Talvez por estar com a cabeça cheia, Xia Rongrong passou o dia inteiro inquieta. Du Changqing foi checar seu estado várias vezes, mas ela apenas disse que estava cansada e que melhoraria depois de descansar.
À noite, Du Changqing e Ah-Cheng foram para casa, restando apenas Xia Rongrong e Lu Tong na loja. Xiangcao acendeu uma vela e fechou a porta. Quando se virou, viu Xia Rongrong encolhida no divã, segurando firmemente uma tesoura de prata.
— Senhorita, não precisa ficar tão nervosa.
— Ela mora ao lado — murmurou Xia Rongrong, com a voz baixa. — Hoje, quando vi o rosto dela, fiquei apavorada. Xiangcao, e se ela desconfiar que descobrimos o que ela fez e quiser nos matar?
Xiangcao ficou sem saber o que fazer.
Sua senhorita era boa em tudo, mas era medrosa demais. Qualquer pequeno susto a fazia tremer. Para mudar de assunto e tentar distrair Xia Rongrong, ela apontou para o bracelete de jade no pulso da jovem e sorriu.
— Senhorita, não precisa se preocupar. O Mestre Bai disse que nada vai acontecer. Veja esse bracelete de jade que a Madame Bai lhe deu. A cor é límpida, e vale pelo menos cem taéis de prata. Eles são tão generosos. É óbvio que querem fechar um acordo. Não vão simplesmente ignorar a senhorita.
Ao ouvir isso, Xia Rongrong resmungou:
— Nem me fale. Se eu soubesse, teria saído da clínica mais cedo hoje. Não devia ter ido ver Bai Shouyi, muito menos ter concordado em vigiar Lu Tong.
Embora dissesse isso, seus dedos acariciavam o bracelete em seu pulso. O jade era frio e liso ao toque, brilhando suavemente sob a luz. Ela não conseguia desviar os olhos.
Algum tempo atrás, ela decidira trabalhar com Bai Shouyi para afastar Lu Tong.
Falando nisso, tudo começou por causa de Lu Tong.
Certa noite, Xia Rongrong foi à cozinha buscar água e, por acaso, viu Lu Tong encarando um coelho morto. Embora Lu Tong dissesse que o coelho havia comido capim venenoso por engano, Xia Rongrong sentiu que ela o havia envenenado de propósito.
Du Changqing confiava em Lu Tong e talvez não acreditasse nas palavras da prima. Seguindo a sugestão de Xiangcao, Xia Rongrong escreveu uma carta para Bai Shouyi, o responsável pelo Salão Médico Xinglin.
Ela não esperava que Bai Shouyi enviasse Wen You para lhe entregar uma mensagem pessoalmente.
Wen You disse que Bai Shouyi já sabia do ocorrido, mas que envenenar um coelho não era um crime grave. Contudo, ele compreendia perfeitamente o susto e o medo de Xia Rongrong. Bai Shouyi pediu para que ela não comentasse com Du Changqing por enquanto, para não alertar Lu Tong. Seria melhor observá-la por mais alguns dias. Se notasse algo suspeito, deveria ir até a residência da família Bai e pedir para alguém entregar uma mensagem. Ele ficaria mais do que feliz em ajudar.
Depois de falar, Wen You ainda enfiou uma nota de cem taéis na mão de Xia Rongrong.
Graças a essa nota, quando Xia Rongrong viu Lu Tong coberta de sangue na noite anterior, mandou imediatamente alguém ao Salão Médico Xinglin para entregar a notícia.
Xia Rongrong queria contar a Bai Shouyi para poder sair da clínica e se esconder por alguns dias. Não esperava que, dessa vez, Bai Shouyi fosse vê-la pessoalmente.
Bai Shouyi se apresentou diante dela com uma expressão amável. Com uma das mãos, ajustou o cinto colorido de seda na cintura e disse, num tom raro de seriedade:
— Senhorita Xia, você suspeita que a Doutora Lu matou alguém. Tem alguma prova?
— A roupa ensanguentada, e ela saindo tarde da noite... isso não serve de prova?
— Serve, mas não é o suficiente.
— Não é o suficiente?
Bai Shouyi pensou por um instante.
— Senhorita Xia, tenho um pedido difícil, e espero que possa me ajudar.
Ela apertou os lábios.
— O que é?
Bai Shouyi queria que ela permanecesse na clínica.
— Se Lu Tong realmente matou alguém, ela deve ter deixado pistas. Du Changqing vai pra casa todas as noites. Só a senhorita Xia pode ficar de olho nela o tempo todo. Senhorita Xia, pode continuar na clínica? Assim que notar algo estranho, mande alguém me chamar. Com testemunhas e provas materiais, tudo ficará muito mais fácil.
Xia Rongrong quis recusar instintivamente.
— Eu não posso...
Bai Shouyi segurou sua mão, assustando-a. Então, colocou um bracelete de jade branco e gorduroso em seu pulso.
— Senhorita Xia — suspirou profundamente —, isso não é só por mim, é também pelo jovem mestre da família Du. A senhorita conseguiria assistir calada enquanto ele abriga uma assassina ao seu lado?
Os olhos de Xia Rongrong se fixaram no lindo bracelete de jade. Ela não conseguiu recusar.
A luz tremeluzia no cômodo. A textura fria do jade a puxou de volta à realidade.
Xia Rongrong esfregou a testa. Para falar a verdade, ela não estava fazendo isso pelo Salão Médico Renxin de Du Changqing, nem pelos floreios de Bai Shouyi. Ela havia sido seduzida por aquele bracelete caro e deslumbrante.
Xiangcao colocou a vela sobre a mesinha.
— Senhorita Xia, descanse. Já passa da meia-noite.
— Você não quer vigiar o quarto ao lado?
Xiangcao riu.
— Senhorita Xia, não dá pra ficar sem dormir, né? Além disso, se a Doutora Lu realmente tem algum segredo, ela não pode sair todas as noites. A senhorita pode descansar. Eu vigio daqui. Se acontecer algo, prometo acordar você.
Seu tom era leve. Talvez porque não tenha visto Lu Tong envenenar o coelho nem tirar as roupas ensanguentadas no meio da noite, ela não sentia medo. Sempre achou que Xia Rongrong estava exagerando.
Ao ver o semblante tranquilo da criada, Xia Rongrong se acalmou. Tirou os sapatos e deitou-se na cama.
Agora que havia prometido a Bai Shouyi, não era apropriado voltar atrás. Mas, ao pensar que talvez estivesse dormindo ao lado de uma assassina, um arrepio percorreu sua espinha. Queria contar tudo a Du Changqing, mas tinha medo de que ele não acreditasse. E se ficasse calada, temia que um dia Du Changqing se tornasse mais uma vítima de Lu Tong.
Afinal, Du Changqing era seu primo e sempre foi bom com ela.
Enquanto hesitava e pensava, o sono foi se apoderando de seu corpo. Inconscientemente, Xia Rongrong adormeceu.
Muito tempo depois, um som abafado de “dong” ecoou no pátio. Xia Rongrong se assustou e abriu os olhos.
O quarto estava escuro, sem luzes. Apenas o luar entrava pela janela, lançando uma claridade tênue sobre o cômodo.
Ela se levantou e sussurrou:
— Xiangcao?
— Estou aqui — respondeu a criada, tateando até segurar sua mão sobre a cama.
— Você ouviu aquele barulho?
— Ouvi, senhorita. Não faça barulho. Eu vou ver o que é.
Xiangcao foi até a janela, apalpando no escuro.
Como Xiangcao sempre foi corajosa, Xia Rongrong não se preocupou tanto. Observou a criada caminhar vagarosamente até a janela.
Xiangcao não ousou acender a lanterna, com medo de ser notada. Encostou o rosto na fresta da janela, espiando. Xia Rongrong só via suas costas.
Havia de fato um som abafado vindo do pátio. Era suave, mas no silêncio da noite parecia o rufar distante de um tambor, arrastado e estranho.
Xia Rongrong esperou um bom tempo sem receber resposta da criada. Ficou ansiosa, mas não teve coragem de falar. Pensou um pouco, depois saiu da cama e se aproximou da janela.
Foi só ao se aproximar que percebeu que Xiangcao estava com os olhos colados na fresta. A expressão, sempre serena, agora revelava um choque inexplicável. Gotas grossas de suor escorriam por sua testa, fazendo-a parecer uma estátua derretendo.
O coração de Xia Rongrong disparou. Ela cerrou os dentes e prendeu a respiração. Também colou os olhos à fresta da janela, querendo entender o que havia assustado tanto Xiangcao.
Então ela viu...
A lua estava coberta por nuvens, restando apenas sombras tênues. Sob a janela ao lado, junto ao tortuoso pé de ameixeira, alguém se curvava, cavando a terra. Xia Rongrong ficou petrificada.
Aquilo era realmente estranho.
Por que alguém cavaria junto à árvore no meio da noite?
O que havia debaixo da árvore?
Inclinou-se mais, tentando ver melhor os movimentos sob a ameixeira.
Havia um buraco quadrado e fundo aberto ao lado da árvore, negro como breu.
Duas mulheres de rostos indistintos seguravam pás nas mãos, cavando calmamente o buraco para deixá-lo maior.
Xia Rongrong conseguiu distinguir que, não muito longe delas, havia algo disforme.
Estariam prestes a enterrar aquilo?
O som abafado das pás contra o solo era caótico e fúnebre na escuridão da noite. Xia Rongrong ainda tentava entender, quando de repente um vento forte soprou. Os galhos se agitaram, e as nuvens se dissiparam com um estrondo.
Num instante, a lua voltou a brilhar, iluminando a noite, o pátio e a sombra junto ao buraco.
Era um embrulho do tamanho de metade de uma pessoa.
O saco estava deitado sob a árvore no pequeno pátio, inflado por algo desconhecido. A luz pálida da lua revelava claramente os traços de sangue no tecido do embrulho.
As pupilas de Xia Rongrong se contraíram. Ela deu um passo para trás, suando frio.
Seus lábios tremiam.
— Xiangcao — sussurrou.
Xiangcao se virou, o olhar tomado pelo pânico.
O saco manchado de sangue estava amassado, sugerindo a silhueta borrada de um corpo.
O som estranho cessou no pátio.
Alguém se posicionou à beira do buraco e chutou o saco ensanguentado. O embrulho rolou para dentro com um som surdo.
A mulher pegou calmamente a pá e começou a cobrir o buraco com terra.
Ao longe, ouviu-se algo caindo. Logo depois, silêncio total.
Alguém ao lado dela sussurrou:
— Senhorita, houve um barulho agora há pouco?
A mulher ergueu os olhos e olhou para as profundezas escuras do pequeno pátio.
As portas e janelas da pequena casa diante dos degraus de pedra estavam fechadas, sem nenhum sinal de luz. Apenas o som do vento gelado.
Ela desviou o olhar e respondeu:
— Não foi nada.
O outono em Shengjing era sempre magnífico.
Um estudioso havia morrido no salão de exames, um oficial do Ministério dos Ritos estava sendo investigado, e Fan Qingtian, da Corte Criminal, era um oficial ganancioso e sem vergonha... Coisas comuns, comentadas apenas pelo povo, tornando-se conversa de fim de refeição. Mas nada disso afetava o trabalho diário, tampouco o entusiasmo das pessoas em celebrar o Festival do Meio Outono.
Faltavam três dias para o Festival do Meio Outono.
A taberna da Rua Oeste havia recebido vinho novo, e uma fila interminável de clientes se formava para comprá-lo. Du Changqing foi cedo ao mercado de peixes buscar caranguejos.
Os caranguejos precisavam ser grandes, com a parte de trás da carapaça verde-escura e brilhante. Esse tipo de caranguejo tinha carne farta, e nos meses de agosto e setembro, os fêmeas eram melhores que os machos.
Du Changqing podia ser negligente em vários assuntos, mas quando se tratava de comer, beber e se divertir, era especialmente atencioso.
Lu Tong também foi convocada para ajudar nos preparativos com Yin Zheng e Ah-Cheng.
Nesse período, todas as famílias estavam ocupadas organizando seus Banquetes de Observação da Lua. Poucos iam até a clínica para consultas ou remédios. Como Lu Tong não cozinhava muito bem, a tarefa de fazer bolos de lua ficou com Yin Zheng e Xia Rongrong. Sabendo que Lu Tong gostava de doces, Yin Zheng colocou mais mel e xarope no recheio.
Quando Du Changqing voltou à tarde, depois de comprar os caranguejos, o pessoal da clínica ainda estava fazendo bolos de lua na loja.
Ele deixou os dois cestos de caranguejo de lado e entrou. Viu Lu Tong recheando um grande bolo de lua na forma. Seus movimentos eram brutos e desajeitados, difíceis de ignorar.
Ficou parado atrás de Lu Tong e comentou, com um tom irônico:
— Doutora Lu, está brincando de massinha?
Lu Tong não respondeu, apenas pressionou a forma contra a massa redonda com força.
A forma havia sido escolhida por Ah-Cheng e Yin Zheng juntos, retratando o palácio lunar e o coelho com o sapo, símbolos de reunião familiar. Após pressionar, Lu Tong retirou o excesso de massa, revelando o padrão completo no bolo.
Du Changqing olhou para ela, como se quisesse dizer algo, mas hesitou. No fim, olhou para Xia Rongrong do outro lado e suspirou:
— Minha pobre prima.
Xia Rongrong não evitava Lu Tong naquele dia, mas seu semblante estava péssimo. Du não sabia se ela havia pegado um resfriado nos últimos dias, mas parecia inquieta.
Desconfiado de que ela não estivesse bem, fez algumas perguntas. Xia Rongrong levantou-se, pegou os bolos e abaixou a cabeça:
— Vou levá-los para assar na cozinha.
Chamou Xiangcao e ergueu a cortina de feltro, entrando.
Du Changqing observou suas costas, tocando o queixo.
— Por que sinto que ela está estranha ultimamente? — perguntou a Lu Tong e aos outros. — Vocês também sentiram isso?
Todos balançaram a cabeça.
Ele murmurou para si mesmo:
— Será que estou pensando demais?
Depois deu um tapinha na própria testa.
— Esquece. Vamos cuidar do importante primeiro.
Pegou um cesto vazio ao lado e colocou algumas frutas cítricas e castanhas da bandeja de frutas, junto com alguns caranguejos amarrados. Por fim, adicionou uma pequena jarra de vinho de osmanthus. O cesto vazio agora parecia bastante pesado.
Du Changqing cortou um pedaço de tecido vermelho da faixa na entrada da loja e amarrou na alça do cesto. Fez um laço bonito, dando mais cor ao presente.
Colocou o cesto decorado sobre a mesa e chamou Ah-Cheng:
— Vamos. Me acompanhe até a casa do Velho Hu. Está quase na lua cheia do oitavo mês e ainda não enviei os presentes.
Desde a morte do Mestre Du, todo meio do outono Du Changqing mandava presentes simples ao Mestre Hu, em gratidão por ele ter cuidado do seu negócio.
Este ano, o salão médico havia lucrado bastante, então os presentes estavam mais generosos. Em outros tempos, jamais mandariam um caranguejo tão grande.
Ah-Cheng coçou a cabeça.
— Chefe, o Mestre Hu não está em casa esta noite.
— Hmm? Por quê? Ainda sai de casa com essa idade?
— Ele não disse ontem? O corpo do Irmão Wu foi trazido de volta. Ele e o pessoal do clube de poesia estão na casa dos Wu, ajudando com o funeral!
…
— Onde está o corpo de Wu Youcai agora?
— Foi levado para a casa dos Wu no fim da tarde.
No Salão da Suprema Justiça, também se discutia esse caso.
Já era outono, e os osmanthus do pátio haviam florescido. As sombras ondulantes das árvores projetavam-se nas cortinas de bambu, acrescentando uma fragrância fria à paisagem outonal.
Alguém estava sentado diante da janela entalhada. A luz da lua filtrava-se pela janela, desenhando uma camada gélida sobre as sobrancelhas delicadas do jovem. O sorriso nos olhos já não era tão sincero quanto antes. Ele encarava o documento nas mãos em silêncio, o olhar carregado de perplexidade.
À sua frente, o vice-comandante da Guarda Imperial, Xiao Zhufeng, falava em voz baixa:
— O Departamento de Prisões já fez os arranjos. A investigação minuciosa de Sua Majestade envolveu o Ministério dos Ritos. É bom que os nossos assumam o controle. Você ainda tem dúvidas?
O caso dos exames imperiais havia avançado mais rápido do que o esperado.
À primeira vista, parecia apenas um caso de cola nos exames, mas na realidade, o imperador queria investigar a fundo a corrupção e os subornos na corte nos últimos anos. Diversas forças estavam envolvidas. O vice-ministro do Ministério dos Ritos era aliado do Príncipe Herdeiro. E agora que o Príncipe Herdeiro e o Terceiro Príncipe estavam em confronto aberto e velado, como o Terceiro Príncipe deixaria passar essa oportunidade? Ninguém envolvido podia sair ileso.
Para muitos, era apenas lucrar com a queda dos outros. Mas Pei Yunhuan não parecia nada aliviado.
Ele largou o documento e olhou para a vela sobre a mesa. Disse:
— Não acha coincidência demais?
— Que coincidência?
— Durante os exames imperiais, um estudioso se suicida e gera comoção, e isso logo se espalha fora da corte. Em pouco tempo, tirando o Ministério da Guerra, a Corte Criminal e a Delegacia também ficam sabendo. Os oficiais do Ministério dos Ritos envolvidos são investigados, e oficiais da Corte Criminal vão até a casa do falecido causar confusão, incitando conflito entre acadêmicos e autoridades. Depois, os estudiosos bloqueiam a liteira, os censores relatam o caso à corte, e a Corte Criminal vira alvo de investigação...
Ele pegou a vela da mesa e encarou a chama trêmula. Algo brilhou em seus olhos.
— A morte de um estudioso não deveria causar tanto alvoroço. Parece que há alguém puxando os fios nos bastidores. Caso contrário, o Ministério dos Ritos teria abafado tudo desde o início.
Xiao Zhufeng franziu o cenho.
— Você suspeita do Terceiro Príncipe?
Pei Yunhuan balançou a cabeça.
— O Terceiro Príncipe é arrogante demais. Jamais confiaria sua segurança a uma plebeia.
Duan Xiaoyan entrou com as vestes bordadas e interrompeu:
— Então devemos agradecer à esposa do Ministro do Templo Tai Fu. Se ela não tivesse achado que o envenenado era seu precioso filho, se não tivesse discutido com o examinador na porta do salão de provas e arrastado o cunhado do Ministério da Guerra para intervir, impedindo que os oficiais abafassem o caso, essa sucessão de eventos nem teria começado.
Ele disse com desdém, mas as sobrancelhas de Pei Yunhuan se contraíram.
Pensou um pouco, então olhou para Duan Xiaoyan:
— O quanto você sabe sobre o estudioso que morreu?
Duan Xiaoyan, que adorava fofocas e trivialidades, começou a falar animadamente:
— Você diz o Estudioso Wu? Era um coitado. Vivia com a mãe, e matava peixe numa peixaria na Rua Oeste. Ouvi dizer que era um forte candidato a primeiro lugar...
Ainda falava com entusiasmo quando Pei Yunhuan o interrompeu:
— Rua Oeste?
— Sim, Rua Oeste — confirmou Duan Xiaoyan. — O que tem?
Xiao Zhufeng pareceu entender algo. Olhou para Pei Yunhuan:
— Aquela médica trabalha no Salão Médico Renxin. Fica na Rua Oeste.
Duan Xiaoyan ficou pasmo.
— O que isso tem a ver com a Doutora Lu?
Pei Yunhuan não respondeu.
De repente, aquele emaranhado de fios encontrou uma ponta. Tudo ficou claro.
O estudioso morto, Wu, era o que cortava peixe na Rua Oeste.
A esposa do Ministro Dong, do Templo Tai Fu — a mesma que causou alvoroço na frente do salão de provas — havia pedido que Lu Tong tratasse a doença pulmonar do filho.
Não muito tempo atrás, Lu Tong visitara a Mansão Fan para tratar a esposa de Fan Zhenglian, que havia sido preso.
A sombra de Lu Tong aparecia em todos os momentos-chave.
A chama da vela oscilava, alongando a sombra do jovem. Ele a observou por um bom tempo e, de repente, sorriu.
— Entendi.
Ela deu uma volta enorme por tudo isso.
Que Xianxian, que chá medicinal? Ela se aproximou passo a passo de Zhao Feiyan. Chegou até a salvar Dong Lin no Templo Wan En. Talvez, desde o início, todos já estivessem dentro de sua armadilha sem perceber.
Ela era realmente paciente e cautelosa.
A voz de Duan Xiaoyan veio do lado:
— Você suspeita que a Doutora Lu tem envolvimento com o caso dos exames?
— Não é suspeita.
Pei Yunhuan largou a vela e sorriu friamente.
— Com certeza ela está envolvida nisso.
Nesse momento, a voz de Qing Feng soou do lado de fora:
— Mestre.
— Fale.
Qing Feng hesitou antes de dizer:
— O posto de patrulha recebeu uma denúncia: alguém foi acusado de assassinato e enterro de corpo no Salão Médico Renxin, na Rua Oeste. O oficial de patrulha está a caminho com homens para efetuar a prisão.
Assim que falou, os três no cômodo pararam.
Agora mesmo, haviam falado que o caso dos exames tinha ligação com Lu Tong — e agora vinham com a notícia de que a patrulha ia prendê-la.
Duan Xiaoyan arregalou os olhos:
— Será que foi mesmo a Doutora Lu?
Pei Yunhuan refletiu por um momento antes de perguntar:
— Quem fez a denúncia?
— O proprietário do Salão Médico Xinglin, na Rua Oeste. Bai Shouyi.
Bai Shouyi?
Ele ergueu levemente as sobrancelhas e compreendeu tudo na hora.
Xiao Zhufeng o observou:
— Quer que eu vá?
Manter a ordem pública era dever dos oficiais de patrulha. Mas se envolvia o Salão Médico Renxin ou o caso dos exames, eles precisavam acompanhar de perto.
Pei Yunhuan sorriu, levantou-se, pegou a espada longa da mesa e disse:
— Eu mesmo irei.
… …
O céu escureceu.
Com a chegada do outono, as lanternas ao longo da Rua Oeste começaram a se acender ao entardecer.
A Rua Oeste não era tão movimentada quanto a Rua Sul. Naquela noite, a lua brilhava límpida no céu, e as antigas muralhas da cidade estavam cobertas por uma fina camada de neve.
Du Changqing e Ah Cheng estavam parados na entrada do salão médico, prestes a fechar a porta para ir embora, quando de repente ouviram o som de cascos de cavalo vindo do fim da rua.
O som era urgente, como tambores rompendo o silêncio da noite outonal, fazendo o coração acelerar. Instintivamente, Du Changqing virou a cabeça e viu um grupo de soldados de patrulha vestidos de preto avançando rapidamente à distância. Em um instante, pararam em frente à entrada do salão médico com um estridente “whoa”.
À frente do grupo estava um oficial de patrulha usando um chapéu. Seu semblante era feroz, e ele não demonstrava a menor preocupação com o fato de Du Changqing e Ah Cheng ainda estarem diante dele. Desceu do cavalo e caminhou até a entrada do salão, empurrando a porta.
— Ei, o que está fazendo? — Du Changqing, confuso, forçou um sorriso. — Quer comprar remédio no meio da noite? É só avisar, não precisa entrar assim...
O oficial o empurrou para o lado e gritou:
— O escritório de patrulha está conduzindo uma investigação! Todos os não relacionados, afastem-se!
Du Changqing ficou atônito.
— Investigação?
Naquele momento, as velas dentro do salão foram acesas. Lu Tong apareceu segurando uma lamparina, acompanhada por Yin Zheng. Parecia ter sido surpreendida pela agitação lá fora e ficou parada na porta, olhando para todos com expressão de dúvida.
— O que está acontecendo?
Ao ver que quem saía eram duas mulheres jovens, a expressão do oficial suavizou um pouco, mas seu tom continuava frio. Limitou-se a dizer:
— Alguém denunciou seu salão médico por assassinato e ocultação de cadáver. O escritório de patrulha está agindo sob ordens para investigar o caso!
Acenou com a mão, e os soldados atrás dele avançaram em peso, cercando o local.
Du Changqing tentou manter a calma:
— Isso deve ser um engano. Somos um salão médico. Como poderíamos cometer assassinato e enterrar um cadáver...?
Mas foi interrompido por Lu Tong.
Ela permaneceu na porta e, encarando diretamente o oficial, falou com calma:
— Já que o senhor está agindo sob ordens para investigar, o Salão Médico Renxin irá cooperar. Mas somos uma loja registrada. Se o oficial pretende conduzir uma investigação, poderia nos mostrar o mandado de inspeção do escritório de patrulha?
O oficial Shen Ying Feng ficou atônito.
Tão logo recebeu a denúncia, havia corrido com seus homens até a Rua Oeste. Não teve tempo de buscar o mandado. Em tempos tão conturbados na capital, se conseguisse resolver um caso importante, uma promoção estava ao alcance.
Normalmente, em investigações, os cidadãos comuns não perguntavam por mandado. Quem imaginaria que essa jovem mencionaria isso?
Enquanto hesitava, uma voz soou repentinamente atrás deles:
— Aqui.
A voz surgiu do nada. Todos se viraram para olhar.
O aroma de flores de osmanthus preenchia o ar, e a lua crescente brilhava obliquamente, iluminando a noite. Alguém vinha montado a cavalo.
Na entrada da Rua Oeste, um jovem puxou as rédeas. Desceu do cavalo e caminhou em direção ao salão médico. Os soldados ao redor abriram caminho. A luz difusa sob o beiral iluminava sua túnica escarlate — e também seu rosto marcante.
Shen Ying Feng ficou surpreso, e logo depois, radiante:
— Comandante Pei!
O coração de Lu Tong afundou.
De novo esse insistente Pei Yunhuan...
Pei Yunhuan parou diante dela. Retirou o distintivo da cintura e o balançou na frente dela. Em seguida, sorriu:
— Doutora Lu, parece que está bastante familiarizada com as Leis da Dinastia Liang.
Após um breve silêncio, Lu Tong ergueu os olhos para o jovem à sua frente.
— Comandante Pei.
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