma garoa fina começou lá fora.
No meio da noite, Wu Youcai seguiu os candidatos e esperou o examinador principal chamar para a troca de turno.
Sob o céu sombrio, na escuridão negra como tinta, era difícil distinguir uma pessoa da outra. Ao lado do dormitório havia um quarto de criado. Na frente do quarto, algumas árvores projetavam sombras tênues. Talvez por estar mais alerta naquele dia, sua visão estava excepcionalmente boa naquela garoa fria. Por isso, viu claramente que alguém havia trocado de roupa e se escondia atrás dos arbustos em frente ao quarto do criado, esperando.
Quando os candidatos saíram para a chamada, o chamado não respondeu. Silenciosamente, recuou para as sombras dos arbustos. Então, outra pessoa saiu, pegou o chapéu alto e o manto do chamado, saiu novamente e se passou pelo candidato chamado.
O candidato chamado era originalmente gordo, mas quem o substituiu era baixo e magro.
Num instante, Wu Youcai entendeu tudo.
Queria gritar, mas as palavras de Lu Tong surgiram em sua mente:
— Suas palavras têm pouco peso. Se os oficiais corruptos conspirarem juntos, podem achar um pretexto para te prender. Depois do Exame de Outono, podem te soltar, e aí não haverá provas.
Ele ficou abruptamente em silêncio.
Mesmo que gritasse, falasse, o que adiantaria?
Havia dois examinadores responsáveis pelo Exame Imperial de Outono, quatro examinadores, um supervisor e vários examinadores patrulhando. Com tanta gente, ninguém notaria a troca de identidade?
Os portões do salão de exames já estavam fechados e só abririam depois do término da prova. Se alguém não desse permissão, como essas pessoas entrariam? Mesmo que gritasse agora, os examinadores poderiam achar um pretexto para prendê-lo. Mesmo que suas palavras despertassem suspeitas nos candidatos, o Exame Imperial de Outono não tinha acabado. Ninguém arriscaria seu futuro por uma dúvida.
Ele não teve escolha senão parar de fazer o exame.
A garoa da chuva outonal molhou as bordas de sua túnica. Wu Youcai ficou parado, com um sorriso amargo nos lábios.
Ele olhou para o longe. No pavilhão, dois examinadores de túnicas bordadas sentavam pacificamente de pernas cruzadas, tomando chá confortavelmente.
Na escuridão, parecia haver uma mulher vestida de seda branca sentada ao longe, sorrindo para ele enquanto falava:
— Se fosse eu...
— Claro que eu o mataria.
Matá-lo.
As pontas afiadas do saquinho de papel na sua manga cutucavam seus dedos. Wu Youcai despertou de repente e apertou lentamente o pequeno saquinho com força na palma da mão.
A chuva outonal continuava a cair, pingando sobre os corpos das pessoas, como se quisesse penetrar-lhes o coração com amargura. A chamada havia acabado. Wu Youcai seguiu a longa fila de candidatos para dentro do novo prédio escuro. Parecia ter entrado numa tumba construída para ele.
A prova final era sobre poesia e prosa.
Esse deveria ser o forte de Wu Youcai, mas ele não pegou o pincel. Sentou-se à mesa, olhando vazio para a lâmpada de cobre no pequeno cômodo.
Molhado pela chuva, suas roupas estavam um pouco úmidas. Wu Youcai não se importava. Sua mãe havia costurado aquelas roupas para ele doze anos atrás, antes da primeira prova. Para dar sorte, usara especialmente um tecido vermelho grosso. Doze anos se passaram. A gola e as mangas do robe estavam gastas pelo tempo, mas ele não tinha coragem de desfazer e costurar de novo, pois ainda havia vestígios dos pontos antigos da mãe.
Ele ficou sentado quieto no quarto por muito, muito tempo. Só quando o céu a leste começou a clarear, e o fraco cantar dos galos veio da cidade distante, é que ele pegou o pincel devagar e começou a escrever na prova à sua frente.
Escrevia lentamente, cada traço com extremo cuidado. Sua expressão poderia até ser chamada de piedosa. Mas, se olhasse bem, havia um sentimento de desolação, como se tudo tivesse chegado ao fim. Ao terminar o último traço, Wu Youcai recolheu a mão e pousou o pincel.
Ergueu o pergaminho e leu cuidadosamente. Depois, o baixou e olhou para o horizonte.
Lá fora, o céu já estava claro. O Exame Imperial de Outono estava para terminar. Logo, os examinadores recolheriam as provas. O futuro dos habitantes dos sessenta e seis dormitórios seria decidido.
Wu Youcai tirou o pequeno saquinho de papel da manga.
Sorriu calmamente e abriu o saquinho na mão.
…
No dormitório vizinho, Mestre Xun largou o pincel e esfregou as mãos trêmulas.
Já estava muito velho e talvez não suportasse o próximo exame. Porém, o Exame Imperial de Outono parecia ter se tornado uma obsessão em seu coração. Ele não tinha filhos e nunca se casou. Os pais já haviam falecido há muito tempo. Era como se tivesse vindo ao mundo para obter honra acadêmica.
Havia muitos estudiosos como ele no mundo.
Mas, se um simples plebeu quisesse alcançar o céu num só salto, aquele era o caminho mais direto e aparentemente promissor.
Um sorriso satisfeito apareceu no rosto envelhecido de Mestre Xun.
Provavelmente porque o sonho que tivera dias atrás se realizara. Ele sentia que as três provas daquele ano estavam escritas com excelência. Talvez fosse mesmo como diz o livro: “Quem permanece oculto por muito tempo, alçará voo alto.” Depois de tantos anos de esforço, poderia provar o gosto de estar no topo antes de descansar para sempre.
Mestre Xun guardou as provas prontas e tirou alguns alimentos secos da cesta do exame.
Antes da troca de turno, os candidatos recebiam alimentos secos para os próximos dois dias. Havia bolos de gergelim, doces, e similares. O sabor não era ruim. Mestre Xun temia que não houvesse tempo suficiente para responder as provas, então não se apressava para comer.
Agora, quase terminando, só aguardava o examinador chefe recolher as provas. Relaxou e sentiu o estômago roncar de fome.
Ele acabara de pegar um bolo de gergelim e dava uma mordida quando ouviu um grito agudo perto dali:
— Veneno! Alguém me envenenou! Socorro!
A voz surgiu de repente, como um trovão no silencioso pátio do exame. Mestre Xun ficou tão chocado que a mão tremeu, e o bolo de gergelim caiu no chão.
Não teve tempo de pegar. Abriu a janela do dormitório e ergueu o corpo para tentar ver a cena lá fora.
Para evitar trapaças, todos os dormitórios do pátio de exames eram trancados. Até as janelas tinham ferrolhos de ferro e só abriam pela metade.
Pela janela entreaberta, dava para ver claramente que era cedo. No pátio vazio, uma figura vestida de vermelho rolou e parou no meio do espaço. Aquela aparição súbita chamou atenção de candidatos e examinadores. Mestre Xun se perguntava se a pessoa havia arrombado a porta e fugido. Mas se tivesse fugido, o resultado do Exame Imperial de Outono daquele ano não contaria. Que desperdício de tempo, não?
No momento seguinte, ouviu o grito estridente de novo.
— Colegas candidatos, alguém envenenou os alimentos secos. Tem veneno nos alimentos secos—
Alimentos secos envenenados?
Como para provar, a figura que rolava no chão desacelerou. Os membros se contraíam, e ele vomitava bocados de sangue escuro, deixando uma sombra horrível no chão.
Mestre Xun ficou paralisado. Olhou para o bolo no chão e sentiu um calafrio no peito...
As rações secas do pátio do exame eram distribuídas uniformemente. Antigamente, os candidatos traziam suas próprias rações, mas pela umidade dos dormitórios, a comida de alguns estragava rápido. Depois, o Ministério dos Ritos organizou para fornecer rações secas durante o exame de outono.
Se essa pessoa dizia que as rações estavam envenenadas, então essas...
Mestre Xun puxou a mão para trás e jogou a cesta do exame como se evitasse uma cobra ou escorpião.
Os bolos da cesta caíram no chão.
De repente, houve tumulto no dormitório. Naquela hora, a maioria dos candidatos já havia terminado a prova. Ao verem aquela cena horrível, não puderam evitar o medo.
Mestre Xun apertou o peito. O coração disparava, e sentia-se ofegante. Mas, naquele instante, um estranho sentimento surgiu em sua mente. Por que aquele grito soava tão familiar? Parecia ter ouvido aquilo antes.
Com esse pensamento, abriu a janela do dormitório com as mãos trêmulas e olhou corajosamente para a pessoa no chão.
Ele vestia vermelho e era magro. Jazia no chão com a cabeça inclinada. O sangue que escorria do canto da boca formava uma poça sob seu corpo.
Os olhos estavam arregalados, com uma expressão dolorida presa no rosto. A pele parecia verde, como um fantasma morto. Os olhos sem vida encontraram os de Mestre Xun.
Mestre Xun prendeu a respiração.
Instantes depois, apertou o peito e gritou:
— Yo... Youcai!
…
Quando a Casa Médica Renxin abriu suas portas, já passava das nove.
Depois do começo do outono, os dias ficaram mais curtos e as noites mais longas. Exceto os que vendiam café da manhã, as barracas da Rua Oeste abriam mais tarde.
Yin Zheng limpava o pote do chá medicinal no balcão quando o assistente da loja de alfaiate do outro lado da rua entrou correndo, gritando:
— Aconteceu algo, aconteceu algo no pátio de exames!
Alfaiate Sun estava enxaguando a boca com uma tigela. Ao ouvir, virou a cabeça e perguntou:
— O que houve?
— Agora há pouco, os criados do dormitório disseram que ouviram um estudioso morrer no pátio de exames. Disseram que alguém no dormitório o envenenou. Está um caos total!
A mão de Yin Zheng tremeu, e um pote de chá medicinal caiu e rolou no chão.
— Ai, meu Deus — disse a Madame Song, da loja de sapatos de seda, que ouvira o barulho e saiu — As pessoas do pátio de exames não são todos estudantes fazendo a prova? Quem envenenaria um estudante?
— Não sei — disse o assistente coçando a cabeça — A notícia se espalhou fora do pátio, mas ninguém pode entrar antes do tempo. Não sei o que está acontecendo.
O rosto de Yin Zheng mudou. Ela não se importava com mais nada. Levantou a cortina de feltro e entrou no pequeno pátio. Ainda era cedo. Du Changqing e Ah-Cheng ainda não tinham chegado. Xia Rongrong e sua criada estavam na casa.
No pátio, Lu Tong recolhia as ervas recém-secadas numa bandeja de madeira.
Yin Zheng correu até Lu Tong, a voz trêmula:
— Senhorita, não está bom. Há rumores lá fora de que um candidato morreu no pátio de exames!
Lu Tong parou o que fazia.
— Você disse que um candidato morreu? — A expressão mudou rapidamente — Ai, não!
Ao ver isso, Yin Zheng ficou ainda mais nervosa.
— Como um candidato morreu?
— Será que o estudioso Wu envenenou a pessoa errada...?
— Não — Lu Tong largou a bandeja — Ele tomou o veneno ele mesmo.
Se Wu Youcai não matasse o examinador chefe, certamente não mataria ninguém. A única possibilidade era que ele usou o veneno em si.
Lu Tong o incitou a matar o examinador chefe para aproveitar o rancor e a raiva dentro dele. Mas, quando Wu Youcai estava em desespero, preferiu se envenenar.
Num instante, Lu Tong entendeu a intenção do estudioso.
Naquela hora, a última prova estava quase acabando. Familiares dos candidatos já esperavam do lado de fora. As mentes dos examinandos estavam agitadas. Para a notícia sair do pátio, claramente causou grande alvoroço.
Para Wu Youcai, parecia que o objetivo fora alcançado. Enquanto causasse um tumulto e atraísse atenção, poderia haver chance de revelar a trapaça na sala de exame.
Mas a morte de um estudioso anônimo e a do examinador chefe poderiam causar ondas diferentes em Shengjing. Se a entrada do pátio não fosse aberta, ninguém saberia a verdade. Além disso, o Exame Imperial de Outono ainda não tinha acabado. Havia tempo suficiente para abafarem o caso.
O pensamento de Wu Youcai ainda era simples demais.
Yin Zheng ficou em pânico.
— Senhorita, o que faremos agora?
Lu Tong a acalmou:
— Não entre em pânico.
Depois de pensar um pouco, disse:
— Vá imediatamente para a família Dong.
— A família Dong?
Lu Tong assentiu e cochichou algumas palavras no ouvido de Yin Zheng. Por fim, Yin Zheng olhou para Lu Tong, hesitando:
— Isso vai funcionar?
O sol da manhã brilhava forte, deixando os olhos de Lu Tong marejados.
Ela ergueu a cabeça e olhou para o horizonte, murmurando:
— É isso. Quem sabe? Vamos tentar.
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