Capítulo 25


 Mais um quarto de hora se passou antes que Ling Qingxiao retornasse ao Portão Qianyang — e, dessa vez, ele estava acompanhado de uma mulher vestida de branco.

Luo Han parecia completamente esgotada. O vento da manhã só a fazia se sentir ainda mais cansada e lenta.

Zhongshan erguia-se muito acima das nuvens, e como o sol ainda não havia nascido, a brisa do amanhecer estava simplesmente congelante.

Ela olhou para o tempo e quase desabou.

— Mal passou das seis... Você ficou maluco, me arrastando pra fora a essa hora?

— Já é o começo da hora de Mao. Até os discípulos de menor patente já estão terminando suas lições da manhã — respondeu Ling Qingxiao com severidade. — Só dessa vez. Mas, a partir de amanhã, você não pode se atrasar assim. Tem que estar no Portão Qianyang até pelo menos um quarto de hora após o início da hora de Mao.

Luo Han abraçou os braços com força, sentindo que aquele estilo de vida era ainda mais cruel que o terceiro ano do ensino médio. Ela subiu as escadas atrás de Ling Qingxiao, resmungando em voz baixa:

— O sol nem nasceu... isso é cedo demais...

Ling Qingxiao ignorou suas reclamações. Simplesmente ergueu a mão, os dedos longos e pálidos apontando para o leste, e disse calmamente:

— O sol já nasceu.

Luo Han se virou para olhar. O mar de nuvens no leste já estava tingido de carmesim e, num piscar de olhos, um sol redondo saltou por cima das nuvens, como se estivesse esperando o seu sinal. Em instantes, ele surgiu por completo.

Instintivamente, ela ergueu uma das mãos para proteger os olhos da luz intensa. Ao seu lado, Ling Qingxiao abaixou a voz e disse:

— Vamos.

Luo Han assentiu e o seguiu pelos portões de Qianyang.

Como esperado, quando chegaram, os discípulos que praticavam espada já haviam terminado sua lição matinal. Estavam reunidos em pequenos grupos espalhados pela praça. Ao avistarem Ling Qingxiao, alguns cutucaram uns aos outros de longe, mas nenhum ousou se aproximar ou falar com ele.

Diferente dos discípulos comuns, Ling Qingxiao não precisava treinar na praça. Ele tinha seu próprio campo de cultivo particular.

Conduziu Luo Han até a beirada de um penhasco. Quando ela estava prestes a perguntar para onde estavam indo, ele formou um selo com as mãos e — diante de seus olhos — plataformas de pedra começaram a surgir uma após a outra do mar de nuvens. Variando em tamanho e formato, elas formavam um caminho sinuoso em direção às profundezas da névoa. No final desse caminho, flutuava um enorme pedregulho em forma de cone invertido.

Luo Han ficou olhando a cena, surpresa. Depois de invocar a Plataforma da Nuvem Flutuante, Ling Qingxiao deu um passo para trás e indicou para que ela fosse à frente.

Uma pedra flutuante pairava bem na borda do penhasco. Luo Han pisou nela com cautela e se surpreendeu com a firmeza que sentiu. Se não fosse pelo fato de estar claramente suspensa entre as nuvens, juraria que ainda estava em solo firme.

Ao subir na pedra, ela olhou adiante. A próxima plataforma flutuante estava a cerca de um metro e meio de distância. Ela ficou em silêncio.

— ...O que acontece se eu errar o passo?

Ling Qingxiao desativou a barreira e respondeu com calma:

— Você cai, é claro.

Luo Han puxou o ar pelos dentes.

— Você podia ter me avisado antes de eu subir.

Mas Ling Qingxiao, sempre paciente, não a apressou.

— Você aprendeu a técnica de voo. Mesmo que caia, é só voar de volta.

Isso é algo que uma pessoa normal diria?

Luo Han olhou cautelosamente para as nuvens sob seus pés — e instantaneamente sentiu vertigem.

— ...Acho que desenvolvi um novo problema. Medo de altura.

— Não importa — respondeu Ling Qingxiao, com sua habitual indiferença calma. — Isso se cura com prática. Teorias são inúteis sem ação. Ontem você aprendeu a Técnica do Corpo Leve — hoje é o momento ideal para colocá-la em prática.

Ele fez uma breve pausa, então acrescentou no mesmo tom neutro:

— Eu te disse para decorar o encantamento ontem à noite. Decorou, não decorou?

Luo Han quase engasgou. Céus, ela tinha decorado! Mas como poderia imaginar que um dia depois de aprender, já seria jogada direto no campo de batalha?

Ela começou a recitar silenciosamente a Técnica do Corpo Leve na cabeça. Duas vezes. Ainda não se sentia confiante. Ora bolas, ela era o Dao Celestial, caramba. A Árvore Bodhi e sabe-se lá o quê tinham feito um baita esforço para mandá-la de volta pra salvar o mundo.

E se ela escorregasse e morresse pulando pedras? Que fim humilhante seria esse.

Luo Han inspirou. Expirou. Reuniu coragem com todo o cuidado — e permaneceu completamente imóvel.

Até alguém tão paciente quanto Ling Qingxiao começou a vacilar.

— O que está esperando?

— Tô me preparando mentalmente — respondeu Luo Han com toda seriedade. — Isso é questão de vida ou morte. Não posso me dar ao luxo de agir sem pensar.

Ele jamais a vira tão determinada assim nos estudos. Ling Qingxiao soltou um leve suspiro, um pouco exasperado.

— Você vai ficar bem. Eu não deixaria nada acontecer com você.

Ele estava ali do lado — será que ela realmente achava que ele a deixaria cair? Aquilo era só o jeito dele de forçá-la a levar as coisas a sério.

Mas Luo Han parecia demais imersa no papel. Eram apenas dois passos, mas ela avançava como se estivesse atravessando um campo minado.

Só depois de verificar três vezes se tinha memorizado o encantamento corretamente — sem palavras puladas, sem sílabas faltando — é que ela finalmente pulou com cautela.

Como o próprio nome indicava, a Técnica do Corpo Leve fazia o corpo parecer mais leve, permitindo saltos de até dez metros. No mundo moderno, Luo Han tinha uma habilidade física mediana — nada demais, nada de menos, apenas o padrão garota normal da vizinhança.

Mas, dessa vez, com apenas um leve impulso com a ponta do pé, ela flutuou com facilidade sobre o vão de um metro e meio. Não foi mais difícil do que dar um passo comum.

Ela olhou para trás, surpresa. Aquilo... tinha sido bem incrível.

Ling Qingxiao permaneceu calmo na beira do penhasco, sua paciência inabalável. Ele fez um leve aceno com a cabeça, o olhar firme e tranquilizador.

— Não se preocupe. Você vai conseguir.

Com um pouco mais de confiança agora, Luo Han começou a saltar de pedra em pedra. Os vãos entre elas foram se alargando gradualmente, e, antes de cada salto, ela pausava para calcular, avaliar, garantir que conseguiria.

Ela estava, literalmente, encarnando o espírito da sobrevivência: avançar com extremo cuidado.

Era óbvio — essa garota realmente tinha medo de morrer.

Atrás dela, Ling Qingxiao soltou um suspiro quase imperceptível.

Luo Han, porém, não via desse jeito. Na mente dela, não era medo — era precaução. Ela era o Dao Celestial agora. Enquanto os Seis Reinos não desandassem de repente, e enquanto Ling Qingxiao não decidisse acabar com o mundo do nada, ela poderia viver tanto quanto o céu e a terra. Vida eterna, bênçãos infinitas — basicamente um código de trapaça para longevidade cósmica.

Ela não precisava se esforçar ou lutar. Bastava sobreviver, e isso já seria a vitória.

Em resumo, se sua filosofia de vida pudesse ser resumida em uma palavra... seria sobreviver.

Luo Han estava tão concentrada em usar a Técnica do Corpo Leve que não percebeu o quanto já tinha avançado. Só quando olhou ao redor notou o silêncio — sem passos, sem vozes. Assustada, virou-se e percebeu que já havia percorrido metade do caminho.

Cercada por névoa, as nuvens flutuavam preguiçosamente ao seu redor, fazendo as mangas de suas roupas tremularem com o vento. Um desconforto lhe invadiu o peito.

Cadê o Ling Qingxiao?

Lógico, ela sabia que, enquanto ele estivesse por perto, não haveria perigo real. Mas lógica era uma coisa — ver que ele não estava lá era outra. Instintivamente, seu coração disparou.

Ela olhou para a névoa branca sem fim e chamou, hesitante:

— Ling Qingxiao?

Nenhuma resposta. Apenas silêncio.

Justo quando começava a ficar ainda mais inquieta, um estilhaço de gelo disparou da névoa, vindo direto em sua direção. Assustada, Luo Han soltou um grito e ativou imediatamente a Técnica do Corpo Leve, saltando para a próxima pedra flutuante.

Mas antes que pudesse respirar aliviada, outro estilhaço voou — depois outro.

Uma voz fria e calma ecoou das nuvens:

— Concentre-se. Não deixe sua mente vagar.

Luo Han mal conseguiu desviar de outro ataque, tropeçando sobre a próxima pedra. Não teve tempo para repassar o encantamento ou ajustar a postura. O medo tomou conta — ela pulava no instante em que seus pés tocavam o chão.

Sem tempo para hesitar, o intervalo entre cada uso da Técnica do Corpo Leve diminuiu drasticamente. A chuva de gelo não dava espaço para dúvida ou demora.

Na cabeça, Luo Han xingava furiosamente. Ling Qingxiao, seu demônio! Nem tenta fingir que é humano!

Ela se arrastava em pânico, mas de repente percebeu — já estava usando a Técnica do Corpo Leve com fluidez, sem hesitação. Em algum momento, aquilo havia se tornado natural.

Foi então que a chuva de estilhaços finalmente cessou. Aliviada, Luo Han soltou um suspiro e gritou:

— Tempo! Preciso de uma pausa!

Ling Qingxiao surgiu da névoa, tão gracioso como sempre. Suas vestes esvoaçavam ao redor do corpo, os movimentos lentos e suaves — mas sua velocidade era tudo, menos lenta.

Ele pousou numa pedra ao lado dela e suspirou:

— Mal passou um instante e você já quer pausa de novo?

— Não é "de novo", é o famoso equilíbrio entre trabalho e descanso — rebateu Luo Han, totalmente sem vergonha. Ela sabia que a chave para lidar com alguém como Ling Qingxiao era testar os limites. Contanto que tivesse cara de pau suficiente para pedir, um cara frio e estoico como ele não teria muito o que fazer para impedi-la.

Luo Han achava que o dia seguiria como sempre. Ela fazia o pedido, e como de costume, Ling Qingxiao não respondia — o que, na lógica dela, significava consentimento silencioso.

Mas, aos poucos, uma pontada de dúvida surgiu em seu rosto.

— ...A formação tá com defeito? Por que parece que a pedra debaixo de mim tá se mexendo?

A expressão de Ling Qingxiao permaneceu calma, absolutamente composta como sempre.

Luo Han levantou o olhar e encarou os olhos dele — e imediatamente, uma péssima sensação tomou conta de seu corpo.

— Não é possível... não me diga que você—

Luo Han nem teve tempo de terminar a frase antes que a pedra sob seus pés despencasse de repente. Com um grito estrondoso, ela caiu de joelhos de forma nada graciosa, agarrando-se desesperadamente à borda da plataforma flutuante.

Ling Qingxiao suspirou, duas ou três pedras atrás dela, e exclamou, exasperado:

— Levante-se. Que postura é essa?

Mas Luo Han não estava nem aí pra postura — balançou a cabeça furiosamente e se agarrou com todas as forças.

Sem alternativa, Ling Qingxiao guiou outra pedra até ela, empurrando-a gentilmente para forçá-la a reagir.

Luo Han estava quase chorando. Será que o Reino Imortal não tem nenhum órgão de proteção à criaturinha celestial bebê, não? Esse cara tá ficando cada vez mais absurdo — por que ninguém o impede?!

Ela acabou se arrastando entre as pedras flutuantes, usando mãos e pés no modo puro instinto de sobrevivência. O pior? Cada plataforma estava se movendo — para cima, para baixo, para os lados — completamente imprevisível. Nenhuma estava estável.

Luo Han teve que se manter hiperconcentrada, rodando a Técnica do Corpo Leve sem parar e se preparando para saltar a qualquer momento.

Foram os quinze minutos mais longos da vida dela.

Quando as plataformas flutuantes finalmente pararam de se mover, Luo Han desabou como um peixe morto, completamente mole, estirada de bruços sobre a pedra.

Ling Qingxiao permanecia na maior das pedras flutuantes em forma de montanha invertida. Sua figura era elegante e etérea, como se fosse uma divindade celestial. Ao ver Luo Han largada daquele jeito, sua tendência perfeccionista se acendeu. Ele não conseguiu evitar o comentário:

— Postura, Luo Han. É preciso manter a dignidade, mesmo ao descansar.

Quanto mais ele falava, menos ela queria se mover. Continuou ali, imóvel, até que Ling Qingxiao, sem alternativa, deu um passo para trás.

— Tudo bem. Mas pelo menos sente-se. Não fique deitada assim.

Luo Han sabia que sentar-se de pernas cruzadas a ajudaria a recuperar energia mais rápido, então arrastou-se preguiçosamente até se acomodar nessa posição. Ao lançar um olhar para Ling Qingxiao — impecavelmente vestido, composto como sempre, parecendo pertencer a algum reino das fadas — um sentimento de injustiça a invadiu.

— Se queria treinar minha técnica corporal, por que não avisou antes? Aquela pedra simplesmente despencou! Você sabia... eu fiquei com medo.

Sua voz vacilou ligeiramente, denunciando a frustração, e parecia que estava prestes a chorar. Ling Qingxiao ficou paralisado, sem saber exatamente como reagir. Ela estava... fazendo birra?

Nunca tinha passado por isso antes. Na infância, não foi de fazer amizades nem de buscar afeto. Cresceu sozinho, e quanto mais velho ficava, mais isolado se tornava. Na adolescência, ninguém chegou perto o bastante para sequer tentar consolá-lo — e ele também nunca se importou em tentar.

Nunca fez birra com os pais, e naturalmente, ninguém jamais fez birra com ele. Aquela era a primeira vez que alguém se apoiava nele assim — confiava, desabafava a frustração como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Ainda que fosse um desabafo, Ling Qingxiao conseguia perceber: aquele era o tipo de conversa que só acontecia entre pessoas próximas. Diante de estranhos, todos vestem força e elegância como armadura, mas diante de alguém íntimo, as queixas fluem.

Ele permaneceu parado, rígido, por um bom tempo, até que finalmente deu um passo cauteloso à frente. Parou a apenas um passo de distância e conjurou um lenço ao lado de Luo Han.

Sua intenção era confortá-la, mas o que saiu foi:

— Limpe a sujeira do rosto.

As palavras soaram rígidas até para ele. Tentando se lembrar de como seus irmãos seniores costumavam interagir, ele estendeu a mão, hesitante, e tocou o cabelo de Luo Han.

A palma pousou levemente no topo da cabeça dela e se retirou no instante seguinte — tão suave que parecia quase uma ilusão. Para sua surpresa, o toque não o incomodou. Pelo contrário, a sensação macia e fofa o fez querer repetir.

No entanto, Luo Han já havia se levantado. Suas emoções haviam transbordado por um momento, e assim que as palavras escaparam de sua boca, percebeu que havia ultrapassado o limite. Ling Qingxiao não era seu pai, nem sua família, e o fato de ele escolher treiná-la com tanta exigência era, sem dúvida, para seu próprio bem. Ela não tinha direito de reclamar com ele.

Ainda mais no fim — ela pôde perceber com clareza o quanto Ling Qingxiao estava deslocado, o quão desajeitado foi seu esforço para consolá-la.

Ela havia incomodado aquele imortal frio e distante. Só de pensar nisso, Luo Han sentiu-se culpada.

Nem sequer percebeu o toque breve em seus cabelos. Tudo que viu foi Ling Qingxiao com uma expressão desconfortável, então rapidamente se recompôs, ajeitou as vestes e se pôs de pé com um sorriso animado:

— Eu estava só brincando. Já descansei — pronta para continuar.

Apesar da diferença de altura ser visível, Luo Han não era baixa pelos padrões celestiais. Como filha cuidadosamente criada do clã divino, herdara os genes da raça — alta, bem proporcionada e conforme os padrões de beleza do Reino Imortal. Em pé, ereta, sua cabeça chegava até os ombros de Ling Qingxiao.

Agora que ela estava de pé, qualquer gesto adicional por parte dele pareceria deliberado. Ele não teve escolha senão recolher a mão discretamente e assentir com frieza:

— Certo. Vamos continuar.

Com isso, retornou à posição anterior. Por fora, ainda parecia composto e distante como sempre — frio como jade. Mas por dentro... não pôde evitar sentir uma pontinha de decepção.

Aquela textura... era tão macia. E surpreendentemente agradável ao toque.

Luo Han voltou aos treinos. Ela não gostava de estudar — sua preguiça quase sempre falava mais alto — mas entendia que o esforço era, no fim das contas, por seu próprio bem. Não era disciplinada por natureza e, sem uma pressão externa, facilmente passaria os dias deitada sem fazer nada. Então, mesmo que Ling Qingxiao fosse exigente a ponto de torná-la miserável, ela cerrava os dentes e aguentava.

No fundo, Luo Han sabia da verdade. Não importava o quanto o protagonista masculino declarasse amor pela heroína, nem o quão generoso fosse com presentes — tudo aquilo se baseava em juventude e beleza. A beleza era um dom dos céus, mas também uma armadilha perigosa. Se a usasse como ferramenta, poderia se tornar uma arma imparável. Mas se se deixasse ser dominada por ela — se se entregasse às vantagens efêmeras da juventude e do charme — então cada gesto gentil de um homem seria apenas um desgaste lento de seu próprio futuro.

A verdadeira força vinha de dentro. Alguém como Ling Qingxiao, que a forçava a crescer, era quem realmente tinha seus interesses no coração.

Os pensamentos de Luo Han estavam cheios de fogo e determinação — mas quando chegava sua vez de treinar, ainda acabava fungando e choramingando sob o regime brutal de seu instrutor demoníaco.

Luo Han jamais foi feita para o combate corpo a corpo — seu status por si só já tornava batalhas físicas algo impensável. Em termos práticos, sua maior missão era simplesmente permanecer viva. A menos que o mundo acabasse, não havia razão para ela arriscar-se na linha de frente.

Mas o mundo da cultivação estava repleto de perigos, e Luo Han não podia se dar ao luxo de estar indefesa. Se se recusasse a aprender qualquer coisa, não apenas Ling Qingxiao ficaria preocupado — ela mesma ficaria.

A raça celestial extraía energia espiritual do céu e da terra, moldando-a em poder. Sua força evoluía do nada, crescendo gradualmente de fraca para poderosa, oferecendo grande adaptabilidade e autonomia. Em contraste, a raça divina era mais rígida — seu poder normalmente era fixo desde o nascimento, predeterminado e imutável.

Pangu e Nuwa, por exemplo. Era quase impossível comparar suas forças, pois atuavam em domínios completamente diferentes. As próprias habilidades de Luo Han, evidentes nas funções que exercia diariamente, deixavam claro: ela não era uma deusa que vencia pela força bruta.

Os deuses podiam manipular todas as formas de energia existentes — vento, geada, chuva, neve, energia espiritual, energia demoníaca — mas sua verdadeira força estava nas leis que criavam.

Para os seres dos Seis Reinos, coisas como céu azul, rios verdes, passagem das estações — tudo parecia natural e evidente. O sol nasce no leste e se põe no oeste. As pessoas nascem, envelhecem, adoecem e morrem. A água corre morro abaixo. Maçãs maduras caem no chão. Tudo isso é aceito como conhecimento comum. Mas, no início, essas "verdades" eram leis estabelecidas pelos deuses.

A separação entre céu e terra era a lei de Pangu. O fato de que apenas pela união entre masculino e feminino a vida poderia surgir era a lei de Nuwa. A passagem linear do tempo, onde o passado não pode ser revisitado, era a lei do Deus do Tempo. Camada por camada, essas leis divinas formaram o tecido do mundo. Se Pangu, ao dividir céu e terra, tivesse decretado que o ar leve afundasse e que coisas pesadas subissem — então, literalmente, maçãs maduras voariam para o alto.

Juntas, essas leis formam a estrutura dos Seis Reinos, onde imortais, demônios, bestas, humanos e espíritos coexistem, extraindo da energia do mundo sua força. Celestiais absorvem energia espiritual; demônios, energia demoníaca. Eles, por natureza, fazem parte do mundo.

Deuses, porém, estão dentro dos Seis Reinos, mas nasceram para transcendê-los. Seu papel é moldar e aperfeiçoar o mundo através da criação de leis. Nenhum deus consegue construir todo o sistema sozinho. O mundo como existe hoje é resultado de incontáveis leis entrelaçadas — construído pela colaboração de muitos deuses.

Mas os deuses medem sua idade em centenas de milhões de anos — os meros dezoito anos de vida de Luo Han não seriam nem uma fração disso. Ela ainda estava longe de alcançar o ponto em que poderia compreender sua própria lei divina. Por ora, Luo Han teria que depender de feitiços e técnicas imortais para sobreviver. Isso significava aprender a canalizar energia espiritual com precisão e escapar rapidamente em situações de risco — essas eram suas lições mais cruciais.

Sabendo que a Técnica do Corpo Leve poderia, literalmente, determinar seu destino, Luo Han a praticava com enorme seriedade. E tinha que admitir — o treinamento de Ling Qingxiao era absolutamente brutal, mas os resultados falavam por si.

Embora ainda não se movesse puramente por instinto, já conseguia atravessar corredeiras e terrenos irregulares com certa facilidade. Ela podia sentir de verdade: torres altas se constroem com boas fundações — e esse alicerce fazia toda a diferença.

Em combate real, quase não há tempo para pensar — se o gesto foi preciso, se o encantamento veio de forma automática — cada detalhe pode parecer insignificante, mas juntos, esses pequenos elementos podiam significar a diferença entre a vida e a morte.

Agora, Luo Han já conseguia conjurar a Técnica do Corpo Leve com fluidez, sem precisar repassar mentalmente o encantamento antes. Ling Qingxiao havia sido extremamente preciso no ritmo de seu treinamento — mantinha constantemente o nível de dificuldade um pouco acima da capacidade atual dela, forçando progresso sem deixá-la sobrecarregada.

Aos poucos, as pedras começaram a se mover mais rápido, e os estilhaços de gelo caíam com mais intensidade. Luo Han cortava as nuvens, os pés mal tocando nas plataformas enquanto saltava de uma a outra. Precisava manter o equilíbrio enquanto desviava da chuva implacável de gelo — uma tarefa nada fácil.

Querendo levá-la mais longe, Ling Qingxiao intensificou subitamente o ataque. Justo quando Luo Han havia se estabilizado sobre uma pedra, um brilho dourado lampejou à distância. As nuvens se agitaram violentamente, ondulando pelo céu, e até a barreira ao redor da Plataforma Feiyun estremeceu. A pedra sob o pé de Luo Han começou a tremer descontroladamente — e então despencou.

Ela não teve tempo de reagir antes de começar a cair, o corpo subitamente exposto a uma rajada de gelo afiado como lâminas.

A expressão de Ling Qingxiao mudou. Com um movimento da mão, dispersou o campo de energia espiritual, desfazendo o ataque — e então saltou atrás dela sem hesitar.

Apesar de todo o treinamento mágico, Luo Han passara a maior parte da vida como mortal. Diante da súbita sensação de queda, seus instintos sobrepujaram a razão. Debatia-se, tentando agarrar qualquer coisa para interromper a queda.

Então viu Ling Qingxiao mergulhando em sua direção. Ele a segurou pelo pulso.

Sem pensar, Luo Han agarrou-se ao ombro dele — e o abraçou com força.

Ling Qingxiao não estava preparado.

Foi envolvido num abraço completo.


Postar um comentário

0 Comentários