Dentro do salão, o som nítido de contas de vidro tilintando ecoou enquanto as criadas levantavam a cortina de miçangas. Uma brisa perfumada soprou suavemente quando os atendentes escoltaram Su Yifang até a câmara interna. As leves espirais de fumaça de incenso ondulavam no ar.
Arrastando a longa e ornamentada barra de sua túnica, Su Yifang se acomodou no divã. As criadas imediatamente se aproximaram — retiraram a bandeja de frutas, reabasteceram o chá e começaram a abaná-la delicadamente.
Ela tomou um gole lento do chá espiritual e, com um tom tranquilo, perguntou:
— A fera foi capturada?
— Ela foi contida com a Corda Seladora de Demônios. O patriarca e alguns anciãos estão inspecionando os terrenos proibidos. Em breve, a fera será selada novamente.
Su Yifang assentiu. Quando Ling Xianhong partiu, a notícia da fuga da fera acabara de chegar. Ela esperava um dia inteiro de caos, mas tudo havia sido resolvido muito mais rápido do que imaginara.
— Contanto que seja selada de novo, é o que importa — comentou. — Deixá-la solta por um único dia já causaria problemas incalculáveis — as pessoas nem ousariam sair de casa. Quem subjugou a fera? Consegui-la capturar tão rapidamente... é alguém bastante capaz.
A criada hesitou por um breve instante antes de baixar o olhar e responder:
— Foi o segundo jovem mestre.
A expressão de Su Yifang mudou instantaneamente.
— Ele?
— Sim.
Su Yifang ficou em silêncio. Não sabia bem por quê, mas antes que sua razão pudesse alcançá-la, perguntou de repente:
— E o primogênito?
— O jovem mestre mais velho também está no Portão Wentian. Porém, está ferido e incapaz de se esforçar, então o segundo jovem mestre assumiu a liderança.
Su Yifang soltou um leve "ah", sem confirmar nem negar seus pensamentos sobre a explicação. Era verdade que Ling Zhongyu havia acabado de ter a mão recolocada e não poderia lutar. Mas também era verdade que Ling Qingxiao havia subjugado a fera sozinho.
Pensando por esse ângulo, a lesão de Ling Zhongyu parecia quase... oportuna. Se ambos estivessem em plena forma — mesmo pai, mesmo sangue — Ling Qingxiao se destacando enquanto Ling Zhongyu não podia... como isso seria justificado?
Uma contradição profunda despertava dentro de Su Yifang. Depois de descobrir que Ling Qingxiao era seu filho biológico, seu ódio por Ling Xianhong e Bai Lingluan atingira o ápice. Desprezava Bai Lingluan e ressentia ainda mais Ling Xianhong. No entanto, quando se tratava dos dois filhos, ainda enxergava instintivamente Ling Zhongyu como seu filho. Em relação a Ling Qingxiao, não sentia nada — nenhuma conexão verdadeira.
Mil anos de afeição não podiam ser apagados. E além disso, Ling Zhongyu não sabia de nada. Era inocente. Claro, Ling Qingxiao também era, mas ele ter decepado a mão de Ling Zhongyu por causa de uma mera disputa... Isso não era reflexo da influência de Bai Lingluan, moldando o seu temperamento?
Embora Ling Zhongyu tivesse alegado ao retornar que havia recuado por não querer lutar contra o próprio irmão, Su Yifang sabia a verdade. Ele havia sido dominado, derrotado, e no fim, Ling Qingxiao cortou-lhe a mão.
Só de pensar no estado de Ling Zhongyu ao retornar do Reino Secreto Biyun, Su Yifang sentia o peito apertar de dor. Depois, Su Yinyue contou em prantos o que acontecera lá dentro, e no momento em que ouviu que Ling Zhongyu havia perdido a mão, uma dor aguda a atingiu no peito, a ponto de tirar-lhe o fôlego.
E tudo aquilo — cada detalhe — era obra de Ling Qingxiao. Ele estava plenamente consciente, completamente lúcido. Fizera aquilo de propósito.
Su Yifang não queria pensar assim sobre o filho que perdera por mil anos. Mas o vínculo de criação e o vínculo de sangue eram inseparáveis, e não importava o quê, o filho que ela havia criado por milênios ainda lhe era mais próximo do que o que lhe fora tirado ao nascer.
Ela já acreditara que Ling Qingxiao fosse o filho bastardo daquela desprezível Bai Lingluan. Só de vê-lo, seu ódio aflorava tanto que desejava arrancar-lhe a carne e despedaçá-lo. Agora que sabia da verdade, mesmo entendendo que Ling Qingxiao havia sofrido, ainda assim não conseguia evitar analisá-lo com olhar crítico.
O temperamento de Ling Qingxiao era, de fato, desagradável. E, a julgar por seu comportamento naquele dia, provavelmente também nutria ressentimento contra ela.
Su Yifang perguntou:
— Onde eles estão agora?
— A senhorita foi ferida pela fera, então o jovem mestre mais velho a levou de volta para se recuperar. Quanto ao segundo jovem mestre... parece que foi à biblioteca.
— À biblioteca? — Su Yifang se surpreendeu. — Por que ele iria lá? Haveria algo na biblioteca relacionado à fera?
— Não tenho certeza — respondeu a criada, balançando a cabeça. — Mas os que estavam na biblioteca disseram que o segundo jovem mestre parecia estar lendo.
— Lendo? — Su Yifang ficou ainda mais espantada. — Num momento como esse, ele consegue se sentar e ler?
A criada não tinha o que responder a isso. O segundo jovem mestre era a lenda de Zhongshan — o que era impossível para os outros, ele sempre fazia com facilidade.
Su Yifang refletiu por um instante, ficando cada vez mais intrigada com aquele filho que parecia tão deslocado, tão alheio a todos ao redor. Com um suspiro, disse:
— Zhongyu ainda é o mais atencioso. Ele e Yinyue cresceram juntos, são como almas gêmeas de infância — diferente do pai dele. Uma pena.
Mas, no fim, ele não era seu sangue.
A criada não ousava responder de forma precipitada. Como poderia se intrometer nos assuntos da senhora? Seja o patriarca ou os dois jovens mestres, nenhum deles era alguém sobre quem ela pudesse opinar. Su Yifang podia amaldiçoar o marido por seu coração volúvel agora, mas quando Ling Xianhong retornasse, ainda seriam marido e mulher — unidos por intimidade e distanciamento. E quanto aos dois jovens mestres, um era seu filho de sangue, o outro a criança que criara — ambos muito mais próximos dela do que qualquer criada jamais seria. Se as servas repetissem as palavras de Su Yifang, seriam elas as punidas.
Continuou abanando Su Yifang, observando cuidadosamente sua expressão antes de falar em voz suave:
— Madame, afinal, a senhora é a esposa legítima, casada por cerimônia formal, e filha legítima da linhagem principal do clã Yinglong de Linshan. O mestre não é um homem sem discernimento — por mais favorecida que outra possa ser, nunca a superará. A senhora é abençoada, tem o apoio forte do clã Linshan e dois jovens mestres fiéis ao seu lado. Sua fortuna perdurará por muito tempo.
Quem era essa "outra" pessoa, estava mais do que claro.
Por ter dado à luz o segundo jovem mestre, Bai Lingluan era chamada por forasteiros de "Senhora Bai". Mas dentro dos aposentos de Su Yifang, ninguém ousava chamá-la assim. Apenas Su Yifang, a esposa legítima, tinha o direito de ser chamada de "Madame".
Su Yifang sempre havia enxergado Ling Qingxiao como um espinho cravado — parte por ciúmes de mulher, parte pela preservação de sua posição.
Os clãs dragão seguiam uma hierarquia rígida, onde a força determinava o status, e os fracos não tinham direito à voz. Embora Su Yifang desfrutasse agora do prestígio de esposa principal, caso o filho de uma concubina se tornasse o novo pilar de poder, ela seria rapidamente destituída, substituída pela concubina que lhe dera tal herdeiro.
A lei da selva — a vitória pertence ao mais forte. Mesmo sua família, o prestigioso clã Linshan, nada poderia fazer. Afinal, seu próprio pai só ascendera como líder de Linshan ao pisar sobre o sangue do herdeiro anterior.
Era por isso que todo patriarca e toda verdadeira potência entre os clãs dragão vinha da linhagem principal. Casamentos entre famílias nobres serviam a dois propósitos: forjar alianças de benefício mútuo e fortalecer o sangue das gerações futuras.
Como resultado, a proeza em combate dos herdeiros legítimos superava de longe a dos bastardos. Cada herdeiro era descendente direto de um vitorioso nas sangrentas lutas internas do clã. Su Yifang sempre se perguntara — ela era de sangue puro Yinglong, seu pai e irmãos eram todos extraordinários. Como Bai Lingluan, uma mestiça de celestial e demônio, podia ter gerado um filho superior ao seu?
A verdade era que não gerou.
Esse pensamento, por si só, trouxe alívio a Su Yifang. Ela desprezava Bai Lingluan e ressentia Ling Xianhong. Mas, no fim das contas, se Ling Qingxiao era realmente seu filho, então a ameaça à sua posição já havia sido resolvida.
Um momento antes, Su Yifang criticava cada ação de Ling Qingxiao com olhos impiedosos, mas agora, tomava como certo que ele estaria ao seu lado.
Criara Ling Zhongyu por mil anos — o vínculo entre mãe e filho era inegável. Naturalmente, ele lhe seria leal. E quanto a Ling Qingxiao, ela era sua mãe biológica. Certamente ele não tomaria o partido de Bai Lingluan, aquela celestial-demônio mestiça e desprezível... certo?
Bai Lingluan sempre havia sido instável com Ling Qingxiao — às vezes gentil, às vezes cruel. Agora que Su Yifang sabia que Bai Lingluan fizera tudo de propósito desde o início, recusava-se a acreditar que Ling Qingxiao pudesse simplesmente engolir tamanha injustiça. Um era o filho que ela havia criado, o outro, o filho que havia gerado — ambos deveriam estar do seu lado.
Convenientemente, Su Yifang ignorava a forma como tratara Ling Qingxiao.
Durante toda a infância dele, raramente recebia os recursos que lhe eram destinados no tempo certo, sendo forçado a depender unicamente da própria capacidade de refinar energia espiritual, em vez de usar recursos externos. E isso era só o começo. Nos primeiros anos, Ling Zhongyu era fraco e adoecia com frequência. Para fortalecer sua constituição, Su Yifang obrigava Ling Qingxiao a doar um tigela de seu próprio sangue todos os meses, usada nos banhos medicinais de Ling Zhongyu.
E esses eram apenas alguns entre inúmeros episódios.
Como matriarca, Su Yifang jamais poderia maltratar abertamente o filho de uma concubina. Tudo era cuidadosamente orquestrado de modo que parecesse que Ling Qingxiao fazia aquilo "por vontade própria". Embora os servos do palácio jamais comentassem, todos sabiam — ao preparar presentes para o segundo jovem mestre, não era necessário escolher os melhores.
Essa situação perdurou até que Ling Qingxiao alcançou o posto de Imortal Espiritual e revelou seu talento e poder extraordinários. Só então as pessoas deixaram de maltratá-lo abertamente.
Quando criança, com os recursos retidos e tendo o sangue drenado com frequência, o progresso de cultivo de Ling Qingxiao era quase idêntico ao de Ling Zhongyu. Todos presumiam que os dois jovens mestres possuíam aptidões semelhantes. Até mesmo Su Yifang achava aquilo estranho — como Ling Qingxiao, com tão pouco, conseguia acompanhar Ling Zhongyu?
Foi só quando ele ascendeu ao nível de Imortal Espiritual — livrando-se de qualquer controle — que seu cultivo disparou numa velocidade espantosa, deixando todos para trás. A princípio, Su Yifang sentiu apenas um desconforto vago. Mas quando Ling Qingxiao alcançou o nível de Imortal Celestial com apenas mil anos de idade, esse desconforto transformou-se em uma sensação avassaladora de perigo.
Ela teve uma premonição: se não conseguisse fazer com que Ling Qingxiao a servisse, então ele não podia continuar existindo.
E assim, forçou-o a destruir o próprio núcleo interno.
Filhos imortais eram raros, e como esposa legítima, Su Yifang não podia ser vista perseguindo diretamente o filho de uma concubina. Mas se Ling Qingxiao se destruísse com as próprias mãos, ele não poderia culpá-la por isso... certo?
Naquele dia, ela usara a vida de Bai Lingluan como ameaça. E, como esperava, Ling Qingxiao permaneceu em silêncio, desembainhou a espada e cravou-a em si mesmo sem a menor hesitação.
Na época, Su Yifang até se surpreendeu um pouco. Não imaginava que seria tão fácil — afinal, pelo que sabia, Bai Lingluan nunca havia tratado Ling Qingxiao particularmente bem.
Ling Qingxiao era um homem de temperamento frio, mas ainda assim era preso às emoções. Qualquer um que lhe tivesse demonstrado um gesto de bondade poderia facilmente mantê-lo cativo.
Su Yifang acreditava ter calculado tudo perfeitamente, mas no fim, ainda assim caiu na armadilha de Bai Lingluan.
Não era de se admirar que Bai Lingluan tenha assistido Ling Qingxiao se mutilar naquele dia sem demonstrar o menor sinal de angústia — ela já sabia de tudo desde o começo!
Aquela mulher desprezível.
O pensamento fez uma pontada aguda atravessar o peito de Su Yifang. Percebendo seu desconforto, a criada apressou-se em massagear-lhe as pernas, murmurando com doçura:
— Madame, por favor, não se deixe abalar com isso. Embora aquela mulher tenha enganado a todos, com isso, cortou completamente os laços com os dois jovens mestres. Pode até parecer que está desfrutando de glória agora, mas está apenas tomando emprestado de um futuro que já não lhe pertence. Contanto que a senhora administre as coisas com sabedoria, com o tempo, ambos os jovens mestres serão só seus.
— Exato — concordou Su Yifang de imediato. — No momento, o mais importante é fortalecer o laço entre os irmãos. Preciso manter os olhos abertos com relação à Bai Lingluan — ninguém faz o papel de vítima tão bem quanto ela.
A criada apressou-se em ecoar o sentimento:
— Sem dúvida. O Segundo Jovem Mestre é profundamente sentimental. Se foi capaz de arrancar o próprio núcleo interno por uma mãe adotiva que o maltratava, então, como mãe biológica, a senhora pode ter certeza de que sua devoção será ainda maior.
Era uma tentativa de bajulação, mas, para sua surpresa, Su Yifang apenas suspirou.
— É o que espero. O que me preocupa é que Bai Lingluan tenha distorcido o seu caráter, fazendo com que ele sinta ciúmes de Chongyu e queira competir com ele a todo custo. Temo que, depois de tanto esforço, acabe criando um lobo ingrato dentro da minha própria casa.
A criada não soube o que responder. Pensou consigo mesma: Ling Qingxiao suportou mil anos de negligência. No dia da tribulação, tanto Su Yifang quanto Bai Lingluan instintivamente protegeram Ling Chongyu. É mesmo tão estranho que Ling Qingxiao sinta mágoa? Ainda assim, ali estava Su Yifang, falando com desprezo de uma criança que havia sido injustiçada por tanto tempo. Mesmo sendo uma mera observadora, a criada não pôde deixar de sentir-se desanimada.
Su Yifang estava num humor raro naquele dia e, de repente, perguntou:
— Diga-me, quando Ling Qingxiao voltar, entre os dois, qual devo priorizar?
Essa era uma pergunta perigosa. Ela acabara de chamar Ling Qingxiao de "lobo ingrato" — quem se atreveria a responder com sinceridade?
Uma das criadas mais velhas deu um passo à frente com cautela:
— Madame, o laço entre mãe e filho não se resume ao sangue — também é construído com o tempo e a convivência. Ambos os jovens mestres são seu sangue. Tratá-los com igualdade seria, sem dúvida, o melhor caminho.
— Que bom que pensa da mesma forma — disse Su Yifang, por fim relaxando, enquanto a tensão desaparecia de sua expressão. — Ambos são minha carne e meu sangue — como poderia permitir que uma simples linhagem apagasse mil anos de vínculo materno? As crianças são inocentes. Chongyu, em particular, é naturalmente filial, nobre de coração, cavalheiresco. É natural que todos o admirem. Mas Ling Qingxiao... ele é retraído demais, extremo demais. Sinto compaixão por ele, mas, honestamente, quem escolheria passar os dias ao lado de alguém tão cheio de rancor? Não fui eu quem causou sua situação, então por que devo suportar essa frieza toda? Se ao menos mudasse seu temperamento, eu estaria mais do que disposta a tratá-lo como meu filho. Mas, se insistir em permanecer assim, o máximo que posso fazer é compensá-lo com bens materiais. Esperar que eu o trate com o mesmo carinho que trato Chongyu? Isso seria impossível.
As criadas murmuraram em concordância, cuidadosas para não dizer mais do que deviam.
Tendo tomado sua decisão, Su Yifang lembrou que Ling Chongyu ainda estava com Su Yinyue, e não pôde deixar de perguntar:
— Yinyue realmente se feriu? É sério?
Ao ouvirem isso, as criadas trocaram olhares desconfortáveis. Uma "doença" dessas em uma jovem dama... quão grave poderia ser? Uma delas respondeu com tato:
— Uma velha enfermidade, nada preocupante.
Su Yifang assentiu. Não precisava de mais explicações — ela entendia perfeitamente. Su Yinyue era filha única do irmão mais velho de Su Yifang. Os clãs dracônicos tinham poucos descendentes, e a família Linshan já havia se conformado com o fato de que ela seria sua única herdeira nesta geração. Por isso, Su Yinyue fora mimada ao extremo, crescendo voluntariosa e sem limites.
Como neste caso — Su Yinyue podia até ter uma constituição frágil, mas ainda assim era uma dragonesa. Como poderia se ferir ou adoecer tão facilmente? Su Yifang conhecia bem sua sobrinha — aquilo, com certeza, era mais uma encenação.
Achava aquilo bastante indecoroso, mas conhecendo as intenções de Su Yinyue, só pôde suspirar, resignada:
— Deixe pra lá. São apenas joguinhos de uma moça jovem. Que ela continue.
Todos sabiam muito bem das intenções de Su Yinyue, e tanto Su Yifang quanto o clã Linshan Su fingiam não ver. Até mesmo Ling Xianhong apenas fechava os olhos.
Embora o Reino Celestial se referisse a todos como Clã dos Dragões, os dragões em si eram divididos em muitos ramos. De modo geral, os que tinham escamas eram chamados Jiaolong, os que possuíam asas eram Yinglong, os com chifres eram Qiulong e os sem chifres, Chilong. Mas os mais antigos e reverenciados de todos eram os Canglong.
Zhongshan era a terra ancestral dos Canglong. Até mesmo o Clã do Dragão Azul — que hoje governava os dragões — era, originalmente, um ramo dos Canglong antes de se separar. Mais tarde, quando um imperador surgiu da linhagem do Dragão Azul, todo o seu clã ascendeu ao poder, mudando-se do Céu Médio para o Céu Superior e reivindicando Kunshan, a terra mais espiritualmente rica, como sua própria. A partir de então, os Dragões Azuis tornaram-se a força dominante entre os clãs dracônicos.
Dadas as antigas tradições do Clã dos Dragões, a ascensão dos Dragões Azuis significou a supressão de todas as outras facções dracônicas. Para proteger seus próprios recursos de serem engolidos, os clãs remanescentes não tiveram outra escolha senão formar alianças por meio de casamentos. Ling Qingxiao era o produto de uma dessas uniões entre os clãs Canglong e Yinglong. Do ponto de vista estratégico e de aprimoramento da linhagem, manter essa aliança entre os dois clãs continuava sendo a escolha mais sensata.
Antes, quando ainda não se sabia que Ling Qingxiao era o verdadeiro herdeiro legítimo, todos haviam incentivado tacitamente a proximidade entre Su Yinyue e Ling Zhongyu. Até os anciãos das duas famílias apoiavam essa união. Mas agora que a verdade havia vindo à tona, embora identidades pudessem ser trocadas, sentimentos não podiam ser redirecionados tão facilmente.
Su Yinyue já havia se apaixonado por Ling Zhongyu, e Su Yifang não conseguia se desapegar do filho a quem dedicara mil anos de afeto. Naturalmente, a aliança da próxima geração — aquela que uniria os recursos dos dois clãs — recairia agora sobre os ombros de Ling Zhongyu.
Como Su Yinyue estava perfeitamente bem, Su Yifang não via motivo para se aprofundar no assunto. Na verdade, ficava mais do que satisfeita em permitir que os dois passassem mais tempo juntos e fortalecessem seu vínculo. De seu assento elevado nos grandes salões, ela até ouvira rumores de que Ling Zhongyu vinha se aproximando de uma certa discípula de talento bastante medíocre.
Os homens da família Ling eram verdadeiramente incompreensíveis. Com tantas jovens nobres à disposição, acabavam se enredando com discípulas inferiores. Ling Xianhong e Bai Lingluan haviam sido assim, e agora até mesmo Ling Zhongyu parecia seguir pelo mesmo caminho.
Su Yifang perguntou:
— E aquela mulher de sobrenome Yun?
— Ela tem se comportado bem — respondeu a criada. — Estava presente no incidente de hoje também. O Jovem Mestre mais velho foi firme e imparcial ao subjugar a besta, e parece que ela se afastou dele por causa disso.
— Hah. — Su Yifang soltou uma risada fria. — Ridículo. Uma criatura insignificante, empoeirada, de uma raça inferior. Fiquem de olho nela. Se tiver o bom senso de recuar e parar de se agarrar a Zhongyu, que seja. Mas se insistir em não enxergar a realidade... então terá apenas a si mesma para culpar pelo que vier.
— Sim, madame — respondeu prontamente a criada. Após um breve momento de hesitação, ela pareceu se lembrar de algo. — Madame, quanto à mulher ao lado do Segundo Jovem Mestre...
Só então Su Yifang se lembrou de que Ling Qingxiao também havia trazido uma mulher consigo. Pelo menos com Yun Menghan, sabiam de onde vinha. Mas quanto à mulher ao lado de Ling Qingxiao — além do nome, não sabiam absolutamente nada. Su Yifang nem sequer sabia como ela se parecia.
Isso lhe causava dor de cabeça. Ela não tinha escrúpulos em reprimir Yun Menghan, que era impotente e viera dos céus inferiores. Mas quanto a Luo Han, cuja origem era completamente desconhecida, não se atrevia a agir de forma imprudente. Depois de ponderar cuidadosamente por um momento, finalmente disse:
— Deixe estar. É raro ele se aproximar de alguém. Que fique.
Ling Qingxiao não tinha obrigações em relação a alianças familiares, então seus relacionamentos pessoais não eram motivo de grande preocupação. Mais importante ainda, Su Yifang não acreditava que Ling Qingxiao fosse do tipo que desenvolvia sentimentos verdadeiros por alguém.
O que tornava o assunto ainda mais irrelevante.
—
A névoa da manhã serpenteava pelo ar. Acima do mar de nuvens, faixas de luz espiritual cintilavam. O sol ainda não havia nascido, mas outro dia já começava em Zhongshan.
Nos campos de treinamento, muitos discípulos de baixa patente praticavam técnicas de espada sob a orientação do líder da seita. Já os discípulos mais avançados não eram obrigados a participar das lições matinais em grupo e podiam organizar seus próprios horários de treinamento.
Yun Menghan havia rompido com Ling Zhongyu. Recusara os talismãs de comunicação dele, forçando-o a ir pessoalmente aos alojamentos dos discípulos. No entanto, toda vez que aparecia, ela ou não estava em casa, ou estava "convenientemente" indisponível — no fim, simplesmente o ignorava.
Após várias tentativas frustradas, Ling Zhongyu perdeu a paciência. Como filho mais velho e ilustre do clã Zhongshan, ele sempre fora reverenciado desde a infância. Para alguém de seu status, ir atrás de Yun Menghan já era uma concessão enorme. Ser rejeitado uma ou duas vezes? Como poderia ele se rebaixar ainda mais para tentar de novo?
Assim, instaurou-se uma guerra fria entre os dois. Yun Menghan sempre seguira os passos de Ling Zhongyu, a ponto de mal ter uma vida social própria. Agora que estava sem ele, sentia-se perdida, sem saber para onde ir. Sem opções melhores, passou a acompanhar as irmãs de seu dormitório, indo onde elas fossem.
Hoje não era diferente. Enquanto Yun Menghan acompanhava suas companheiras até o treino de espada, elas passaram pelo Portão Qianyang. De repente, uma das meninas mais jovens puxou a manga de sua amiga e sussurrou, animada:
— Olhem! Não é o Segundo Jovem Mestre?
Todas as discípulas levantaram os olhos rapidamente. De fato, no topo dos degraus de jade branco, uma figura vestida de branco estava parada na entrada do Portão Qianyang. Suas vestes estavam impecáveis, os cabelos negros escorrendo pelas costas, e a bainha de suas roupas ondulava suavemente na brisa matinal.
Excitadas e nervosas, as discípulas começaram a se cutucar discretamente.
— É ele mesmo! Vejam, meu cabelo está bagunçado?
— Ai, se eu soubesse que o encontraria hoje, teria usado meu novo vestido imortal! O Pavilhão Yiluan acabou de lançar uma túnica encantada — ela espalha pétalas de flores ao caminhar! Gastei uma fortuna nela!
Apressadamente, ajustaram suas aparências enquanto tentavam manter uma postura graciosa e serena. O Segundo Jovem Mestre era conhecido por sua presença etérea, cada movimento seu tão elegante quanto neve ao vento. Ele detestava qualquer atitude espalhafatosa ou vulgar, e nenhuma delas queria parecer indigna diante dele.
Enquanto o grupo de jovens se agitava, Yun Menghan permaneceu entre elas, sentindo-se deslocada.
Ela não esperava encontrar Ling Qingxiao ali. Um estranho turbilhão se formou em seu coração.
O Portão Qianyang ficava no caminho que ela fazia diariamente até o treino de espada. Como vinha saindo com suas companheiras ultimamente, o horário de partida era mais ou menos fixo, o que tornava fácil prever quando passariam por ali.
Ling Qingxiao estava esperando por ela de propósito?
O coração de Yun Menghan bateu acelerado. E ela não era a única com essa suspeita — suas irmãs mais velhas também pareciam pensar o mesmo. Lançaram olhares discretos em sua direção, cada uma alimentando suas próprias suposições. Yun Menghan fingiu não notar, controlando suas emoções enquanto levantava a barra do vestido e começava a subir lentamente os degraus.
Ela havia subido apenas metade quando Ling Qingxiao se moveu de repente. Assustada, ergueu o olhar, a tempo de vê-lo passar por elas sem a menor hesitação.
Seus ombros quase se tocaram ao cruzarem o caminho, mas Yun Menghan apenas captou um vislumbre fugaz de suas vestes brancas impecáveis e de seu perfil gelidamente belo.
Instintivamente, seu olhar o seguiu. Virou a cabeça bem a tempo de ver Ling Qingxiao descendo os degraus e, num piscar de olhos, ele desapareceu no ar. Ainda assim, o frio cortante que ele carregava permanecia ali, e uma aura gélida e penetrante ainda pairava sobre os degraus de pedra.
As discípulas explodiram em murmúrios.
— Ele foi embora? Então não estava esperando a Yun Menghan? Então quem ele esperava?
Ling Qingxiao chegara cedo ao Portão Qianyang e esperara por um quarto de hora inteiro. Agora, ele tinha certeza de uma coisa:
Luo Han havia dormido demais.
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