Capítulo 2: O Segundo Protagonista Masculino

 

Luo Han pôde sentir claramente um par de olhos a observando — olhos sem emoção, frios e desolados. No momento seguinte, ele ergueu a espada, sem demonstrar alegria nem tristeza, e a brandiu em sua direção.

A energia da lâmina irrompeu com força, levantando poeira e destroços enquanto rasgava a paisagem. Luo Han sentiu o vento cortante criado pelo golpe açoitar seu rosto. Felizmente, justo nesse instante, o vórtice temporal se fechou.

Atrás do vórtice que desaparecia, uma montanha rugiu ao desmoronar, partida ao meio pelo golpe.

Escondida no túnel temporal, o coração de Luo Han disparava. Depois de um tempo, ela pressionou a mão contra o peito e exclamou:

— Que susto! Por que ele tentou me acertar?!

Ela observava a paisagem ao seu redor retroceder rapidamente: a terra calcinada voltava a se encher de gado e ovelhas, árvores gigantescas transformavam-se em finos caules de grama, o vasto mar dava lugar a campos agrícolas, e homens e mulheres idosos voltavam a ser crianças aprendendo a falar. O tempo fluía para trás, revertendo tudo como se nunca tivesse acontecido.

O poder espiritual combinado dos ancestrais era imenso, permitindo que Luo Han escolhesse com facilidade para onde queria ir. Depois de pensar um pouco, percebeu que tudo precisava ser resolvido na origem. Decidiu voltar ao começo e impedir que Ling Qingxiao — aquele canalha de pai — trocasse suas identidades.

Enquanto Luo Han esperava pacientemente o tempo retroceder, ficou surpresa ao notar que, pouco tempo depois, o túnel temporal começou a tremer. O ambiente ao redor tornou-se cada vez mais instável, indicando claramente que o túnel estava prestes a colapsar.

Com mais um ataque violento, o túnel se retorceu, e Luo Han foi arremessada para fora da passagem temporal com um arquejo.

— Mas que droga, por que você tá me perseguindo?! — gritou Luo Han ao ser lançada de repente para fora do túnel. Cerrou os dentes de frustração, pois agora finalmente entendia por que o casal protagonista foi forçado a usar técnicas proibidas. Mesmo com os poderes do Dao Celestial, eu tô levando uma surra que nem minha mãe me reconheceria.

Luo Han ficou parada por um momento para se recompor, e enfim teve presença de espírito para avaliar seu entorno. Estava em um abismo completamente escuro — ao olhar para cima, não havia fim visível, e à frente, a escuridão se estendia infinitamente.

Ao seu redor havia penhascos íngremes e estéreis, sem sinal de qualquer ser vivo. Uma sensação de mau presságio tomou conta dela. Será que fui jogada na lendária área proibida do reino imortal, o Abismo da Desolação, de onde ninguém retorna?

Luo Han sentiu uma tontura. De acordo com o enredo que tinha lido mais cedo, quando Ling Qingxiao caiu no Abismo da Desolação, ele já havia suportado mil anos de abuso por parte das mães — biológica e adotiva —, e a protagonista ainda tinha lhe dado o golpe final. O Senhor das Trevas já havia sido totalmente consumido pela escuridão. O que eu poderia fazer agora?

Luo Han permaneceu ali, frustrada, quebrando a cabeça — sinceramente, preferia estar fazendo prova. A Árvore Bodhi havia dito que o Pai Luo e a Mãe Luo — vamos chamá-los assim por enquanto, seus pais adotivos da era moderna — haviam lhe criado com muito cuidado por anos. Nessa altura, Luo Han já deveria ser uma Dao Celestial iniciante, certo?

Mas ela hesitava. A verdade é que passou toda a vida estudando em escolas humanas. Seus dezoito anos haviam sido preenchidos apenas com apostilas, livros e provas. Ela nunca sequer ouvira falar de nada relacionado ao Dao Celestial.

Na prática, foi criada em isolamento. Não sabia dizer se seus pais adotivos simplesmente não tiveram chance de ensiná-la ou se, no fundo, só acharam muito trabalhoso criar uma criança e decidiram deixá-la se virar no mundo humano.

Parecia ser o segundo caso.

Luo Han soltou um longo suspiro. Mas, a essa altura, reclamar não adiantava mais. Respirou fundo, se recompôs e decidiu explorar os arredores.

Pelo menos, precisava localizar seu alvo: Ling Qingxiao.

O fundo rochoso do abismo era traiçoeiro, e Luo Han teve dificuldade para seguir em frente. Não fazia ideia de quanto tempo havia se passado; suas pernas doíam, e ainda assim não havia encontrado nenhum sinal de vida.

Ela parou, soltando um suspiro exausto.

— Onde é que ele pode estar...?

De repente, uma sensação invisível de perigo surgiu por trás dela. Luo Han não teve tempo de reagir antes que seu corpo se movesse instintivamente para trás. Uma rajada de vento cortou o espaço onde ela estava segundos antes, deixando marcas profundas na parede de pedra atrás dela.

O vento, tendo perdido o alvo, mudou de direção e investiu contra Luo Han mais uma vez.

O suor frio escorria pela testa de Luo Han. Que tipo de lugar amaldiçoado era esse, onde até o vento parecia ter vontade própria? Seus sentidos estavam estranhamente aguçados ali; embora o vento fosse invisível, ela sabia instintivamente de qual direção ele vinha.

Luo Han se esquivou de maneira desajeitada várias vezes, mas os ataques do vento tornavam-se cada vez mais frequentes e difíceis de evitar. Uma rajada passou por seus cabelos por um triz — ela mal conseguiu desviar, mas perdeu o equilíbrio e caiu no chão.

As pedras irregulares perfuraram suas costas com dor aguda, mas ela não teve tempo de se preocupar com os ferimentos. Ao tentar se levantar, uma dor lancinante atravessou seu tornozelo, fazendo-a estremecer de agonia.

Acabou. Luo Han soube no mesmo instante que estava perdida. Viu o vento se acumulando novamente, prestes a desferir o golpe final. Naquele momento crítico, tudo pareceu desacelerar. Seus olhos se arregalaram à medida que o perigo se aproximava, os fios de cabelo já se levantando com a força da rajada. Quando estava prestes a ser atingida, um som metálico soou — ding — e uma barreira azul-gelo surgiu diante dela. O vento colidiu com a barreira, criando rachaduras como teias de aranha em sua superfície.

O escudo de gelo se desfez em minúsculos pontos de luz, frios ao toque ao roçarem sua pele. Imediatamente depois, um feixe de energia cortante passou zunindo, fatiando o vento ao meio com precisão.

A rajada se dispersou, pairando por um instante diante de Luo Han antes de hesitar e se desfazer, desaparecendo no ar silenciosamente.

Luo Han finalmente soltou o fôlego preso no peito, aliviada por estar segura — pelo menos por enquanto. Rapidamente se virou, ansiosa para ver quem havia a salvado.

Na penumbra, ela viu uma figura envolta em várias camadas de vestes brancas. Infelizmente, ele estava gravemente ferido, e as roupas outrora imaculadas estavam manchadas de sangue. Ele permanecia entre as pedras pontiagudas no fundo do desfiladeiro, empunhando a espada — uma visão quebrada, mas de uma beleza estonteante.

Por um instante, Luo Han ficou paralisada, hipnotizada pela cena. Mas então, a ponta da espada tremeu. O homem que acabara de salvá-la agora apontava a lâmina diretamente para ela, sua voz rouca e gélida:

— Quem é você?

Luo Han o encarou, atônita, por um longo momento antes de finalmente conseguir falar:

— Eu sou Luo Han.

Ela não esperava que, no intervalo de poucos minutos, acabaria sendo ameaçada com uma espada duas vezes pelo próprio homem que procurava.

Mantendo a voz o mais calma possível, acrescentou:

— Eu não vim fazer mal. Estou aqui para te ajudar. Você poderia, por favor, abaixar essa espada? Tô começando a desenvolver um trauma com essa pose.

Ela ainda se lembrava com nitidez do momento antes de ser sugada pelo vórtice temporal. Ling Qingxiao havia olhado para ela com aquela expressão calma e indiferente, antes de erguer a espada. Com um único golpe, a terra se partiu, montanhas desabaram e o ar se encheu de destroços. Na época, ele estava nas nuvens, alto demais para que ela visse seus traços com clareza. Mas aquele olhar... jamais esqueceria.

Não havia emoção, nem alegria, nem tristeza, nem desejo.

Apenas a vontade de matar.

Embora fosse o primeiro encontro deles, o modo como ele apontava a espada para ela tinha exatamente a mesma aura do homem nas nuvens. Luo Han não podia se enganar — reconheceu-o na hora. Era Ling Qingxiao, o vilão supremo que traria calamidade ao mundo e quase destruiria o céu e a terra.

Ela só não esperava que o grande Senhor das Trevas fosse tão estonteante — etéreo, frio, irradiando um brilho distante. Sob aquele olhar penetrante, Luo Han não ousava se mover. E, ainda assim, num momento tão crítico, não conseguiu evitar o pensamento: Com o Senhor das Trevas sendo assim, por que a heroína escolheu o outro? Por que tanta devoção ao protagonista?

Segundo a linha do tempo, Ling Qingxiao havia acabado de ser abandonado por todos os que amava, e recebera um golpe fatal da heroína, caindo no abismo. Parecia que sua queda nas trevas e o ódio pelo mundo começavam exatamente naquele instante.

Luo Han se perguntava se havia chegado a tempo. Se Ling Qingxiao já estiver completamente consumido pela escuridão e ainda tiver a intenção de destruir o mundo, o que eu poderia fazer? Como encarnação do Dao, ela estava ligada à vitalidade dos seis reinos, florescendo enquanto a vida prosperasse. Por outro lado, se o mundo mergulhasse no caos e a população fosse dizimada, sua própria existência não duraria muito.

A Árvore Bodhi havia deixado tudo muito claro quando a enviou de volta: eles só tinham tempo de abrir o portal temporal uma única vez. Se Luo Han não conseguisse impedir Ling Qingxiao e ele acabasse destruindo o mundo, todos enfrentariam a ruína juntos. Se os céus deixassem de existir, de onde viria o Dao?

Luo Han não ousava se mover e tentou argumentar com Ling Qingxiao:

— Eu juro, estou aqui para te salvar. Por favor, abaixe essa espada e podemos conversar com calma.

Ling Qingxiao não se mexeu, a ponta da espada permanecendo perfeitamente imóvel. Ele a observava com frieza. Ela havia surgido de repente na beira do penhasco, vestida com roupas caras, mas claramente não possuía nenhuma habilidade de cultivo. Mesmo naquele momento entre a vida e a morte, não invocara sequer um traço de energia espiritual.

Ou era realmente impotente, ou estava fingindo muito bem.

Impassível, Ling Qingxiao perguntou com voz gelada:

— O que exatamente você veio fazer aqui?

— Eu só quero te salvar, de verdade — respondeu Luo Han, já quase chorando. — Você precisa acreditar em mim, eu vim por você.

Vendo que o Senhor das Trevas continuava inabalável, Luo Han estendeu a mão com hesitação, revelando seus pontos vitais diante dele.

— Se não acredita em mim, pode checar meu pulso. Eu não tenho cultivo nenhum, não tenho como te machucar.

Depois de tanta sinceridade, até uma pedra devia se comover, pensou ela. Para sua surpresa, Ling Qingxiao realmente liberou um fio de energia espiritual, conduzindo-o por seus meridianos e fazendo circular pelo corpo inteiro.

Luo Han ficou muda na hora. Com o nível de desconfiança que Ling Qingxiao tinha no momento... ainda existia alguma chance de impedir sua transformação sombria?

Conforme sua energia espiritual percorria o dantian e os meridianos de Luo Han, ele confirmou que não havia nenhum vestígio de cultivo. Ficou genuinamente surpreso — no reino celestial, muitos bebês já começavam a absorver energia espiritual desde o nascimento. Somente os mortais não possuíam nenhum traço de energia refinada no corpo.

Mas por que uma mortal apareceria viva no Abismo do Espírito Absoluto? Ainda há pouco, enquanto ela se esquivava do vento feroz, sua agilidade superava a de um humano comum.

Embora houvesse muitas dúvidas ao redor daquela mulher, era fato que ela não tinha cultivo e, por ora, não representava ameaça. Ling Qingxiao recolheu a espada, sem querer manter qualquer contato, e se virou para ir embora.

No entanto, já estava no limite de suas forças; o esforço para proteger Luo Han do vento havia drenado toda sua energia espiritual. Após apenas dois passos, seus órgãos internos se reviraram, os meridianos ardiam de dor, e a área onde o núcleo de dragão fora arrancado parecia que jamais se acalmaria. Até falar com Luo Han já exigira mais do que ele podia oferecer.

Agora, não conseguia mais sustentar o próprio corpo e, de repente, desabou no chão.

Luo Han não esperava que, instantes atrás, o Senhor das Trevas que a ameaçava com uma espada agora estivesse caído. Cerrou os dentes apesar da dor e se levantou, aproximando-se com cuidado de Ling Qingxiao.

— O que aconteceu com você?

Ainda incerta se chegar perto demais resultaria num golpe, ela se surpreendeu ao ver um fraco brilho emergindo do corpo dele. Em meio aos escombros, uma cauda de dragão prateada surgiu, cintilante, coberta de feridas.

Luo Han ficou em silêncio por um bom tempo antes de murmurar, atônita:

— Mas que diabos...

Na beira do abismo sombrio, aquela beleza etérea jazia inconsciente sobre as pedras irregulares, com a metade inferior do corpo transformada em uma longa cauda de dragão. À luz tênue, ela reluzia em fragmentos prateados, como se fosse feita de neve e luar.


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