Chu Xiuming já possuía provas suficientes. Embora desejasse eliminar aquelas pessoas, sabia que isso era impossível. Toda a linha de Liang Cheng era composta por confidentes do imperador Cheng, e os superiores dele também estavam entre os mais próximos do soberano. Por isso, Chu Xiuming precisava encontrar uma maneira de atingir o imperador de forma que o fizesse se importar — mas ainda dentro dos limites do aceitável.
Por esse motivo, Chu Xiuming estava constantemente ocupado. Também desejava resolver tudo pela manhã para, à tarde, poder voltar e acompanhar sua esposa. Isso não era algo que Shen Jin tivesse exigido. Na verdade, para ela, era suficiente ter a companhia de Mamãe Zhao e das outras servas durante o dia, e ver Chu Xiuming à noite. Mas para ele, o fato de ter partido logo após descobrir a gravidez de Shen Jin — e só ter retornado quando seu ventre já estava visivelmente grande — fazia com que se sentisse em dívida. Não era exatamente culpa ou remorso, e sim o desejo genuíno de tratá-la melhor.
Comparada à rotina de Chu Xiuming, a vida de Shen Jin era muito mais tranquila. Ao acordar, comia algo, depois se divertia com o Pequeno Pingo, e então esperava o marido voltar para almoçarem juntos. Após a refeição, saíam para caminhar, e em seguida Shen Jin tirava uma soneca enquanto ouvia Chu Xiuming lendo sobre arte da guerra.
Quando Shen Jin adormecia, Chu Xiuming aproveitava para discutir assuntos oficiais com seus subordinados. Calculava o tempo para então voltar e acordar sua esposa, acompanhando-a em outro passeio. Quando Shen Jin se cansava, ele a carregava de volta nos braços.
— Hã? — Shen Jin ficou surpresa. Com Chu Xiuming sempre a mimar e Mamãe Zhao cuidando dela com esmero, sentia que não era mais tão perspicaz quanto fora no Palácio do Príncipe Rui. Por isso, ao ouvir as palavras de Anping, demorou a entender de quem se tratava. — É menino ou menina?
— Respondendo à senhora, é um menino — disse Anping. — A senhora deseja que chamemos a pessoa que trouxe a notícia?
Shen Jin refletiu por um instante, depois assentiu.
— Hum. Os presentes estão prontos? — perguntou, olhando para Mamãe Zhao.
— Estão, sim — respondeu Mamãe Zhao.
— Ah… — Shen Jin ainda sentia que havia algo errado, mas não conseguia identificar o quê. Pegou sua xícara, tomou um gole e disse: — Quando eu terminar de perguntar, deixem quem trouxe os presentes ir embora junto com a pessoa que veio anunciar a notícia.
— Sim, senhora. A velha serva vai verificar tudo novamente — respondeu Mamãe Zhao.
— En — disse Shen Jin, colocando a xícara de volta na mesa.
Anping curvou-se.
— Esta serva irá buscar a pessoa.
Shen Jin tornou a assentir. Quando restaram apenas An Ning e algumas outras jovens servas no aposento, ela franziu o cenho.
— Ainda sinto que tem algo errado…
— O que a senhora acha que está estranho? — perguntou An Ning.
— Não consigo lembrar… — Shen Jin pousou a mão sobre o ventre e sentou-se. — Enfim, deve ser bobagem.
Como Shen Jin parecia já ter superado a inquietação, An Ning não insistiu. Apenas arrumou a manta sobre o colo da patroa e a ajudou a calçar os sapatos. Logo, Anping retornou, trazendo consigo a visitante. Tratava-se de Mamãe Li, aia de confiança da Concubina Xu. Ao vê-la, Shen Jin sorriu e, sem cerimônia, tirou os sapatos.
— Se Anping tivesse me dito que era a Mamãe Li, eu nem teria calçado os sapatos.
— Vendo a princesa com tão boa aparência, a concubina ficou aliviada — disse Mamãe Li com um sorriso.
— Como está minha mãe? — perguntou Shen Jin.
— A concubina tem estado ocupada, mas fora isso está bem — respondeu a serva.
— Ah, é verdade! O filho da senhora Li nasceu, não é? Por isso minha mãe está tão ocupada.
Mamãe Li relatou algumas informações sobre a criança e acrescentou:
— Durante esse tempo, a concubina aproveitou para costurar algumas roupinhas. Disse que pretendia enviá-las para a princesa nos próximos dias. Como hoje houve uma boa notícia, esta velha pediu para vir pessoalmente entregar.
— Mostre logo pra mim! — instou Shen Jin, animada.
Mamãe Li sorriu e Anping chamou uma das criadas que esperava do lado de fora. A menina trazia uma trouxa nas mãos. Anping a recebeu, colocou-a ao lado de Shen Jin e a desfez. Dentro havia pequenas roupas, sapatinhos e um gorro com cabeça de tigre — o tecido era incrivelmente macio. Shen Jin pegou um dos sapatinhos, mediu com as mãos, examinou o gorro e, ao ver as roupas, caiu na risada.
— Tão pequenininhas!
Mamãe Li, vendo a expressão de Shen Jin, sentiu-se satisfeita.
— Por causa do nascimento do menino da senhora Li, não tivemos tempo de lavar tudo ainda.
Shen Jin assentiu.
— Anping, guarde direitinho. Depois fale com Mamãe Zhao.
— Sim — respondeu Anping, começando a organizar os presentes com cuidado.
Shen Jin olhou para a criada que trouxera a trouxa.
— Leve-a para tomar uma sopa quente, e traga uma tigela para a Mamãe Li também. Ah, Mamãe Li, sente-se, por favor… Ultimamente tenho andado esquecida…
Mamãe Li não se incomodava com tais distrações. A própria Concubina Chen costumava comentar que, se outras mulheres ficam “tolas” durante a gravidez, sua filha parecia já ter nascido assim. Felizmente, Chu Xiuming não se importava.
Depois de sentar-se, Mamãe Li ouviu a pergunta repentina de Shen Jin:
— Mamãe Li, você acha que meu irmão era mais bonito quando nasceu, ou eu?
Mamãe Li sorriu:
— Naturalmente que a princesa. Seu rostinho já ficava rosado pouco depois de nascer.
Shen Jin ficou satisfeita. Nesse momento, An Ning trouxe uma caixa de brocado. Shen Jin a apontou.
— Esta é a tranca de ouro¹ que meu marido e eu preparamos para o meu irmão.
— Esta velha serva a entregará pessoalmente à concubina — respondeu Mamãe Li, recebendo a caixa com as duas mãos.
Shen Jin assentiu, mas, de repente, algo lhe ocorreu.
— Espera… Por que estou com a impressão de que o parto da senhora Li ainda não devia ter acontecido? Ela está bem?
Mamãe Li hesitou um instante e então explicou:
— Houve um pequeno incidente, então o parto foi adiantado. O terceiro jovem mestre encontrou por acaso o par de xícaras que Yong Ningbo² havia presenteado o príncipe. Coincidentemente, o príncipe estava em casa, e o terceiro jovem mestre acabou deixando as xícaras caírem e se quebrarem…
— Foi azar dele — disse Shen Jin com convicção. Afinal, não fora ela quem enviara a xícara. Não se sentia incomodada por isso e mudou de posição, acomodando a barriga com cuidado. — Qual foi a expressão do pai dele na hora?
— É uma pena que esta velha não tenha visto — respondeu Mamãe Li. — Mas ouvi dizer que até mesmo a Princesa Rui se alarmou com o ocorrido.
— Mas por que isso acabou envolvendo a família Li de novo? — Shen Jin ficou ainda mais confusa.
Mamãe Li suspirou e disse:
— Não sei o que se passou na cabeça do terceiro jovem mestre, ou o que alguém ao seu lado tenha dito… Acho que ele foi punido por saber que Li carregava um filho seu no ventre. Como já não era o mais novo da casa, e o pai havia deixado de se importar com ele… Quando viu Li, acabou por empurrá-la…
Shen Jin ficou um momento em silêncio, surpresa, antes de exclamar:
— Ah… A senhora Li é mesmo um desastre ambulante.
Mamãe Li assentiu e, após trocar mais algumas palavras, despediu-se. Anping enviou alguém para acompanhá-la. Assim que Mamãe Li saiu, o sorriso desapareceu do rosto de Shen Jin. De repente, ela perguntou:
— Falta muito para o almoço?
— A senhora está com fome? — perguntou An Ning, um tanto preocupada ao notar a expressão dela.
Shen Jin balançou a cabeça, mas nada respondeu. Deitou-se de lado no divã, com uma mão pousada sobre o ventre. An Ning cobriu-a com uma manta e perguntou:
— A senhora está se sentindo mal? Quer que eu chame o médico?
— Não, só quero descansar um pouco — murmurou Shen Jin.
An Ning silenciou, ainda um pouco preocupada. Quando Anping entrou, contou-lhe rapidamente o que ocorrera e foi até a cozinha procurar Mamãe Zhao. Disse-lhe algumas palavras em voz baixa. Mamãe Zhao franziu o cenho.
— Entendi. Você e Yue Wen vão atrás para perguntar se houve mesmo algum problema com a família Li.
— Sim — respondeu An Ning, indo logo buscar Yue Wen. Yue Wen fora trazida por Chu Xiuming e estava com Shen Jin desde que vieram para a capital.
Mamãe Zhao não voltou de imediato, esperando que os bolinhos de feijão jade saíssem do fogo. Só então os colocou na caixa de comida e entrou na casa. Ao entrar, viu Shen Jin deitada no divã com as pernas levemente encolhidas, olhando para os galhos de ameixa na jarra de porcelana próxima, com um olhar vago, como se perdida em pensamentos.
Mamãe Zhao assentiu para Anping, que pegou a caixa de comida, colocou-a de lado e levou os bolinhos para dentro. Quando saiu, Mamãe Zhao falou suavemente:
— Senhora, gostaria de experimentar os docinhos que acabaram de sair do fogo?
Shen Jin franziu os lábios e disse:
— Não quero comer muito…
Mamãe Zhao pediu que Anping trouxesse os doces e os colocou diante de Shen Jin. Ela moveu o nariz, cheirou, e após um instante disse:
— Melhor eu comer um pouco.
Pelo visto, não era nada sério. Mamãe Zhao suspirou aliviada, ajudou Shen Jin a se sentar e cobriu-a com a manta. Depois colocou os bolinhos ao lado e foi torcer uma toalhinha para limpar as mãos da jovem.
Shen Jin pegou um bolinho, amassou-o com os dedos e deu uma mordida, perguntando:
— Mamãe Zhao, você acha que dá muito trabalho ter um bebê?
— Dói um pouco — respondeu Mamãe Zhao —, mas não se preocupe, senhora. O general já preparou tudo e até chamou um médico para ficar de prontidão.
— Ah… — Shen Jin pensou por um instante e assentiu. Após comer dois pedaços, não quis mais.
Mamãe Li e sua comitiva não haviam ido longe, por isso Yue Wen e An Ning conseguiram alcançá-las com facilidade. Mamãe Li suspirou e contou tudo a An Ning:
— A concubina e a princesa não queriam que a jovem senhora soubesse disso, com medo de afetá-la.
— Mamãe Li pode ficar tranquila. É que, vendo a expressão da senhora, percebemos que ela já suspeitava de algo. Por isso viemos perguntar — respondeu An Ning.
Mamãe Li assentiu:
— A princesa… sempre foi sensível. Esta velha acabou se descuidando ao falar demais.
An Ning a consolou:
— Quando Yong Ningbo voltar, contaremos tudo a ele. Se o conde estiver presente, a senhora ficará bem.
Mamãe Li nada respondeu. Como An Ning não tinha mais perguntas, retirou-se.
Yue Wen franziu o cenho e comentou:
— Que confusão é essa…
An Ning não sabia o que dizer. Se fosse possível, nem a Princesa Rui nem a Concubina Chen Fang queriam que Shen Jin soubesse de nada. Mas esconder isso dela talvez fosse ainda pior. Por isso, a mensageira havia falado apenas sobre o nascimento da criança e da Concubina Chen. Mesmo assim, Shen Jin percebera algo.
As duas voltaram com o coração pesado. Yue Wen ficou do lado de fora, enquanto An Ning entrou com expressão neutra. Mamãe Zhao viu An Ning e, disfarçando a preocupação, perguntou:
— Senhora, o que deseja para o almoço?
— Faça macarrão em folhas com caldo azedo — respondeu Shen Jin.
— Está bem — disse Mamãe Zhao, sorrindo. — Esta velha vai preparar.
Shen Jin assentiu e disse:
— Anping, traga alguns paninhos de musselina pra mim.
— Sim, senhora — respondeu Anping.
— Que sejam bem macios — acrescentou Shen Jin.
Anping anotou mentalmente e foi buscar. An Ning pegou a xícara e viu que a água estava fria. Jogou o conteúdo fora e serviu outra, quente.
Quando Mamãe Zhao chegou à porta, viu Yue Wen e assentiu para ela. Yue Wen seguiu Mamãe Zhao até o lado e contou o que Mamãe Li lhe dissera. Mamãe Zhao suspirou:
— Essa situação… Fique de prontidão na porta. Quando o general voltar, conte-lhe tudo. A senhora parece ter adivinhado algo e está abatida.
— Sim — respondeu Yue Wen, indo logo tomar posição.
Mamãe Zhao foi à cozinha, pediu ajuda ao cozinheiro e começou a preparar o macarrão em folhas com caldo azedo que Shen Jin pedira.
O horário de retorno de Chu Xiuming era quase sempre o mesmo. Não demorou para Yue Wen avistá-lo e contar-lhe tudo em voz baixa. Chu Xiuming franziu o cenho, assentiu, mas não disse nada.
Ao entrar, viu Shen Jin meio reclinada sobre as almofadas, com um pedaço de pano na mão, costurando alguma coisa. No momento em que o viu, ela não conseguiu se conter e olhou-o com os olhos vermelhos, cheios de lágrimas, como um animalzinho abandonado. Chu Xiuming sentiu o coração apertar. Aproximou-se, afagou os cabelos dela e disse:
— Vou me trocar. — Viera da rua, o corpo ainda carregava o frio, e não queria se aproximar demais de Shen Jin assim.
Ela largou o que fazia, segurou a mão dele e a apertou levemente. Chu Xiuming sorriu:
— Quer me acompanhar?
— Quero — respondeu Shen Jin, um pouco mais animada. Levantou-se com cuidado e seguiu-o até o quarto interno. — Marido, Mamãe Li veio aqui hoje.
An Ning e An Ping acompanharam Shen Jin até a porta do quarto e pararam ali. Quando ela entrou com Chu Xiuming, fecharam cuidadosamente a porta por fora.
— Deve ter sido coisa da sua mãe. Acho que ela sentiu sua falta — disse Chu Xiuming. Ele sempre era sério diante dos outros, mas nunca com Shen Jin. Para ele, a distinção entre subordinados e mulheres, entre estranhos e íntimos, era clara.
Shen Jin assentiu. Depois que Chu Xiuming trocou de roupa, ela estendeu os braços para ele, que então a pegou no colo e a levou até o divã ao lado. Shen Jin segurou a mão de Chu Xiuming e disse:
— Eu também acho que minha mãe estava com saudade, senão não teria mandado Mamãe Li dessa vez.
Chu Xiuming respondeu:
— Quando o tempo melhorar, eu te levo para visitar sua mãe.
Shen Jin pensou um pouco e balançou a cabeça:
— Agora mamãe está ocupada cuidando do meu irmão mais novo.
Chu Xiuming se recostou nas almofadas macias e deixou Shen Jin se acomodar em seu colo. Agora, ele já nem conseguia mais envolver a cintura dela com os braços. Colocou as mãos sobre a barriga dela, sentindo o calor que dali emanava.
— Para a sua mãe, você é a mais importante — disse ele.
— Eu também acho — Shen Jin sorriu ao ouvir isso. — Mas, pensando que meu irmão é só alguns meses mais velho que o nosso bebê…
De repente, Shen Jin parou de falar. Chu Xiuming percebeu sua hesitação e entendeu o que a preocupava, mas esperou que ela mesma expressasse aquilo, para poder confortá-la da melhor forma.
Ela apertou a mão de Chu Xiuming, os dedos trêmulos:
— Marido... a criança da Senhora Li… ela… se foi?
— Sim — respondeu ele, sem esconder a verdade.
Shen Jin mordeu o lábio inferior e se deitou de lado nos braços dele, encostando o rosto no peito:
— Marido… eu estou com tanto medo…
— Eu quero ter filhos com você, muitos filhos. Que se pareçam com você, comigo, conosco… Quero vê-los crescer ao seu lado, vê-los se casarem e terem seus próprios filhos… Quero envelhecer ao seu lado, até nossos cabelos ficarem brancos — disse ela, chorando baixinho, com a voz fraca, como se tivesse medo de ser ouvida. — Marido… você acha que eu vou…
— Não — interrompeu Chu Xiuming antes que ela terminasse. — Eu não vou deixar nada acontecer com você.
Ela se encolheu em seus braços, tremendo:
— Mas… e se acontecer?
Essa era a razão pela qual Mamãe Zhao e as criadas não queriam que Shen Jin soubesse do que aconteceu com a Senhora Li. Afinal, ambas estavam no mesmo estágio da gravidez, e o ocorrido afetaria inevitavelmente o coração de Shen Jin. Mesmo Shen Qi, ao saber da notícia, ficou inquieta — mas ela não podia compartilhar isso com o marido, pois o herdeiro do Marquês de Yongle não entenderia. No máximo, tentaria consolar com palavras genéricas, achando que Shen Qi estava exagerando.
Mas Chu Xiuming era diferente. Ele conhecia Shen Jin, e para ele, havia apenas uma Shen Jin em toda a vida. Muitos pensavam que Shen Jin tinha tido sorte ao se casar com Chu Xiuming. No entanto, para ele, ter se casado com Shen Jin foi uma salvação. Ela era sua família, sua esposa, a mãe de seus filhos, a mulher com quem dividiria a vida inteira.
Chu Xiuming inclinou-se e a beijou, ajustando a posição dela para que ficasse mais confortável em seu colo, e acariciou suavemente suas costas:
— Isso não vai acontecer. Você confia em mim, não é?
— Mas… — Shen Jin levantou o rosto e o olhou com os olhos marejados. As lágrimas desciam sem parar. — Mas não é você quem vai dar à luz…
Chu Xiuming beijou as lágrimas no canto dos olhos dela:
— Eu estarei com você, então não tenha medo.
Shen Jin tremeu os lábios, fungou, e então reclamou baixinho:
— Não pode…
— Hm? — Chu Xiuming a olhou confuso.
Ela segurou a mão dele:
— Mamãe disse que o marido não pode entrar na sala de parto… dá azar… — reclamou cada vez mais, com o rosto amuado — O filho é dos dois, então por que eu tenho que ficar lá dentro sozinha, e você não pode entrar?
Chu Xiuming achou graça, segurou a mão dela que o importunava:
— Eu vou entrar com você.
O olhar de Shen Jin se iluminou. Ela tentou puxar a mão, mas ao não conseguir, desistiu de brigar:
— Mas e se minha mãe reclamar?
Chu Xiuming beijou seu nariz e respondeu:
— Eu falo com a sua mãe.
Shen Jin se encheu de alegria, mas fingiu seriedade:
— Mas não pode deixar minha mãe brigar comigo!
— Como eu deixaria a sogra fazer isso? — disse Chu Xiuming com ternura. Apesar de a Concubina Chen sempre dizer que Shen Jin era travessa e precisava amadurecer, era evidente que ela a amava profundamente.
De repente, Shen Jin disse:
— Mas mamãe também falou que durante o resguardo não pode tomar banho… — Ela hesitou. — Você não vai me achar nojenta?
Ao ver que Shen Jin queria desviar do assunto triste, Chu Xiuming também deixou isso de lado:
— O que você acha?
— Acho que sim — respondeu ela, tirando a mão da dele para mordê-la. Não doía, só fazia cócegas. — Até eu me acho nojenta…
Chu Xiuming beijou o lóbulo da orelha de Shen Jin e disse:
— Estarei sempre com você.
— Até mesmo quando eu não puder tomar banho? — Shen Jin o olhou com uma expressão de nojo e perguntou, hesitante: — Nem um pouquinho?
Por algum motivo, ela se lembrou da barba no rosto de Chu Xiuming quando o viu pela primeira vez, e então abraçou a barriga e começou a rir novamente.
— Mas ouvi dizer que durante o resguardo tem um monte de coisas que não se pode comer… — Shen Jin fez uma careta ao lembrar disso, esquecendo por completo os medos de antes.
Chu Xiuming beijou os dedos dela e disse:
— Estarei com você. Vou comer o que você comer.
Shen Jin então se deu por satisfeita, mas ainda assim se compadeceu do marido:
— Mas você pode comer escondido depois, tá?
— Não — respondeu Chu Xiuming, firme.
Ele observava o sorriso da sua pequena esposa e acariciava gentilmente suas costas. Quando ela terminou de rir, ele pegou o copo d’água ao lado e levou até os lábios dela. Shen Jin abaixou a cabeça e bebeu devagar, sem pegar o copo com as mãos.
— Pensando bem… todo esse esforço vale a pena só de imaginar nossos filhos — disse ela. — Como você acha que deveríamos chamá-los?
— O que você acha, minha senhora? — perguntou Chu Xiuming.
Shen Jin pensou por um momento:
— Posso dar um apelido primeiro, tudo bem?
— Claro — respondeu ele, sem hesitar. Como poderia dizer não? Ela já estava passando por tanto por causa da gravidez. Se isso a deixava feliz, ele aceitava de bom grado.
Shen Jin segurou a barriga com as duas mãos:
— Estou com fome.
— Então vamos comer — disse Chu Xiuming, levantando-se. Ao vê-la ainda deitada no divã, olhou para ela com carinho. Shen Jin o encarou com expectativa, e ele sorriu, se abaixando para pegá-la no colo. Shen Jin se aconchegou confortavelmente, balançando os pés com alegria.
Mamãe Zhao preparou os macarrões azedos que Shen Jin queria, e fez uma versão com frango para Chu Xiuming. Além disso, serviu vários pratos que Shen Jin gostava. Depois do jantar, Chu Xiuming a acompanhou em uma breve caminhada, e então voltaram para descansar. Naquela noite, ele não saiu quando ela adormeceu — permaneceu ao lado dela.
Dessa vez, não falou sobre táticas militares, mas sim das histórias do clã Chu. Falou dos conflitos e batalhas, desde pequenas disputas até guerras com dezenas de milhares de soldados, e como depois de cada confronto os oficiais recolhiam relatos, registravam experiências e escreviam anotações. Os filhos do clã Chu aprendiam a ler com esses registros.
Enquanto contava, Chu Xiuming comentou que tinha acrescentado suas próprias observações. Percebendo que Shen Jin ouvia com interesse, de repente perguntou:
— O que você acha… por que, na Batalha de Suhara, mesmo com vantagem, Tianqi acabou derrotado? E se fosse você, o que faria?
A Batalha de Suhara foi um conflito entre Tianqi e a dinastia anterior. Na época, os ancestrais do clã Chu participaram, mas como ainda não tinham renome, ocuparam apenas posições inferiores no exército.
Shen Jin ficou surpresa. Chu Xiuming nunca tinha perguntado algo assim antes. Pensou um pouco e respondeu:
— Eu? Recuaria. E depois reuniria as forças novamente.
— Por quê? — perguntou ele.
— Porque não daria pra manter o suprimento de comida e feno — disse ela, enquanto pegava a mão de Chu Xiuming e começava a desenhar nela. — Olha só… a linha de frente fica muito longa. Os soldados não conseguem comer direito e ainda têm que lutar o tempo todo. Cansa.
Chu Xiuming ficou em silêncio por um momento e então perguntou:
— E o que você acha que é o mais importante para vencer uma guerra?
— Que os soldados tenham comida, e que se salvem o maior número possível de vidas. Se o inimigo tiver pouca gente, a gente luta. Mas se forem muitos… — Shen Jin hesitou, achando que falar isso com Chu Xiuming talvez fosse desrespeitoso.
— Hm? — ele a encorajou.
Shen Jin murmurou baixinho:
— Se forem muitos, talvez seja melhor evitar… ou fazer um ataque surpresa?
Chu Xiuming não apenas não ficou irritado, como ainda elogiou:
— Minha pequena senhora é mesmo esperta.
— Claro! — Shen Jin respondeu, esquecendo a vergonha de antes. — Eu sou muito inteligente!
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Notas:
¹ Tranca de ouro: pingente tradicional dado a recém-nascidos na cultura chinesa como símbolo de proteção e prosperidade.
² Yong Ningbo (永宁伯): título nobre, algo como “Conde da Paz Eterna”. Pode indicar o pai de Shen Jin ou outro parente nobre.
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