Capítulo 160 – Apaixonados
A peça já havia sido encenada, a demonstração inicial de força também tinha sido feita, mas Guan Suyi não caíra naquele jogo, o que fez com que a Imperatriz Viúva e Bian Min’er a odiassem em segredo. Ainda assim, tinham certeza de que o assento de imperatriz estava garantido e que já haviam suprimido essa futura “concubina favorita”. Assim, passaram a dizer palavras íntimas, como sobre administrar bem o harém e dar à luz um filho cedo, e só pararam ao perceber que o banquete de Qionglin estava prestes a começar.
— Você está sabendo do caos na fronteira noroeste? — Bian Min’er perguntou repentinamente enquanto as duas caminhavam por um canto isolado.
— E daí? — Guan Suyi ergueu as sobrancelhas.
Bian Min’er zombou da ignorância das mulheres han e respondeu com um sorriso irônico:
— O noroeste é composto majoritariamente por soldados Jiuli, porque só a cavalaria de ferro do nosso clã pode suportar a brutalidade dos hunos. Se, neste momento, os príncipes que comandam as tropas resolverem se retirar, os hunos poderão marchar diretamente para o interior do país. Então me diga, se eles quiserem me eleger como imperatriz agora, o imperador vai concordar ou não? Ele quer admiti-la no palácio, mas se os príncipes se opuserem firmemente, você acha que ele ousará agir como quiser?
— Então, se eu entrar no palácio como concubina, devo agradecer pela sua caridade? — Guan Suyi riu suavemente.
— Do que você está rindo? — Bian Min’er disse friamente. — Você acha que só porque o imperador está do seu lado, pode fazer o que quiser? Vamos ver quem ri por último.
— Se é assim, então vamos esperar para ver. — Guan Suyi juntou as mãos em um gesto respeitoso e saiu abruptamente.
Ela parou por um instante na bifurcação do caminho e, em vez de voltar para o banquete, seguiu na direção do palácio interno. Bian Min’er, que pretendia retornar ao Jardim de Qionglin, achou suspeito o comportamento dela e decidiu segui-la discretamente. Assim, chegou até um pavilhão à beira d’água nos fundos do Palácio Weiyang.
"Que casal desprezível! Como ousam marcar um encontro secreto dentro do palácio?" — Pensando assim, Bian Min’er viu o imperador caminhando lentamente em direção a Guan Suyi, que estava sentada no pavilhão. Ele era altamente habilidoso em artes marciais e, ao conter sua respiração de propósito, era quase impossível para uma pessoa comum notar sua presença, quanto mais Guan Suyi, que estava relaxada, de costas para ele, completamente despreocupada.
Ele se inclinou para frente, como se fosse chamá-la de “Madame”, mas, ao mesmo tempo, soprou levemente em seu ouvido, assustando Guan Suyi, que se virou de repente— seus lábios quase tocaram os dele.
Os dois ficaram paralisados por um instante. Depois, um tocou os próprios lábios e riu baixinho, enquanto o outro ergueu os punhos para bater. A atmosfera íntima e doce indicava que ambos já estavam apaixonados, seus corações batendo no mesmo ritmo.
Escondida atrás do rochedo, Bian Min’er cravou as unhas nas fendas da pedra até quebrar algumas.
— Vadia! — rosnou entre dentes, observando-os ainda mais atentamente.
— Saia daqui. — Guan Suyi ergueu o cotovelo e empurrou Hunnar, que tentava abraçá-la.
— Você não queria que eu provocasse Bian Min’er? Como podemos irritá-la sem demonstrar nosso afeto? — O Imperador Sheng Yuan envolveu os ombros dela com um braço e a puxou para si.
— Provocar Bian Min’er parece ser apenas uma desculpa. Seu verdadeiro objetivo é tirar vantagem de mim. — Guan Suyi beliscou discretamente a parte de trás da mão dele.
— É por isso que Madame me entende melhor do que ninguém. — O Imperador Sheng Yuan riu suavemente, levantou a mão e acariciou as bochechas delicadas de Guan Suyi, prendendo atrás da orelha os fios de cabelo que o vento bagunçara. Ele mal mostrou a lateral do rosto, mas a ternura e o afeto em seus olhos eram evidentes.
Bian Min’er, que já havia quebrado as unhas, quase quebrou os dentes de tanta raiva, mas teve que se segurar.
Guan Suyi, completamente indefesa diante da ousadia daquele homem, decidiu mudar de assunto.
— A Imperatriz Viúva disse que os príncipes vão me recomendar para entrar no palácio como concubina. Veja, ela até me deu um presente de boas-vindas. — Ela retirou o colar e colocou-o nas mãos dele.
O Imperador Sheng Yuan pegou o acessório, observou-o por um momento e então zombou:
— Esta coisa é de qualidade extremamente baixa. Nem mesmo uma serva com um pouco de dignidade se dignaria a usá-la. Se você for ao banquete usando isso, as nobres senhoritas Jiuli só terão mais motivos para desprezá-la.
— Sério? Ela também deu um colar para Bian Min’er, que, segundo ela, é o seu Tesouro Zhenzu. Um pingente de jade de sangue do tamanho da palma da mão, esculpido com chamas e dragões entrelaçados. Parece extremamente luxuoso. — Guan Suyi ponderou. — Ela usa um tesouro valioso, e eu, uma bijuteria barata. Se formos juntas para o banquete, será como se eu estivesse jogando minha dignidade no chão para que todos pisoteiem. A Imperatriz Viúva realmente faz jus ao título de tia de Bian Min’er. Seus esquemas para humilhar os outros são tão cruéis quanto traiçoeiros.
— Muito bem dito. — O Imperador Sheng Yuan atirou o colar na água e ordenou: — Baifu, traga a caixa de brocado.
Baifu imediatamente apresentou a caixa com ambas as mãos, abrindo-a para revelar uma coroa de fênix de nove caudas. A base era um anel de jade verde, com a parte superior cravejada de pedras preciosas e flores de pérolas. Seis asas adornavam a parte de trás, três exuberantes caudas de fênix na frente e três em cada lado. O adorno estava pontilhado de esmeraldas, cravejado com dragões dourados e flores de pérolas, decorado com centenas de rubis e safiras e milhares de pérolas. O brilho intenso das joias criava uma ilusão de dança entre dragões e fênixes ao menor movimento.
Guan Suyi, que normalmente não se interessava por luxo, ficou estupefata. Jinzi e Minglan, então, nem se fala!
— Você quer que eu use isso no banquete de Qionglin? — Guan Suyi murmurou. — Isso é o sonho de qualquer mulher! Serei despedaçada por aquelas invejosas.
O Imperador Sheng Yuan riu e respondeu suavemente:
— Conquistei os Nove Continentes e aniquilei muitos países. Quantas coroas de fênix você acha que coletei? Madame pode tratá-la como um brinquedo, levá-la para admirar ou guardá-la, a decisão é sua. Mas no dia do nosso casamento, apenas a mais preciosa e magnífica coroa de fênix será digna de sua beleza, e somente você será digna de ser minha imperatriz.
Ele proferiu essas últimas palavras com uma força interna deliberada, para que Bian Min’er pudesse ouvi-las claramente. Escondida, seus olhos já estavam vermelhos de fúria. Ao olhar para o chamado Tesouro Zhenzu em seu pescoço, sentiu um desejo insuportável de arrancá-lo e esmagá-lo no chão. O que era aquela turquesa e jade de sangue? Comparado à coroa de fênix, não passava de um amontoado de pedras sem valor.
Guan Suyi tocou as cintilantes asas da fênix e, num raro momento de capricho, pediu:
— Então me coloque para ver como fica?
Por mais indiferente que fosse, ainda era uma mulher. E qual mulher não ama joias?
O Imperador Sheng Yuan sorriu, levantou a coroa e a colocou delicadamente sobre sua cabeça. Depois segurou o rosto dela e disse roucamente:
— Não se mexa. Parece que ficou um pouco torta, deixe-me arrumá-la.
Guan Suyi obedeceu sem hesitação, ergueu o olhar para ele, mas, no instante seguinte, ele se aproximou repentinamente e pousou um beijo leve, como o bater de asas de uma borboleta, em seu nariz e testa. Depois, afastou-se um pouco e disse orgulhoso:
— A coroa não estava torta. Eu só queria sentir o perfume de Madame.
Guan Suyi nem se irritou. Apenas pressionou os lábios e sorriu.
— Eu sabia. Mas fechei os olhos por um instante… só um pouquinho de indulgência.
— A madame parece ter se soltado bastante? — O Imperador Sheng Yuan ficou extremamente surpreso.
— As mãos foram dadas, o que mais posso fazer? Não seria fingimento demais recuar agora?
— Mas eu já abracei a madame antes e até tirei minhas roupas na sua frente. Por que, então, não vi a madame desistir da resistência e se entregar a mim?
— Como um abraço e segurar as mãos podem ser a mesma coisa? — Guan Suyi inclinou a cabeça e explicou com naturalidade — Um abraço só pode permanecer em um lugar, mas segurar as mãos significa caminhar juntos. Essa é a diferença essencial entre os dois.
O Imperador Sheng Yuan ficou atordoado por um instante, antes de soltar uma gargalhada.
— Madame, madame, você sempre tem essas teorias tortuosas. Mas eu gosto desse raciocínio absurdo. Abraços só podem ficar no mesmo lugar, mas segurar as mãos significa caminhar juntos. Agora entendo por que, depois que segurei sua mão enquanto caminhávamos pela lama naquele dia, você não me rejeitou mais. Madame, você é adorável.
Enquanto falava, ele segurou o rosto de Guan Suyi mais uma vez, tentando beijar seus lábios avermelhados, mas, inesperadamente, acabou beijando o dorso de sua mão branca.
— Não disse que não resistiria mais? — Ele arqueou as sobrancelhas.
— As alegrias do quarto, falamos sobre elas depois que estivermos no quarto — Guan Suyi lançou um olhar discreto para o lado, indicando que Bian Min’er ainda estava escondida, observando.
O Imperador Sheng Yuan já havia se esquecido completamente dessa presença, mas ao se lembrar dela naquele momento, não se sentiu frustrado. Ele beijou novamente o dorso da mão de Guan Suyi antes de soltá-la. Os dois continuaram sussurrando um para o outro, às vezes rindo, às vezes trocando olhares cheios de significado. O ambiente era de uma doçura indescritível, e eles só se separaram depois que Baifu os chamou três vezes.
Antes de partir, o Imperador Sheng Yuan ajudou Guan Suyi a remover a coroa de fênix, guardou-a no estojo de brocado e ordenou a Jinzi que a mantivesse segura. Em seguida, tirou de seu bolso uma presilha de cabelo simples, em forma de fênix de nove caudas, e a prendeu suavemente em seu coque. Depois de ajustar meticulosamente o ângulo algumas vezes, apenas então ficou satisfeito, apertando de leve a ponta dos dedos dela antes de sair em silêncio.
Escoltada pelos guardas, Guan Suyi também se retirou rapidamente, deixando para trás uma mistura dos aromas de âmbar gris e canela, que permaneceram no ar por um longo tempo.
Bian Min’er socou com força a rocha onde estava escondida e, ao ouvir sua serva chamá-la não muito longe dali, saiu de seu esconderijo com o rosto sombrio e assustador.
— Vamos para o banquete! Depois de hoje, eu serei a Imperatriz de Wei! — declarou, palavra por palavra.
As duas voltaram uma após a outra e sentaram-se em seus lugares. As jovens nobres da tribo Jiuli fixaram seus olhares no colar de Bian Min’er, já que ele era considerado o tesouro do clã Jiuli. Enquanto isso, as damas nobres Han observavam a presilha de fênix de Guan Suyi. Uma, duas, três… nove caudas. Sim, eram nove. Nove era o número supremo, de uma nobreza inigualável, e apenas a Imperatriz poderia usá-lo.
Parecia que o posto de Imperatriz já estava reservado. As duas facções ponderavam sobre isso, mas cada uma tinha uma candidata diferente em mente.
— Onde conseguiu essa presilha de fênix? — Zhong shi puxou discretamente a manga da filha.
— O Imperador me deu há pouco — respondeu Guan Suyi naturalmente.
— Esse assento de Imperatriz pode não acabar sendo seu! Guarde isso imediatamente, antes que atraia inveja e se torne motivo de fofocas! — Zhong shi abaixou a voz, alarmada. — A guerra na fronteira noroeste começou novamente, e o Imperador depende dos príncipes para conter o caos. Ele jamais ousaria rejeitar a candidata que eles indicarem para Imperatriz!
— Mãe, não se preocupe. Se ouso usá-la, é porque posso arcar com isso — Guan Suyi apertou os ombros da mãe e afirmou com convicção — Depois de hoje, os príncipes nunca mais falarão sobre a escolha da Imperatriz. Apenas espere sentada por Hunnar bater à nossa porta pedindo minha mão em casamento.
— O que você pretende fazer? — Zhong shi perguntou, franzindo o cenho.
Guan Suyi apenas sorriu sem responder, levantando sua taça de vinho em um brinde distante para Bian Min’er. Os olhos de Bian Min’er estavam vermelhos, seu rosto sombrio, e sua expressão era quase demoníaca. Vendo a "provocação" de Guan Suyi, ela não quis admitir derrota e imediatamente esvaziou sua taça. Depois de repetirem o brinde três vezes, Guan Suyi parou para cuidar do irmão mais novo, mas Bian Min’er continuou bebendo, taça após taça, para extravasar sua raiva.
Embora muitos dos Jiuli tivessem alta tolerância ao álcool e não se embriagassem facilmente, beber tanto fez suas bochechas ficarem inevitavelmente coradas, tornando sua aparência um tanto desagradável. Madame Bian tomou a taça da filha e repreendeu:
— Pare de beber! Vá lavar o rosto! Se os príncipes virem você nesse estado lastimável, como terá coragem de mencionar a questão da Imperatriz?
Bian Min’er suspirou internamente, pediu desculpas à mãe e saiu apressada para o palácio dos fundos, a fim de lavar-se e trocar de roupas. No entanto, assim que cruzou a porta do salão, foi atingida na nuca por um golpe certeiro e caiu pesadamente no chão.
Capítulo 161: Loucura de uma Bêbada
Após cerca de um quarto de hora, Bian Min’er saiu do salão lateral apoiada por duas servas. Tinha lavado o rosto, trocado de roupa e penteado, e agora mantinha a cabeça erguida, ostentando uma expressão arrogante. Caminhou de volta até Madame Bian e sentou-se, fitando fixamente a ponte de nove curvas, sem que ninguém soubesse no que estava pensando.
Madame Bian a observou de cima a baixo e, ao notar que o rubor em seu rosto havia diminuído um pouco, assentiu satisfeita.
— Depois de hoje, você se tornará a Imperatriz de Wei. Não pode agir tão imprudentemente como fez agora há pouco. Não importa quanta raiva tenha em seu coração, tem que suportá-la por mim. Sei que você não gosta da filha da família Guan, mas o imperador gosta, então o que podemos fazer além de obedecer à sua vontade? Quando vocês duas entrarem no palácio, ela ainda terá que viver sob o seu domínio, e se quiser discipliná-la, terá muitas oportunidades. Ela já está sob seu nariz, ainda tem medo de que fuja?
— Mãe, eu entendo — respondeu Bian Min’er, parecendo ter se acalmado. Estava prestes a beber alguns goles de chá quente para clarear a mente quando ouviu duas damas nobres Han conversando em voz baixa.
— Você viu a presilha de fênix na cabeça da senhorita Guan? Ela tem nove caudas. Apenas a imperatriz tem o direito de usá-la.
— Como não ver? Brilhando em ouro puro, quem não notaria? Quando chegou, ela não a usava, mas depois de visitar o Palácio Changle, apareceu com ela na cabeça. Aposto que o assento de imperatriz já é dela.
— Exatamente. Sua Majestade não diz diretamente, mas já deixou claro. Deve ser a mais bela em aparência, a mais talentosa, de origem nobre e de caráter ilibado. Todas essas qualidades se referem à senhorita Guan. Algumas pessoas a criticam por ser uma mulher reconciliada, dizendo que não é digna, mas Sua Majestade imediatamente promulgou a Lei do Cultivo do Povo, ordenando que homens e mulheres do Reino de Wei se casem e incentivando viúvas a se casarem novamente. Se alguém tentar impedir a senhorita Guan de entrar no palácio, poderá ser acusado imediatamente de ‘violar as leis nacionais’. Ele já preparou o caminho para ela, removendo todos os obstáculos um por um. Além dela, quem mais poderia se tornar a mãe do país?
— Sua Majestade tem um profundo afeto pela senhorita Guan e planejou tudo cuidadosamente! — Ao dizer isso, ambas exibiram olhares de inveja e ciúmes.
Enquanto ouvia, Bian Min’er bebia sem parar e, sem perceber, já havia consumido dois potes de vinho. Madame Bian tentou arrancar-lhe a taça, mas ela a empurrou com força e perguntou:
— Essa presilha de fênix só pode ser usada pela imperatriz?
— Como posso saber dessas coisas dos Han? — Madame Bian suspirou, prestes a acalmá-la com palavras gentis, mas, de repente, Bian Min’er atirou a taça longe, marchou até Guan Suyi sem dizer uma palavra, arrancou a presilha de sua cabeça, jogou-a no chão e a pisoteou até transformá-la em pedaços.
— Que presilha de fênix de nove caudas maravilhosa! Vamos ver se você ainda pode usá-la! Vamos ver! — Diante de todos, ela começou a agir como uma bêbada enlouquecida. Não apenas Guan Suyi e Zhong shi ficaram sem reação, mas até mesmo Madame Bian demorou a assimilar a cena.
Em questão de segundos, Bian Min’er já havia virado a mesa diante de Guan Suyi e começou a insultá-la como uma metralhadora.
— Vagabunda! Cachorra Han! Como ousa ser tão arrogante diante de mim? Quando entrar no palácio, veremos se não acabo com você! Acha que ser Jieyu é grande coisa? Eu ainda sou a digníssima imperatriz! Meu pai é o general do Exército Central e protege a capital; meu irmão é o general de Huya e está estacionado no noroeste. Eles podem comprar cavalos de guerra dos povos Hu e trocar sal, ferro e cobre com Xue Mingrui. Minha família Bian fabrica suas próprias armas e moedas, além de vender sal em quantidades intermináveis! Só preciso de cinco anos! Quando der à luz o primogênito do imperador, quem será você, Guan Suyi? Quem será o Imperador Sheng Yuan? Quem serão esses príncipes? Todos vocês se tornarão os cães da minha família Bian! No fim das contas, este mundo pertence a nós!
— Depressa, depressa, tirem a senhorita daqui e fechem sua boca! — Madame Bian arfava, pressionando o peito com a mão, parecendo prestes a desmaiar. Algumas criadas tentaram conter Bian Min’er, mas uma voz imponente ressoou pelo salão.
— Ninguém se atreva a tocar nela. Este Palácio quer ver que tipo de virtude essa futura imperatriz realmente tem.
Todos se viraram e viram a princesa imperial removendo sua espada e pressionando-a contra a mesa. A lâmina estava meio desembainhada, refletindo seu rosto frio e sombrio. Como Bian Zhaoxiong apoiava a sucessão do Primeiro Príncipe, enquanto a princesa imperial apoiava o Imperador Sheng Yuan, os dois lados sempre estiveram em conflito. Agora que havia testemunhado a ambição da família Bian, como poderia ignorar isso? Ela precisava ouvir cada palavra claramente.
Bian Zhaoxiong e os príncipes ainda não haviam chegado com Sua Majestade, e entre os presentes, a princesa imperial era a mais poderosa. Mesmo que Madame Bian estivesse desesperada para calar a boca da filha, não podia fazer nada. Duas guardas a seguraram no lugar, enquanto outros soldados mantinham os membros da família Bian sob a mira de espadas, lanças e alabardas. Eles só podiam assistir, impotentes, enquanto Bian Min’er continuava sua loucura.
Guan Suyi já estava protegida pelos guardas da princesa imperial e, sempre que Bian Min’er tentava atacá-la, era afastada, ficando ainda mais furiosa.
— Como ousam me impedir?! Quando meu filho subir ao trono, vocês todos serão executados! Meu pai liderou o exército para sitiar Liangcheng! Ele deveria ter massacrado toda a cidade e marchado para as Planícies Centrais, mas aquele bastardo do Imperador Sheng Yuan o deteve! Ele também persuadiu Zhao Hai a se render, abriu os portões da cidade em segredo e fez um acordo pacífico, impedindo meu pai de ser o primeiro a conquistar as Planícies Centrais! Desde então, tudo deu errado! Malditos cães Han! Todos deveriam morrer! No futuro, quando meu filho for imperador, massacrarei todos os Han, sem deixar nenhum para trás! Vocês não passam de cães do meu povo Jiuli! Nem mesmo merecem ser os escravos mais inferiores!
Seus olhos estavam vermelhos e seu rosto deformado pela loucura. Quanto mais falava, mais absurda se tornava. Madame Bian balançava a cabeça freneticamente, gritando:
— Min’er, cale a boca! Que bobagens você está dizendo?!
Mas, bobagens ou não, todos ali sabiam a verdade. Pelo comportamento anterior de Bian Min’er, aquelas palavras vinham de seu coração. No passado, Bian Zhaoxiong sempre liderava massacres ao conquistar territórios, deixando um rastro de morte e destruição. Só depois que o Imperador Sheng Yuan assumiu o comando do exército Jiuli e recrutou pacificamente generais Han é que essa brutalidade foi contida.
Se Bian Min’er se tornasse imperatriz e desse à luz o primogênito do imperador, seria uma catástrofe para o povo Han! Não, isso não podia acontecer. Nenhuma nobre Jiuli poderia se tornar imperatriz.
Isso já não era apenas uma luta pelo poder, mas a sobrevivência de um povo!
A família Bian estava conspirando com os Hu e Xue Mingrui, acumulando cavalos de guerra, armas e moedas próprias, além de monopolizar o comércio de sal. Sua intenção de usurpar o trono era óbvia!
Como diz o ditado: "O primeiro a atacar tem a vantagem". Depois deste banquete, a família Bian deveria ser erradicada do Reino de Wei!
Os ministros Han trocaram olhares com expressões solenes.
O General Zhao Hai, que anteriormente havia liderado o exército Jiuli para entrar nas Planícies Centrais ao abrir os portões de Liangzhou em segredo, recebeu vários olhares gentis. Ele não foi o primeiro general Han a se render ao Imperador Sheng Yuan, mas foi ele quem abriu as portas das Planícies Centrais para ele. Todos, em silêncio, o chamavam de traidor, um cão indigno. No entanto, ao ouvirem a revelação de Bian Min’er, perceberam de repente que, se ele não tivesse aberto os portões da cidade e se rendido pacificamente, incontáveis pessoas em Liangzhou poderiam ter sido reduzidas a ossos espalhados pelo chão.
Lealdade ou vidas humanas, qual era mais importante? Sob o governo brutal do último imperador da dinastia anterior, a lealdade já estava desgastada, e qualquer general com um mínimo de consciência escolheria proteger o povo. Zhao Hai fechou os olhos, e um brilho úmido surgiu no canto deles.
Bian Min’er continuava gritando como um cão enlouquecido. Depois de destruir a mesa da família Guan, passou a quebrar as mesas das pessoas ao redor, xingando:
— Eu já aturei vocês, cães Han, por tempo demais! Quando os príncipes se aliarem aos Hu e tomarem as cinco cidades do noroeste, o que o Imperador Sheng Yuan poderá fazer se não quiser estabelecer um estado vassalo? Que tropas Han ele tem que possam derrotar a cavalaria de ferro dos Hu? Ele não terá escolha senão depender de nós! Em cinco anos, quando os príncipes crescerem e fortalecerem o estado vassalo, cercando as Planícies Centrais, então será o momento da nossa família Bian tomar o trono! O Imperador Sheng Yuan merece mesmo ser chamado de bastardo selvagem, não apoia seu próprio povo, mas protege os Han! Ele também deveria morrer!
Os nobres da tribo Jiuli ficaram pálidos como a morte, parecendo sentados sobre brasas. Como poderiam não sentir a fúria dos ministros Han? Odiavam Bian Min’er em seus corações, mas não ousavam agir precipitadamente. De fato, os príncipes haviam sugerido repetidamente a criação de um estado vassalo, mas todas as suas propostas haviam sido recusadas pelo Imperador Sheng Yuan sob diversas justificativas. Ele temia que um estado vassalo se fortalecesse demais e causasse uma guerra civil, e agora parecia que ele estava certo.
— Bian Min’er, já chega! — gritou Madame Bian, rouca.
— Não chega, deixe-a continuar.
Uma voz profunda e poderosa ressoou de repente, fazendo todos estremecerem. Eles se viraram e viram o Imperador Sheng Yuan chegando com sua comitiva, seguido de Bian Zhaoxiong e vários príncipes, todos de rostos sombrios. A confiança entre eles deu lugar à suspeita, e então a suspeita se transformou em medo.
Só então Bian Min’er despertou do transe, olhando para a destruição ao seu redor e depois para sua mãe, que tinha os olhos marejados de sangue. Por fim, ela caiu de joelhos no chão e começou a se curvar desesperadamente.
— Majestade, Majestade, por favor, perdoe-me! Essas foram apenas palavras de uma bêbada, por favor, perdoe este erro!
— Palavras ao vento? Quem pode acreditar nisso? — O velho Mestre Guan imediatamente deu um passo à frente e declarou com firmeza: — Majestade, a família Bian e os príncipes certamente conspiram para usurpar o trono. Se isso for verdade, devem ser punidos! Peço a Vossa Majestade que detenha imediatamente todos os envolvidos e investigue este assunto minuciosamente!
— Pedimos uma investigação minuciosa, Majestade!
Todos os ministros Han se ajoelharam ao mesmo tempo, suas vozes sacudindo os céus. Até mesmo os estudiosos que ainda não haviam entrado para o tribunal, sem medo de ofender os poderosos, também se curvaram em súplica. Se a família Bian não fosse erradicada e se os príncipes, que tratavam os Han como porcos e cães, não fossem exterminados, como poderiam continuar vivendo?
Todos sempre pensaram que o imperador era um bárbaro. Na superfície, obedeciam, mas, no fundo, muitos tinham dúvidas. No entanto, ao comparar os dois lados, perceberam que, na verdade, o governo do imperador era a maior sorte que o Reino de Wei poderia ter. Se o governante fosse o falecido príncipe herdeiro, o terceiro príncipe, o sexto príncipe ou qualquer outro dos príncipes conspiradores, os Han não teriam o status que possuíam hoje, muito menos uma vida pacífica e próspera.
Defender o imperador era defender a si mesmos. Essa foi a realização tardia de todos os ministros Han. E a posição de imperatriz deveria pertencer a uma mulher Han! O título de príncipe herdeiro não poderia ser concedido a um príncipe que não fosse pró-Han! Num instante, todos os ministros Han se uniram, decididos a enfrentar os nobres da tribo Jiuli.
Sentindo a atmosfera tensa no Jardim Qionglin e percebendo a rejeição e hostilidade dos ministros Han, os poderosos da tribo Jiuli entenderam que algo estava muito errado. Só então perceberam o tipo de desastre que poderiam trazer ao oprimir o povo das Planícies Centrais bem no coração de suas terras. Sem outra escolha, levantaram-se e disseram em uníssono:
— Pedimos uma investigação minuciosa, Majestade!
Capítulo 162 – Perdendo o Poder
Bian Min’er avançou apressada e se ajoelhou, batendo a testa no chão repetidamente.
— Majestade, eu só falei bobagens! Estou possuída por um espírito maligno! Por favor, perdoe a família Bian!
O Imperador Sheng Yuan a chutou para longe e declarou solenemente:
— Guardas! Levem o General Bian e alguns dos tios imperiais para o salão lateral por um tempo! Irmã imperial, peço que vá até as mansões de cada um deles para uma inspeção, para que possam ser inocentados o quanto antes.
Se Bian Min’er não tivesse confessado pessoalmente diante dos oficiais civis e militares, mesmo que ele tivesse provas secretas, não seria fácil capturar todos de uma só vez.
Mas agora, Bian Min’er havia provocado um conflito irreconciliável entre os ministros Han e os nobres Jiuli, tornando impossível qualquer tentativa de mediação. Além disso, os Jiuli não eram um grupo unificado. Desde que soubesse explorar bem essas divisões, ele poderia eliminar as ameaças ocultas de uma só vez. Para falar a verdade, a suposta verdade revelada por Bian Min’er era apenas uma dedução baseada nas pistas reunidas pelos espiões que ele enviara—não havia provas concretas. Mas e daí? A confissão de Bian Min’er agora era a própria prova. E se não houvesse evidências suficientes encontradas nas mansões, ele mesmo poderia plantar algumas.
Em outras palavras, a família Bian e os príncipes haviam se tornado peões em suas mãos, para serem sacrificados ou descartados conforme sua vontade.
Bian Zhaoxiong e os príncipes já estavam marcados como traidores, então não ousaram resistir. Cercados pela Guarda Imperial, foram forçados a seguir para o salão lateral. As mulheres da família Bian também foram levadas uma a uma, especialmente Bian Min’er, que parecia ter perdido a alma e mal conseguia se manter de pé.
Os nobres da tribo Jiuli ficaram em silêncio, e os ministros Han mantiveram-se solenes. Ainda ponderavam sobre como essa situação terminaria, quando o imperador falou em um tom tranquilo:
— Hoje é um grande dia para os estudantes. Como pode ser perturbado por algo tão trivial? Vamos, comecemos o banquete!
— O imperador tem um temperamento incrível! — pensaram os nobres Jiuli. Mesmo diante de tal afronta, ele ainda conseguia conter sua raiva. Com certeza era digno de ser o governante do mundo!
Ao mesmo tempo, os ministros Han tornaram-se ainda mais leais a ele. Afinal, se Sheng Yuan não conseguisse manter-se no trono e algum outro membro da família imperial Jiuli assumisse, os primeiros a sofrer seriam os Han.
“Que o imperador nomeie rapidamente uma mulher Han como imperatriz e tenha um filho primogênito com sangue Han para consolidar o laço entre os dois povos e fortalecer a unificação do país”—esse pensamento tornou-se uma prioridade urgente entre os ministros Han. Eles se entreolharam, trocaram olhares significativos e escolheram, em seus corações, a candidata mais adequada.
Depois desse episódio, era evidente que o humor do imperador estava péssimo. Se os Han recomendassem uma mulher que não o agradasse, ou pior, que lhe causasse repulsa, e isso resultasse em um adiamento na escolha da imperatriz, quem sabe que tipo de manobra os nobres Jiuli poderiam elaborar para colocar uma de suas mulheres no trono?
A batalha pelo posto de imperatriz era iminente. O mais importante era garantir que uma Han ocupasse o lugar primeiro—o nome da candidata era um detalhe secundário. Além disso, a Mansão do Mestre Imperial sempre fora conhecida por sua benevolência, fidelidade e lealdade através das gerações. A Senhorita Guan não apenas possuía um caráter íntegro e inabalável, além de talento e beleza, mas também tinha uma visão estratégica apurada. Torná-la imperatriz significaria não apenas consolidar o poder Han, mas também manter sob controle a filha do clã Pan, que atualmente dominava o harém imperial.
As palavras do imperador já indicavam que ele desejava casar-se com a Senhorita Guan. Se houvesse algum afeto genuíno da parte dele, por que hesitar? Se não a enviassem ao palácio agora, quando o fariam? Se a filha do clã Pan engravidasse primeiro, os nobres Jiuli poderiam usá-la como pretexto para coroá-la imperatriz, alegando que carregava o “herdeiro do dragão”. Quando isso acontecesse, poderia ser tarde demais para escolher uma candidata Han.
A oportunidade podia passar num instante. Não havia tempo a perder. Sem precisar discutir, os ministros Han já haviam chegado a um consenso silencioso.
No entanto, Guan Suyi, o centro de toda essa movimentação, parecia alheia a tudo. Com um leve sorriso, tomou um gole de chá enquanto acalmava o irmão mais novo assustado.
Zhong shi tentou recompor-se e então sussurrou no ouvido da filha:
— É isso o que você quis dizer com “assumir a responsabilidade”?
— Sim. Não é melhor cozinhar a família Bian e os príncipes na mesma panela? Assim, quando eu entrar no palácio no futuro, não precisarão mais apontar dedos e resmungar. — Guan Suyi abaixou a voz. — Além disso, a família Bian planejava usurpar o trono, e os príncipes queriam criar um grande estado vassalo. Eles conspiravam com os Hu e com Xue, o Ladrão, para enfraquecer Wei e dividir o território. Se tivessem sucesso, fortaleceriam seu domínio, consolidariam sua posição e manteriam o poder absoluto sobre as vidas do povo do estado vassalo. E quando finalmente cercassem as Planícies Centrais, como os Han sobreviveriam? Se eu ajo de maneira tão calculista, é apenas para eliminar um perigo para o povo e demonstrar minha lealdade ao país.
Zhong shi suspirou, massageando as têmporas.
— Você ainda fala com tanta calma e retidão, mesmo em meio a um caos desses… Quando foi que se tornou assim? Eu quase não te reconheço mais.
— Mãe, vou entrar no palácio no futuro. Se eu não souber ao menos essas artimanhas, como poderei lidar com as concubinas do harém? Como poderei enfrentar a imperatriz-viúva e as viúvas dos príncipes no Palácio Changle? Você deveria se alegrar com essa minha mudança.
A partir de agora, Guan Suyi só queria ser ela mesma. Talvez precisasse ceder para ganhar o favor de Hunnar ou até agir contra sua consciência para proteger a si mesma e a seus filhos. Mas, como ele mesmo dissera, pelo menos em Wei, ninguém além dele poderia pisar em sua dignidade ou ferir sua família. E isso era o suficiente.
De esposa de um plebeu a mãe do país, de uma mulher ignorada a uma favorecida—sua vida atual superava qualquer expectativa que já tivera. Se continuasse recusando tudo, até ela mesma se chamaria de tola.
Zhong shi ficou sem palavras diante dos argumentos da filha e, após um longo silêncio, murmurou:
— Bem… foi esse o caminho que você escolheu. Mesmo que à sua frente só haja espadas e lanças, terá que seguir em frente.
— Filha já está ciente disso.
Guan Suyi ergueu a taça e tomou um gole. Percebeu que Hunnar a observava de longe e sorriu imediatamente.
O Imperador Sheng Yuan ficou surpreso por um instante, mas, em poucos segundos, sua expressão sombria desapareceu, dando lugar a um semblante iluminado. Ele sorriu e convidou todos os recém-formados a tomarem seus assentos, depois ordenou a Baifu que fosse ao tesouro imperial buscar um adorno dourado digno para presentear a Senhorita Guan.
Quando Baifu retornou, abriu uma caixa de brocado diante dela. Dentro, repousava um esplêndido grampo de fênix de nove caudas, incrustado com safiras vermelhas e pérolas brilhantes. As asas e caudas pareciam vibrar ao menor movimento, como se fossem alçar voo, irradiando uma luz magnífica.
As mulheres ao redor exclamaram de admiração, enquanto os ministros Han fortaleceram ainda mais sua decisão: Guan Suyi deveria ser a imperatriz.
Com o grampo reluzindo entre seus cabelos negros, Guan Suyi caminhou graciosamente até o imperador, abaixou-se profundamente e disse:
— Agradeço Vossa Majestade pela honraria.
— Senhora, por favor, levante-se! — O Imperador Sheng Yuan desceu do trono, ajudou-a a se erguer e tocou suavemente suas têmporas. Com um sorriso, elogiou:
— Esse grampo permaneceu por anos no tesouro imperial, esperando por alguém digno. Hoje, adornando seu cabelo como a lua cheia no céu, finalmente encontrou sua verdadeira dona.
Essas palavras eram eufemísticas, mas nada sutis. Todos ali não eram tolos, como poderiam não entender o significado? O imperador deixara claro, diante de toda a corte civil e militar, que sua candidata favorita para imperatriz sempre fora a senhorita Guan, do começo ao fim. Só não se sabia desde quando os dois tinham um envolvimento — antes ou depois do divórcio? Mas quem ousaria investigar essa questão? Só podiam cogitar em seus próprios pensamentos.
Guan Suyi sorriu timidamente, seus olhos brilhando de um jeito que deixou o imperador Sheng Yuan momentaneamente atordoado. Com grande esforço, ele recobrou a sanidade, deu alguns passos à frente e acompanhou a senhora de volta ao seu assento. Sentou-se, com as orelhas avermelhadas, e então elevou a voz:
— Hoje Zhen tem o privilégio de conquistar os pilares do talento, e no futuro, cada um de vocês se tornará um braço direito de Zhen, sustentando a corte e beneficiando o povo. Todo esse árduo trabalho, os anos de estudo e as grandes ambições não foram em vão. Vamos, bebam! Não precisam brindar a Zhen, apenas ao céu e à terra, aos ancestrais e ao país!
— Brindemos ao céu e à terra, aos ancestrais e ao país! — Todos apressaram-se a erguer suas taças, levantando-se e bebendo tudo de uma só vez.
Em meio ao ambiente solene e sério, uma tosse forte irrompeu de repente, chamando a atenção de todos. Olharam ao redor, confusos, até perceberem que Guan Mumu, o herdeiro adotado pela Mansão do Mestre Imperial, também havia heroicamente bebido uma taça. Agora, ele estava com a cabeça enterrada nas camadas da saia da senhorita Guan, tossindo desesperadamente. Sua figura pequena e embaraçada era ao mesmo tempo cômica e adorável.
Ele não era a única criança presente no banquete imperial, mas com certeza era o mais novo. Além disso, sua curiosidade em relação ao conteúdo da taça fora grande demais. Enquanto ninguém prestava atenção, acabara cometendo uma gafe e um erro tolo diante do imperador. O velho mestre Guan apressou-se a pedir desculpas, mas foi interrompido pela gargalhada alta do imperador Sheng Yuan.
— Pequeno mestre, você é sincero. Outras crianças usaram chá no lugar do vinho, mas você nem hesitou e já bebeu uma taça inteira de bebida forte. Realmente tem o espírito de nossa geração! Venha, venha até Zhen, beba o vinho devagar, Zhen irá te ensinar.
Mu Mu admirava tanto o cunhado que, ao ouvir isso, correu imediatamente até ele, deitando-se familiarmente sobre seus joelhos enquanto ainda tossia, e sussurrou:
— Cunhado.
O imperador Sheng Yuan ficou radiante. Pegou o garotinho no colo, trocou a bebida por um vinho de frutas mais suave e começou a alimentá-lo devagar com um par de hashis, com uma atitude gentil e atenciosa. Mas, ao olhar para a senhora sentada mais abaixo e ver sua expressão contrariada, percebeu quando ela, discretamente, empurrou a taça de lado, sinalizando para que não deixasse seu irmão mais novo beber demais. Só então ele parou, um tanto envergonhado.
Todos os olhares estavam fixos neles — como poderiam não notar essa troca sutil? Além do mais, com o temperamento dominador do imperador, era impressionante vê-lo ser contido pela senhorita Guan. Ficou claro para todos que a decisão sobre a nova imperatriz já estava selada e não poderia mais ser alterada.
—–
Ao mesmo tempo, numa sala secreta nos fundos do palácio, a desarrumada "Bian Min’er" puxava o próprio rosto pedaço por pedaço, revelando a verdadeira face por baixo. Ao ouvir um som, virou-se e viu que era Jinzi, que deveria estar servindo Guan Suyi.
— Aprendeu a mudar de voz? Impressionante. Como se sentiu insultando sua superiora? — Um homem alto entrou carregando a verdadeira Bian Min’er.
— Apenas cumpri a ordem imperial, felizmente não falhei na missão — Jinzi estava exausta, mas não podia demonstrar, então apenas disse: — Preciso voltar para servir a senhorita. Para onde estão levando essa pessoa? Minha senhorita disse que quer vê-la, pode ajudar a providenciar isso?
— Se a imperatriz niangniang deseja ver essa pessoa, como ousaríamos negligenciar? Depois do banquete, pode trazer niangniang até o palácio subterrâneo.
O homem bateu nos ladrilhos do chão e desceu pela passagem secreta que se abriu lentamente. Em poucos instantes, desapareceu sob a cintilante luz amarelada das velas.
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