Um vislumbre fugaz — uma beleza tão fria e pura quanto a neve, tão distante quanto as nuvens.
Os olhos dela estavam cobertos por uma faixa delicada de gaze branca, ocultando sua expressão. No entanto, mesmo com apenas a metade inferior do rosto visível, sua beleza era de tirar o fôlego. Combinada ao véu etéreo sobre os olhos, criava uma mistura inigualável de encanto sublime e fragilidade comovente.
Até mesmo Ling Chongyu, que já estava acostumado a ver mulheres belas, sentiu o fôlego se prender no peito. Sua mente ainda não havia se recuperado do choque de sua aparência quando, instintivamente, deu um passo para trás. Ao recuar, um lampejo de espada passou rente à sua mão, cravando-se na neve — e, num instante, a neve se transformou em gelo sólido.
Ling Chongyu largou instintivamente o muli que segurava enquanto recuava. Antes que o véu tivesse chance de cair no chão, uma mão esguia, branca como porcelana, o apanhou com precisão.
(*muli – cortina de gaze transparente presa à aba de um chapéu, que desce para cobrir o rosto ou o corpo)
O olhar de Ling Qingxiao era tão frio que poderia matar. Sem dizer uma palavra, ele recolocou cuidadosamente o muli sobre a cabeça de Luo Han. Mesmo tomado pela raiva, seus movimentos eram precisos — ajustando o véu perfeitamente, com a costura alinhada ao centro, sem errar nem um milímetro.
Ye Zinan permaneceu paralisado de choque. Quando o muli voltou a cobrir o rosto de Luo Han, ele finalmente saiu do transe e exclamou:
— Meu deus, Luo Han, você—
Você só pode ser filha ilegítima de alguma divindade celestial! Como alguém consegue ser tão bonita assim?!
Os outros também começaram a recobrar os sentidos. Ling Chongyu flexionou a mão, usando energia espiritual para derreter a camada de gelo que se formara sobre ela. Ergueu uma sobrancelha e sorriu para Luo Han:
— Uma beleza dessas escondida atrás de um véu... que desperdício.
Diante do silêncio de Luo Han, ele continuou, provocando:
— Era só uma brincadeira. Não vai me dizer que ficou chateada?
— Brincadeira? — A voz de Luo Han saiu gélida, cada sílaba carregada de gelo. — Quem está brincando com você? Eu não falei? Eu disse não. Quem é que brincaria com um idiota como você?
Sua fúria era palpável. Homens como Ling Chongyu — autoritários, egocêntricos — eram irritantes além da conta. Ele realmente achava que, quando uma mulher era fria com os outros, isso significava pureza, mas quando era fria com ele, era algum tipo de joguinho para seduzi-lo? Ele achava mesmo que levantar o véu de uma mulher faria com que ela se apaixonasse perdidamente e jurasse nunca se casar com outro?
Que vá o mais longe possível. Será que esse imbecil egocêntrico era capaz de aprender o mínimo de respeito?
Ling Qingxiao desembainhou a espada sem hesitar, os olhos reluzindo como vidro submerso em água congelada — frios, mas hipnotizantes. Traçando uma linha no chão com a lâmina, virou-se levemente e instruiu Ye Zinan, com uma voz tão fria quanto o ar ao redor:
— Proteja ela.
Ye Zinan assentiu vigorosamente, puxando Luo Han para uma distância segura. Ling Qingxiao então voltou seu olhar para Ling Chongyu. A ponta da espada apontava com firmeza para o irmão mais velho — o homem que roubara sua identidade, o fizera sofrer por anos e agora ainda ousava ofender sua amiga. Sua voz saiu gelada e inflexível:
— Saque sua espada.
— Quer lutar comigo? — Ling Chongyu zombou, os olhos brilhando de desprezo. Chamas de combate arderam em seu olhar ao invocar sua lâmina. — Que imprudência.
A batalha começou num instante. Assim que empunharam as espadas, entraram em choque.
A espada de Ling Qingxiao era fina e afiada, tão delgada que deixava passar a luz, parecendo quase translúcida à distância. Em contraste, a de Ling Chongyu era larga e pesada, com padrões vermelhos e negros ao longo da lâmina. O punho era adornado com joias luxuosas, exalando arrogância e ostentação.
No momento em que as duas espadas colidiram, a neve que cobria os joelhos dos combatentes foi lançada ao ar, espalhando-se em todas as direções. A força das energias espirituais fez os espectadores tropeçarem para trás. Su Yinyue e Yun Menghan tentaram intervir, mas, antes mesmo de conseguirem gritar, foram lançadas ao chão pela onda de choque.
Yun Menghan se saiu melhor, já que sua verdadeira forma como erva espiritual lhe conferia habilidades regenerativas excepcionais. Su Yinyue, por outro lado, não teve tanta sorte. Fraca por natureza e negligente com a cultivação ao longo dos anos, seu poder era só fachada. O impacto fez seu qi e sangue se agitarem violentamente, e ela cuspiu uma grande quantidade de sangue na hora.
Do lado de Luo Han e Ye Zinan, a barreira de Ling Qingxiao os protegeu da maior parte do impacto, mas ainda assim não saíram ilesos. Ye Zinan rapidamente tirou a neve que havia se acumulado sobre si, os olhos arregalados de espanto:
— Espera aí... ele estava se contendo o tempo todo naquele reino secreto?
— Exatamente — Luo Han limpou a neve dos ombros, exausta. — Nem eu esperava por isso.
Ela só sabia que Ling Qingxiao se tornaria assustadoramente distorcido durante a destruição dos Seis Reinos, mas quem imaginaria que o Lorde das Trevas já era assim aos mil anos de idade?
Desta vez, Ling Qingxiao lutava sem restrições — cada golpe era fatal. Atrás da barreira, Luo Han e Ye Zinan observavam enquanto ele desferia um corte horizontal que cortou a floresta à frente. As árvores, derrubadas ao mesmo tempo, permaneceram de pé por um instante antes de desabar com um estrondo.
Onde quer que sua espada apontasse, nada permanecia intacto. Isso sim era o verdadeiro sentido de não deixar sobreviventes por mil léguas.
Ye Zinan encarava o campo de batalha quase em transe. Ling Qingxiao e Ling Chongyu trocavam golpes numa velocidade vertiginosa, cada ataque carregado de rancores antigos e recentes. Depois de um tempo, Ye Zinan murmurou:
— Sempre ouvi dizer que os dragões não só adoram lutar, como também são os melhores nisso. Achei que fosse exagero. Agora acredito — dragões só consideram uma luta real quando é contra outros dragões. O resto? É só treino.
Luo Han pensou nos Seis Reinos que um dia seriam devastados como uma peneira e suspirou ao mesmo tempo que Ye Zinan.
Enquanto os dois suspiravam, o rumo da batalha mudou de repente. Ling Qingxiao rompeu a defesa de Ling Chongyu, sua espada cortando sem piedade em direção à mão do oponente. Do outro lado do campo, Yun Menghan e Su Yinyue gritaram incontrolavelmente, enquanto Ye Zinan soltava um grito de choque:
— Meu deus, ele tá levando isso a sério mesmo?!
Ling Qingxiao nem sequer piscou. Sem hesitar um segundo, sua lâmina decepou a mão direita de Ling Chongyu — a mesma que, momentos antes, havia erguido o muli de Luo Han.
Luo Han, atônita, só conseguiu pensar:
Mas que diabos...
A dor de perder uma mão não era algo comum, e nem mesmo o corpo resistente de um dragão era capaz de abafá-la por completo. Ling Chongyu claramente não esperava que Ling Qingxiao fosse golpeá-lo com tanta severidade. Tomado pela dor, caiu ao chão. Yun Menghan e Su Yinyue gritaram e correram em sua direção.
Ling Qingxiao o perseguiu sem piedade, a espada apontada diretamente para o pescoço de Ling Chongyu. Yun Menghan e Su Yinyue se atiraram na frente dele, protegendo-o com olhares desafiadores que deixavam claro que estavam prontas para morrer.
Uma era sua prima; a outra, sua aprendiz júnior. O que Ling Qingxiao poderia fazer? Com um suspiro controlado, ele finalmente embainhou a espada, seus movimentos lentos e deliberados em respeito a Yun Menghan e Su Yinyue.
Ling Chongyu se esforçou para se levantar, o pulso decepado jorrando sangue que rapidamente tingiu a neve de vermelho. Ele lançou um olhar envenenado para Ling Qingxiao, os olhos queimando como se estivessem cheios de veneno.
— Ling Qingxiao, a perda de uma mão é um rancor que jamais será resolvido!
Ling Qingxiao apenas soltou um leve escárnio.
— Ling Chongyu, na raça dos dragões, as regras são claras. Os fortes reinam, e os derrotados não têm direito a reclamar injustiça.
— Além disso, você está longe de ser uma vítima. — A Espada dos Nove Céus já havia retornado à bainha, mas Ling Qingxiao agora segurava o coldre, apontando-o diretamente para Ling Chongyu. Sua intenção assassina, no entanto, permanecia implacável. — Hoje, sua mão serve como compensação.
Com essas palavras, Ling Qingxiao se virou, caminhando através da neve girando ao vento em direção a Luo Han. Dentro da barreira, ela o observava se aproximar enquanto o vento uivava ao redor, levantando redemoinhos de neve que subiam em espiral para o céu, apenas para cair novamente, misturando-se com a nevasca pesada.
O mundo estava velado por um branco sem fim, encoberto por neve e vento, mas Ling Qingxiao se destacava enquanto avançava com a espada em punho. A energia espiritual esmagadora que emanava dele afastava a neve giratória e os ventos uivantes, abrindo um caminho como uma lâmina cortando o caos. Ele caminhava sozinho, uma figura inabalável contra a tempestade.
Ye Zinan puxou cautelosamente a manga de Luo Han e sussurrou:
— Estou com um pouco de medo.
Com aquele semblante, Ling Qingxiao parecia pronto para sacar a espada a qualquer momento.
Luo Han deu uma cotovelada nele e sibilou:
— Fica quieto se quiser viver mais um pouco.
Ye Zinan imediatamente fechou a boca. Gente como Ling Qingxiao era assustadora, e se ele não podia vencer uma luta, ao menos podia evitar provocar uma.
Quando Ling Qingxiao chegou até eles, ergueu uma mão e dissolveu a barreira com facilidade. Sua expressão era perturbadoramente calma, como se a batalha anterior tivesse sido apenas um aquecimento — algo casual, como cortar um legume — totalmente insignificante.
Nem um grão de poeira manchava suas vestes imaculadas, mais brancas que a própria neve.
— Vamos. Para o oeste — disse simplesmente.
Luo Han assentiu e o seguiu de perto. Depois de alguns passos, ela olhou para trás e viu que Ling Chongyu agora estava de pé, apoiado por suas duas irmãs. A mão decepada havia sumido — provavelmente recolhida por alguém.
Para os clãs imortais, perder um membro não era catastrófico. Com os tesouros celestiais certos, a mão poderia ser reimplantada. No entanto, a dor da amputação não podia ser desfeita, e mesmo que se curasse perfeitamente, provavelmente jamais voltaria a ser a mesma.
Su Yinyue chorava tanto que parecia prestes a desmaiar, enquanto Yun Menghan imediatamente quebrou algumas de suas próprias folhas, em sua forma verdadeira, para estancar o sangramento de Ling Chongyu. A neve sob eles, já manchada de sangue congelado, agora era tingida também com o sangue de Yun Menghan — uma cena grotesca e gélida.
Yun Menghan era uma Erva Celestial de Veias Púrpuras, originária das margens do Rio Celestial. Com o tempo, desenvolveu consciência e assumiu forma humana. Suas habilidades de autocura eram extraordinárias, tornando-a um elixir vivo raro. Antes de ser aceita como discípula de Zhongshan, já havia sido capturada diversas vezes e quase transformada em remédio.
Por causa dessa notável capacidade de regeneração da protagonista, ela acabaria sofrendo destinos horrendos, incluindo ter o coração e os rins removidos e até abortos. Luo Han também se lembrava de que esse poder milagroso levou a várias cenas violentas e sangrentas na cama entre ela e Ling Chongyu.
Ye Zinan a chamou suavemente, tirando Luo Han de seus devaneios. Ela percebeu que Ling Qingxiao havia parado de andar e estava esperando por ela em silêncio. Apressadamente, respondeu e acelerou o passo para alcançá-lo.
Após a interrupção anterior envolvendo o protagonista e a protagonista feminina, a jornada seguiu sem maiores incidentes. Eles viajaram para o oeste e depois para o fundo do mar, onde coletaram os seis talos restantes da Orquídea Espiritual da Garça. Apesar de alguns grupos terem tentado emboscá-los pelos tesouros, todos foram prontamente abatidos pela espada de Ling Qingxiao.
Um mês passou num piscar de olhos. Hoje, o grupo chegou ao destino final. Ling Qingxiao derrotou com facilidade a fera marinha guardiã, enquanto Ye Zinan, sempre o operário, cavava no solo para desenterrar a última das orquídeas espirituais da garça.
A essa altura, Ye Zinan já havia aceitado seu papel como faz-tudo da equipe. Ele desenterrava os ingredientes espirituais, limpava o campo de batalha e, por fim, entregava a caixa de jade contendo as orquídeas a Luo Han.
Essa se tornara a regra tácita da equipe: Ling Qingxiao cuidava do combate e dos desafios técnicos, Ye Zinan cuidava do trabalho braçal, e Luo Han era a responsável pelas finanças — embora sua real contribuição fosse mais "comentário" do que "trabalho".
Luo Han flutuava dentro de uma barreira em forma de bolha criada por uma Pérola Repelente de Água, balançando suavemente com as ondas.
— Dez Orquídeas Espirituais da Garça — contou, assentindo com satisfação antes de guardar a caixa de jade em seu espaço de armazenamento. — Perfeito. Nem uma sequer faltando. Missão cumprida.
Após uma breve pausa, Luo Han franziu levemente o cenho.
— Mas... pegamos todas as ervas espirituais. Não é um pouco injusto não deixar nenhuma para os outros?
Ye Zinan hesitou por um momento antes de responder:
— Bem... não é tão ruim assim?
— Então está resolvido — disse Luo Han, sem um pingo de culpa. — A vida nem sempre é um mar de rosas, certo? Estamos apenas ensinando uma valiosa lição: caça ao tesouro não é para ser fácil. Depois que entenderem isso, vão nos agradecer.
Ye Zinan assentiu na hora, concordando, enquanto Ling Qingxiao, ouvindo aquela justificativa descarada, não pôde evitar achar graça da audácia deles. Ele lançou um olhar para Luo Han, um leve sorriso surgindo em seus lábios.
Como a contribuição de Ye Zinan havia sido limitada, ele recebeu apenas duas Orquídeas Espirituais da Garça, enquanto Luo Han ficou com as outras oito. Mesmo assim, Ye Zinan estava radiante. Após ecoar as palavras de Luo Han, perguntou com entusiasmo:
— Vocês estão planejando outra expedição? Se sim, para qual reino secreto vão agora? Se não for muito incômodo... posso ir com vocês de novo?
Depois de viver por 108.000 anos, Ye Zinan finalmente entendeu o significado de uma vitória sem esforço. Ling Qingxiao era absurdamente poderoso, e a sorte de Luo Han era igualmente inacreditável. Não importava o quão raro ou difícil de encontrar fosse o tesouro, se Luo Han dizia que encontraria, ela encontrava.
Fazer parte do time deles era como ganhar na loteria. Esqueça receber apenas um quinto do espólio — Ye Zinan aceitaria alegremente até um décimo.
Ele não estava interessado em nenhuma "lição valiosa de vida". Tudo o que queria era seguir Luo Han e Ling Qingxiao... e pegar carona até a glória.
0 Comentários