105 🌿 O Som de um Grampo de Jade se Partindo


A chuva caía em torrentes, enquanto a vela de prata ardia silenciosamente sobre a mesa.

Sob a luz vacilante das lamparinas, duas figuras permaneciam frente a frente, em um confronto silencioso.

Depois de um longo silêncio, Lu Tong falou:

— Como você me reconheceu?

Ela deveria ter percebido antes. Pei Yunying servira vinho, assistira às apresentações de música e dança e até pedira uma massagem nos ombros — claramente zombando dela de propósito. E, no entanto, ela realmente acreditara que ele estava apenas flertando com as dançarinas convidadas, por hábito.

Mas ela usava um véu, sua maquiagem era elaborada, e não havia pronunciado uma única palavra. Como Pei Yunying a reconhecera?

O jovem suspirou, balançando a cabeça.

— Outras mulheres olham para as pessoas com afeição persistente nos olhos, mas os seus... o seu olhar carrega intenção assassina suficiente para ser sentida a dez milhas de distância.

Ele soltou uma risada baixa.

— Quem você poderia enganar?

Lu Tong: "……"

Ela queria mais do que tudo atirar um punhado de pó venenoso nos olhos dele.

Pei Yunying tomou um gole de chá e a examinou com um sorriso.

— Lu Dafu [Médica Lu] está bem diferente hoje.

Ela normalmente mantinha o rosto limpo, usava roupas simples e gastas, e trançava o cabelo apenas por conveniência enquanto praticava a medicina — sempre transmitindo indiferença a quem a cercava. Mas, naquela noite, vestia uma deslumbrante túnica de seda-cicada bordada com pavões em fios dourados sobre um tecido azul-pavão. Sua cintura delgada se curvava como um galho de salgueiro, e até o véu era de um azul diáfano e delicado, com franjas que balançavam suavemente, emoldurando um par de olhos de beleza estonteante.

Seus olhos tinham um formato primoroso, os cantos externos caídos de leve, conferindo-lhe uma aparência inocente. Com sobrancelhas e cílios realçados pela maquiagem, seu olhar se tornara ainda mais profundo — uma negritude cintilante que carregava um fascínio gélido.

Naquela noite, ela não havia trançado os cabelos. Em vez disso, suas longas mechas negras desciam como uma cascata, adornadas com pequenas tranças que acrescentavam um toque exótico. Prendedores de prata tilintavam pelo corpo, tornando sua presença absolutamente hipnótica a um único olhar.

Pei Yunying a fitou, meio sorridente.

— Olhos tão gentis, e ainda assim, uma intenção assassina tão pesada. — E a lembrou: — Lu Dafu, se continuar querendo matar as pessoas a cada instante, o que fará o seu noivo quando descobrir?

Ainda ressentida com as provocações de antes, Lu Tong retrucou em tom sarcástico:

— Pei Daren [Lorde Pei] visita bordéis com tanta frequência... o que fará sua esposa quando descobrir?

Pei Yunying arqueou a sobrancelha.

— Quando eu tiver esposa, não visitarei mais bordéis.

Lu Tong zombou:

— Então, serei tão magnânima quanto Sua Excelência. Se meu noivo descobrir, eu simplesmente o matarei.

O aposento mergulhou em silêncio.

Depois de uma longa pausa, Pei Yunying falou:

— Então, afinal, o que veio fazer aqui esta noite?

Ele a olhou de relance, recostando-se preguiçosamente na cadeira.

— Veio matar o seu noivo?

Lu Tong não tinha intenção de continuar conversando com ele. Já havia perdido tempo demais naquela noite, e o paradeiro de Qi Yutai continuava desconhecido. Mas agora que Pei Yunying a flagrara, e considerando sua natureza calculista, certamente passaria a vigiar de perto seus próximos passos. Aquela noite, seu plano já havia ruído.

— Já está tarde. Não vou mais atrapalhar a boa diversão de Pei Daren — disse ela de propósito, desviando da pergunta. — Vou me retirar.

— Ir embora assim, tão simplesmente?

— Seria desagradável ser vista e manchar a grande reputação de Pei Daren. — Com isso, virou-se em direção à porta.

Ele ignorou o sarcasmo e apenas riu atrás dela.

— Lu Dafu, parece que você entendeu mal a situação. Realmente acha que pode sair daqui?

Os passos de Lu Tong pararam. Ela se virou, fitando-o friamente.

— Não sou eu — disse ele, inclinando levemente o queixo em direção à porta. — O terceiro andar do Yuxian Lou [Pavilhão do Encontro Imortal] não é acessível a qualquer um. Este é o aposento oeste, então tudo bem. Mas ali — lançou um olhar para a porta —, o aposento leste é guardado.

— Não sei o que você veio fazer, mas ao invadir assim, provavelmente já foi notada. Aposto que há gente esperando lá fora neste momento, pronta para agarrá-la assim que sair.

— Lu Dafu, você os alertou.

O coração de Lu Tong se contraiu.

O corredor do terceiro andar, aparentemente vazio, era na verdade guardado?

Mas desde que subira as escadas e entrara no aposento, tirando o mordomo do bordel que Yin Zheng havia atraído, ela não encontrara nenhum obstáculo.

Um calafrio lhe percorreu o corpo num instante — como um louva-a-deus caçando uma cigarra, apenas para de repente perceber o pardal amarelo espreitando logo atrás.

Como se para confirmar as palavras de Pei Yunying, o som de passos apressados ecoou lá fora, acompanhado pelas vozes ásperas de homens — como o clamor de soldados em busca de alguém.

Lu Tong se voltou bruscamente para Pei Yunying.

Ele permanecia sentado no aposento, a luz suave da vela prateada iluminando seu rosto, tornando insondável a profundidade do olhar.

— Aqueles homens lá fora são de quem? — perguntou Lu Tong.

— Não sei — respondeu ele preguiçosamente. — Jovens nobres, convidados ricos... apenas rostos familiares de sempre.

Lu Tong avançou, encurtando a distância entre eles.

— Dian Shuai [Comandante], pode me ajudar?

Enquanto falava, sua voz suavizou um pouco, tentando se apoiar na relação de conhecimento que tinham.

Segundo Pei Yunying, os homens lá fora eram de posição distinta e já haviam percebido a presença de um intruso no terceiro andar. Se fosse descoberta agora, seria imediatamente classificada como suspeita. Se não fossem da família Qi, ainda seria tolerável, mas se fossem... então já os havia alertado antes da hora.

E Pei Yunying, como herdeiro do título de Duque da Paz Resplandecente, certamente deveria manter certas cortesias entre a elite.

Ela o fitou.

Pei Yunying se levantou da cadeira, sorrindo enquanto balançava a cabeça.

— Não posso.

— Você e eu não temos laços. Se eu ajudar você, ofenderei outro. Os cães raivosos de Shengjing são problemáticos — nunca atraio problemas para mim mesmo.

Passou por Lu Tong como se fosse sair.

Uma mão agarrou sua manga.

Pei Yunying abaixou o olhar.

Dedos delgados apertavam o tecido da túnica negra, carregando uma determinação desesperada. A voz de Lu Tong era calma:

— Parece que Daren [Lorde] se esqueceu — você ainda me deve um favor.

Pei Yunying parou.

Lu Tong ergueu o olhar, encontrando o dele.

— Naquela noite, em frente à Estação de Patrulha Militar, eu mesma servi de isca e presenteei Pei Daren com algo. Na ocasião, eu disse: "Não precisa retribuir agora. Quando chegar a hora, virei cobrar."

Ela deu um passo à frente, pressionando-o:

— Agora, estou aqui para cobrar.

Ele soltou uma risada divertida.

— Então vai usar um favor para forçar o pagamento?

— Será que Pei Daren pretende voltar atrás na palavra?

Ele arqueou a sobrancelha, prestes a responder — quando uma batida súbita soou à porta.

— Tem alguém aí dentro?

Os olhos de Lu Tong se estreitaram. Eles tinham chegado.

As batidas ecoaram com urgência, como tambores de guerra estilhaçando a quietude da noite.

Pei Yunying soltou um longo suspiro. No instante seguinte, agarrou Lu Tong e a puxou para trás do biombo.

Uma lufada de vento fez a chama da vela de prata vacilar, lançando sombras dançantes das peônias entalhadas na lanterna de contas.

Um vasto véu de seda desceu do alto, flutuando no ar, envolvendo as duas figuras no divã Yuanyang [divã com padrão de patos mandarins, símbolo de amor e intimidade].

Lu Tong se sobressaltou ligeiramente e tentou instintivamente se debater, mas seus pulsos estavam presos sob o edredom, impossibilitando qualquer movimento.

Cordões de jade, dossel esmeralda e cortinas de brocado adornadas com hibiscos. O edredom bordado Yuanyang ostentava um par de patos mandarins entrelaçados em cores vívidas e resplandecentes. A barra rígida da túnica dele se misturava à saia macia de gaze dela em um emaranhado lânguido, o brocado negro agora riscado por um azul brilhante.

Cortinas quentes bordadas com fios dourados e uma divisória de prata. Presa sob o edredom, as joias de prata de Lu Tong tilintavam com clareza contra o travesseiro de qingyu [travesseiro de jade azul], evocando uma cena sedutora, tal como diz o provérbio: "Travesseiro de jade, som de grampo se partindo."

Mas o homem à sua frente permaneceu completamente indiferente à intimidade. Pei Yunying a soltou, seu olhar sem qualquer traço de desejo. Em vez disso, emitiu uma advertência baixa:

— Não se mova.

As sobrancelhas de Lu Tong se contraíram levemente.

Havia um velho conto: Um certo estudioso, em sua juventude, costumava visitar a casa de uma dama vizinha para beber. Numa noite, embriagado, deitou-se ao lado dela, ouvindo o tilintar de seus grampos caindo — mas permaneceu intocado pela tentação. Por isso, era considerado um verdadeiro cavalheiro.

Agora, parecia que Pei Yunying não era diferente daquele suposto cavalheiro da história.

Lá fora, as batidas na porta se tornavam cada vez mais urgentes. Lu Tong imediatamente compreendeu sua intenção. Após um breve momento de reflexão, estendeu as mãos, envolveu a cintura dele e pressionou-se ainda mais junto ao seu lado.

O corpo de Pei Yunying se enrijeceu. Olhou para Lu Tong, surpreso.

Ela encontrou seu olhar com perfeita compostura.

Se fossem encenar um ato para enganar quem estivesse lá fora, tinha que ser convincente. Sua postura distante e inacessível — algo que até Yin Zheng duvidaria — dificilmente enganaria alguém.

Lu Tong não via problema nisso. Passara muitos anos no Pico Luomei [Pico da Ameixa Caída]. As formalidades entre homens e mulheres, os conceitos de modéstia e restrição, eram distantes e irrelevantes para ela.

Naquele momento, ela simplesmente se agarrou ao homem à sua frente, abraçando-o, aninhando-se nele, como tantos amantes nos bairros de prazer de uma grande cidade.

Levemente, uma canção subiu do andar de baixo.

"Enquanto os céus estão claros, entre montanhas límpidas e águas brilhantes, sob a lua sobre Xihu [Lago Oeste], lanternas iluminam suavemente...

Com chá perfumado em mãos, dois corações se entrelaçam, águas enevoadas velam as flores caídas...

Melhor invejar o amor dos patos mandarins do que ansiar por donzelas celestiais..."

Lá embaixo, as apresentações eram animadas. Fora da janela, vento e chuva rugiam. Entre o brilho vacilante de velas em forma de fênix, seu xale de seda e as lapelas da túnica dele se entrelaçavam de forma ambígua, projetando silhuetas desfocadas sobre o dossel de gaze vermelha.

O espaço entre eles havia diminuído. Não fosse pelo véu, seus lábios estariam quase se tocando.

Então, de repente, as batidas cessaram.

Um baque surdo se seguiu — alguém havia forçado a entrada.

Passos caóticos passaram pelo biombo, e uma voz áspera e impositiva gritou:

— Saiam!

Lu Tong se voltou para Pei Yunying.

Sua expressão permaneceu inalterada enquanto levantava preguiçosamente um canto do dossel de gaze e disse arrastado:

— Quem é?

Uma voz hesitante respondeu, incerta:

— Pei Dian Shuai [Comandante Pei]?

Pei Yunying riu. Com uma mão, puxou Lu Tong para seus braços e, com a outra, arrastou o edredom de brocado sobre ela, envolvendo-a firmemente. Lu Tong instintivamente segurou sua cintura, repousando a cabeça em seu peito, parecendo exatamente como uma assustada dançarina tremendo em seu abraço.

O dossel de gaze foi completamente levantado. Em seu campo de visão, um canto da túnica de brocado de sândalo apareceu.

Seja por intenção deliberada de Pei Yunying ou não, Lu Tong estava pressionada contra seu peito, conseguindo captar o leve aroma de lanxiang [musk de orquídea] de suas roupas, mas incapaz de levantar a cabeça para ver o rosto do intruso.

Então, ouviu a voz descontraída de Pei Yunying:

— Qi Gongzi [Jovem Mestre Qi].

Qi?

Lu Tong percebeu imediatamente — era Qi Yutai!

Ela queria levantar a cabeça, ver o homem responsável pela morte de Lu Rou.

Viera de Changwu County, planejando cada passo meticulosamente, apenas para se aproximar desse indivíduo. Comparado a Ke Chengxing e Fan Zhenglian, Qi Yutai era o alvo mais esquivo. Por muito tempo, ela lutara para reunir até a menor informação sobre ele.

No entanto, com seu corpo firmemente contido por Pei Yunying, Lu Tong tentou se soltar duas vezes, sem sucesso. Temendo levantar suspeitas, não ousou insistir e teve que ouvir enquanto os dois homens conversavam.

O homem falou surpreso:

— Não esperava que Pei Dian Shuai [Comandante Pei] estivesse aqui hoje...

Pei Yunying respondeu educadamente:

— Estou de folga hoje. Qi Gongzi [Jovem Mestre Qi], o que o traz aqui?

— Meus guardas descobriram alguém suspeito rondando este andar. Pei Dian Shuai, não percebeu?

Lu Tong manteve a cabeça baixa, incapaz de ver a expressão de Qi Yutai, mas em suas palavras — ainda corteses — havia um inconfundível tom de desconfiança.

Pei Yunying não mentia. Havia, de fato, guardas sombra da família Qi neste andar.

Ela sentiu o abraço dele apertar ligeiramente, e sobre sua cabeça ouviu a voz brincalhona do jovem:

— Não, estava ocupado demais para perceber qualquer coisa.

Seguiu-se um momento de silêncio, e Lu Tong sentiu um olhar examinador sobre si.

Ela podia imaginar facilmente como devia parecer agora — roupas desalinhadas, delicado rubor no rosto, pressionada tão intimamente contra Pei Yunying. Todo o aposento exalava uma atmosfera de paixão ilícita. Qualquer um que os visse presumiria que estavam envolvidos em um momento de indulgência.

Qi Yutai hesitou brevemente. Quando falou novamente, o tom carregava um ar de compreensão:

— Entendo...

Pei Yunying sorriu:

— Ainda não cumprimentei Qi Gongzi pelo seu aniversário.

Ao ouvir isso, a postura de Qi Yutai pareceu relaxar ligeiramente, não mais tão desconfiado quanto antes. De fato, até estendeu um convite:

— Foi rude da minha parte interromper o prazer de Dian Shuai. Hoje é meu aniversário — Dian Shuai gostaria de se juntar a nós por um momento?

O coração de Lu Tong afundou. Suas pontas dos dedos cavavam ameaçadoramente na cintura de Pei Yunying.

Ele se enrijeceu brevemente antes de rir e recusar:

— Não precisa. Uma noite passageira — não vou atrapalhar suas festividades.

A situação já havia chegado a um ponto em que permanecer mais tempo seria realmente indelicado. Qi Yutai não insistiu, instruindo seus homens a se retirarem. Antes de sair, lembrou Pei Yunying que o dia havia sido corrido e sugeriu um novo encontro em outra ocasião.

Assim que o grupo se afastou e o corredor ficou silencioso, Pei Yunying baixou o olhar e disse com firmeza:

— Lu Dafu [Doutora Lu], pode me soltar agora. Eles se foram.

Lu Tong imediatamente se afastou e se levantou da cama em um movimento ágil.

Pei Yunying não demonstrou reação à sua soltura abrupta. Apenas baixou a cabeça e ajustou o cinto de couro na cintura.

Lu Tong olhou para ele, fingindo ignorância. — Quem era aquele agora há pouco?

— O filho do atual Grande Tutor, Qi Yutai. — Ele respondeu diretamente.

Lu Tong insistiu: — Ele estava tentando te conquistar?

Pei Yunying desviara as suspeitas de Qi Yutai com apenas algumas palavras. Lu Tong duvidava que fosse puramente por precaução. O convite para um encontro futuro sugeria que Qi Yutai estava deliberadamente tentando recrutá-lo.

Se Qi Yutai conseguisse atrair Pei Yunying para o seu lado, então Pei Yunying também se tornaria seu inimigo.

— Não tenho intenção de concordar. — Ele respondeu indiferente.

Ao se virar, viu Lu Tong caminhar até a janela e empurrá-la suavemente para abri-la. Uma rajada de vento frio e chuva entrou imediatamente.

— Quando posso sair? — ela perguntou.

Os homens de Qi Yutai ainda estavam neste andar. Embora Pei Yunying tivesse contornado a situação, Lu Tong não tinha certeza se a outra parte havia baixado totalmente a guarda. Se estivessem à espreita do lado de fora, sair agora seria como entrar em uma armadilha.

— Não agora. Você e eu ainda estamos no meio de “uma noite de prazer” — se vamos encenar, devemos levar até o fim. Espere um pouco mais. Mandarei alguém escoltá-la depois.

Falou casualmente, muito mais à vontade do que quando estavam na cama mais cedo.

Lu Tong franziu a testa. — Todos vocês, wangsun gongzi [filhos de famílias nobres], sempre viajam com tantos guardas de sombra?

— Depende. — Pei Yunying sentou-se à mesa. — Ele sim. Eu, não.

Lu Tong nada disse.

Algo passou por sua mente — tão rápido que mal conseguiu compreender —, mas o instinto lhe dizia que algo estava errado.

Vendo que ela permanecia em pé, Pei Yunying pegou uma taça de jade da bandeja de chá. — Ainda é cedo. Quer um pouco de chá?

— Chá? — Lu Tong ficou momentaneamente surpresa. — Não vinho?

— Beber vinho causa problemas. — Ele disse com naturalidade. — Mandem trocar por chá.

Por um breve momento, Lu Tong ficou sem palavras.

Não era de se admirar que ela não tivesse sentido cheiro de álcool quando as bebidas foram servidas — pensara que o incenso da sala estava simplesmente muito forte. Então não era vinho. Sorte que não teve a ideia tola de embebedar Pei Yunying. Caso contrário, aos olhos dele, ela não passaria de um macaco fazendo truques na praça.

Como não podia sair agora, Lu Tong simplesmente caminhou até ele e sentou-se à sua frente.

— Você quase me colocou em apuros. — Pei Yunying entregou-lhe uma xícara de chá. — Lu Dafu [Doutora Lu], você me deve um favor por hoje.

Ele realmente sabia se fazer de vítima primeiro.

Lu Tong rebateu: — Se você não me tivesse segurado, eu nem teria ficado presa aqui em primeiro lugar.

Mais que isso — ela já teria encontrado Qi Yutai e cumprido sua missão, em vez de ver a oportunidade escapar diante de seus olhos.

Pei Yunying não insistiu no assunto, como se já entendesse tudo, e sorriu:

— Uma noite em um quarto superior custa cem taéis de prata. Considere-se sortuda — Lu Dafu, aproveite para descansar um pouco.

O som da chuva misturava-se com o canto lá embaixo. Um braseiro aquecia a sala, e nenhum dos dois falou, ouvindo silenciosamente a chuva batendo na janela.

Não se sabia quanto tempo passou quando a chuva começou a amolecer.

Alguém bateu na porta.

— Entrem. — disse Pei Yunying.

Um homem vestido como guarda entrou. Lu Tong o reconheceu — era Qing Feng, guarda pessoal de Pei Yunying, aquele que a ajudara a levar Wang Shan à estação de patrulha militar.

Qing Feng não demonstrou surpresa ao vê-la, como se já soubesse de tudo. Simplesmente falou com Pei Yunying: — Daren [Senhor], Qi Yutai se recolheu para a noite.

Pei Yunying acenou com a cabeça. — Chame Hong Man.

Lu Tong se enrijeceu. Hong Man?

Ela já tinha ouvido falar de Hong Man — a cortesã mais famosa do Yuxian Lou [Pavilhão dos Imortais]. Seria ela… mulher de Pei Yunying?

— Pei Daren [Senhor Pei], minha criada, Yinzhen, ainda está no prédio. — disse Lu Tong.

Pei Yunying olhou para ela e suspirou: — Lu Dafu, você é realmente ousada.

Ele se virou para Qing Feng. — Procure por ela. Cuidado para não alertar ninguém.

Qing Feng assentiu e saiu.

Não demorou para que outro toque soasse na porta, e uma mulher vestida de vermelho entrou, com voz suave e flertante:

— Pei Daren —

Era uma mulher excepcionalmente bonita. Apesar do tom provocador, sua postura tinha um toque de deferência. Assim que entrou, mudou a forma de se dirigir a ele, falando suavemente:

— Shizi [Herdeiro Aparente]…

Pei Yunying disse: — Leve-a para fora.

— Sim. — A mulher não fez perguntas nem parecia curiosa. Caminhou até Lu Tong, sorrindo levemente. — Venha, Guniang [Senhorita].

Lu Tong se levantou.

O vento frio da noite entrou ao abrir a porta, contrastando fortemente com o calor do interior. Lu Tong não pôde evitar um arrepio.

O tecido delicado e transparente que cobria seu corpo esguio apenas a deixava ainda mais frágil — como uma lanterna encharcada pela chuva, prestes a se apagar sob o aguaceiro da noite.

Pei Yunying lançou-lhe um olhar, hesitou por um momento e então se levantou, pegando uma capa de brocado preto com bordados dourados em uma cadeira próxima.

Mas quando se virou, Lu Tong já havia seguido Hong Man para fora, sem hesitar — sem ao menos uma palavra de agradecimento.

Abaixando o olhar, ele contemplou a capa em suas mãos, balançou a cabeça com um riso contido e a jogou de lado casualmente. Caminhou até a janela e a abriu ligeiramente.

O vento frio, misturado à fina garoa, bateu em seu rosto, aguçando seus sentidos.

Qing Feng entrou de fora, fechou a porta atrás de si e falou em voz baixa: — Daren, encontramos a Guniang Yinzhen. Mais tarde, a Xiaojie Hong Man [Senhorita Hong Man] a escoltará junto com a Guniang Lu de volta à clínica médica.

Pei Yunying assentiu.

A sala caiu em silêncio mais uma vez.

De pé junto à janela, seu olhar pousou sobre um tapete coral não muito distante. Um incensário tombado derramara cinzas sobre o bordado intrincado, borrando-o em uma mancha escura e caótica.

Os olhos de Pei Yunying pausaram ali por um instante.

Então, de repente, ele disse: — Verifique quais convidados ilustres estavam hospedados no terceiro andar do Yuxian Lou esta noite.

Qing Feng ficou surpreso. — Daren, o senhor suspeita…

Pei Yunying abaixou os olhos, a voz leve.

— Ela nunca desperdiça seus esforços.


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