Capítulo 74: Jovem Mestre Su Ran


 O jovem pareceu pausar ao ouvir aquelas palavras e então seus olhos recaíram sobre o grande cão ao lado de Nuan Nuan.

— Desculpe.

A voz do rapaz era como jade, mas havia nela uma frieza natural.

Ele se levantou e caminhou lentamente desde o quiosque. Com cabelo preto curto, vestia um terno Tang preto de gola alta, com bordados delicados de bambu, e sua silhueta era ereta e esguia como o próprio bambu verde — passando uma sensação de beleza refrescante.

Se não fosse pelo cabelo curto, Bai Mohua teria achado que sua priminha tinha viajado no tempo e encontrado o jovem nobre de alguma família aristocrática antiga.

Embora não fosse muito mais velho, e seu rosto ainda tivesse traços infantis, ele transmitia uma calma e uma dignidade que normalmente só adultos possuíam, fazendo com que as pessoas sentissem, inexplicavelmente, que ele era alguém confiável.

O rapaz era como jade incandescente — tanto na aparência quanto na postura —, o segundo ser mais perfeito que Bai Mohua já tinha visto.

O primeiro, é claro, era sua priminha. Embora ainda fosse bem jovem e infantil, com certeza se tornaria uma grande beleza quando crescesse.

— Xingyun.

Ele ergueu o dedo, e o enorme cão preto que estava ao lado de Nuan Nuan abanou o rabo e se aproximou, esfregando a cabeça nos dedos do rapaz antes de se sentar firmemente ao seu lado.

— Meu nome é Su Ran. Esse é meu cachorro, se chama Xingyun.

Nuan Nuan, de pé ao lado de seu primo de segundo grau, respondeu com uma voz suave e nervosa:

— Meu nome é Gu Nuan, mas todo mundo me chama de Nuan Nuan.

O jovem assentiu devagar.

— Olá, Nuan Nuan. O vovô sempre diz que todo visitante é um convidado. Entrem.

— ...Eu nem me apresentei ainda — resmungou Bai Mohua.

A voz clara como jade de Su Ran respondeu com naturalidade:

— Eu sei quem você é. Bai Mohua, filho da família do Sr. Bai. Dois anos atrás, você se assustou e chorou por causa do Xingyun. Fui até você com o Xingyun pra pedir desculpas.

— ...Você não precisava lembrar disso.

“Vai arruinar minha imagem na cabeça da Nuan Nuan…”

Três pessoas, um cachorro e um gato seguiram até o quiosque. Su Ran fechou a cortina de bambu, e o ambiente ficou gradualmente mais aconchegante.

O garoto de quinze anos serviu chá e água para os dois como se fosse um verdadeiro adulto. Havia também dois pratos com petiscos sobre a mesa.

Bai Mohua segurava o gato afastado do cachorro dentro do quiosque, observando-o com desconfiança.

— Xingyun não morde. Quando saio com ele, sempre levo na coleira — disse Su Ran.

— O problema é que ele cresceu com essa cara de assustador — resmungou Bai Mohua.

A garotinha, tomando chá, não tinha medo nenhum da cabeça do Xingyun. Chegou a acariciá-lo sorrindo.

Houve um momento de silêncio, então Su Ran falou:

— Talvez a coragem das pessoas não esteja ligada à idade.

Com um baque no coração, Bai Mohua sentiu que tinha levado uma facada.

“Esse garoto fala como se tivesse uma lâmina na boca!”

— Como vocês vieram parar na minha casa?

Su Ran perguntou. Nuan Nuan, fazendo carinho na cabeça do Xingyun, contou com sua voz doce e suave sobre como viu o gatinho cair dentro da casa e tudo o que aconteceu depois. Ela falava com clareza, o que fez Su Ran olhar mais uma vez para aquela bela criança que parecia esculpida em jade.

— Xingyun não morde gatos nem nada assim. Ele era um cão militar. Está na minha casa porque se machucou e se aposentou.

Os olhos límpidos de Nuan Nuan ficaram um pouco confusos.

— Irmão Su Ran, o que é um cão militar?

— Hã?

Apesar de Su Ran ter traços clássicos e delicados, ainda era infantil. Mas havia um certo distanciamento em sua postura. Ainda assim, estar com ele fazia Nuan Nuan se sentir à vontade.

— Cães militares são como soldados. Heróis que protegem o país...

Ele explicou de forma gentil e calorosa, simples, mas fácil de entender. Também contou o que havia acontecido com Xingyun.

Depois disso, Nuan Nuan passou a olhar para o cão de forma diferente. Seus olhos grandes, pretos e brancos, agora expressavam admiração e preocupação.

— O Xingyun ainda sente dor?

A menininha abraçou a cabeça do cachorro e encostou o rosto no dele. O cão, claramente gostando daquela criança obediente e carinhosa, se aproximou ainda mais, como se tivesse medo de que ela caísse do banquinho.

Os olhos escuros como obsidiana de Su Ran observaram a criança e o cão do outro lado.

— De vez em quando, dói.

Após uma pausa, ele disse:

— Xingyun gosta muito de você.

Quando Xingyun chegou à sua casa, Su Ran passou muito tempo com ele. Mais tarde, o cão quase se tornou seu parceiro — e também seu único companheiro por ali.

Nuan Nuan sorriu com os olhos curvados, e seu olhar puro e limpo fez Su Ran apertar os lábios discretamente.

— Também tenho uma irmã mais nova — disse Su Ran, de repente, olhando para Bai Mohua.

Bai Mohua o encarou, confuso:

— Você... tá se exibindo?

Ter uma irmãzinha era tão bom assim? Ele também tinha!

Inesperadamente, o jovem balançou a cabeça. Suas sobrancelhas bonitas se franziram levemente.

— Não gosto da minha irmã. Ela sempre quer roubar minhas coisas. Não é tão bonita quanto a Nuan Nuan, nem tão limpinha. Quero trocar de irmã com você.

— ...

— ...

“Isso pode ser trocado? Como você consegue falar algo assim tão naturalmente?!”

Bai Mohua agarrou o braço de Nuan Nuan e olhou para Su Ran com a mesma vigilância de um grande cão.

— Essa é minha irmã!

Ele enfatizou cada sílaba como se temesse que o garoto do outro lado não ouvisse.

— Seja minha irmãzinha, então.

Qual o problema? Nada demais.

Bai Mohua parecia um ser humano normal, mas falava igual a um cachorro.

— Irmão Su Ran, irmãs não podem ser trocadas — disse Nuan Nuan rapidamente, acenando com a mão. — Eu sou filha dos meus pais. Quero continuar sendo.

Su Ran pareceu decepcionado.

— Mas você já me chamou de irmão...

Nuan Nuan explicou pacientemente, com voz suave:

— É porque o irmão Su Ran é mais velho que a Nuan Nuan.

Bai Mohua franziu o cenho, irritado:

— Sua irmã vive roubando suas coisas? Então conta pros seus pais! Deixa eles resolverem.

Su Ran apertou os lábios.

— Meu pai só manda eu ceder. E minha tia sempre diz umas coisas estranhas. Depois disso, meu pai fica ainda mais severo comigo. Eu tô cansado.

Ao dizer isso, ele só franziu as sobrancelhas, como se falasse da vida de outra pessoa. Seus olhos estavam calmos.

Bai Mohua ficou um instante em silêncio.

— Espera... essa sua irmã...

— Ah, é filha da concubina.

Depois de uma pausa, acrescentou:

— Ouvi dizer que aqueles dois já tinham um caso antes da minha mãe se divorciar do meu pai.

— Essa garota é chamada de "Xiaosan".

Bai Mohua quase foi derrubado por essa. Ao ver os olhos inocentes e confusos de Nuan Nuan, começou a piscar freneticamente para Su Ran. “Não ensina coisa errada! Uma criança pura e fofa não devia ouvir isso!”

Su Ran, sem entender os sinais, apenas achou que o outro estava com espasmos nos olhos.

Depois de hesitar, disse, com um tom de preocupação meio automático:

— Quer que eu chame o médico da família pra examinar seus olhos?

— ...Não precisa.

“Criaram um cego nessa casa…”

Bai Mohua sentia que sua mente brilhante não era suficiente pra acompanhar aquele garoto.


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