Capítulo 74


 Lan Fei disse:

— É inútil minha irmã mais nova almejar um posto tão elevado. Só espero que, quando a irmã mais velha finalmente obtiver sucesso, ainda possa desfrutar de sua glória.

Concubina Chang estava exultante, mas manteve uma expressão neutra. Quando as duas trocaram olhares, entenderam-se sem palavras.

— Minha irmã deve estar pensando que ainda não vi meu filhinho, não é? — disse Concubina Chang, sorrindo. — Então, por que não vem sentar-se no meu palácio da próxima vez?

Concubina Lan apenas assentiu em resposta.

A imperatriz nem imaginava que, por causa de um simples desmaio seu, Concubina Chang e Lan Fei aproveitaram a oportunidade para se aliar. Se soubesse, certamente estaria arrependida. Naquele momento, ela realmente não se sentia bem. Passara a noite em claro e não conseguia levantar-se pela manhã. Mas agora não era apropriado chamar o médico imperial. Assim, deixou que Yuzhu lhe trouxesse pílulas calmantes, tomou-as e continuou deitada, tentando descansar.

Esses assuntos do palácio não tinham relação com a Mansão de Yongningbo. Na corte, naquele dia, o Imperador Cheng finalmente mencionou os acontecimentos em Shuzhong. Perguntou:

— Só recebi a notícia ontem à noite. Por que, então, durante a audiência de hoje cedo, Yongningbo me pareceu tão tranquilo, sem qualquer sinal de culpa? Foi ele quem recebeu a carta primeiro?

Chu Xiuming respondeu com respeito:

— Em resposta à Vossa Majestade, este ministro não sabe por que coincidiu dessa forma.

A palavra “coincidência” foi usada com muita habilidade. A maioria dos ministros presentes conhecia os bastidores da história e achou graça da situação. Será que o Imperador Cheng realmente acreditava que poderiam esconder algo? Se um oficial da capital soubesse apenas do que ocorre em Beijing, talvez nem tivesse competência para manter seu posto — ainda mais considerando a postura arrogante da Mansão Chengen, que não fazia segredo de suas tramas. Era prudente manter certa distância.

Afinal, o próprio Imperador Cheng estava com a consciência pesada e murmurou:

— Aiqing, não me interprete mal. Apenas lamento os acontecimentos.

— Não ouso — respondeu Chu Xiuming, com reverência. Seu tom era indiferente e era impossível decifrar suas emoções.

O imperador não disse mais nada, e Chu Xiuming recuou para sua posição. Mesmo entre tantos ministros, ele se destacava.

O Imperador Cheng então declarou:

— Esses rebeldes ingratos que não desejam servir ao país e cometem tais atrocidades... Qual dos meus ministros estaria disposto a sufocar essa rebelião por mim?

Por um instante, o salão permaneceu em silêncio. Todos se lembraram da ocasião em que Chu Xiuming foi enviado a Minzhong. Nenhum deles tinha suas habilidades ou o prestígio da família Chu entre os soldados. Se fossem enviados, provavelmente não voltariam vivos.

O olhar do imperador recaiu sobre os oficiais que ele mesmo havia promovido. Todos mantinham as cabeças abaixadas, evitando encará-lo. Ele sentiu-se frustrado — tantos inúteis.

— São menos de mil rebeldes — continuou. — E eu tenho um exército de centenas de milhares. Nomeei pacificadores generais e dei-lhes cinquenta mil homens...

Nesse momento, os olhos de muitos se iluminaram. Se fosse realmente assim, não seria uma missão difícil — e renderia prestígio. Alguns olharam discretamente para Chu Xiuming e notaram que sua expressão não mudara. Assim que o imperador concluiu, vários ministros se ajoelharam, implorando pela chance de liderar.

O Imperador Cheng olhou para Chu Xiuming, pensando: Mesmo sem a família Chu, ainda posso manter minha autoridade.

Logo, ele escolheu os candidatos. Queria formar novos comandantes militares, por isso incluiu muitos jovens promissores. Entre eles estava o filho mais velho do Marquês de Yongle. O marquês ficou satisfeito — mesmo que fosse apenas um tumulto, essa conquista militar seria útil para o futuro de seu herdeiro.

— O tio Yongning está adoentado, então poderá descansar nesse período — disse o imperador, com certo orgulho.

— Sim — respondeu Chu Xiuming, com respeito.

Ao retornar à mansão, Chu Xiuming manteve a mesma expressão de sempre. Nem os guardas mais próximos perceberam qualquer alteração. No jardim, Shen Jin tomava sol, caminhando apoiada pelas criadas. Ao ver Chu Xiuming com roupas casuais, parou por um instante, pensou, e disse:

— Marido, me pega no colo.

— Já caminhou bastante hoje? — perguntou ele.

Shen Jin olhou para Mamãe Zhao, que respondeu:

— A senhora já andou o suficiente. Pode voltar e descansar.

— Marido! — insistiu Shen Jin, fitando-o com expectativa.

Só então Chu Xiuming a tomou com cuidado nos braços, sentando-a num deles e envolvendo-a com o outro. Shen Jin balançou os pés e disse:

— Vamos ver o Pequeno.

— Está bem — respondeu ele.

— Marido, estou pesada? — perguntou, envergonhada.

— Não — respondeu ele, sentindo em seus braços não apenas a esposa, mas também seu filho. Soltou um suspiro.

Era a primeira vez que Shen Jin ouvia Chu Xiuming suspirar, mas não o questionou. Apenas começou a contar, com doçura, o que havia feito naquela manhã. O Pequeno — um cão — ouvindo a voz deles, correu abanando o rabo. Shen Jin o pôs no chão:

— Pequeno, sentiu minha falta?

— Au! — respondeu ele, esfregando o focinho na mão dela.

— Tragam a escova — ordenou Chu Xiuming.

— Sim, senhor — disseram os criados, trazendo a escova e uma cadeira. Chu Xiuming sentou-se num banco baixo para escovar o cão. Shen Jin se acomodou e Anping a cobriu com uma manta.

O Pequeno comportou-se bem, levantando as patas quando mandado, embora olhasse tristemente para Shen Jin. Estava visivelmente mais magro desde que Chu Xiuming voltara — a cozinha deixara de lhe dar ossos saborosos. Shen Jin não conseguiu conter o riso.

Depois de limpo, o pelo do Pequeno ficou mais fofo. Então, Chu Xiuming disse:

— A comida da senhora e do general está pronta.

Shen Jin sorriu:

— Marido, vamos comer.

Chu Xiuming assentiu, deu um tapinha na cabeça do cão, e Shen Jin, apoiando-se em An Ning, levantou-se:

— Vá trocar de roupa, marido. Eu te espero no quarto.

— Está bem. — Ele sabia agora que Shen Jin precisava caminhar um pouco todos os dias. — Ajudem bem a senhora.

— Sim, senhor — responderam An Ning e An Ping.

Quando Shen Jin voltou ao quarto, viu Chu Xiuming já vestido adequadamente, lavando as mãos. Mamãe Zhao também preparara água para ela. Anping foi buscar os pratos: legumes ensopados e carne crocante em uma pequena panela de barro, perfeitos para acompanhar o arroz.

Assim que terminaram de comer, chegou um bilhete para Shen Jin — era de Shen Qi.

— Ora, será que minha irmã está com pressa para me ver?

Chu Xiuming comentou:

— Deve ser sobre o filho do marquês de Yongle.

— Marido, deseja recebê-lo? — perguntou Shen Jin. Se ele quisesse, ela levaria o rapaz até ele. Caso contrário, daria um jeito de evitar o encontro, dizendo que Chu Xiuming não estava em casa.

— Sim, quero vê-lo — respondeu ele.

Shen Jin assentiu e enviou uma resposta a Shen Qi. Chu Xiuming a acompanhou até o quarto e então chamou o administrador Zhao ao escritório. Shen Jin percebeu que ele estava irritado, mas não sabia com quem. "Comigo não é", pensou, e acariciou a barriga.

No escritório, Chu Xiuming explicou os planos arrogantes do imperador. O administrador Zhao riu com desdém:

— Isso é uma piada.

Chu Xiuming não respondeu. A raiva já havia passado. Lembrando-se do olhar de Shen Jin, sentia-se mais calmo. Zhao andava de um lado para o outro, furioso:

— Ele mandou cinquenta mil homens... Para obedecer a quem? E ainda colocou tantos nobres e até o príncipe!

— E ninguém contestou? — exclamou.

— Cinquenta mil contra mil — disse Chu Xiuming, com voz grave. — Mesmo quem suspeitava de algo não levou os mil rebeldes a sério.

— Na verdade, isso... nos favorece — admitiu Zhao. Todos os cinquenta mil soldados eram leais a Chu Xiuming, e essa seria uma boa oportunidade para treiná-los. Mesmo assim, havia um sentimento de revolta. — Mas como eles tratam as pessoas assim? Como se não tivessem família!

Chu Xiuming também não sabia como suportava. Havia outros generais experientes como ele, mas hesitavam em se voluntariar. Afinal, o imperador não os escolheria mesmo. Com cinquenta mil contra mil, pensavam que não perderiam.

— O que o general acha do desfecho? — perguntou Zhao.

Chu Xiuming pegou papel e tinta, desenhou um esboço da topografia de Shuzhong. Guardava o mapa completo de Tianqi na mente — sua família investira muito dinheiro para obtê-lo, mais até do que o próprio palácio imperial.

— Não sabemos se houve mudanças no terreno. Enviaremos alguém para medi-lo — explicou.

— Sim — respondeu Zhao, examinando o esboço. Mesmo sendo simples, o mapa mostrava claramente a situação.

— A região de Shu é mais complexa que as outras. Não só pelo relevo, mas... Será que são mesmo apenas mil rebeldes? O imperador subestimou. Já fincaram raízes — parentes, amigos, conterrâneos... E o exército local? Aqueles mil não são os mesmos mil.

Zhao ficou chocado. Antes, só estava preocupado com uma derrota custosa. Agora, percebia que talvez... nem vitória houvesse.

— Mesmo eu, não posso garantir vitória — disse Chu Xiuming. — No máximo, setenta por cento de chance.

Esses "setenta por cento" indicavam derrota. Sem príncipe coroado, os nobres queriam se destacar. Fariam de tudo para subir, mesmo que significasse pisar nos outros.

— E além disso... — murmurou Chu Xiuming. — Pode haver outra mão por trás.

— O general suspeita de... Ying...? — Zhao hesitou.

Chu Xiuming não respondeu. Pegou o mapa e jogou-o na braseira. Observou-o queimar em silêncio.

— Quem sabe... — disse ele, por fim.

Zhao não disse mais nada. Além da raiva, sentia agora um desânimo impotente.

Chu Xiuming fechou os olhos:

— No fim, quem sofre é o povo.

— General... — murmurou Zhao.

Chu Xiuming balançou a cabeça, encerrando o assunto.



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