90: Perda de virtude do palácio


 Quando a água cobriu seus olhos, Chu Jinyao ainda sentia que tinha sido injustamente arrastada para aquilo.


Quando a multidão entrou em pânico, ela mandou seus próprios criados permanecerem atentos, com Linglong e Jiegeng vigiando de perto atrás dela, para impedir que alguém se aproveitasse do caos. Mas o inesperado não veio de trás — veio da frente. A Consorte Lian foi empurrada para dentro da água e, no instante em que estava prestes a cair, instintivamente se agarrou a Chu Jinyao com uma explosão de força movida pelo instinto de sobrevivência. Chu Jinyao, desprevenida diante daquele puxão, também foi arrastada para dentro da água.


Mas não parou por aí. Chu Jinyao havia sido pega de surpresa, mas, felizmente, sabia nadar. Mesmo caindo no lago, ela não entraria em desespero. Diferente das damas criadas na cidade de Taiyuan, que jamais teriam aprendido a nadar, Chu Jinyao cresceu em uma aldeia nas montanhas, com um rio logo na entrada. Ela aprendera a nadar cedo, adquirindo uma habilidade valiosa para sobreviver.


Infelizmente, enquanto Chu Jinyao conseguia se manter calma, a Consorte Lian não teve a mesma sorte. Gritando, ela se debateu de forma descontrolada, agarrando-se desesperadamente à única coisa que conseguia segurar: Chu Jinyao. Enroscada na luta frenética da consorte, Chu Jinyao gritou:


— Consorte Lian, solte! Eu sei nadar! Eu vou levá-la de volta até a margem!


Mas quem está se afogando não escuta palavras. Os braços e pernas da Consorte Lian continuaram presos ao redor de Chu Jinyao, arrastando-a para baixo e fazendo Chu Jinyao sentir que ela mesma poderia começar a se afogar. Felizmente, criadas do palácio treinadas para nadar estavam posicionadas ao redor do Jardim Interno Ocidental e, logo, ouviu-se o som de pessoas mergulhando na água. Linglong e os outros gritavam ansiosos da margem:


— Princesa Herdeira!


Um atendente do palácio puxou a Consorte Lian para longe e, sem alguém agarrada a ela, Chu Jinyao finalmente recuperou sua liberdade e conseguiu respirar novamente. A criada ajudou-a a nadar até a margem e, assim que ela pisou em terra firme, Linglong rapidamente a cobriu com um grande manto.


Embora fosse primavera, a água ainda estava congelante. Depois de ficar submersa por algum tempo, Chu Jinyao tremia da cabeça aos pés. Com o rosto pálido, ela se obrigou a manter a compostura e tranquilizou todos ao redor:


— Eu estou bem. Está tudo bem.


Vendo que, além do susto, Chu Jinyao não estava ferida, Linglong e os outros finalmente relaxaram um pouco. Porém, a Consorte Lian não teve tanta sorte. Quando foi retirada da água, seu rosto estava acinzentado, e ela já havia desmaiado. Pior ainda: ela estava grávida, o que tornava sua situação ainda mais perigosa.


O rosto da Imperatriz Xiao Qi escureceu ao observar a cena. Um incêndio havia ocorrido durante o dia e agora tanto a Princesa Herdeira quanto a Consorte Lian, grávida, haviam caído na água. Com a única consorte grávida inconsciente, a culpa por aquele desastre inevitavelmente cairia sobre seus ombros, por não ter administrado o palácio adequadamente. Furiosa, a imperatriz disparou:


— Por que vocês ainda estão parados aí? Vão chamar o médico imperial! Tragam a liteira! Rápido!


Tremendo sob o manto, Chu Jinyao voltou sua atenção para a Consorte Lian. A consorte estava desacordada, enquanto as criadas ao redor ou choravam ou permaneciam paralisadas em choque. A cena era puro caos. Os olhos afiados de Chu Jinyao varreram a multidão, pois ela sabia que o imediato após um acontecimento assim muitas vezes revelava as maiores pistas.


Quem foi que tentou machucar a Consorte Lian?


Enquanto Chu Jinyao se perdia em pensamentos, Linglong a aconselhou suavemente:


— Princesa Herdeira, a água de abril ainda é fria. A liteira já está vindo, por favor, aguente só mais um pouco.


— Eu consigo — respondeu Chu Jinyao, mas antes que pudesse terminar, ouviu o som de muitas pessoas se ajoelhando e saudando alguém. Ela se virou e viu Qin Yi caminhando em sua direção com uma expressão severa.


As damas à margem congelaram por um instante antes de se ajoelharem apressadas.


— Saudações ao Príncipe Herdeiro.


Qin Yi as ignorou, indo direto até Chu Jinyao. Ao vê-lo se aproximar, ela tentou se curvar, apesar de seu estado desalinhado, mas Qin Yi segurou seu braço, impedindo-a.


— Como você caiu na água?


Ele segurou sua mão, assustado com o quão frios estavam seus dedos. Sua expressão escureceu imediatamente, e seu olhar varreu de forma cortante os servos atrás dela. Ele não disse uma palavra sequer, mas o suor começou a brotar na testa deles. Linglong e Jiegeng nem ousaram se explicar e se ajoelharam imediatamente, cabeça baixa.


Chu Jinyao apertou de leve a mão de Qin Yi, lembrando-o silenciosamente do ambiente em que estavam.


— Alteza, eu estou bem. Hoje não foi culpa deles. Vamos voltar primeiro, sim?


Embora seu olhar permanecesse duro, a súplica gentil de Chu Jinyao o suavizou. Ela apertou sua mão novamente, os olhos suplicantes. Só então Qin Yi conseguiu conter o próprio  temperamento. Ele lançou um olhar aos servos ajoelhados e disse:


— Vamos falar disso depois.


Nesse momento, Xiao Linzi correu até eles e, curvando-se, informou:


— Alteza, Princesa Herdeira, a liteira chegou.


Qin Yi assentiu e, antes que Chu Jinyao pudesse reagir, ele a tomou nos braços.


Assustada, Chu Jinyao instintivamente se agarrou à roupa dele. Quando percebeu o que estava acontecendo, ficou ao mesmo tempo envergonhada e irritada.


— Alteza, me coloque no chão! Há tantas nobres aqui! Como vou manter minha dignidade depois disso? Como vou encará-las de novo?


— Você está tremendo inteira — murmurou Qin Yi, franzindo a testa.


Ele fez um gesto para Xiao Linzi buscar outro manto.


Xiao Linzi rapidamente mandou alguém trazer o manto de Qin Yi, e ele o envolveu firmemente em Chu Jinyao, ajustando cada ponta e cada dobra. Chu Jinyao suspirou, resignada, sabendo que Qin Yi não tinha ouvido uma só palavra do que ela dissera.


Como ela deveria sustentar sua imagem de Princesa Herdeira digna e serena depois daquele espetáculo? Tudo estava arruinado.


Com uma sensação de impotência, Chu Jinyao se deixou carregar até a liteira. Pelo menos lá dentro haveria mais privacidade. Envolta no manto de Qin Yi, ela se sentiu grata por não ser exibida pelo caminho inteiro de volta.


Quando a liteira finalmente chegou, os protestos de Chu Jinyao foram inúteis, e Qin Yi a carregou até o Palácio Oriental.


No Palácio Ciqing, eles já haviam recebido a notícia, e água quente estava preparada. Se Chu Jinyao não tivesse se recusado com firmeza, Qin Yi a teria colocado diretamente na banheira.


Depois de ficar tanto tempo na água fria e exposta ao vento, Chu Jinyao tremia incontrolavelmente. Só quando mergulhou no banho quente sentiu a vida voltar ao corpo. Ela ficou ali por um tempo, depois lavou o cabelo, e saiu vestindo apenas suas roupas íntimas.


Do lado de fora da câmara de banho, a Momo Gong a esperava com uma tigela de chá medicinal para afastar o frio. Qin Yi estava sentado ali e, ao ver Chu Jinyao, fez um gesto para que ela se aproximasse e bebesse o chá.


O chá acabara de ser preparado, e o cheiro forte de ervas era sufocante. Chu Jinyao lutou para suportar o amargor, engolindo com dificuldade. Qin Yi, observando sua expressão enquanto ela bebia, sentiu uma pontada de pesar.


Seu tesouro mais precioso, aquela a quem ele não suportava repreender nem dirigir uma palavra dura, tinha passado por uma provação dessas. Assim que o chá foi retirado, Linglong e Momo Gong saíram discretamente do aposento. Qin Yi tocou a testa de Chu Jinyao, depois segurou sua mão, finalmente tranquilizado ao sentir o calor voltando aos poucos. Só então perguntou sobre o que havia acontecido naquele dia:


— Como você acabou caindo na água?


Chu Jinyao suspirou e explicou:


— Eu estava vigiando o tempo todo, mas quem poderia imaginar que o ataque viria pela frente, e não por trás? Alguém empurrou a Consorte Lian com força e, quando ela caiu, instintivamente se agarrou a mim. Eu estava concentrada em proteger minhas costas e nunca imaginei ser puxada pela frente. Eu sei nadar, mas com a Consorte Lian grudada em mim, eu não conseguia.


Qin Yi franziu a testa, o tom carregado de resignação.


— Tanto problema por causa de mulheres. Eu não entendo por que ele se casou com tantas e mantém todas no harém, brigando o tempo inteiro. Qual é o sentido?


Chu Jinyao sorriu, mas não respondeu. Como Príncipe Herdeiro, Qin Yi podia criticar o imperador, mas ela não. Depois de uma pausa, a curiosidade falou mais alto e ela perguntou em voz baixa:


— Alteza… o que o senhor acha que aconteceu hoje?


— Hm?


— Quero dizer, aquela dançarina no barco. Por que o vestido dela pegou fogo de repente? E aquele fogo estranho… ele até queimou debaixo d’água por um tempo antes de se apagar. E a Consorte Lian? Como ela está?


— Provavelmente foi obra de alguém — respondeu Qin Yi após uma breve pausa. — Quanto à Consorte Lian, ela deve ter sido apenas arrastada para isso.


Uma única frase carregava informação demais, e Chu Jinyao nem sabia por onde começar.


— O senhor está dizendo que o fogo foi provocado de propósito? E que alguém usou o caos para empurrar a Consorte Lian? Eu nem sei de quem eu deveria sentir mais pena…


Qin Yi, mergulhado em pensamentos, não respondeu de imediato. Depois de um tempo, Chu Jinyao refletiu:


— A dançarina não parecia estar envolvida. Se ela não sabia de nada, então como o vestido dela pegou fogo de repente? Não havia nenhuma fonte de fogo no barco, e as chamas começaram quando ela girou. É tudo tão estranho… como se o fogo tivesse surgido sozinho. Se isso foi intencional, como a pessoa por trás disso conseguiu?


Qin Yi soltou uma risada baixa, provocando-a:


— Então você acredita em mim quando eu digo que foi de propósito? E se fosse um fogo divino enviado pelos céus?


Pegue de surpresa, Chu Jinyao piscou, confusa. Mesmo assim, seu olhar permaneceu firme.


— Se Vossa Alteza diz que foi intencional, então deve ser.


Sob aquele olhar inabalável, a raiva de Qin Yi pelos acontecimentos do dia começou a se dissipar. Suspirando suavemente, ele a puxou para mais perto e murmurou, quase inaudível:


— Vamos ver o que eles estão planejando.


O imperador havia oferecido um banquete no Jardim Interno Ocidental, e o que se seguiu foi uma sequência de acontecimentos estranhos: primeiro, o vestido de uma dançarina pegou fogo; depois, a Princesa Herdeira e a Consorte Lian foram empurradas para dentro da água. Após a exposição ao frio, mais tarde naquela noite, a Consorte Lian sentiu dores no abdômen. O imperador ficou furioso, primeiro descarregando sua ira sobre os médicos imperiais, exigindo que fizessem tudo o que fosse possível para salvar a criança, e depois ordenando uma investigação sobre o incidente do fogo.


No entanto, apesar das confissões detalhadas da dançarina, dos músicos que a acompanhavam e até dos eunucos responsáveis por organizar o evento, ninguém conseguiu determinar quem havia ateado fogo. A verdade era que todos no local viram o fogo começar sozinho — não havia ninguém que o tivesse causado diretamente. A Jin Yi Wei (Guarda Imperial) não podia apresentar uma explicação tão absurda ao imperador furioso, então intensificaram os interrogatórios, desesperados em busca de um bode expiatório para culpar.


Como o incidente era bizarro e tinha tantas testemunhas, rumores começaram a se espalhar antes mesmo que a Jin Yi Wei encontrasse uma resposta. Em pouco tempo, a história estranha alcançou todo o palácio, e superstições e fofocas tomaram conta. Com a gravidez da Consorte Lian em risco, os médicos imperiais estavam em desespero, temendo por suas próprias vidas. Os cortesãos estavam inquietos, e com razão: o palácio era conhecido por sua atmosfera sombria. Depois de décadas de intrigas, traições e mortes repentinas, muitas partes do Palácio Imperial carregavam um ar de presságio. Não era surpresa que as pessoas ali fossem propensas a acreditar em espíritos e forças sobrenaturais.


Rumores começaram a circular dizendo que o evento bizarro era resultado de espíritos enfurecidos. Passando de boca em boca, a história evoluiu até implicar o Palácio Oriental. Os sussurros afirmavam que o Príncipe Herdeiro Qin Yi tinha um destino agourento, que sua presença desagradava aos espíritos. Por anos, nenhuma nova criança havia nascido na família imperial, mas quando finalmente houve uma, isso enfureceu os espíritos, que desceram sobre o banquete para enviar um aviso através do “fogo do submundo”. E não era óbvio? Assim que o fogo começou, a Consorte Lian, grávida, caiu na água e o bebê em seu ventre ficou em perigo — certamente aquilo era retribuição.


Quando Chu Jinyao tomou conhecimento desses rumores, eles já haviam se espalhado por todos os cantos do palácio. Mesmo que a imperatriz imediatamente emitisse um decreto proibindo novas conversas sobre o assunto, já era tarde — o estrago estava feito.


A tempestade de boatos não ficou confinada ao palácio por muito tempo; logo, transbordou para a corte imperial. Tudo começou com um acadêmico obscuro da Academia Hanlin, que sugeriu sutilmente que o fogo poderia ter sido um sinal dos céus, um aviso ao imperador e ao Príncipe Herdeiro para refletirem sobre seu comportamento. Depois disso, vários oficiais de quarto escalão ecoaram o mesmo sentimento. Pouco depois, os censores assumiram o assunto e, por fim, até o Grande Secretariado foi alertado. O crescendo de autoridades exigindo uma prestação de contas cresceu de sugestões brandas para demandas explícitas, até se tornar uma onda esmagadora de acusações contra o Palácio Oriental.


A narrativa da “perda de virtude” do Príncipe Herdeiro se espalhou como fogo tanto na corte interna quanto na externa. Ao longo da história, era comum que desastres naturais ou fenômenos celestes estranhos fossem interpretados como sinais do fracasso moral do imperador, levando os céus a enviarem advertências. Nesses casos, o imperador tradicionalmente emitia um “edito de arrependimento”, reconhecendo suas falhas, seguido de sacrifícios e orações para apaziguar os deuses. Contudo, este incidente era particularmente estranho porque o fogo havia ocorrido em um barco cercado de água. A cor verde do vestido da dançarina era associada à madeira — o elemento que simbolizava o Leste e representava o Príncipe Herdeiro. Muitos fatores pareciam se alinhar, apontando para ele como alvo do desagrado divino.


O que piorava ainda mais a situação era a personalidade de Qin Yi. Ele não era o herdeiro ideal, gentil e virtuoso que os ministros talvez esperassem. Desde que fora nomeado Príncipe Herdeiro, Qin Yi agira com arrogância, demonstrando pouco respeito pelo decoro tradicional, e alguns até consideravam seu comportamento indisciplinado e tirânico. Não era difícil para seus inimigos costurarem essas características em uma narrativa maior, alegando que o Príncipe Herdeiro havia, de alguma forma, provocado a ira divina.


A essa altura, Chu Jinyao compreendia perfeitamente por que Qin Yi havia dito: “Vamos ver o que eles estão planejando.” O que parecia um simples acidente era claramente um esquema preparado há muito tempo. Alguém vinha orquestrando aquilo há bastante tempo, lançando as bases com cuidado para que, quando o fogo surgisse, desencadeasse uma onda de rumores e pânico. Assim que a corte e o palácio fossem jogados no caos, os boatos rapidamente se tornariam uma ferramenta para lançar um ataque coordenado contra o Palácio Oriental.


À medida que as acusações se acumulavam, uma coisa ficou clara: as pessoas por trás disso vinham planejando havia muito tempo. A manipulação dos rumores, o momento exato dos acontecimentos e o clamor coordenado dos oficiais apontavam para uma trama bem orquestrada, destinada a minar o Príncipe Herdeiro. Agora, todo o império fervilhava de especulações sobre se Qin Yi teria perdido o favor dos céus.


Apesar do alvoroço, nem o imperador nem o Grande Secretariado haviam feito qualquer declaração pública. De acordo com as tradições desta dinastia, sempre que um alto funcionário era acusado publicamente de má conduta, ele imediatamente se afastava de suas funções e se retirava, para demonstrar humildade e integridade. Ninguém jamais imaginou que, um dia, quem enfrentaria uma onda dessas de críticas seria o próprio Príncipe Herdeiro.


Nessa manhã silenciosa, Chu Jinyao ordenou que as janelas do palácio fossem abertas escancaradas. A chuva da noite anterior deixara o ar fresco e frio, com um leve cheiro de umidade. O vento ergueu suavemente as cortinas finas, agitou a fumaça do incenso no braseiro e folheou as páginas do livro aberto sobre a mesa.


Chu Jinyao pegou uma peça de go e, sob a orientação de Qin Yi, colocou-a lentamente no tabuleiro. Desde que as críticas ao Príncipe Herdeiro haviam começado, Qin Yi não precisava mais comparecer à corte matinal nem ir ao Salão Wenhua à tarde. De repente, ele tinha tempo de sobra e decidiu retomar o ensino do jogo a Chu Jinyao, que ela havia abandonado pela metade. Embora Chu Jinyao ficasse feliz em ter Qin Yi por perto, não conseguia evitar a inquietação e a ansiedade diante da crise que continuava lá fora.


— Concentre-se.


Qin Yi estalou de leve a testa dela com o dedo, erguendo uma sobrancelha enquanto a encarava.


— Você sempre se distrai com tanta facilidade ou é só quando está comigo? Você perde o foco quando eu te ensino a escrever, quando conversamos… e agora até quando jogamos.


— Eu não estou distraída — retrucou Chu Jinyao, afastando a mão dele, embora seu coração tivesse estremecido um pouco.


O fato de ela se distrair ou não não era o ponto — o que importava era que Qin Yi havia percebido, porque era ele quem a ensinava a maioria dessas coisas. Como era sempre ele, parecia que ela se distraía o tempo todo.


Ao perceber isso, o coração de Chu Jinyao se encheu de um calor agridoce. Ela colocou outra peça com cuidado no tabuleiro e tentou organizar os pensamentos, mas era difícil.


— Alteza… o que vamos fazer sobre o que está acontecendo lá fora?


Qin Yi soltou um resmungo, claramente pouco impressionado com aqueles que ousavam criticá-lo. Mas, diante de Chu Jinyao, ele se conteve de falar daqueles idiotas inúteis e apenas disse:


— Bem, isso me dá mais tempo para ficar com você. Não é uma coisa boa?


— Claro que eu quero passar mais tempo com Alteza — disse Chu Jinyao. — Mas quanto mais tempo ficar comigo, mais lama vão jogar em cima de você Alteza. Como eles podem se safar disso? E além disso… mais cedo ou mais tarde, vamos ter que encarar isso.


Nos últimos dias, oficiais do Palácio Oriental haviam vindo discutir o assunto, todos indignados com as acusações. Mas as preocupações deles sempre eram colocadas em termos de desobediência ao imperador ou de perturbação da ordem do Estado. Só Chu Jinyao parecia se importar com o quanto tudo aquilo estava afetando Qin Yi como pessoa.


Para Qin Yi, o raciocínio dela era quase ingenuamente simples. Mas, em vez de achar tolo, ele sentiu um calor inesperado no peito.


Chu Jinyao ainda estava furiosa quando pegou outra peça e a bateu no tabuleiro com um “clac” seco, a força do gesto revelando sua frustração. Qin Yi, observando-a, não conseguiu evitar um sorriso. A intensidade com que ela colocou a peça deixava claro o quanto estava irritada.


— Não se preocupe — Qin Yi a tranquilizou, estendendo a mão para acariciar de leve sua bochecha. — Além disso, eu nem queria ir à corte mesmo. Agora é o momento perfeito para descansar. Quanto a essas trivialidades… que quem se importa com elas as resolva.


Enquanto falava, seu tom ficou mais sério, e Chu Jinyao o ouviu atentamente, esperando que ele continuasse. Mas, em vez disso, ele disse:


— Ultimamente, as pessoas têm perguntado se você está grávida. Já que isso parece ser uma questão tão urgente para elas, acho que deveríamos atender aos desejos delas.


— Ah, Alteza! — Chu Jinyao suspirou, exasperada, dando um tapinha brincalhão no braço dele. — Eu estou tentando ter uma conversa séria com o senhor!


Qin Yi segurou a mão dela com uma risada. Por alguma razão, provocar Chu Jinyao sempre melhorava seu humor. Agora, com o espírito mais leve, ele lançou a ela um olhar pensativo.


— Já que você está tão interessada nisso tudo… deixe-me testá-la. Quem você acha que está por trás do fogo, dos rumores e da tentativa de me derrubar com um impeachment?


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