À noite, Shen Jin continuava aninhada nos braços de Chu Xiuming, como de costume. Quando ele pensou que ela já havia adormecido, ouviu sua voz baixa:
— Esposo… se… se um dia eu realmente não estiver mais aqui… — a voz de Shen Jin era vaga, mas ela sabia que Chu Xiuming a compreenderia — você pode se casar de novo. Com uma moça bondosa e gentil, alguém que cuide bem da criança antes que ele tenha idade para se lembrar…
A voz dela tremia, mas suas palavras eram claras, como se já tivesse refletido muito sobre isso:
— Mas, por favor, não conte a ele sobre mim… e trate-o bem, como se fosse seu único filho. Não tenha outros filhos. Não seria bom para ele.
— Que bobagem é essa… — Chu Xiuming sentiu o coração apertar. Acariciando as costas dela com carinho, murmurou — Boba… você realmente estaria disposta a isso? Por que pensa nessas coisas?
Dessa vez, Shen Jin não chorou.
— Eu só quis dizer isso antes que fosse tarde. Como a senhora Li… ela não esperava… — sua voz suavizou — e se eu também não tiver tempo de me despedir? Mas você tem que me prometer… que, quando chegar o momento, nós dois seremos enterrados juntos. Nada de outras pessoas, certo?
— Na vida ou na morte, seremos apenas nós dois — respondeu Chu Xiuming com a voz especialmente suave e rouca. — Você tem razão. A vida é cheia de imprevistos. Assim como eu pensava que poderíamos passar um tempo juntos na capital, e depois voltar para a cidade fronteiriça para celebrar o Ano Novo… mas aí você engravidou e eu precisei deixá-la sozinha aqui.
Ao ouvir sua voz, Shen Jin sentiu um calor no peito, mas não soube o que responder. Apenas esfregou a ponta do pé na perna de Chu Xiuming. Ele a prendeu levemente com as pernas para impedir que se agitasse, e continuou:
— Foi muito difícil.
— Eu só… senti sua falta — respondeu Shen Jin, com sinceridade. — Muita falta.
Chu Xiuming riu baixinho, a voz rouca e baixa:
— Eu também senti sua falta.
— Claro! Eu sou tão maravilhosa — disse Shen Jin, inflando o peito.
Chu Xiuming beijou de leve os cabelos dela e murmurou:
— Pois é… você é maravilhosa. Como eu poderia aceitar alguém que não fosse?
Shen Jin sorriu, e a voz de Chu Xiuming sussurrou em seu ouvido:
— A vida sempre tem imprevistos. E se esse momento chegar… saiba que eu nunca escolheria o filho. A criança é nossa continuidade… mas você é a minha única. Então, boba… saiba qual seria a minha escolha.
Por alguma razão, ao ouvir aquelas palavras, o coração de Shen Jin finalmente encontrou paz.
— Eu sou esperta. Mas eu e nosso filho vamos ficar bem, porque você vai estar ao meu lado, me protegendo, certo?
— En. — Chu Xiuming acariciou a cabeça dela. — Agora durma.
— Tá bom…
Logo depois, Shen Jin fechou os olhos e adormeceu. No fundo, o que realmente lhe dava paz não eram as palavras de proteção de Chu Xiuming, mas o fato de ser a “única”. Isso bastava. Mesmo que algo ruim acontecesse, haveria sempre alguém que a lembraria, que a teria no coração. Por esse homem… e por essa criança… Shen Jin não permitiria que algo lhe acontecesse.
O Quarto Jovem Mestre da Mansão do Príncipe Rui não organizou uma cerimônia grandiosa para o ritual do banho dos três dias¹, mas convidou algumas pessoas próximas. Chu Xiuming acompanhou Shen Jin. Como o ritual do bebê coincidiu com o último dia do vigésimo quinto ano da era Yongqi, e o Imperador Cheng também havia encerrado os trabalhos do ano, não haveria mais compromissos importantes.
Foi também a primeira vez que Shen Jin viu seu irmão mais novo. Ele estava enrolado em um cobertor vermelho. Quando Chu Xiuming ajudou Shen Jin a se aproximar, ela achou que havia algo especial naquela criança. O sorriso da mãe não era evidente, mas Shen Jin sabia que ela estava feliz. Desde que se casou, sua mãe havia se tornado solitária. Vivendo naquele vasto Mo Yunyuan, cada planta, cada canto da casa devia estar marcado na memória dela.
A Consorte Chen olhou para Shen Jin com um sorriso:
— Esse garoto é mais tranquilo do que você era quando pequena.
— Como assim? — Shen Jin franziu a testa. — A senhora sempre disse que eu era a melhor criança.
A consorte sorriu:
— Eu menti. Quando era pequena, você não ficava quieta. Queria sempre colo, dormia de manhã e fazia bagunça à noite. Se não conseguisse o que queria, chorava baixinho, mas sem parar…
— Impossível — murmurou Shen Jin, lembrando de como vivia se gabando para Chu Xiuming sobre o quanto tinha sido comportada e sensata. — Eu era esperta e bem-comportada!
A Consorte Chen apenas riu, entregou o bebê à ama e disse:
— Vá descansar. Não se canse demais.
Shen Jin tocou o próprio ventre e assentiu:
— Está bem.
A Princesa Rui arranjou para que Shen Jin e Chu Xiuming ficassem no mesmo pátio da mansão, já que o Ano Novo era no dia seguinte. Assim, evitariam os deslocamentos. Shen Jin estava com o ventre avançado e sofria nas viagens de carruagem. Planejavam passar os festejos na Mansão do Príncipe Rui e voltar só após o terceiro dia do novo ano.
O herdeiro do Marquês Yongle e Shen Qi voltaram à Mansão Yongle após o ritual do bebê. Afinal, no primeiro dia do novo ano, deviam estar em casa. Shen Qi e Shen Jin mal puderam conversar. Shen Qi prometeu visitá-la no segundo dia, mas Shen Jin percebeu que a irmã estava mais magra. Apertou os lábios e não disse nada.
Shen Qi quis perguntar se Shen Jin sabia sobre o ocorrido com a Senhora Li, mas, ao ver os olhos brilhantes da irmã e sua expressão serena, desistiu. Não queria estragar aquela paz. Partiu às pressas, temendo que, se ficasse mais tempo, acabasse tocando no assunto e deixasse Shen Jin desconfortável.
Durante o tempo em que Shen Jin permaneceu na Mansão do Príncipe Rui, nem Shen Rong nem Shen Hao apareceram. Mas ela não perguntou nada. Após o terceiro dia do novo ano, Chu Xiuming levou Shen Jin de volta à Mansão Bo de Yongning. Trouxeram muitos presentes na ida e voltaram com tantos outros. Após se despedirem do Marquês de Yongning e sua esposa, Shen Qi não resistiu e perguntou à mãe:
— Mãe… a senhora acha que minha irmã sabe sobre o caso da senhora Li?
A Princesa Rui, olhando o semblante abatido da filha, respondeu com uma pergunta:
— E o que você acha?
Shen Qi não soube responder. Se Shen Jin soubesse, por que não reagiu? Se não soubesse, por que Shen Rong e Shen Hao não apareceram? E, mesmo assim, ela não demonstrou surpresa.
A Princesa Rui suspirou:
— Isso importa?
Shen Qi ficou sem resposta. Importava? Ela mesma não sabia. Apenas… queria saber.
Caminhando devagar ao lado da filha, a Princesa Rui disse:
— Quer a menina Jin saiba ou não, ela entende que, acima de tudo, o mais importante é sua própria vida. Enquanto eu viver, ela nunca será como a senhora Li.
— Mãe… — Quando ouviu o nome da Senhora Li, Shen Qi estremeceu. A lembrança daquele dia — o sangue, os gritos da senhora Li, e o pai dizendo que salvaria o bebê… — ainda a assombrava. Ela mesma teria perdido muito sangue durante o aborto?
— Quem era a senhora Li, e quem é você? — A Princesa Rui segurou a mão da filha com firmeza. — Mesmo no Marquês Yongle, ninguém teria coragem de ir contra você.
Shen Qi mordeu o lábio. As mãos da mãe eram macias, mãos de alguém que viveu uma vida de privilégios.
— Ter filhos é sempre uma questão séria para uma mulher. Mas, se não o fizer, estará disposta a ver outra mulher ter o filho do seu marido? A ver esse filho herdar tudo?
A Princesa Rui não disse mais nada, apenas concluiu:
— A menina Jin não tem sua posição, nem sua beleza, e nem se compara a você em talentos como caligrafia, música ou pintura. Mas enxerga a vida com mais clareza. Qi’er, você é minha única filha. Não quero que viva sofrendo como ela. Mas… há coisas que você deveria aprender com ela. Aprender a ver com mais leveza.
— Sim — respondeu Shen Qi, com reverência.
Só que nem a Princesa Rui nem Shen Qi sabiam que Shen Jin não era indiferente nem havia se mantido completamente alheia — apenas tinha sido consolada por Chu Xiuming depois de sentir-se um pouco desconfortável. No fundo, Shen Jin até se sentia um pouco orgulhosa: afinal, não era só ela que não podia viver sem o marido... ele também não podia viver sem ela.
Na carruagem de volta, Shen Jin estava sentada nos braços de Chu Xiuming, mexendo os pés com desconforto. Agora, não só suas pernas, mas também os pés estavam um pouco inchados. Estava usando botas, que aqueciam, sim, mas depois de muito tempo calçada, começava a incomodar — mesmo que Mãe Zhao e as outras tivessem mandado alargar o calçado.
Ao notar o movimento de Shen Jin, Chu Xiuming bateu três vezes na lateral da carruagem. Shen Jin percebeu que logo a carruagem parou. Só então Chu Xiuming a acomodou melhor em seus braços, passou um braço por suas costas e se virou de lado para tirar as botas dela. Ela estava de meias de algodão, e como o interior da carruagem era aquecido, não sentia frio. Depois de tirar as botas, ele a abraçou novamente e bateu na porta, dando o sinal para que o cocheiro prosseguisse.
— Bem mais confortável agora — disse Shen Jin, mexendo os pés.
— Quando chegarmos, vou mandar esquentar água para você escaldar os pés — respondeu Chu Xiuming.
Shen Jin assentiu. Já fazia quase um ano desde que haviam deixado a cidade fronteiriça. Embora a capital fosse o lugar onde ela vivera mais tempo, era da vida na fronteira que sentia falta. Este ano, a Mansão do Príncipe Rui parecia vazia. Shen Xuan ainda não voltara de Minzhong. Shen Zi quisera retornar, mas não recebera permissão da Corte Real. Xu Fangfei e Shen Jing estavam presas; Shen Hao e Shen Rong tinham sido punidos, e nem mesmo no Ano Novo foram soltos. Apenas Shen Qi e seu marido permaneceram — junto com Shen Xi.
— Não acho que foi Shen Rong quem mandou Shen Hao fazer aquilo — disse Shen Jin.
Chu Xiuming assentiu. Apesar de o interior da carruagem estar aquecido, ele pegou uma capa e cobriu os pés dela.
— Shen Rong não é tão tola assim — murmurou Shen Jin.
Chu Xiuming pegou um pedaço de pêssego seco e encostou nos lábios de Shen Jin. Ela mordeu e saboreou o doce azedo com uma leve pitada salgada. Satisfeita, semicerrando os olhos, comentou:
— Minha irmã parecia abatida. Deve ter se assustado. Ainda bem que voltamos cedo.
— É verdade — respondeu Chu Xiuming.
Quando a carruagem parou, Shen Jin pensou em chamar An Ning para ajudá-la a calçar as botas — sua barriga já não lhe permitia se inclinar. Para sua surpresa, Chu Xiuming a fez sentar-se primeiro, enrolou cuidadosamente seus pés e panturrilhas com sua capa, colocou a capa dela por cima e, então, a carregou nos braços para fora da carruagem.
An Ping e An Ning trocaram olhares. An Ning seguiu atrás de Chu Xiuming até o pátio, enquanto An Ping entrou na carruagem para arrumar as coisas de Shen Jin.
Mãe Zhao já os esperava no pátio. O quarto estava bem aquecido. Chu Xiuming colocou Shen Jin na cama, e Mãe Zhao a ajudou a trocar de roupa. Assim que terminou, recuou discretamente. Chu Xiuming também trocou de roupas. Mãe Zhao comentou:
— Há dois dias, apareceram algumas pessoas na mansão dizendo serem parentes da Concubina Chen[2] e que vieram procurar a senhora.
— Parentes da mãe? — Shen Jin ficou surpresa e olhou para Mãe Zhao.
— Sim, falaram algumas coisas sobre a Concubina Chen, mas como esta velha serva não sabe muito a respeito, e não sabia se era verdade ou não, apenas mandei que fossem acomodados temporariamente — respondeu Mãe Zhao.
Shen Jin franziu o cenho. Nunca falara a Mãe Zhao sobre sua família materna, então era natural que ela não soubesse se aquilo era verdade ou não. Realmente seria difícil lidar com essas pessoas de imediato, por isso providenciar alojamento e vigilância fora o mais sensato.
Chu Xiuming pressionou levemente a testa de Shen Jin com o dedo e disse:
— Se não quiser vê-los, mande embora.
Shen Jin segurou a mão dele e balançou a cabeça.
— Quero ver.
— Amanhã — respondeu ele.
Shen Jin sorriu, assentindo.
Ao ver isso, embora Shen Jin não tivesse dito mais nada, Mãe Zhao compreendeu que, independentemente de serem ou não verdadeiros parentes, Shen Jin não parecia ter proximidade com a Concubina Chen. Pensando nisso, ajudou-a a vestir-se com trajes mais comuns e se retirou. Quando voltou, trouxe leite de cabra recém-aquecido da cozinha. An Ning trouxe água, e ambos ajudaram o casal a se preparar para a noite. Shen Jin tomou uma tigela do leite quente, soltou um suspiro e disse:
— Em casa é bem mais confortável.
— Senhora, deseja escaldar os pés? — perguntou Mãe Zhao, sorrindo.
Shen Jin pensou um pouco e respondeu:
— Traga uma bacia maior. Quero escaldar junto com meu marido.
Mãe Zhao sorriu e ordenou que as criadas providenciassem. Logo trouxeram a água, e após tudo pronto, Chu Xiuming dispensou os criados, puxou um banquinho e se sentou em frente a Shen Jin. Sem deixar que as criadas a ajudassem, retirou os sapatos e meias dela. Como Shen Jin não podia se curvar, An Ning a ajudou.
Seus pés eram muito menores que os de Chu Xiuming, brancos e macios, um pouco inchados, o que os deixava ainda mais arredondados. Shen Jin pisou nos pés dele com orgulho:
— Na verdade, mesmo que eu veja os parentes da minha mãe, não vou reconhecer ninguém. Nunca vi nenhum deles.
Chu Xiuming escutava em silêncio. Shen Jin manteve os pés sobre os dele e pediu para adicionarem mais água quente. Continuou:
— Minha mãe raramente mencionava essa gente. Na época... ela não queria entrar no palácio como concubina. Foi como se o avô tivesse arranjado uma casa para ela antes de morrer[3].
Embora fosse muito confortável mergulhar os pés em água quente, Chu Xiuming não deixou Shen Jin ficar muito tempo. Pediu a An Ning que secasse seus pés e, em seguida, carregou-a direto para a cama. Com um aceno, dispensou todos no quarto. Os dois tiraram as roupas e deitaram juntos sob o edredom. Shen Jin se aninhou nos braços do marido e sorriu:
— Marido, você está ficando preguiçoso.
— É verdade — riu Chu Xiuming. — Antes de me casar, eu passava o dia todo treinando artes marciais, cuidando dos assuntos militares ou praticando caligrafia. Não parava um segundo. E quando tinha algum tempo livre, não sabia o que fazer, então acabava arranjando mais trabalho.
Shen Jin não estava com sono, mas deitar-se assim nos braços do marido, em pleno inverno, era extremamente reconfortante. Ela então disse:
— Quando o vovô morreu, eles... na verdade, ninguém esperava que mamãe fosse parar no Palácio Real como concubina. Na época, um amigo do vovô, que não suportava ver isso acontecer, acabou entrando em contato com a família da concubina. E quando soube que ela seria entregue ao Príncipe Rui, foi ele quem empurrou minha mãe para essa situação.
— Pelo que mamãe me contou, a família do vovô não era pobre, pelo contrário, era bastante rica. Quando souberam que mamãe ia para o Palácio Real de Rui, tudo já estava decidido. Eles sabiam que tinham ofendido minha mãe profundamente e, por tabela, a princesa Rui. Então proibiram mamãe de levar qualquer coisa. Até os pertences deixados pelo vovô e pela vovó foram confiscados. No fim, mamãe saiu apenas com as roupas do corpo e este pingente de jade que escondeu e levou embora.
Shen Jin tinha a sensação de que havia mais por trás dessa história. Talvez, quando souberam que sua mãe se tornaria concubina, tenham ido até lá causar confusão. Mas como a própria Mamãe Li havia lhe contado, sua mãe detestava falar sobre esse assunto — e Shen Jin também não perguntava, para não deixá-la triste.
Ela pensou: Será que essas pessoas vieram mesmo procurar minha mãe? Se fosse só por causa disso, sua mãe não teria guardado mágoa por tanto tempo.
Mas Shen Jin não pretendia tocar mais no assunto. De qualquer forma, ela nunca mais queria ver essas pessoas novamente — então, por que remexer no passado e deixar sua mãe desconfortável?
Chu Xiuming disse com calma:
— Não importa qual seja o motivo da vinda deles. Se estiver te incomodando, mande-os embora. Não deixe que perturbem sua mãe.
Shen Jin assentiu. Pelo menos na Mansão do Marquês de Yongning ela tinha autonomia, enquanto que na Mansão do Príncipe Rui, sua mãe não podia decidir quase nada. Melhor que tivessem vindo vê-la do que irem atrás de sua mãe, que provavelmente ficaria com o humor péssimo.
Quando finalmente encontrou essas pessoas, Shen Jin entendeu por que Mamãe Zhao havia ficado por perto. Uma das jovens ali presentes lembrava um pouco sua mãe quando era jovem. Shen Jin olhou para ela por um instante com certo interesse e disse:
— Sentem-se.
Ela acabou prestando mais atenção na moça parecida com sua mãe, mas logo percebeu que era apenas a aparência. O comportamento dela era bem diferente — olhava com frequência para os braceletes, os acessórios de cabelo, observava a decoração do cômodo... Tentava disfarçar, mas Shen Jin, sentada no assento principal, percebia tudo com clareza.
— Princesa, eu sou sua... — começou a dizer o homem mais velho, assim que se sentou.
Shen Jin franziu levemente o cenho, e ouviu An Ping repreender:
— A senhora ainda não perguntou nada. Quem mandou você falar?
O homem ficou visivelmente irritado e queria dizer algo, mas o outro ao lado puxou sua manga e ele se calou.
— Vocês são parentes da minha mãe? — perguntou Shen Jin.
— Sim, sim — respondeu apressadamente o homem de meia-idade. — Eu sou...
— Nunca ouvi minha mãe mencionar vocês — interrompeu Shen Jin com calma. — Em todos esses anos, esta é a primeira vez que ouço falar que ainda havia alguém da família do meu avô.
Todos os rostos ao redor ficaram pálidos com suas palavras. Shen Jin continuou:
— An Ping, vá chamar Yue Wen e traga dois homens com ele.
— Sim — respondeu An Ping, respeitosamente.
— O que pretende fazer? — perguntou o homem que havia puxado a manga do outro. — Agora que virou a Senhora de Yongningbo vai fingir que não reconhece os parentes pobres da família do avô?
— Atrevido! — gritou An Ning, furiosa.
— Estou só dizendo a verdade! Se não quiserem, podem chamar os oficiais do governo. Vamos ver se o governo vai se curvar diante da Mansão de Yongning! Se têm coragem, me matem!
— E se eu matar? — disse Chu Xiuming ao entrar no salão. — Arrastem-no e deem uma surra.
— Sim! — respondeu Yue Wen, que acabava de chegar com dois homens. Sem hesitar, agarraram o sujeito e o arrastaram para fora. Antes que ele pudesse gritar, Yue Wen já havia deslocado seu maxilar.
Quando Shen Jin viu Chu Xiuming, seus olhos se curvaram num sorriso.
— Marido.
Chu Xiuming assentiu e sentou-se ao lado dela. Bastou lançar um olhar para os presentes e, mesmo aqueles que estavam prestes a chorar ou implorar, engoliram as palavras. Sentiam como se uma lâmina estivesse apoiada em seus pescoços, pronta para cair a qualquer momento.
No meio do silêncio tenso, a moça que se parecia com Concubina Chen olhou para Chu Xiuming com o rosto corado, visivelmente envergonhada. Seus olhos só tinham espaço para ele, esquecendo até que era seu próprio pai quem tinha acabado de ser arrastado para fora. Ela parecia totalmente deslumbrada, sem notar a gravidade da situação.
O salão mergulhou num silêncio desconfortável, a ponto de quase se poder ouvir os sons dos chutes do lado de fora.
A jovem mordeu o lábio inferior e caminhou até o centro do salão com passinhos miúdos. Curvou-se ligeiramente e ajoelhou-se com delicadeza, dizendo:
— Peço que o primo por afinidade perdoe meu pai. Ele só estava tomado pela indignação e acabou dizendo o que não devia. Não era essa sua intenção. Esta jovem sofreu algumas dificuldades em casa e veio para a capital. Pensei que minha prima pudesse nos acolher por alguns dias... até encontrarmos um lugar para ficar. Jamais imaginei que a prima sequer...
— Qual é a sua prima? — interrompeu Shen Jin, olhando diretamente para a moça que chorava. — E quem é seu primo por afinidade? Você disse que é parente da minha mãe. Tem alguma prova?
A moça chorou ainda mais, com um ar de piedade:
— Meu pai sempre disse... que eu me parecia um pouco com a mãe da senhora condessa...
Shen Jin havia fingido estar confusa diante da Princesa Ruyang porque esta tinha status superior e Chu Xiuming não estava por perto. Ainda assim, não cedeu em nada. Agora, sua posição era mais alta do que a daqueles à sua frente — e Chu Xiuming estava bem ao seu lado. Não havia o que temer. Por isso, ela declarou sem rodeios:
— Há muitas pessoas parecidas por aí. Nunca ouvi falar de parentes desse tipo na minha família. Achei que estavam fingindo.
Chu Xiuming permaneceu impassível, sem sequer olhar para a garota ajoelhada. Quando Shen Jin terminou de falar, ele apenas assentiu. Shen Jin então se virou para o marido:
— Marido, não quero mais vê-los.
Na hora, os rostos das pessoas ali se encheram de pavor. Shen Jin os olhou com certa dúvida e depois voltou o olhar para Chu Xiuming, que entendeu o motivo do medo deles. Na verdade, quando Shen Jin disse que não queria mais vê-los, era só isso — ela não queria vê-los. Mas eles sabiam muito bem o que aquela frase podia significar na boca do marquês. Chu Xiuming disse calmamente:
— Está bem. Yue Wen, mande-os para Minzhong. Mas antes de partirem, façam-nos dizer quem os enviou.
— Sim, senhor — respondeu Yue Wen com voz respeitosa.
Chu Xiuming não mencionou quem deveria interrogá-los, mas Yue Wen entendeu que, sem ordens adicionais, era para resolver tudo diretamente. Imediatamente, mandou que arrastassem todos para fora.
— Minzhong? — perguntou Shen Jin.
— En. — Chu Xiuming assentiu. — Os piratas de lá tomaram uma ilha isolada. Depois que forem derrotados, vamos precisar de gente para cuidar das coisas por lá.
— Eles não vão poder voltar? — indagou Shen Jin.
— Eu não vou deixá-los voltar — respondeu Chu Xiuming.
— Ótimo — disse Shen Jin, satisfeita.
A aparição dessas pessoas fora conveniente demais, o que despertou a desconfiança de Chu Xiuming. Por isso, ele mandou interrogá-los antes de mandá-los embora. Afinal, era impossível saber se havia outros interesses por trás dessa “visita”. Chu Xiuming não era do tipo que mostrava piedade.
Mamãe Zhao, por sua vez, entendeu bem a situação. A jovem que se parecia com a Concubina Chen não podia ficar — afinal, ela não era apenas parecida com a mãe de Shen Jin, mas também lembrava a própria Shen Jin.
Mas ninguém contaria isso a Shen Jin.
Aquelas pessoas não eram exatamente corajosas. Duas horas depois, Yue Wen mandou uma mensagem para Chu Xiuming: ao que tudo indicava, aquelas pessoas tinham sido persuadidas por terceiros — e até mesmo convidadas a ir à Mansão de Yongning. Era evidente o tipo de plano que estavam tramando. No entanto, independentemente de quantos sabiam dos detalhes, Chu Xiuming apenas assentiu, deu algumas ordens, e Yue Wen partiu para cuidar do assunto.
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Nota:
1: Banho dos três dias (洗三, xi san) é uma tradição chinesa em que o recém-nascido toma seu primeiro banho cerimonial três dias após o nascimento, simbolizando purificação e boas-vindas.
2: Concubina Chen: título nobre dado à mãe de Shen Jin, que vive ou viveu no palácio como concubina imperial.
3: No contexto histórico chinês, era comum que homens arranjassem moradias ou um futuro estável para filhas ou amantes antes de morrer, especialmente se estivessem tentando protegê-las do destino comum de concubinas da corte.
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