Capítulo 23


 Luo Han acreditava firmemente que as pessoas deviam conversar mais e fazer mais amigos — passar tempo demais sozinha transformava qualquer um em esquisitão.

Pegue Ling Qingxiao, por exemplo.

A biblioteca estava estranhamente vazia. Estantes altíssimas se alinhavam em fileiras impecáveis, os livros perfeitamente organizados em suas prateleiras. A luz do sol atravessava as janelas altas, formando feixes finos por onde partículas de poeira flutuavam preguiçosamente no ar.

Com um bufar desafiador, Luo Han abriu um livro. É só um livro, não é? Livro é livro, seja em que mundo for. Acham mesmo que eu não sei ler?

Determinada, concentrou-se no texto por um tempo — mas logo a dúvida começou a se instalar. Os livros do mundo da cultivação não tinham nada a ver com os da era moderna.

Deixando de lado o estilo de escrita estranho e o formato incomum, as filosofias crípticas sobre Dao e não-Dao, Céu e não-Céu, faziam pouquíssimo sentido. Luo Han estudou com afinco por um tempo que pareceu uma eternidade, apenas para perceber, em desespero, que ainda estava presa no prefácio.

As cadeiras da biblioteca eram rígidas e solenes, sem o menor conforto. Depois de ficar sentada ereta por muito tempo, uma dor surda começou a se espalhar pelas costas. Ela se remexeu, inclinando-se de lado. Não ajudou. Ajustou de novo, meio reclinada. Continuava desconfortável.

A princípio, Ling Qingxiao permanecia firme como uma montanha, impassível diante da inquietação dela. Mesmo quando ela se torcia de um lado para o outro, ele apenas franzia levemente a testa, mantendo a compostura.

Mas no momento em que Luo Han se estirou sobre a mesa, ele não aguentou mais — seu senso obsessivo de ordem foi levado ao limite.

Ergueu o olhar e lançou um fio de energia espiritual na direção de Luo Han. Assustada, ela ergueu a cabeça e encontrou o olhar severo de Ling Qingxiao.

— Sente-se direito.

Agora até postura ele vai implicar? Luo Han resmungou por dentro, endireitando-se com má vontade e se esparramando na cadeira, com o queixo apoiado numa das mãos. Folheando preguiçosamente as páginas, murmurou:

— Tem energia espiritual aqui — não é como se meus olhos fossem estragar de tanto ler.

— Esse não é o ponto — disse Ling Qingxiao, sem saber se ria ou se suspirava. — Buscar conhecimento exige a atitude certa.

Luo Han assentiu com distração — claramente, não levou as palavras dele a sério. Virou mais algumas páginas, só para encontrar discussões filosóficas abstratas e incompreensíveis. Completamente entediada, soltou um longo bocejo.

Ling Qingxiao havia chegado ao seu limite. Com um suspiro, perguntou por fim:

— O que você realmente quer fazer?

— Estou cansada.

Ele esperou pacientemente pelas próximas palavras.

— Então? — disse.

— Quero brincar no meu tablet.

Claro. Era óbvio que isso viria.

Ling Qingxiao estava inclinado a recusar de imediato. Ela nem sequer tinha terminado um único pergaminho — mal passou da segunda página, nem o prefácio havia completado — e já queria uma pausa?

— Não — disse, firme. — Você ainda não cumpriu sua tarefa. Termine a introdução primeiro.

Luo Han afundou-se, desanimada, na cadeira enorme. Olhou para as páginas por um instante e depois desistiu completamente, bocejando com resignação. Deixou-se cair contra o encosto, fechando os olhos como se fosse meditar.

Ling Qingxiao mal conseguia suportar a visão daquela postura desleixada. Mas o decoro impedia que ele simplesmente a endireitasse à força, então teve que suportar em silêncio o próprio desconforto.

Depois de uma longa pausa, soltou um leve suspiro.

— Só desta vez. Não espere que se repita.

Luo Han se endireitou na hora, ativou a pulseira e mergulhou feliz no seu mundo online.

Irritar um perfeccionista era fácil demais.

Com um sorriso satisfeito, ela abriu a página de notícias do Dao Celestial e começou a rolar rapidamente com os dedos. Já fazia um dia inteiro — era hora de conferir o que andava acontecendo pelos Seis Reinos.

Luo Han começou pelo Reino Humano, puxando um gráfico populacional para analisar de perto a taxa de natalidade dos humanos. Embora imortais e demônios tivessem grande presença nos Seis Reinos, os humanos ainda eram, de longe, a raça mais numerosa — esse era seu público-alvo principal.

Ela acessou os dados das nações com quedas bruscas na natalidade e logo encontrou os motivos: guerras ou desastres naturais. Ampliando os pontos do mapa, confirmou que não havia forças demoníacas em ação — era apenas o ciclo natural de ascensão e queda. Diante disso, perdeu o interesse e passou para o próximo assunto.

Ela era o Dao Celestial — imparcial e absoluto, justa e indiferente ao mesmo tempo.

Para ela, todos os seres vivos eram iguais. Imortais, demônios, humanos, animais, até as árvores e a grama — todos tinham o mesmo peso aos seus olhos. Não interferiria no nascimento, envelhecimento, doença ou morte dos mortais, nem na ascensão e queda de dinastias. Desde que nenhuma força externa rompesse o equilíbrio, os triunfos e fracassos de qualquer espécie não diziam respeito a ela.

Isso era seleção natural — sobrevivência do mais apto.

Depois de confirmar que seu domínio central estava estável, Luo Han voltou sua atenção para as questões ambientais do Reino Imortal. Os imortais buscavam a cultivação, e era natural que colhessem ervas espirituais e elixires para auxiliar no progresso. No entanto, tudo tinha limite — a extração excessiva acabaria esgotando as terras abençoadas, obrigando seu fechamento.

Da questão do envelhecimento populacional à preservação ambiental, Luo Han então se viu preocupada com a vida amorosa de certos reis demônios. Alguns ainda estavam sem filhos — seria por escolha ou havia alguma questão mais profunda impedindo a procriação?

Depois de vasculhar todos os seis reinos, ela sentiu uma satisfação tranquila. Ótimo. O mundo está em paz. Nenhuma crise grave surgiu hoje.

Mais um dia tranquilo.

Sem desastres repentinos para resolver, Luo Han seguiu para suas tarefas diárias. Recebia incontáveis orações todos os dias — tal como imperadores mortais que eram bombardeados com petições. Ignorá-las podia significar deixar passar algo importante, mas lê-las era um fardo, especialmente quando metade era do tipo "Você já comeu hoje?"

Luo Han abriu a interface de orações com relutância, apenas para quase ficar cega com a enxurrada de mensagens. Com um suspiro cansado, abriu o filtro e classificou as preces por prioridade nacional.

A primeira era de um sacerdote fazendo uma adivinhação. O rei de seu reino estava prestes a iniciar uma campanha militar, e o sacerdote buscava um presságio dos céus. Luo Han enviou um sinal de má sorte sem hesitar. Chega de guerra. Foquem na agricultura e aumentem a população — isso sim é útil.

A segunda vinha de um país assolado por seca, pedindo chuva. Luo Han abriu o mapa e viu que nuvens de tempestade já se formavam sobre a região. Pela velocidade do vento, a chuva chegaria à capital em cinco dias. Sem necessidade de interferência. Ela rapidamente descartou o pedido.

O terceiro era de um imperador idoso pedindo imortalidade. Luo Han verificou seus registros de governo — totalmente incompetente. Nenhuma conquista digna.

Negado. E, aliás, o Céu quer te xingar.

Ela passou os olhos por mais alguns — trivialidades sem fim. Um deles, inclusive, era de um imperador no Templo do Céu, perguntando se devia tornar a mãe do príncipe herdeiro a imperatriz ou promover sua concubina favorita.

Sério? Você está mesmo me perguntando isso? Tem ideia de como o Dao Celestial está ocupado?

Depois de processar todas as preces de templos e governos, o coração jovem de Luo Han já estava exausto. Com expressão apática, ampliou o filtro para ver os desejos do povo comum.

No instante seguinte, foi quase cegada pela quantidade de orações douradas brilhantes pedindo riqueza.

Comparadas às petições bizarras e egoístas daqueles imperadores desgraçados, as preces do povo eram surpreendentemente simples. Setenta por cento pediam riqueza, vinte por cento filhos, e os dez por cento restantes, amor.

Dourado para riqueza, vermelho para filhos, rosa para romance — fácil de distinguir. Luo Han marcou todas as mensagens douradas como "lidas" de uma vez, passou os olhos pelas vermelhas com mais atenção e tratou as rosas como fofoca para entretenimento.

Ela filtrava mecanicamente os pedidos por filhos, ocasionalmente concedendo um ao acaso — o gênero, deixava para o destino. Depois de um tempo, não pôde evitar se perguntar:

Será que eu reencarnei como Deusa da Fertilidade?

Uma oração em particular chamou a atenção de Luo Han. Veio da esposa de um rico latifundiário. A mulher havia acabado de abandonar sua filha recém-nascida e agora estava ajoelhada, fraca, no templo, rezando fervorosamente:

— Ó céus, tenham piedade! Concedam-me um filho, eu imploro! Se alguma alma errante aí fora puder me ouvir e estiver disposta a renascer em meu ventre, toda a imensa fortuna da nossa família será sua. Mas tem que ser um menino. Se outra menina nascer... bem, vocês já viram o que aconteceu com a última.

Luo Han não conseguiu conter uma risada exasperada. Tá bom. Tá tão desesperada por um filho homem? Pois eu vou realizar seu desejo.

Ela vasculhou o submundo e encontrou uma alma destinada a sofrer três vidas de retribuição cármica — e a enviou direto para o ventre da esposa do latifundiário.

Esse espírito havia sido um predador cruel em sua vida anterior, vitimando mulheres inocentes e destruindo três vidas. Seu destino estava selado — três reencarnações de sofrimento, dificuldades e desgraça para pagar por seus pecados.

A esposa do latifundiário havia abandonado sua filha recém-nascida. Embora não tivesse tirado a vida da criança com as próprias mãos, ainda assim cometera um pecado grave. Dar-lhe um filho destinado à ruína, a dilapidar a fortuna e arrastar os pais para o infortúnio era simplesmente o karma agindo — um pecado pago com outro.

Em seguida, Luo Han conferiu o estado da bebê abandonada. Felizmente, alguém já a havia acolhido, poupando-a de morrer congelada nas ruas. Com um deslizar de dedo, a situação atual da criança apareceu diante dela.

A família que havia resgatado a bebê não tinha muitos recursos. Pelas imagens no Espelho Onisciente, Luo Han pôde ver a casa — uma humilde cabana de palha. Um avô idoso dependia deles, e já tinham três filhos para alimentar.

A mãe, vestindo um simples tecido azul, repreendia o marido por ter trazido mais uma boca para sustentar, mesmo enquanto preparava cuidadosamente uma papa rala para a bebê.

Luo Han suspirou. Uma família como essa, já lutando para sobreviver, teria todos os motivos para recusar. E ainda assim, ao se depararem com uma criança indefesa abandonada no frio, escolheram a compaixão, cerraram os dentes e a acolheram.

Comparada a eles, a mãe biológica da bebê era a própria definição de indignidade.

Más ações nunca ficam sem castigo. Se você se desvia do caminho correto, o céu não estará a seu favor.

Luo Han rebaixou a fortuna da família do latifundiário, transferindo a sorte para a bebê abandonada.

Aonde quer que essa criança vá, a prosperidade a seguirá.

Depois de lidar com mais alguns casos parecidos, Luo Han percebeu que seu humor estava começando a azedar. Olhou para o número de orações não lidas e ficou horrorizada ao perceber que, por mais que processasse, as novas chegavam numa velocidade ainda maior.

Isso significa que meu trabalho nunca vai acabar?

Foi nesse momento que Ling Qingxiao, que vinha observando seus suspiros e caretas dramáticas, bateu de leve na mesa.

— Chega. O tempo acabou.

— Eu não tô brincando — retrucou Luo Han, indignada. — Eu tô trabalhando!

Ling Qingxiao a observou em silêncio, seu olhar afiado e onisciente, mas optou por não questionar mais nada. Luo Han achava esse arranjo bastante aceitável — podia usar o tablet à vontade, e Ling Qingxiao não perguntava nem se metia. Às vezes, até a acobertava discretamente. Já que ele permanecia calado, ela também não via motivo pra investigar o que exatamente ele sabia. Enquanto nenhum dos dois dissesse nada, o frágil equilíbrio se mantinha.

Como recém-chegada, Luo Han às vezes tinha dificuldade de distinguir verdades de mentiras só com uma frase. De vez em quando, recorria a Ling Qingxiao para confirmar.

— Existe um rio chamado Danjiang no Condado de Guangping, Estado de Chu, nas Dezesseis Províncias de Donglin?

— Sim — ele respondeu. — Nasce no Monte Qingwu, atravessa dez reinos humanos. É o recurso hídrico mais vital de Donglin.

Luo Han assentiu e continuou:

— Se o curso superior fosse bloqueado, as regiões abaixo ficariam sem água?

Sem nem levantar os olhos, Ling Qingxiao respondeu:

— Sim. O rio Danjiang nasce em trechos estreitos e de fluxo rápido do Monte Qingwu. Conforme desce, se alarga e abranda. Donglin tem apenas esse grande rio, e como não há um poder central forte para regulá-lo, os pequenos estados frequentemente disputam os direitos sobre a água. Se um dique fosse construído a montante para redirecionar o rio, isso prejudicaria seriamente as regiões a jusante.

— Ah — Luo Han finalmente entendeu. Os camponeses a jusante não estavam mentindo em suas súplicas. O reino mortal dava grande importância a rituais e sacrifícios. Como dizia o ditado, os maiores assuntos de uma nação estão no culto e na guerra — e o primeiro caía sob sua jurisdição.

A menos que fossem explicitamente dedicados aos ancestrais, todos os sacrifícios — ao céu, às montanhas, aos rios — acabavam sob responsabilidade de Luo Han.

Agora que tinha confirmado que os camponeses não estavam mentindo, ela precisava intervir na questão do Danjiang. Ela nunca interferia no ciclo natural de vida e morte, mas o redirecionamento artificial de um grande rio, um ato que afetava incontáveis vidas e violava a ordem natural, era inaceitável.

Depois de enviar um aviso profético em forma de sonho ao sacerdote da nascente do rio, Luo Han finalmente encerrou suas tarefas do dia. Ao levantar os olhos, viu Ling Qingxiao ainda absorto na leitura, a postura impecavelmente ereta, vestes brancas caindo sobre ele como camadas de neve pura.

Luo Han olhou para a posição rígida e perfeita dele, depois para sua própria forma largada e preguiçosa, e de repente compreendeu a diferença fundamental entre uma pessoa comum e um ser absolutamente fora do padrão.

Com aquele nível assustador de disciplina e eficiência, mesmo que Ling Qingxiao não estivesse cultivando a imortalidade, ainda assim dominaria qualquer área que escolhesse.

Ele até conhecia de cor a topografia de uma província remota no reino humano — será que o cérebro dele funcionava igual ao das outras pessoas?

Dito isso, ter Ling Qingxiao por perto como uma enciclopédia ambulante tornava as tarefas diárias de Luo Han muito mais fáceis. Afinal, ela nem lembrava os nomes dos Trinta e Seis Céus do reino celestial — esperar que desse conta sozinha das trivialidades intermináveis dos Seis Reinos era simplesmente irreal.

Como Ling Qingxiao não a forçou a estudar naquele dia, Luo Han, já esquecendo mágoas passadas, até sentiu um pouquinho de gratidão por ele.

— Valeu. Você tem algum desejo?

Ling Qingxiao nem levantou a cabeça.

— Não.

O orgulho de Luo Han se inflamou. Ela já tinha visto CEOs tiranos na vida passada distribuindo cartões pretos ilimitados como se fossem balinhas — será que ela, o Dao Celestial, ia ter menos imponência do que isso? Inaceitável. Insistiu:

— Vai, se tiver alguma coisa que queira, pode fazer um pedido.

Ling Qingxiao achou aquilo curioso. Fechou o livro, os dedos repousando suavemente sobre a capa, e com um leve sorriso, perguntou:

— E depois?

Luo Han flagrou o sorriso dele novamente. Embora discreto, era inegavelmente mais genuíno do que aquele breve sorriso da manhã.

Brevemente ofuscada pela beleza dele, ela se perdeu no que estava dizendo.

— Uh... Se quiser alguma coisa, pode fazer um pedido. Vai que acontece, né. Mas, assim, nem todo desejo pode ser realizado — ainda tem regras, afinal.

Assim que terminou de falar, Luo Han percebeu o quanto tinha soado pouco convincente. Qualquer coisa que Ling Qingxiao considerasse digna de um pedido certamente seria extraordinária.

Desejos comuns não precisariam de oração. E os extraordinários... bem, provavelmente ela não conseguiria realizá-los.

No fim das contas, tinha falado um monte de nada.

Determinada a salvar sua dignidade como o todo-poderoso Dao Celestial, Luo Han logo acrescentou:

— Mesmo que não se realize, pelo menos você vai ficar mais sortudo.

— Mais sortudo? — Ling Qingxiao achou aquela criaturinha engraçada — às vezes imprevisível, às vezes ingênua de forma adorável. O sorriso leve nos lábios dele esmoreceu um pouco à medida que ele conteve a diversão. Agradecia o gesto, mas isso não significava que a deixaria escapar impune.

— Não conte com a sorte — disse, impiedoso como sempre. — Já que terminamos aqui, vá estudar. Eu não esqueci disso.


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