Capítulo 103: Batalha Feroz (Parte 2)

Yelu Qi sabia que, mesmo que conseguisse recuar com segurança do Passo Lingxiao naquele dia, os milhares de soldados mortos na formação de ilusão jamais voltariam. Ele enfrentaria punição de Yelu Fan e condenação dos oficiais da corte. Não importava o resultado — o poder e o status que havia conquistado com tanto esforço desapareceriam num instante.

A menos que capturasse Chu Xiang.

Se havia alguém capaz de mudar o rumo da guerra entre os dois países, esse alguém era Chu Xiang. Com ele em mãos, Chu certamente não ousaria levantar tropas novamente. As cidades conquistadas poderiam ser retomadas sem esforço, e o Yi Ocidental poderia mantê-lo prisioneiro por anos, trocando-o por vantagens.

Nesse cenário, Yelu Fan não se importaria mais com seus erros, os ministros o respeitariam, e o Yi Ocidental teria uma carta poderosa contra Chu. Não haveria mais preocupações nos próximos anos — e tudo isso custaria apenas uma ala ocidental sacrificada.

Trocar o imperador inimigo por 50 mil soldados parecia um excelente negócio.

Uma vez que essa ideia surgiu, Yelu Qi não conseguiu mais abandoná-la. Em poucos segundos, formulou e executou seu plano: primeiro posicionou arqueiros escondidos na floresta, depois deixou uma brecha proposital na formação da ala oeste. Como esperado, Chu Xiang caiu na armadilha e liderou sua cavalaria para o oeste, completamente exposto à mira dos arqueiros.

Incontáveis flechas de aço foram disparadas ao mesmo tempo, como uma chuva mortal sobre o centro do exército. Mesmo com guarda-costas e armadura, seria difícil resistir a um ataque tão massivo.

Yelu Qi, de um alto morro, viu com os próprios olhos o exército de Chu erguendo apressadamente uma parede de escudos. Mas no momento em que a chuva de flechas caiu, o centro colapsou inesperadamente — Chu Xiang caiu do cavalo, e algumas gotas de sangue salpicaram no chão.

Ye Yanxiu, que chegou atrasado, gritou “Vossa Majestade!” e correu para o centro, mas não houve mais movimento. Os escudos de espinheiro se abriram como asas, ocultando a visão. A cavalaria começou a recuar com ele, e a formação se desestabilizou. Ao ver isso, Yelu Qi ficou eufórico.

Sucesso!

Sem perder tempo, virou-se e ordenou ao mensageiro:

— Ordene à ala leste que cerque e capture o Imperador de Chu vivo!

— Sim!

Assim que falou, um fogo de artifício vermelho subiu aos céus, deixando um rastro como um íris. Ao ver o sinal, o exército Yi sacudiu o cansaço e virou-se para atacar a cavalaria que cercava Chu Xiang. O ímpeto era feroz, rasgando a linha defensiva e quase alcançando o círculo interno.

O sorriso de Yelu Qi já não podia ser contido.

Que jogada brilhante — tirar a lenha debaixo do caldeirão.

Mas justo quando se sentia vitorioso, um som agudo e sutil passou por sua orelha. Instintivamente virou-se, mas não conseguiu se mover. Ao olhar para baixo, viu a ponta de uma flecha saindo do peito — o sangue jorrava como uma cascata. Seu rosto empalideceu, e antes que pudesse emitir um som, caiu com um baque.

O homem ao lado percebeu o problema. Entrou em pânico e gritou com a voz trêmula:

— Rápido! Alguém venha! Houye foi atingido!

Os guardas correram e cercaram Yelu Qi, olhando para cima em busca do arqueiro. Mas ao se virarem, viram mais de dez flechas de penas brancas cortando o céu, como um fluxo de luz, atingindo seus corpos com força implacável — sem tempo para reagir.

— Estão nos atacando por trás!

Um soldado de olhos afiados percebeu algo estranho e gritou, correndo morro acima. Mas tropeçou em algo e quase caiu — seu capacete rolou encosta abaixo. Ao se abaixar para pegá-lo, uma flecha passou zunindo por sua orelha.

Todos viram a cena e se prepararam para o combate. Logo, olharam na direção de onde vinham as flechas. Viram uma cavalaria leve bem equipada avançando, liderada por alguém montado num cavalo negro como a noite. O animal era veloz como o vento, e num piscar de olhos, a cavalaria rompeu a retaguarda inimiga. Embora a corda do arco ainda tremesse, o líder o abandonou e empunhou uma lança prateada, golpeando e perfurando como relâmpagos. Em poucos movimentos, já havia derrubado inúmeros inimigos.

Yelu Qi, perfurado por uma flecha, mal conseguia respirar. Ao virar o rosto e ver claramente o rosto do guerreiro, seus olhos se encheram de sangue.

Impossível! Como podia ser Chu Xiang?

Nesse instante, a força principal do exército de Chu, que estava cercada, lançou um contra-ataque. Pegaram o exército Yi desprevenido. Ao comprimir a linha de frente para o sul, mais corpos foram pisoteados, e o exército avançava como um rio de gelo — apagando instantaneamente o moral do Yi.

Com esse ataque em pinça, o caminho de retirada do Passo Lingxiao foi completamente bloqueado.

O exército Yi não se rendeu facilmente e tentou abrir caminho. Formaram rapidamente a Formação do Ganso Selvagem, mesmo sem comandantes, e avançaram em velocidade surpreendente contra a coluna de cavalaria leve.

Chu Xiang tinha apenas cinco mil homens — naturalmente não podia resistir a mais de dez mil. Por isso, começou a se mover para o leste. Mas após poucos metros, houve um tremor violento atrás — árvores quebradas, animais fugindo, rochas despencando do penhasco, todas esmagando o acampamento Yi. Gritos ecoaram num raio de dez milhas.

Chu Xiang conteve o cavalo e parou diante da floresta, observando tudo. Ye Yanxiu, que vinha pelo flanco, o encontrou naquele momento. Ao ver que Chu Xiang estava ileso, foi direto ao ponto:

— Vossa Majestade, parece que isso não estava nos planos...

Todo o plano havia sido traçado antes da partida. Eles já haviam avaliado que, considerando a velocidade do exército Yi e sua familiaridade com o terreno, seria impossível impedir sua fuga de volta ao Passo Lingxiao. Portanto, se quisessem manter aqueles 200 mil soldados e cavalos aos pés da Montanha Yunmeng, precisariam dar a Yelu Qi um motivo para atacar por iniciativa própria.

Esse motivo era Chu Xiang.

Como diz o ditado: “Capture os ladrões capturando o líder.” Em outras palavras, vencer uma batalha exige compreender a mente do comandante. Por isso, Chu Xiang primeiro fez com que Yue Lingxi montasse uma formação de ilusão para dizimar dezenas de milhares de inimigos. Após Yelu Qi cair em desespero, Chu Jun se disfarçou de Chu Xiang. Como esperado, Yelu Qi começou a maquinar e não hesitou em sacrificar muitos homens para capturá-lo.

O que ninguém sabia era que, naquele momento, Chu Xiang já havia liderado suas tropas para emboscar o outro lado do vale, esperando o exército Yi passar para então atacar. A única brecha talvez fosse Yue Lingxi, lá no alto da Montanha Yunmeng.

Ele não lhe contou que participaria do ataque.

Inicialmente, temia que ela se preocupasse. Mas Yelu Qi jogou sua cartada, e Chu Jun aproveitou para encenar uma queda do cavalo. Ela estava longe demais para distinguir o real do falso. Agora, provavelmente ardia em ansiedade — por isso tomou medidas drásticas.

Diante do olhar questionador de Ye Yanxiu, Chu Xiang não explicou. Apenas disse:

— Está tudo bem. Vamos voltar logo.

Ye Yanxiu, astuto como era, percebeu que Chu Xiang não queria se alongar. Ao notar seu olhar atravessando um ponto distante, entendeu tudo e ficou sem palavras por um momento.

— Isso é... Lingxi controlando a formação?

Chu Xiang curvou levemente os lábios, com um traço de alívio e impotência:

— Ela está com raiva.

Ye Yanxiu olhou para os corpos ensanguentados no chão e permaneceu em silêncio, como se algo estivesse preso em sua garganta.

Embora o campo de batalha seja impiedoso, Yue Lingxi estava apenas servindo ao Reino Chu — o que não era apenas irrepreensível, mas digno de louvor. No entanto, para ele, era difícil de aceitar. Nunca vira uma Yue Lingxi assim — que escondia um poder imenso sob uma aparência frágil, afiada e até implacável.

Por um momento, sentimentos contraditórios o invadiram.

Chu Xiang o olhou e disse com leveza:

— Aquela que você conhece nunca foi ela por completo.

Ele conhecia sua tenacidade e senso de justiça desde o primeiro encontro no campo de batalha. E, mais importante, sabia o quanto ela o amava. Amava-o o suficiente para arriscar a vida e mergulhar num banho de sangue.

Ye Yanxiu não sabia. Para ele, ela era gentil e bondosa. Antes de vir, ela revisou os detalhes com ele várias vezes, substituindo armas letais por cordas e redes que limitavam movimentos. Mas quando ele esteve em perigo mortal, ela não teve mais piedade. Tudo o que pensava era em vingá-lo.

Antes, ela não compreendia o amor. Mas, ao despertar, podia ser tão intensa quanto o fogo — e igualmente abrasadora.

Ye Yanxiu não estava envolvido emocionalmente, então não podia sentir a profundidade do afeto dela — via tudo de forma unilateral. Mas Chu Xiang compreendia perfeitamente e partiu imediatamente.

— Deixo o restante com vocês.

Yelu Qi já estava morto, e o exército de Chu tinha vantagem. O que ele precisava agora era confortar quem estava em pânico e medo.

Aos pés da Montanha Yunmeng.

Se Liu Yin antes não entendia por que Chu Xiang confiava tarefa tão importante a Yue Lingxi, agora compreendia. Ao vê-la abrir outra formação entre rochas escondidas e dizimar dezenas de milhares de soldados Yi a cem metros de distância, não pôde deixar de se impressionar.

A Imperatriz realmente escondia suas habilidades.

Enquanto Yuan Wendao tentava quebrar a formação, estava secretamente ansioso, temendo arruinar todo o plano. Mas só quando Yue Lingxi chegou ao pé da montanha, ele percebeu — os arranjos no meio da montanha eram apenas distrações. O verdadeiro núcleo da formação estava ali.

Após se emocionar, Liu Yin voltou a se preocupar. Yue Lingxi estava em silêncio há muito tempo. O vale à frente havia se tornado um campo de batalha, e o exército Yi não conseguia reagir diante das forças naturais manipuladas. A situação saía do controle. Liu Yin pensava em interromper tudo quando ouviu a voz de Chu Xiang atrás de si:

— Xixi.

Yue Lingxi virou-se de repente e o encarou por um longo tempo, depois correu para seus braços como uma andorinha voando para a floresta.

Chu Xiang a abraçou, sentindo seu corpo delicado tremer violentamente. Estava claramente apavorada. Seu coração apertou, e ele acariciou suas costas e braços, consolando-a com voz suave:

— Não tenha medo. Estou bem.

Yue Lingxi não disse nada — apenas o abraçou com força, como se quisesse se esconder por completo nele. Mas sua armadura estava coberta de sangue, e ao sentir o cheiro forte, ela não conseguiu conter o enjoo e vomitou.

— Uh—

O rosto de Chu Xiang escureceu de repente. Rapidamente tirou a armadura e a jogou longe. Pegou uma jarra de água e lhe deu alguns goles até que o mal-estar passou. Seu corpo ficou mole, e ela se sentou ao lado de uma grande rocha. Depois, recostou-se nos braços de Chu Xiang, com os olhos semicerrados, exausta.

Chu Xiang sabia que controlar a formação consumia muita energia mental. Após tantas emoções, seu corpo não aguentava mais. Então sinalizou para Liu Yin encerrar a formação e a colocou no cavalo.

— Vamos voltar ao acampamento.

Pela primeira vez, Yue Lingxi não perguntou sobre a situação da batalha. Apenas abraçou a cintura de Chu Xiang e se aninhou em seus braços — como se isso bastasse para lhe trazer paz.

Vencer ou perder... desde que ele esteja bem, é tudo o que importa.


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