36. Aceitação do Castigo (2)— Ele está bem? Como assim? — Os seis escravos custavam a acreditar.
Yu Su lançou-lhes um olhar frio, os olhos penetrantes e cheios de desdém.
— Yu Meng, traga um deles aqui para ver com os próprios olhos — ordenou ele.
Yu Meng obedeceu de imediato e arrastou à força o líder dos escravos para dentro da moradia. Posicionou o homem diante da pilha de capim, onde o adolescente repousava tranquilamente, adormecido.
— Olhe bem para ele. Ainda pretende continuar com esse alvoroço? — zombou Yu Meng.
O escravo capturado viu o garoto deitado pacificamente sobre a pilha de capim. As feridas nas pernas haviam sido tratadas, e até mesmo sua expressão parecia muito melhor. Foi nesse instante que percebeu que ele e seus companheiros haviam interpretado tudo errado.
— Yu Su tem se desdobrado para salvar esse garoto, e tudo o que vocês fizeram foi causar tumulto. Se estão procurando confusão e morte, vieram ao lugar certo — disse Yu Meng em tom incisivo, pressionando a cabeça do homem e forçando-o a curvar a cintura para demonstrar superioridade.
Agachando-se, Yu Meng encarou o cativo nos olhos e advertiu em voz baixa e ameaçadora:
— Yu Su pode até ser bondoso, mas eu não sou alguém com quem se deva brincar. Se ousar causar problemas de novo, vou garantir que sua morte seja miserável.
Yu Meng já não exibia mais o semblante alegre e ensolarado de quando estava com Yu Su — em vez disso, seus olhos agora estavam repletos de uma frieza cortante.
O escravo sob seu olhar gélido sentiu um calafrio percorrer a espinha. Somado ao mal-entendido, ele não ousou resistir e logo se desculpou:
— Desculpe... eu entendi tudo errado.
Yu Meng soltou um resmungo de desprezo:
— Se houver uma próxima vez, você já sabe o que vai acontecer.
Pouco depois, Yu Meng levou o cativo para fora.
— Yu Su, já o trouxe — informou ele ao rapaz.
Lu Yan, que coincidentemente estava parado na entrada da moradia, virou a cabeça e lançou um olhar a Yu Meng. Ele havia ouvido o aviso que Yu Meng dera ao escravo, e não achou que houvesse nada de errado. Aqueles escravos precisavam mesmo de um alerta. Se não obedecessem, poderiam ser substituídos por outros mais submissos.
Um lampejo de frieza passou pelos olhos de Lu Yan.
O escravo que havia entrado e visto o garoto assentiu para os companheiros da vila, informando que o menino realmente havia sido tratado e agora estava se recuperando.
Após a surpresa inicial, os cinco escravos que haviam sido imobilizados no chão demonstraram expressões de constrangimento e desconforto.
O escravo que testemunhara o estado do garoto aproximou-se subitamente de Yu Su, ajoelhou-se e curvou a cabeça em súplica:
— Mestre, estávamos errados. Por favor, nos castigue como achar melhor.
Os outros cinco escravos se espantaram. Por terem sido tratados como escravos por tanto tempo, era a primeira vez que viam um companheiro chamar alguém de “mestre”. Foi aí que perceberam: as coisas estavam prestes a mudar.
Yu Feng fez um gesto para os membros da equipe de caçadores que seguravam os escravos, e todos soltaram seus braços ao mesmo tempo.
Os cinco se levantaram e seguiram o líder, ajoelhando-se atrás dele com as cabeças baixas.
A expressão de Yu Su permaneceu inalterada.
— Já que reconheceram o erro, não os mandarei de volta desta vez. Mas cada um receberá vinte chibatadas, sem exceções.
— Eu mesmo faço — prontificou-se Yu Meng com entusiasmo.
O escravo que já havia experimentado a força dele empalideceu, mas, reconhecendo a culpa desta vez, apertou os dentes e permaneceu em silêncio.
Daqui em diante, eles seriam escravos da Vila Yu, e pensamentos de rebeldia não seriam mais tolerados.
Quer fosse pelo jovem mestre, quer fosse por eles mesmos, aquele castigo precisava ser aceito.
37. Jornada ao Vale da Chama Negra (1)
Com a força de Yu Meng, vinte chibatadas seriam o suficiente para aleijar aqueles seis escravos.
Yu Su, no entanto, o instruiu especificamente a conter-se e evitar causar danos permanentes.
Yu Meng bateu no próprio peito com confiança e assegurou:
— Não se preocupe, Yu Su. Eu sei o que estou fazendo.
Afinal, aqueles escravos haviam sido adquiridos por Yu Su com um propósito: trabalho futuro nos campos de sal. Como ele poderia inutilizá-los?
Ao ver que Yu Meng compreendia a gravidade da situação, Yu Su deixou o assunto de lado e entrou na moradia para verificar o estado do adolescente.
O jovem ainda permanecia inconsciente, mas sua temperatura corporal havia estabilizado.
Lu Yan, observando a preocupação de Yu Su com o menino, perguntou:
— Por quê? Salvá-lo?
Aos olhos dele, o garoto já estava praticamente morto, fraco e debilitado. Salvá-lo não apenas consumia a energia e os preciosos remédios de Yu Su, como também parecia, no fim das contas, um esforço em vão.
Yu Su explicou de forma simples:
— Esse garoto é o líder do grupo de escravos. Ao salvá-lo, conquistamos vantagem sobre os demais.
Lu Yan retrucou:
— Sem salvá-lo. Mesmo assim. Sobre eles.
Embora ainda não conseguisse articular frases longas, seu tom de voz havia melhorado bastante, e não demoraria até conseguir se comunicar fluentemente.
Seus pensamentos eram diretos. Escravos desobedientes podiam ser disciplinados até se renderem. Portanto, desde que Yu Su os entregasse a ele, Lu Yan tinha plena confiança de que conseguiria controlá-los.
Yu Su o encarou, um leve sorriso surgindo no canto dos lábios.
— Eu também te salvei, não foi?
Lu Yan respondeu de imediato:
— Diferente.
Yu Su ergueu uma sobrancelha, surpreso com a segurança de Lu Yan naquela afirmação. Teve de admitir que o havia subestimado. No início, o salvara apenas por causa do medalhão de ferro. Porém, mais tarde, percebeu a excepcional capacidade de compreensão do rapaz, o que o levou a mantê-lo por perto.
Então, ouviu Lu Yan continuar:
— Sou útil.
Yu Su permaneceu em silêncio.
Acabei de perceber que subestimei a astúcia de Lu Yan...
— Você não acha que estou sendo calculista demais? — perguntou Yu Su, por fim.
Lu Yan não conhecia o conceito de utilitarismo, então Yu Su se encarregou de explicá-lo.
Apesar da percepção afiada, Lu Yan manteve a expressão impassível e devolveu a pergunta:
— Eu era inútil. E você me salvou. Por quê?
Yu Su hesitou por um instante antes de responder.
Era evidente que Lu Yan possuía uma mente forte e um coração atento. Yu Su se viu sem resposta.
Lu Yan não perdeu o ritmo e continuou:
— Sou inútil. Então não devia... me resgatar.
Compreendendo o significado implícito por trás das palavras, Yu Su o tranquilizou:
— Isso não é verdade. Agora você está sob minha proteção. Enquanto permanecer leal a mim, não importa o perigo que enfrente, estarei lá para te salvar.
Ele havia prometido tratar bem Lu Yan desde que o rapaz permanecesse fiel — uma promessa que pretendia cumprir.
Um brilho de esperança surgiu nos olhos de Lu Yan enquanto ele fitava Yu Su.
Yu Su então redirecionou a conversa:
— Mas não vamos nos desviar do assunto. Você queria saber por que eu não usei a força para subjugar aqueles escravos, certo? Bem, usar a força para oprimir os outros deve ser sempre o último recurso. Conquistar os corações deles e fazê-los trabalhar de forma genuína por nós é a melhor abordagem.
A curiosidade se fez presente na voz de Lu Yan:
— Não sei se entendi...
Já que haviam avançado tanto no diálogo, Yu Su achou que não havia mal em explicar a diferença com mais detalhes.
Enquanto Lu Yan ouvia, parecia absorver o conteúdo, refletindo profundamente sobre a nova perspectiva.
Yu Su decidiu não se aprofundar mais. Acreditava na capacidade de percepção de Lu Yan e sabia que qualquer dúvida restante seria resolvida com o tempo e reflexão do próprio rapaz.
Na manhã seguinte, o jovem que havia sido resgatado despertou e se deparou com um ambiente totalmente desconhecido.
Depois de assimilar o que havia acontecido, permaneceu em silêncio por um tempo, perdido em pensamentos.
No entanto, não demorou a expressar sua gratidão a Yu Su:
— Obrigado por me salvar.
Ele sabia que no dia anterior estivera à beira da morte, e ninguém se daria tanto trabalho para salvar um escravo moribundo. No entanto, Yu Su havia ido contra todas as expectativas, e até mesmo um tolo saberia reconhecer a dívida de gratidão.
Além disso, rumores diziam que Yu Su era o sucessor do Deus das Montanhas, e o rapaz acreditava em cada palavra. Os métodos usados para trazê-lo de volta à vida pareciam obra de uma divindade. Por isso, sempre que olhava para Yu Su, um sentimento de reverência o envolvia de forma natural.
— Você era originalmente da Vila do Linho — comentou Yu Su.
O rapaz assentiu e se apresentou:
— Eu sou Xin Ya. Meu pai era o chefe da Vila do Linho, e os outros seis que estavam comigo eram guardas da vila.
Xin Ya explicou que os habitantes da Vila do Linho viviam principalmente da agricultura e da caça. Cultivavam milho e produziam roupas a partir do linho. Levavam uma vida confortável e a população prosperava. Contudo, tudo mudou há cerca de meio ano.
Durante uma visita à vila de Xin Ya, o antigo Chefe e o Xamã da Vila do Sal morreram misteriosamente. Os moradores da Vila do Sal acusaram o povo de Xin Ya pelas mortes. Apesar das explicações, os habitantes da Vila do Sal não se convenceram, e seu novo líder lançou um ataque à Vila do Linho.
Com força superior, a Vila do Sal dizimou a comunidade de Xin Ya.
Numerosos moradores, incluindo o pai de Xin Ya e o xamã da vila, perderam a vida. Aqueles que sobreviveram ou fugiram para o meio do mato... ou foram capturados pela Vila do Sal e transformados em escravos.
38. Jornada ao Vale da Chama Negra (2)
Sob a proteção do capitão da guarda, Xin Dong, eles conseguiram suportar a dureza da escravidão. No entanto, devido ao comportamento rebelde, eram constantemente revendidos a diferentes donos — até que Yu Su interveio e os resgatou.
— Machuquei o pé alguns dias atrás na Vila de Ferro. Quando estávamos sendo transportados de volta, achei que aquele seria meu fim — contou Xin Ya. Afinal, mercadores de escravos não se davam ao trabalho de salvar um escravo moribundo.
Um profundo sentimento de gratidão tomou conta de Xin Ya por Yu Su.
Curioso, Yu Su perguntou:
— Você mencionou que o antigo Chefe e o Xamã da Vila do Sal morreram inesperadamente na sua vila. Sabe o que aconteceu?
A expressão de Xin Ya mudou, e seu tom tornou-se ríspido ao responder:
— Eles procuraram refúgio em nossa vila e morreram à noite dentro da casa em que estavam. Não fazemos ideia de como isso aconteceu. Meu pai acreditava que foram mortos pelos próprios aliados.
*Mortos pelos próprios companheiros?*
Yu Su arqueou uma sobrancelha, incitando Xin Ya a continuar:
— Seu pai encontrou alguma pista?
Xin Ya respondeu:
— Meu pai suspeitava de envenenamento.
— Que tipo de veneno? — Yu Su continuou a inquirição.
— Nunca tivemos chance de investigar. Os moradores da Vila do Sal levaram os corpos embora rapidamente. Na verdade, mesmo passando a noite em nossa vila, os guardas deles protegeram a residência com rigor, não permitindo que ninguém se aproximasse. Mas posso garantir: a comida que meu pai preparou não estava envenenada!
Embora as palavras de Xin Ya não pudessem ser tomadas como verdade absoluta, pareciam ter ao menos 80% de credibilidade. Ao menos, era pouco provável que o Chefe da Vila do Linho fosse tolo o suficiente para envenenar os líderes da Vila do Sal dentro de seu próprio território.
Considerando que o antigo Chefe e o Xamã da Vila do Sal buscaram abrigo na Vila do Linho, era evidente que o conflito entre as duas vilas não era algo trivial. Do contrário, jamais teriam ido até lá.
Mas...
— Por que escolheram sua vila para se hospedar? — perguntou Yu Su.
— Eles vinham da Cidade Fengcheng e passaram por nossa vila por acaso — respondeu Xin Ya.
*Cidade Fengcheng?*
Era a primeira vez que Yu Su ouvia falar nesse nome. Sentiu que Fengcheng devia ser um lugar importante, então perguntou imediatamente:
— Onde fica a Cidade Fengcheng?
Xin Ya se surpreendeu com a pergunta.
— Você não conhece a cidade? É Fengcheng, lar do Templo dos Xamãs, onde vivem muitas figuras importantes. Meu pai dizia que apenas nobres podem morar lá. É considerada a terra sagrada do Deus Xamã.
— Mas a raça dos Xamãs já foi exterminada nesta era, restando apenas algumas linhagens com traços do sangue xamã. O Deus Xamã já desapareceu há muito tempo — comentou subitamente o Gênio da Enciclopédia.
— Nesse caso, há algum registro histórico sobre a Cidade Fengcheng? — perguntou Yu Su.
— Não. Nenhuma das grandes potências desse período foi chamada de Cidade Fengcheng — respondeu o Gênio da Enciclopédia.
Como Xin Ya nunca havia estado em Fengcheng, não conseguiu fornecer mais detalhes. Segundo ele, a cidade ficava muito distante do local onde estavam — uma jornada de pelo menos meio ano.
Por ora, Yu Su teve de deixar o assunto de lado. Mesmo que quisesse, aquele não era o momento certo para visitar Fengcheng.
Além disso, havia assuntos mais urgentes a tratar.
Com a situação atual quase resolvida, Yu Su informou a Yu Feng e aos amigos sobre sua decisão de ir até o Vale da Chama Negra.
— Você quer ir ao Vale da Chama Negra?! — exclamou Yu Feng.
— Yu Su, é lá que vive o Deus das Montanhas da Vila do Sal. Estranhos não são permitidos naquele lugar — alertou Yu Feng.
Ele e os demais mostraram grande preocupação com a decisão arriscada de Yu Su.
Yu Su então explicou:
— O tratamento para a doença do meu pai exige um remédio específico. Preciso ir ao Vale da Chama Negra para encontrá-lo.
Ao ouvirem que a jornada estava relacionada à doença de Jian Yunchuan, Yu Feng e os outros se abstiveram de insistir. No entanto, todos expressaram desejo de acompanhá-lo.
Mas Yu Su recusou:
— O pessoal da Vila do Linho acabou de chegar e, embora estejam comportados agora, ainda preciso que vocês os vigiem. Além disso, se eu não voltar em alguns dias, vocês devem conduzir nossos moradores de volta à vila sob a liderança do Chefe Hong.
— E você? — perguntou Yu Feng.
— Eu alcançarei vocês — garantiu Yu Su.
— Vou com você — insistiu Lu Yan.
Apesar de Yu Su querer fazer a viagem sozinho, Yu Meng e os outros insistiram que ele levasse pelo menos uma pessoa, fosse Lu Yan ou outro deles. Caso contrário, não ficariam tranquilos.
Diante da firmeza de Lu Yan, Yu Su percebeu que não conseguiria fazê-lo mudar de ideia.
“...”
Yu Su resolveu ceder. Afinal, já estava acostumado a ter Lu Yan ao seu lado.
Se Lu Yan deixasse de acompanhá-lo por um dia, acharia até estranho.
*
O Vale da Chama Negra ficava ao norte da Vila do Sal, e era possível alcançá-lo a pé em apenas um dia.
Yu Su e Lu Yan eram cultivadores experientes que dominavam técnicas de cultivo de essência, então avançavam com rapidez. Ao meio-dia, já estavam próximos do vale.
À medida que se aproximavam, notaram que o solo e as pedras da região eram negros, embora a vegetação fosse exuberante. Mesmo antes de alcançar a entrada do vale, o ar já trazia um forte cheiro de enxofre.
Lu Yan ficou imediatamente em alerta ao sentir o odor. O cheiro, carregado pelo vento, era um aviso claro de que havia perigo à frente.
Yu Su encontrou um ponto elevado e observou o interior. Um amplo vale se estendia diante deles, com uma montanha negra colossal ao centro. Havia uma fenda no topo da montanha, e a área ao redor parecia árida, coberta por magma resfriado e cinzas.
Embora provavelmente houvesse magma fluindo no interior da montanha, era evidente que não havia erupções havia muito tempo. Afinal, tirando aquela montanha, o restante do vale estava repleto de plantas vigorosas. Árvores altas bloqueavam a visão mais profunda do local, tornando impossível ver o que havia dentro.
A Vila do Sal venerava uma serpente negra que vivia no Vale da Chama Negra como sendo o Deus das Montanhas. Sua força devia ser muito superior à do Rei Urso Negro — um oponente ainda mais aterrador.
Por precaução, Yu Su instruiu o Gênio da Enciclopédia:
— Mantenha a função de escaneamento ativa. Se notar qualquer anormalidade, me avise imediatamente.
O Gênio da Enciclopédia respondeu:
— Entendido.
Com o escaneamento ativado, Yu Su voltou-se para Lu Yan e disse:
— Vamos entrar no vale. Fique perto de mim e, se eu precisar correr, você corre comigo sem hesitar.
Lu Yan assentiu.
Juntos, adentraram o Vale da Chama Negra.
39. Testemunhando um Grande Demônio
Yu Su sentia nitidamente a falta de essência no Vale da Chama Negra, o que era bem diferente da Montanha do Deus Cervo.
— Onde há bestas divinas, a essência geralmente é abundante. Mas aqui, é apenas mediana. Ou seja, mesmo que aquela píton negra tenha desenvolvido inteligência, continuará sendo apenas um monstro.
Monstros e bestas divinas eram entidades distintas. As bestas divinas possuíam o termo divino em sua classificação. Além de serem mais sagradas que os monstros, também não consumiam indiscriminadamente carne e sangue. Elas se cultivavam inalando a essência da natureza, comendo ervas espirituais, frutas divinas e outros alimentos nutritivos. Por isso, recebiam mais favorecimento da essência natural. Onde viviam, a concentração de essência aumentava.
Por outro lado, os monstros não apenas inalavam essência, mas também se alimentavam frequentemente de carne e sangue para se desenvolver. Eram selvagens, ferozes, sedentos por sangue. Naturalmente, não eram favorecidos pela essência da natureza.
— Dizem que a Vila do Sal sacrifica humanos vivos para a píton negra. Ela deve ter consumido uma quantidade enorme de carne e sangue.
— Fico imaginando quantas pessoas ela já devorou. Quanto mais consome, mais forte se torna. Precisamos ter cuidado.
— Entendi. Só não estrague tudo.
— Não vou.
Enquanto Yu Su avançava pelo vale, conversava com o Gênio da Enciclopédia.
Lu Yan o seguia de perto, atento ao que havia ao redor.
Depois de atravessarem a parte mais densa do vale por um tempo, Yu Su sentiu o cheiro característico de cobras.
Tanto ele quanto Lu Yan pararam ao mesmo tempo, pois sabiam que estavam próximos do ninho da píton negra.
Yu Su perguntou ao Gênio da Enciclopédia:
— Já encontrou a Erva Sagrada?
A Erva Sagrada era o último ingrediente necessário na receita do tratamento de Jian Yunchuan. Qingze havia informado a Yu Su que ela poderia ser encontrada no Vale da Chama Negra, então ele confiava plenamente na veracidade dessa informação.
— Ainda não.
Eles já haviam vasculhado toda a área ao redor, mas sem sucesso. Portanto, não tiveram escolha a não ser seguir mais fundo pelo vale.
No entanto, justo quando estavam prestes a avançar, uma comoção eclodiu no centro do vale.
Parecia uma batalha.
Yu Su e Lu Yan trocaram olhares e correram até uma árvore alta próxima. Rapidamente, escalaram até o topo e olharam na direção do centro do vale. Viram várias árvores caindo, levantando uma nuvem de poeira.
Logo depois, dois pássaros dourados alçaram voo. Suas asas tinham mais de dois metros de envergadura, e suas penas resplandecentes brilhavam sob a luz do sol. Ficava claro que aquelas aves não eram comuns.
Elas estavam engajadas em um feroz combate contra uma píton colossal. A serpente se enrolava em torno de uma árvore gigantesca, erguendo a parte superior do corpo e abrindo sua boca imensa para atacar os dois pássaros dourados. Estranhamente, nas costas da píton havia um par de asas de carne, que lhe permitiam voar.
— Serpente Alada! — exclamou o Gênio da Enciclopédia na mente de Yu Su.
Yu Su franziu a testa. Serpente Alada?
Ele se lembrava vagamente de ter lido sobre isso na biblioteca. Segundo a hierarquia dos níveis de monstros, a Serpente Alada pertencia à categoria avançada.
Num instante, Yu Su sentiu vontade de xingar. Quem foi que disse que era apenas uma píton negra? Como uma píton e uma Serpente Alada podem ser consideradas a mesma coisa?
Quase que imediatamente, Yu Su pensou em sair dali o mais rápido possível.
Como um novato que tinha acabado de começar a cultivar essência, ele não era nem digno de ser usado como palito de dente por uma Serpente Alada.
Porém, naquele exato momento, o rumo da batalha mudou.
Os dois pássaros dourados agarraram firmemente as asas de carne nas costas da Serpente Alada e bicaram sua cabeça sem parar, perfurando suas costas. A Serpente Alada ficou completamente furiosa, e sua aura aterrorizante envolveu Yu Su e Lu Yan no topo da árvore, impedindo qualquer movimento.
O suor frio escorria pelas costas de Yu Su enquanto ele cerrava os dentes, sem ousar soltar sequer um suspiro.
O instinto bestial de Lu Yan também o alertou de que, naquele momento, eles absolutamente não podiam emitir nenhum som. Por isso, ele permaneceu completamente imóvel.
— Parece que esses dois pássaros dourados são Pássaros de Fogo! — comentou o Gênio da Enciclopédia dentro da mente de Yu Su.
— Pássaros de Fogo? Eles não são reverenciados como aves sagradas? — Yu Su se lembrou de ter lido sobre eles na biblioteca. Dizia-se que eram aves divinas que surgiram durante a era primordial, mas que desapareceram à medida que essa era chegava ao fim.
— Sim, e os Pássaros de Fogo possuem um traço da linhagem do Corvo Dourado. A linhagem deles é bastante nobre.
— Então por que estão lutando contra a Serpente Alada?
— Não sei, mas nenhum dos dois lados é fácil de provocar.
Yu Su não pôde evitar de praguejar em silêncio. Como se eu já não soubesse disso. Em sua mente, ele já havia começado a xingar: Tem alguma maneira de escaparmos sem chamar a atenção deles?
— Provavelmente será difícil. Ambos são monstros formidáveis.
...
Enquanto Yu Su e o Gênio da Enciclopédia conversavam, a Serpente Alada, enfurecida, lançou os dois Pássaros de Fogo para longe e cravou as presas no pescoço de um deles, fazendo o sangue jorrar.
Yu Su praguejou em silêncio, percebendo a gravidade da situação. O Pássaro de Fogo, sendo uma criatura divina, talvez não representasse uma ameaça imediata se os encontrasse. Mas a Serpente Alada era um monstro temível. Se ela fosse a sobrevivente, tanto Yu Su quanto Lu Yan teriam pouquíssima chance de escapar do traiçoeiro Vale da Chama Negra.
Nesse momento de tensão, o outro Pássaro de Fogo soltou um grito estridente, voando direto contra a Serpente Alada e atacando seus olhos com fúria — chegando a cegar um deles!
A Serpente Alada sacudiu o Pássaro de Fogo cujo pescoço havia sido mordido e lançou-se num ataque frenético contra o outro.
Esse segundo Pássaro de Fogo parecia ser macho — um pouco maior e visivelmente mais poderoso do que sua companheira caída. Ao ver a morte da fêmea, ele também se enfureceu, engajando-se numa batalha feroz contra a Serpente Alada.
Era uma luta pela sobrevivência — um confronto que determinaria não apenas o destino de Yu Su e Lu Yan, mas também das criaturas presas naquele combate.
Yu Su hesitou por um momento antes de tomar uma decisão rápida:
— Enny, há alguma forma de ajudarmos o Pássaro de Fogo? Se a Serpente Alada vencer, todos nós estaremos mortos.
— Você carrega a marca de Qingze. Talvez consiga ajudar o Pássaro de Fogo — sugeriu Enny.
— Entendi. Pode calcular a melhor rota pra nós depois?
— Claro.
Enquanto Yu Su se preparava para descer da árvore, Lu Yan agarrou firme seu braço, lançando-lhe um olhar sério:
— Fique onde está.
Yu Su deu um tapinha no braço de Lu Yan.
— Eu preciso ajudar o Pássaro de Fogo. Caso contrário, nossas vidas já eram.
Após observar rapidamente o confronto à frente e lançar um olhar determinado para Yu Su, Lu Yan declarou:
— Vamos juntos.
40. Auxiliando o Pássaro de Chama
Aproveitando a oportunidade enquanto a Serpente Alada estava ocupada com o Pássaro de Chama macho, Yu Su e Lu Yan desceram rapidamente da árvore e correram em direção ao centro do vale.
A batalha se intensificava lá dentro. O Pássaro de Chama segurava firmemente a cabeça da Serpente Alada, bicando implacavelmente, enquanto a Serpente se debatia violentamente, tentando sacudir seu persistente agressor.
Sangue da Serpente Alada chovia do céu, misturando-se a leves traços de sangue dourado no Pássaro de Chama.
Quando Yu Su e Lu Yan chegaram ao coração do conflito, viram que uma das asas do Pássaro de Chama estava quebrada, impossibilitando-o de voar. Mesmo assim, movido por uma determinação inabalável de matar a Serpente Alada, ele se agarrava ferozmente ao inimigo, usando todas as suas forças para pressionar a cabeça da Serpente contra o chão.
A Serpente Alada agitava a cauda furiosamente, contorcendo o corpo numa luta desesperada.
Claramente enfraquecido, o Pássaro de Chama parecia consciente da sua morte iminente. Não demoraria para a Serpente se livrar da supressão.
Assim que a Serpente Alada recuperasse a liberdade, não apenas o Pássaro de Chama, mas também Yu Su e Lu Yan estariam condenados.
— Mestre, a rota está definida! — Yu Su rangeu os dentes e, seguindo a rota calculada em tempo real pelo Gênio da Enciclopédia, avançou para o local onde a cauda da Serpente Alada atacava.
Lu Yan ficou surpreso, mas confiando instintivamente em Yu Su, o seguiu.
Quanto mais se aproximavam, mais claro ficava para Yu Su o quão graves eram os ferimentos no corpo do Pássaro de Chama macho.
Havia até uma ferida fatal, ainda sangrando profusamente. Yu Su sabia que o Pássaro de Chama não aguentaria muito mais.
Com um rugido, a Serpente Alada finalmente se libertou da supressão do Pássaro de Chama e se voltou para atacá-lo.
O Pássaro de Chama soltou um grito lamentoso, como se tivesse percebido sua morte próxima. Ele tentou desesperadamente e avançou contra a Serpente, lutando ferozmente com seu último suspiro.
Ao incendiar sua força vital final na batalha, liberou um poder impressionante mais uma vez.
Suas garras agarraram firmemente a cabeça da Serpente Alada.
A Serpente também mordeu a asa relativamente intacta do Pássaro de Chama, seus dentes afiados perfurando a raiz da asa e respingando o chão com sangue dourado tênue.
Embora o Pássaro de Chama segurasse a cabeça da Serpente, agora estava completamente incapaz de voar, mal agarrando a vida enquanto suas pupilas começavam a dilatar.
Vendo isso, Yu Su correu, infundiu essência nas costas da mão e uma luz verde pálida irrompeu de repente.
Naturalmente, a marca protetora de Qingze irradiava uma aura distinta. Essa aura, pertencente à décima colocada no ranking das Cem Grandes Bestas Divinas, chamou a atenção tanto da Serpente Alada quanto do Pássaro de Chama em meio à luta.
Yu Su pousou a mão no corpo do Pássaro de Chama.
Surpreendentemente, o Pássaro de Chama, cuja respiração quase havia desaparecido, sofreu uma súbita onda de força. Erguendo a cabeça, soltou um grito penetrante, tentando desesperadamente se livrar do aperto da Serpente Alada. Suas garras ficaram cobertas por uma armadura dourada afiada, rasgando impiedosamente o pescoço da Serpente, resultando em um spray de sangue que permeou o local.
Parte do sangue respingou no corpo de Yu Su.
Lu Yan correu para protegê-lo, evitando que o sangue atingisse seu rosto.
Rugindo em derrota, a Serpente Alada desabou pesadamente, o olhar cheio de frustração enquanto lançava um último olhar para o Pássaro de Chama e Yu Su.
Sem se deixar abalar, o Pássaro de Chama gritou novamente, avançando contra o abdômen da Serpente Alada. Suas garras afiadas cortaram a barriga da Serpente, extraindo seu Elixir Demoníaco, a essência concentrada de seu poder acumulado nos últimos anos.
Assim que o Elixir Demoníaco foi arrancado, a Serpente Alada perdeu sua última gota de força. Seu olhar desafiador se transformou em tristeza. Ela emitiu um lamento lastimável antes de ficar imóvel no chão, seus olhos se fechando lentamente enquanto a respiração desaparecia.
O Pássaro de Chama testemunhou a cena, ergueu a cabeça e soltou um grito doloroso. Cambaleando com suas asas feridas, aproximou-se do companheiro caído, encostando suavemente a cabeça no corpo imóvel, emitindo trinados baixos e lamentosos.
As marcas em Qingze foram desaparecendo gradualmente, e a armadura dourada que cobria suas garras se dissipou lentamente. Depois de um momento de luto ao lado do parceiro, o pássaro virou a cabeça e olhou para Yu Su, parecendo implorar por algo.
Yu Su hesitou por um instante antes de se aproximar.
Com uma leve batida da cabeça contra a mão de Yu Su, o Pássaro de Chama lhe transmitiu sua vontade.
— "... O ovo... Está confiado a você..."
Os olhos de Yu Su se arregalaram levemente.
Após expressar seu último desejo, o Pássaro de Chama desviou a cabeça e parou de olhar para Yu Su.
Deitou-se ao lado do parceiro, encostando-se a ele, e logo fechou os olhos.
Yu Su soube que ele já havia partido.
Enquanto silenciosamente lamentava, alguém estendeu a mão e segurou seu braço. O contato da pele e o calor da palma da outra pessoa foram como uma onda de essência, puxando Yu Su para longe da cena triste à sua frente.
Os olhos de Lu Yan estavam cheios de preocupação. Yu Su disse:
— Estou bem. Vamos guardar o Elixir Demoníaco da Serpente Alada primeiro.
Yu Su lembrou que havia algo mais importante a fazer e apressou-se para o corpo inerte da serpente, recuperando seu Elixir Demoníaco.
O Elixir Demoníaco era um item valioso. Contudo, tão precioso que nem mesmo Yu Su era forte o bastante para consumir seu poder naquele momento.
— Mestre, posso consumi-lo? — suplicou o Gênio da Enciclopédia.
Yu Su perguntou:
— Você quer comê-lo?
— Se eu consumir, posso destravar funcionalidades adicionais. Por exemplo, expandir o espaço de armazenamento, ativar escaneamento em qualquer hora e lugar, analisar as propriedades específicas de raízes medicinais e...
O Gênio da Enciclopédia falou rapidamente, revelando sua real necessidade pela essência contida no Elixir Demoníaco.
— Você não disse antes que não consegue absorver essência sozinho e só pode fazer isso através de mim? Está tentando me enganar? — Yu Su provocou, brincando.
— Eu juro que não! Essência e Elixir Demoníaco são diferentes. Essência requer cultivo, enquanto o Elixir é um suplemento. Eu posso ingeri-lo diretamente.
Diante da explicação ansiosa, Yu Su relaxou o aperto e disse:
— Pode consumi-lo, mas depois tem que trabalhar mais duro.
— Eu vou me esforçar ao máximo, com certeza!
Após receber a garantia do Gênio da Enciclopédia, Yu Su armazenou o Elixir Demoníaco da serpente em seu espaço de armazenamento.
Lu Yan olhou surpreso enquanto o Elixir desaparecia da palma de Yu Su. Ele imediatamente estendeu a mão e segurou a mão de Yu Su, examinando-a repetidas vezes, como se tentasse descobrir o segredo daquele desaparecimento.
Yu Su ficou sem palavras.
— Não perca tempo procurando. Você não vai descobrir.
Só então Lu Yan desistiu da busca e perguntou:
— Por quê?
— Solte minha mão primeiro.
Lu Yan largou a mão de Yu Su, que a retirou calmamente, dizendo:
— Isso é uma feitiçaria exclusiva do sucessor do Deus das Montanhas. Não posso explicar tudo para você.
Yu Su não queria revelar o segredo de sua habilidade espacial, e Lu Yan nem entenderia mesmo.
Lu Yan não sabia se acreditava ou não, mas sabiamente preferiu não insistir.
Yu Su olhou para ele com aprovação e lembrou:
— Não gosto que outros saibam desse segredo. Você não deve contar para ninguém.
Lu Yan logo assentiu, afirmando:
— Não contarei.
Ao mesmo tempo, um brilho cintilou em seus olhos. A sensação de compartilhar um segredo com Yu Su o encheu de felicidade.
Yu Su percebeu a súbita alegria de Lu Yan, mas não conseguiu entender a razão de sua felicidade.
— Agora pouco, o Pássaro de Chama moribundo mencionou que há um ovo por perto. Vamos procurá-lo.
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