12 - Um erudito pode ser morto, mas não humilhado


Capítulo 12

UM ERUDITO PODE SER MORTO, MAS NÃO HUMILHADO


A casa do Tio Shen ficava entre o centro e a periferia de Bianjing. A viagem na "carruagem longa" que fazia o trajeto entre as duas cidades levava cerca de quinze minutos — uma distância razoável. 

Como o palácio imperial ficava um pouco mais ao norte, Bianjing tinha um ditado: "A nobreza reside no norte, os plebeus no sul". No entanto, com o crescimento da cidade e a disparada dos preços dos terrenos, muitos comerciantes ricos começaram a construir residências suntuosas na parte sul da cidade exterior e a se mudar para lá. 

O Tio Shen não foi exceção. Assim como o Pai Shen, ele tinha uma loja com aposentos no centro expandido, mas sua residência na periferia era muito mais espaçosa — um complexo com dois pátios e nove cômodos, no total. Além disso, o Tio Shen também possuía cinquenta acres de terras agrícolas no campo. Sua mudança para a periferia foi em parte por conveniência — para receber o aluguel de seus arrendatários rurais e comprar grãos de outras regiões, já que ele tinha um armazém de grãos. 

Como ia sair, Shen Miao aproveitou para se arrumar: vestiu uma jaqueta de mangas curtas, cor damasco claro, bordada com flores de ameixeira, combinada com uma saia ruqun azul-esverdeada. O tecido era algodão comum, e a roupa fora feita no ano em que a dona original se casou com o rapaz da Família Rong, em Jinling. Mas como a Shen Miao original cuidava de todas as tarefas domésticas, usava principalmente camisas curtas de trabalho, deixando este conjunto praticamente intacto e, portanto, com aparência de novo. 

Do baú da dona original, ela pegou o último grampo de cabelo de prata que lhe restava — uma peça delicada esculpida com ramos de ameixeira — para prender o cabelo. Em seguida, enrolou um lenço cor damasco claro em volta do coque. Além disso, não usava nenhum outro adorno. 

Quando saiu com sua nova roupa, Shen Ji a observou em silêncio por um longo tempo. Shen Miao perguntou o que ele estava olhando, mas ele apenas balançou a cabeça e sorriu. 

"A irmã mais velha é linda. Papai costumava se gabar para os vizinhos de que você era a moça mais bonita num raio de dez quilômetros. Isso fazia todos os tios e tias com filhas revirarem os olhos, mas não podiam contestar." 

Shen Miao não fingiu modéstia. Em vez disso, curvou os lábios com um ar presunçoso. 

"Claro!" 

A verdadeira Shen Miao era realmente encantadora — não o tipo de beleza estonteante que deslumbra à primeira vista, mas sim um charme suave e delicado que lembrava uma chuva fina num beco do sul. Seus olhos em forma de crescente tinham uma graça serena, como ramos de pêssego desabrochando na primavera, tão refrescantes que pareciam elevar o espírito. 

Ao ouvir isso, a irmã Xiang também olhou para Shen Miao. Shen Miao pegou a mãozinha da menina e sorriu para ela. 

"Nossa irmã Xiang é tão bonita quanto eu! Um dia, você será ainda mais bonita que sua irmã mais velha!" 

A irmã Xiang imediatamente estufou o peito, imitando a confiança de Shen Miao. 

"Claro!" 

Shen Ji vinha atrás, observando sua irmã mais velha e sua irmã mais nova competirem, em tom de brincadeira, para ver quem era mais bonita. Ele não conseguiu conter uma risadinha, mas seu sorriso se desfez quando seu olhar pousou no único grampo de cabelo prateado no coque de Shen Miao. 

Aquele grampo fazia parte do dote que sua mãe dera a Shen Miao — um conjunto completo de noivado que, se bem se lembrava, deveria incluir: um grampo para o topo da cabeça, um par de grampos laterais, um par de grampos compridos, um enfeite central, um divisor, um par de enfeites para o templo, um par de brincos, um par de pulseiras, um par de anéis, além de grampos de cabelo florais e alfinetes decorativos menores. Mas agora, restava apenas um único grampo. 

Nos últimos três anos, ele havia guardado ressentimento da irmã mais velha. Mas, refletindo bem, talvez ela também não tivesse tido uma vida fácil. Caso contrário, jamais o teria abandonado, nem a irmã Xiang. A Shen Miao original era tão gentil e amável — se ela havia mudado tão drasticamente, devia ser porque a Família Rong a havia tratado com crueldade. 

A princípio, Shen Ji achou a Shen Miao de volta estranha. Embora seu rosto fosse o mesmo, sua personalidade havia se transformado — agora ela era ousada, resiliente e indiferente a trivialidades, sem nenhuma da hesitação ou timidez que antes transparecia em seu olhar. 

Mas agora, ele entendia. Sua irmã mais velha devia ter sofrido muito. 

Inconscientemente, Shen Ji cerrou os punhos. Só quando Shen Miao se virou e o chamou, ele se recompôs. 

"Ji, por que você está ficando para trás? Depressa, ou vamos perder a carruagem e ter que ir a pé!" 

"Já vou!" 

Shen Ji relaxou as mãos e acelerou o passo para alcançá-la. 

Silenciosamente, ele prometeu a si mesmo: a partir de amanhã, trabalharia mais para ajudar sua irmã mais velha. Mesmo que não conseguisse continuar seus estudos, ele encontraria maneiras de ganhar dinheiro. Um dia, ele compraria para ela um novo conjunto de noiva — o mais fino e belo da joalheria! 

Era final de primavera, e o sol da tarde lançava um calor suave enquanto Shen Miao caminhava de mãos dadas com seus irmãos. 

Logo chegaram ao mercado de gado, onde três ou quatro "carruagens longas" — carroças cobertas puxadas por cavalos ou bois — estavam estacionadas. Eram viagens compartilhadas, com capacidade para seis a dez pessoas. As passagens custavam dois cobres para adultos e um para crianças. Essencialmente, eram o equivalente antigo de um ônibus — só que um pouco caros, considerando que o poder de compra de um único cobre excedia em muito o de um dólar moderno. 

Enquanto esperava, Shen Miao viu uma criança vendendo peras à beira da estrada e comprou um saco cheio por três cobres, recebendo em troca mais de uma dúzia de frutas rechonchudas e esverdeadas. 

Shen Ji lançou-lhe um olhar confuso. Na verdade, ele estivera tenso o caminho todo, preocupado com a forma como a língua afiada da Tia Shen poderia dificultar as coisas para sua irmã mais velha. Mas lá estava Shen Miao, aparentemente pronta para uma discussão, comprando peras casualmente como se não tivesse nenhuma preocupação no mundo. 

Shen Miao não explicou nada, apenas sorriu para si mesma. Discutir e rolar no chão como uma megera poderia até resolver a questão, mas ao custo da dignidade. No entanto, se ela conseguisse se apoderar de uma posição moral superior e influenciar a opinião pública, o resultado seria completamente diferente. 

Assim que embarcaram na carruagem, a movimentada área central da cidade gradualmente deu lugar aos distritos externos. 

A área imediatamente fora das muralhas internas era repleta de mansões extensas, com seus portões ladeados por criados bem vestidos que descansavam ociosamente, limpando os dentes e conversando. No momento em que pessoas comuns se aproximavam demais, esses criados gritavam para que se retirassem. 

As rodas seguiram em frente, cruzando dois fossos antes de chegar a um trecho mais animado — um denso bairro residencial perto da Ponte Jinliang, repleto de restaurantes, pousadas e lojas. Comparados à área central da cidade, os edifícios ali eram mais novos e maiores. Era ali que o Tio Shen morava. 

Shen Miao conduziu Shen Ji e a Irmã Xiang para fora da carruagem e navegou pelas ruas de memória. Logo, a placa da "Loja de Grãos do Shen" surgiu em meio à agitação do mercado. 

De longe, Shen Ji avistou a placa da loja — de um lado bordado com um grande "Arroz", do outro com "Shen's" — e sua expressão escureceu, seus ombros se tensionando. Shen Miao deu um tapinha reconfortante em sua mão, antes de entrar. 

O interior da loja revelava um balcão alto, atrás do qual um homem corpulento na casa dos quarenta anos se espreguiçava em uma cadeira de balanço de vime. Vestido com seda fina, ele se balançava preguiçosamente, absorto em um livro. De vez em quando, umedecia a ponta do dedo antes de virar uma página com uma lentidão deliberada. 

Shen Miao respirou fundo, entregou as peras a Shen Ji e então chamou:

"Tio Shen!", ela lamentou, sua voz aguda de angústia. 

O súbito desabafo foi como um trovão vindo do nada, assustando até mesmo Shen Ji e a Irmã Xiang, que instintivamente se viraram para olhá-la. 

Quanto ao Tio Shen, que estava completamente imerso em seu livro? O homem, que estava relaxado, foi sacudido com tanta força que seu corpo inteiro tremeu, e a "escritura do sábio" voou de suas mãos. Ele se apressou para pegá-la, mas só conseguiu derrubar sua cadeira reclinável, caindo de costas com um baque surdo. 

"Ai, ai... meu traseiro..." 

Shen Ji respirou fundo e conteve o ar, reprimindo o riso. 

Shen Miao, por sua vez, mordeu o lábio com força para manter sua expressão de pena. 

Irmã Xiang, no entanto, não conseguiu se conter — vendo o Tio Shen em tal situação ridícula, ela caiu na gargalhada. 

"Quem se atreve...?!", Tio Shen rugiu, levantando-se do chão, pronto para socar o balcão com fúria. Mas, no instante em que viu Shen Miao, congelou. "Sobrinha? O que você está fazendo aqui?" 

Shen Miao já havia se adiantado, abrindo bruscamente o pequeno portão do balcão e agarrando o braço rechonchudo e coberto de seda do Tio Shen com as duas mãos. Ela choramingou: 

"Tio! Sua sobrinha sofreu tanto... você não tem ideia! Eu quase morri! Não acredito que sobrevivi para ver minha família de novo...!" 

O Tio Shen fez uma careta de dor, mas por mais que se debatesse, não conseguia se livrar dela. 

A comoção já havia atraído a atenção de vizinhos e transeuntes, que agora se aglomeravam do lado de fora da mercearia, olhando curiosos. 

O coração do Tio Shen batia forte sob o choro incessante de Shen Miao. Ele só conseguia gritar, impotente: 

"Mulher, maldita mulher, saia daqui!" 

Shen Miao enxugou o ranho e as lágrimas na manga do Tio Shen e, em seguida, deu um sorriso frio. 

O nome completo do Tio Shen era Shen Gaodou. Embora agora fosse um comerciante, ele passara anos em uma escola particular quando menino, enviado para lá pelo patriarca da família Shen. 

Infelizmente, apesar das grandes aspirações de seu pai refletidas em seu nome ("Gaodou", que implica ambições elevadas), o Tio Shen estudara por décadas sem jamais passar nos exames imperiais para se tornar um erudito. 

Agora, embora fosse apenas um comerciante de grãos que ocasionalmente proferia frases literárias, ainda se considerava um homem culto, entregando-se a um refinamento pretensioso. Carregava consigo clássicos como ‘A Doutrina do Meio’, ‘Mencius’ e ‘O Livro dos Ritos’, posando como um profundo erudito injustamente negligenciado pelo destino. 

Mas, graças a esse histórico, Shen Miao — baseando-se nas memórias do dono original sobre o Tio Shen — há muito descobrira como lidar com pessoas como ele: medíocres, porém convencidas de sua própria genialidade. 

Os antigos eruditos costumavam repetir o ditado: "Um erudito pode ser morto, mas não humilhado". Eles se importavam profundamente com a reputação e a honra — a desgraça pública era pior que a morte para eles. 

Então Shen Miao chorou ainda mais alto, sua voz ressoando enquanto denunciava: 

"Tio, você é meu único parente vivo! Laços de sangue são mais fortes que laços de água! Meus pais morreram tragicamente, e agora não há justiça para eles — que assim seja! Mas eu confiei meus irmãos mais novos a você quando me casei com Jinling, que mora longe, e deixei as lojas da nossa família sob seus cuidados. Por que você os jogou na rua, deixando-os morrer de fome e frio?!" 

Nos tempos antigos, os clãs viviam juntos, unidos por laços de sangue e obrigações mútuas. Com a morte de ambos os pais, era dever do Tio Shen cuidar dos filhos órfãos de seu irmão — especialmente porque a Família Shen tinha apenas dois irmãos: o Tio Shen e o Pai Shen. Se o Tio Shen abandonasse seus próprios parentes, a sociedade o condenaria impiedosamente, envergonhando-o profundamente. 

Shen Miao havia optado por não processar o Tio Shen por dois motivos: primeiro, acusar um ancião, sendo uma jovem de posição inferior, seria como uma esposa se divorciando do marido — um caso de "inferioridade desafiando a nobreza". Ela teria que suportar trinta chicotadas antes mesmo que o tribunal ouvisse sua alegação; e segundo, a negligência do Tio Shen era uma falha moral, não um crime, e as autoridades não se importavam com tais disputas domésticas... Maldita hipocrisia social! 

Então Shen Miao não teve escolha a não ser expor o egoísmo do Tio Shen bem na cara dele — e garantir alguns benefícios para si mesma, Shen Ji e a Irmã Xiang no processo! 

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