Capítulo 136
O FIM DO MARQUESADO DE WEIYUAN
“Foi esse o único erro que você cometeu?”
A voz de Shen Yi Yao soou suavemente, ecoando aos ouvidos da Concubina Wu e fazendo seu corpo ficar subitamente rígido.
Ela estava semi-deitada no chão. O tapete persa com desenhos de peônias diante de seus olhos parecia luxuoso, mas, de alguma forma, fez a Concubina Wu recordar algo de mais de uma década atrás.
Naquela época, ela era jovem e bonita. O marquês, então, era alto e atraente. Como criada pessoal de Shen Yi Yao, ela via frequentemente o marquês e a senhora em momentos de carinho. O marquês era muito atencioso com a senhora e a estimava imensamente.
Ju Fang não conseguia evitar sentir certa admiração. Sua inveja transformou-se gradualmente em desejo.
De alguma forma, a Concubina Pei sabia de tudo.
Certo dia, enquanto a senhora se lavava, a Concubina Pei apareceu e foi recebida por Ju Fang. A Concubina Pei lhe disse apenas uma coisa: você é a criada pessoal que veio no dote da senhora, não é?
Mais tarde, essas palavras tornaram-se o pesadelo de Ju Fang, escondido nos recônditos mais profundos de seu coração.
Era verdade. Todos sabiam para que serviam as criadas do dote. Ela era a criada favorita que acompanhara o dote da senhora, e também a mais bonita.
De alguma maneira, ela acabou se envolvendo com a Concubina Pei. Ela a ajudou a realizar seus desejos e ela chegou a cogitar se poderia trair aquela senhora que sempre a tratara tão bem.
No entanto, esses pensamentos desapareciam num instante, enterrados profundamente em seu coração.
A Concubina Wu ofegava ansiosamente e conseguiu dizer, com a voz embargada:
“Esta serva cometeu um erro grave. Esta serva não deveria ter conspirado com a Concubina Pei apenas para satisfazer seus próprios desejos vergonhosos.”
Shen Yi Yao, que estava sentada em posição de destaque, estava perdida em lembranças de um passado distante. Essas memórias fizeram com que ela olhasse para a Concubina Wu com um misto de sentimentos complexos e desprezo.
“Concubina Wu, você é muito inteligente. Mais inteligente do que eu imaginava. Você veio admitir suas faltas, mas apenas as menores. Tem certeza de que veio para se redimir?”
Shen Yi Yao perdeu a paciência de repente. Ela se levantou e disse a Cui Qiao:
“Leve-a embora!”
A Concubina Wu levantou-se e avançou em direção a Shen Yi Yao, mas foi contida por Cui Qiao:
“Senhora, esta serva realmente deseja se redimir. Esta serva não está tentando esconder nada. É apenas muito difícil para mim falar sobre minhas ações do passado. Senhora, eu lhe imploro, dê-me outra chance, eu imploro…”
O rosto da Concubina Wu estava banhado por lágrimas de pavor, que escorriam por seu queixo afilado e molhavam suas roupas.
Shen Yi Yao a observava com um olhar frio e distante. Aquele olhar fez a Concubina Wu sentir-se inferior.
Shen Yi Yao era sempre gentil e próxima daqueles ao seu redor, mas, para Ju Fang, ela sempre transmitia uma sensação de distanciamento.
Aquela mulher tinha tudo com que uma jovem poderia sonhar. Ela possuía status, honra, riqueza, beleza e muito mais. Sempre que precisava de algo, não precisava buscar por conta própria; havia sempre pessoas oferecendo-lhe o que desejava. Na casa de sua família materna, seus pais, irmãos e cunhadas a mimavam. Após o casamento, seu marido e a família dele a adoravam…
Quando foi que sua admiração se transformou em inveja? Inveja, ressentimento, inconformismo, raiva... Essas emoções corroíam sua alma dia e noite. Quanto mais coisas ela não conseguia obter, mais odiava Shen Yi Yao, que tinha tudo.
Finalmente, com a ajuda da Concubina Pei, aquela mulher — que tinha tudo, menos juízo — a entregou ao Marquês. Ju Fang finalmente conseguiu o que queria.
No dia seguinte, ela havia feito a reverência de submissão a Shen Yi Yao. Ao olhar para a mulher acima dela, que retribuía o olhar com uma expressão enigmática, ela sentiu uma satisfação presunçosa.
A Concubina Pei era realmente um demônio. Ela conseguia compreender as partes mais sombrias do coração humano.
“Você não sente inveja dela? Olhe para ela, com tudo o que nós não temos. Ela é tão altiva que desperta o ódio nos outros. Riqueza, beleza, glória... ela tem tudo. Se nós queremos algo, só nos resta trabalhar com as próprias mãos para conquistá-lo... Eu quero muito, muito mesmo, tirar tudo dela. Quem sabe que expressão ela terá naquele momento…”
Depois daquele dia, a criada Ju Fang tornou-se uma segunda Concubina Pei.
Como criada de quarto, e até mesmo como concubina, ela deveria concentrar seus esforços em Yan Ting. No entanto, o Marquês geralmente só se importava com a Senhora e nunca tomava a iniciativa de procurá-las. Elas só recebiam alguma atenção quando a Senhora ocasionalmente dizia algo.
Ju Fang finalmente entendeu por que a Concubina Pei ia diligentemente ao Pavilhão Jinse todos os dias. Elas só conseguiam recolher as migalhas que caíam das mãos daquela mulher.
Seu ressentimento foi crescendo gradualmente…
Como ela era a criada pessoal em quem Shen Yi Yao confiava, mesmo que Shen Yi Yao fosse muito próxima da Concubina Pei, Ju Fang conseguia perceber a diferença.
Com intenções maliciosas, ela e a Concubina Pei conspiraram para, aos poucos, afastar as pessoas que cercavam a senhora. Como Ju Fang estava por dentro de tudo, isso não foi difícil de fazer…
Ver uma mulher que tinha tudo sendo manipulada por elas dava vontade de rir a Ju Fang. E daí que você é alguém de posição elevada? No fim das contas, não passa de uma tola!
A Concubina Wu revelou tudo o que havia feito, palavra por palavra.
Cui Qiao e Cui Ping não podiam acreditar no que ouviam. Como alguém poderia ter pensamentos tão sinistros? Ela realmente conspirou com outras pessoas para prejudicar a própria senhora – especialmente porque as duas finalmente compreenderam por que ouviam dizer que "a relação entre a senhora e a terceira jovem não era muito boa". Por mais próximas que fossem, não teriam como resistir a pessoas instigando conflitos diariamente!
A expressão de Shen Yi Yao era uma mistura de tristeza e alegria. Seus olhos brilharam levemente com lágrimas. Depois de muito, muito tempo, ela finalmente se acalmou.
"Já que você cometeu tantas maldades, o que a faz pensar que eu certamente a perdoarei? O que a leva a presumir que esquecerei as ofensas do passado e a levarei comigo?"
Essas palavras quebraram o silêncio.
A Concubina Wu, que estava de cabeça baixa em sinal de remorso, levantou o olhar de repente. Ao ver a expressão de espanto dela, Shen Yi Yao riu:
"Será que, aos seus olhos, sou alguém que não guarda rancor? Esqueci de lhe dizer: na verdade, eu guardo rancor, sim. É isso mesmo. O fato de Ah-Mo ter nascido prematuro também se deveu ao envolvimento seu e de Pei Yu Jin, não é?"
Shen Yi Yao não ficou ali e entrou em seu quarto.
"Façam-na ir embora."
Suas últimas palavras foram leves como uma nuvem de fumaça.
A Concubina Wu ficou extremamente assustada, com o coração cheio de medo.
Ela sabia... ela realmente sabia!
Na verdade, apesar de baixar a cabeça e implorar por perdão, a Concubina Wu nunca tivera uma boa opinião sobre Shen Yi Yao. Aos seus olhos, Shen Yi Yao era uma senhora ingênua e alheia à realidade. Bastava que ela se mostrasse suficientemente humilde e que a Terceira Jovem Senhora não estivesse por perto; a senhora certamente sentiria pena dela, dada a relação que tinham no passado.
Foi por isso que ela se humilhou e implorou perdão com ar de arrependimento. Vendo que não poderia esconder tudo de Shen Yi Yao — e sendo forçada a revelar certos fatos —, ela acabou não confessando a história completa.
No entanto, ela havia esquecido algo: Shen Yi Yao já desconfiava há muito tempo do nascimento prematuro e incomum de Yan Mo. Já que Ju Fang e a Concubina Pei haviam conspirado juntas para realizar tantas coisas, como Shen Yi Yao poderia não suspeitar delas?
O nascimento prematuro de Yan Mo não fora planejado apenas pelas duas; a Velha Senhora também estava envolvida. A Concubina Pei queria administrar a casa, e a Velha Senhora queria tomar de Shen Yi Yao o controle da renda familiar. Foi assim que o esquema sórdido pôde ser executado com tanta facilidade.
Mais tarde, a Concubina Pei discutiu o assunto com a Concubina Wu. A Concubina Wu supôs apenas que a Concubina Pei queria administrar a casa e não percebeu o envolvimento da Velha Senhora.
Contudo, saber ou não já não importava mais. Nada neste mundo permanece oculto para sempre; um dia, ela teria de pagar por seus pecados.
Cui Qiao e Cui Ping exibiam expressões de fúria. Vendo que a Concubina Wu permanecia paralisada, elas a arrastaram para fora.
A Concubina Wu foi jogada escada abaixo. Cui Qiao ordenou às amas e às criadas:
"Joguem-na para fora. Não permitam que ela atravesse as portas do pavilhão novamente."
Cui Qiao e Cui Ping ainda haviam se contido, mas as amas e as criadas da limpeza que estavam do lado de fora não foram tão gentis. Elas agarraram a Concubina Wu e a lançaram diretamente para além das portas.
A Concubina Wu caiu de forma deplorável no chão. Antes que pudesse reagir, ouviu um choro fraco ao seu lado:
"Mãe, não implore mais à senhora. Vamos voltar." Yan Chan chorava, enquanto a ajudava a se levantar.
A Concubina Wu olhou para sua filha, quieta e obediente. O olhar, antes alarmado e inquieto, tornou-se finalmente firme e decidido. Aquela era sua filha, seu tudo! Por ela, estava disposta a fazer qualquer coisa!
“Não tenha medo. Sua mãe-concubina convencerá a Senhora. Não se preocupe, eu certamente farei com que a Senhora a leve embora.”
…..ooo0ooo…..
Naquela noite, a Concubina Wu enforcou-se.
Como as criadas não estavam trabalhando com muita diligência naquele período, ninguém a descobriu. Foi apenas na manhã seguinte, quando Yan Chan foi procurá-la, que a viu pendurada e balançando suavemente.
Yan Chan gritou e desmaiou ali mesmo.
Quando Shen Yi Yao recebeu a notícia, ficou atordoada por um longo tempo.
A Concubina Wu não deixou bilhete, mas sua intenção era extremamente clara. Ela queria redimir-se de seus pecados com a própria morte e implorava a Shen Yi Yao que não transferisse a culpa de seus crimes para a filha.
Yan Chan estava em estado de choque. Não chorou nem fez escândalo.
Shen Yi Yao não suportava deixá-la permanecer naquele pavilhão e a trouxe de volta para o Pavilhão Jinse.
Ela ordenou aos criados que ajudassem a organizar o funeral da Concubina Wu. Ela forneceria a prata necessária.
Yan Yan recebeu a carta e retornou. Ao ouvir os detalhes do assunto, ela explodiu de raiva com Shen Yi Yao:
“Por que você a trouxe para cá? Você realmente planeja levá-la para a Mansão do Duque Zhenguo? Não se esqueça do motivo pelo qual a Concubina Wu morreu. Você pretende trazer alguém que a odiará todos os dias?! Eu realmente não consigo entender o que essas pessoas têm na cabeça. O que as faz pensar que vamos deixar o passado para trás e atender ao desejo dela?”
Luo Huai Yuan também ficou sem palavras. Todo esse assunto lhe causava uma sensação indescritível de repulsa. Só porque ela admitiu seus erros e se arrependeu, você é obrigada a perdoá-la? Ao ver que não seria, você usou sua morte como chantagem!
Exatamente, era uma ameaça. Pelo menos era assim que Yan Yan se sentia. Caso contrário, ela não estaria tão furiosa.
Yan Mo comentou: “Mamãe, essa pessoa não pode ficar ao nosso lado. Se você não tiver coragem de lidar com isso, deixe-a aos cuidados da tia mais velha. Encontraremos um marido para ela e a casaremos imediatamente.”
“Não é que a mamãe não tenha coragem. Eu apenas achei que ela parecia digna de pena.” Shen Yi Yao fez uma pausa e disse: “Já que vocês dizem isso, vou procurar sua tia mais velha mais tarde e deixar Yan Chan com ela. Essa quinta senhorita sempre foi obediente. É apenas uma pena…”
É apenas uma pena que a Concubina Wu tenha errado nos cálculos. Se Shen Yi Yao estivesse sozinha, ela poderia ter conseguido o que queria – isso, porque o coração de Shen Yi Yao havia realmente se abrandado. A morte de uma pessoa é como uma luz que se apaga. Ela também não era do tipo que descontava rancores em crianças.
Infelizmente, Yan Yan e Yan Mo já eram adultos. Como seus filhos se opuseram, Shen Yi Yao, naturalmente, não era tola. Como ela poderia ignorar a opinião de seus filhos em favor dessa pessoa que lhe causava sentimentos tão conflitantes?
Luo Huai Yuan disse:
"Acho melhor a mamãe se mudar o quanto antes. Esta propriedade está cheia de demônios e monstros. Quem sabe que outras armações podem surgir?"
Shen Yi Yao achou as palavras dele sensatas e ordenou que os criados agilizassem o processo.
Devido a esse incidente, Yan Yan desistiu de ir embora naquele momento. Ela decidiu supervisionar tudo pessoalmente e acompanhar a mãe na saída, antes de retornar à residência do Quarto Príncipe.
Nesse meio-tempo, Shen Yi Yao falou com Xue Shi, que concordou prontamente. Shen Yi Yao sentiu-se um pouco sem jeito e disse que pagaria pelas despesas de Yan Chan, mas Xue Shi sorriu e disse que não havia necessidade de mencionar isso.
Perto do meio-dia, todos os pertences menores já haviam sido transportados; restavam apenas os móveis grandes. Yan Yan pediu que Shen Yi Yao e Yan Mo partissem primeiro na carruagem, deixando a tarefa de transportar os móveis para os criados.
Shen Yi Yao havia prometido aos seus criados que, se quisessem partir com ela, ela resgataria seus contratos de servidão vitalícia da Mansão do Marquês de Weiyuan. Yan Yan ficou para trás para tratar dessa questão.
Assim que Shen Yi Yao partiu com Yan Mo, o Salão Rongan recebeu a notícia e enviou uma convocação. Como a questão dos contratos de servidão precisava passar pelo Salão Rongan, Yan Yan pediu a Luo Huai Yuan que permanecesse no Pavilhão Jinse e foi ela mesma ao Salão Rongan.
Ao chegar, percebeu que todos estavam presentes. Até mesmo a Concubina Lan, do segundo ramo da família, o quinto jovem mestre e Yan Hong estavam lá.
Ao ver Yan Yan chegar, Chen Shi decidiu levantar logo as questões espinhosas:
"Terceira senhorita, que bom que você está aqui. Sua mãe só pensou em si mesma e voltou para a família de origem. O seu ramo da família tem muita gente. Como vamos resolver isso?"
Yan Yan não era de temperamento brando como Shen Yi Yao; ela nunca poupava ninguém. Como já estava cheia de raiva, aquele momento veio a calhar.
Ela olhou para o lado da Concubina Lan e sorriu friamente para Chen Shi:
“Eu nunca soube que, quando uma viúva retorna para casa, ela precisa trazer um bando de concubinas e seus filhos a tiracolo. A Terceira Tia está querendo dizer que eles não têm o sobrenome Yan?”
Chen Shi ficou engasgada com essas palavras. Ela disse, agitada:
“A propriedade já está nessa situação. A Segunda Cunhada realmente faz planos muito convenientes: joga todo esse fardo para nós e vai viver confortavelmente. Por que o nosso terceiro ramo e o ramo mais velho deveriam ajudar a criar o pessoal do seu segundo ramo!?”
Xue Shi sorriu abertamente e disse:
“Terceira Cunhada, fale o que quiser, mas não envolva o nosso ramo mais velho nisso.”
Yan Yan riu, tomada pela indignação com as palavras de Chen Shi:
“Se a Terceira Tia não quer, tudo bem. Lembro-me de que a Velha Senhora deu ao seu terceiro ramo os dois negócios que estão em nome do meu pai. A Velha Senhora pode ter se esquecido de que ainda tem alguns netos em situação precária, mas, como irmã mais velha deles, eu me lembro. Que tal você passar esses negócios para esses meus dois irmãozinhos que estão em situação tão difícil?”
“Sua…!” O rosto de Chen Shi se contorceu imediatamente e ela gritou: “Aqueles negócios nos foram dados pela velha senhora. Por que deveríamos entregá-los?”
Yan Yan ergueu as sobrancelhas:
“Porque esses negócios estão em nome do meu pai. Não venha com essa história de que a velha senhora os repassou. Minha mãe é gentil e não queria discutir com vocês; ela também estava muito abalada e deixou o assunto passar. Caso contrário, podemos levar isso à administração da Propriedade da Família Yan e deixar que eles arbitrem a questão. Vamos ver o que eles dizem sobre o fato de o irmão mais novo do meu pai ter roubado os negócios dele antes mesmo de o corpo esfriar, deixando os pobres descendentes dele sem nada. Quer ver de que acusações eles vão responsabilizar vocês?”
O rosto de Yan Qu ficou vermelho. Ele se levantou:
“Sobrinha Yan, não calunie as pessoas! O terceiro ramo também tem participação nos negócios provenientes dos fundos comuns da família.”
Yan Yan manteve uma expressão indiferente:
“Eu só sei que esses negócios estão em nome do meu pai. Quanto ao destino dos negócios do seu terceiro ramo, o terceiro tio pode perguntar à avó.”
“Sua…”
Todos sabiam que, para manter o sustento da propriedade, a velha senhora havia vendido muitos dos negócios. Após tantos anos, restavam apenas esses dois pequenos empreendimentos.
Do ponto de vista do terceiro ramo, eles tinham direito a uma parte dos fundos comuns. Yan Qu também era filho biológico da velha senhora. Agora que Yan Ting havia falecido, parecia razoável que os negócios fossem passados para eles.
No entanto, sob uma perspectiva legal ou aos olhos de estranhos, apenas o nome que constava na escritura era reconhecido. Quem se importaria com qualquer outra coisa?
O motivo pelo qual Yan Yan discutia com eles era para desabafar sua raiva. Ela sentia que aquelas pessoas eram uma farsa.
Isso também fazia parte do plano de Luo Huai Yuan. Afinal, sob qualquer ângulo, Yan Hong e Yan Qing pertenciam ao segundo ramo. Com a morte de Yan Ting, era razoável que Shen Yi Yao, como a esposa principal, cuidasse deles. Contudo, Luo Huai Yuan e a Mansão do Duque Zhenguo haviam sugerido que sua mãe voltasse para a casa da família, devido à sua condição de viúva.
Isso significava que os filhos mais novos do segundo ramo ficariam sob os cuidados da velha senhora ou de Yan Qu, o tio biológico deles. No entanto, pelas expressões dos membros do terceiro ramo, ficava claro que, mesmo que eles os acolhessem, a vida das crianças não seria nada boa.
Havia também a questão do suicídio da Concubina Wu.
Para poupar Shen Yi Yao e Yan Mo de problemas futuros, Yan Yan decidiu "ajudar" os dois jovens.
"A princípio, eu não queria tocar nesse assunto. Mas, já que a terceira tia está tão exaltada, sinto-me obrigada a trazer um pouco de bom senso à discussão. Embora eu já esteja casada e não deva interferir nos assuntos da casa, ver o pessoal do segundo ramo em tamanha aflição despertou em mim uma compaixão inevitável. Como assim? Os descendentes do grande Marquês de Weiyuan precisam ser criados por estranhos? Mesmo que o pai deles tenha falecido, não se esqueçam de que vocês estão na propriedade concedida ao Marquês de Weiyuan. Não ajam como se fossem meros visitantes aqui!"
A Concubina Lan segurava o quinto jovem mestre, Yan Qing, e soluçava, parecendo extremamente digna de pena. Yan Hong, geralmente silencioso, também exibia um semblante de tristeza.
Sem esperar que o terceiro ramo retrucasse, Yan Yan continuou:
"Portanto, terceiro tio e terceira tia, não me levem a mal por ultrapassar os limites. Mesmo que seja apenas em memória do meu falecido pai, preciso intervir nesta questão."
Yan Zhi levantou-se:
"A sobrinha Yan tem razão. Como irmão mais velho, eu não queria tocar nesses assuntos. No entanto, a situação passou de todos os limites. Não fui gerado pela mamãe, então nosso ramo mais velho não ousa reivindicar muita coisa. Mas é justo que os bens do segundo irmão fiquem com seus descendentes. Ah-Mo tem a segunda cunhada como mãe e o Duque Zhenguo como apoiador. É evidente que a segunda cunhada não quer disputar esses bens. Mas, e essas duas crianças? Uma ainda menor de idade, e a outra, um bebê... o que será delas?! Mamãe, a senhora precisa se pronunciar. Não deixe que o espírito do segundo irmão se sinta desamparado lá no alto!"
Todos voltaram o olhar para a velha senhora na cama.
Ela permaneceu em silêncio por um tempo, como se travasse uma batalha interna.
Ela não negava ter preferência pelo terceiro filho, mas também gostava de Yan Hong — afinal, fora ela quem o criara. Somado ao carinho que nutria por Yan Ting, a balança em seu coração foi mudando de lado aos poucos.
Depois de um longo tempo, ela finalmente se pronunciou.
A governanta Zhao disse:
"A velha senhora reconheceu que sua decisão anterior foi, de fato, um tanto confusa. Sua intenção agora é colocar os dois negócios sob os nomes do terceiro jovem mestre e do quinto jovem mestre. Como eles ainda são jovens e não podem administrar tudo sozinhos, viverão temporariamente com a velha senhora e o terceiro senhor. O terceiro senhor e a terceira senhora ficarão encarregados da gestão dos negócios."
Naturalmente, o terceiro ramo da família não estava satisfeito, mas Yan Yan estava ali, lançando-lhes olhares severos.
A filha mais velha do segundo ramo sempre fora uma mulher de personalidade forte. Quando se irritava, não poupava ninguém. Yan Qu e a Sra. Chen temiam muito que ela causasse um escândalo na Propriedade da Morada Celestial. No momento em que fizessem isso, a razão deixaria de estar do lado deles. Eles perderiam ambas as propriedades e a reputação, e talvez até acabassem na prisão. Afinal, Yan Ting fora um marquês antes de morrer. Embora não o fosse mais, a Corte geralmente optava pela punição mais severa em casos assim.
O terceiro ramo acabou não ganhando praticamente nada com seus esforços e ainda teve de acolher a velha senhora. Agora, só podiam se consolar pensando que administrar os negócios deveria trazer alguns benefícios.
A questão foi assim resolvida. Yan Yan ordenou aos criados que buscassem as escrituras junto às autoridades imediatamente e as entregou a Yan Hong e à Concubina Lan.
As expressões deles eram complexas; não sabiam se deviam agradecê-la ou o que mais dizer. Por fim, Yan Hong gaguejou:
"Obrigado, terceira irmã."
"Não precisa agradecer. Cuidem-se, daqui para a frente."
A mensagem era extremamente clara: no futuro, eles só poderiam contar consigo mesmos.
O casal do terceiro ramo não era santo. Como dependiam do terceiro ramo para o sustento, teriam de conquistar a boa-vontade deles. No entanto, com os negócios em seus nomes, tinham algum respaldo para se manterem firmes. Quanto ao desenrolar de seu futuro, teriam de planejar por conta própria.
Depois, Yan Yan abordou a questão dos contratos de servidão vitalícia dos criados.
A Sra. Chen havia rompido totalmente com Yan Yan e não pretendia ser gentil. Ela usou a desculpa de que "a propriedade não vai bem e aqueles criados podem ser vendidos por um bom preço".
Yan Yan não quis perder tempo discutindo e pediu que ela estipulasse um valor; elas poderiam considerá-la a compradora.
Naturalmente, a Sra. Chen propôs uma quantia exorbitante.
Xue Shi não suportou aquilo e a repreendeu.
Por fim, Yan Yan pagou mil taéis para comprar aquelas pessoas. Era um valor um tanto alto, sem dúvida, mas estava dentro das expectativas de Yan Yan.
Problemas que podiam ser resolvidos com dinheiro não eram problemas. Luo Huai Yuan havia lhe dito:
"Se aquela mulher lhe causar problemas, use prata para esmagá-la até a morte."
Essa piada interna do casal não será discutida em detalhes, por enquanto.
Depois que Shen Yi Yao se mudou, o ramo mais velho da família também saiu.
Xue Shi possuía uma residência com dois pátios fora da cidade. Embora não fosse muito grande, era suficiente para a família dela e alguns criados. Os criados que o ramo mais velho levou foram, naturalmente, comprados de Chen Shi. No entanto, Xue Shi não foi tão permissiva quanto Yan Yan; ela pagou apenas o preço de mercado, o que irritou bastante Chen Shi.
Os ramos mais velho e o segundo já haviam partido. Apenas o terceiro ramo permanecia. Com o prazo final se aproximando, o terceiro ramo também começou a retirar seus pertences. Contudo, o terceiro ramo não tinha nenhuma propriedade em seu nome e teve que comprar uma às pressas.
Após avaliar várias opções, Chen Shi usou os mil taéis de Yan Yan para comprar um pequeno imóvel com dois pátios. Embora fosse um pouco apertado, era suficiente para morar. Infelizmente, estava bastante deteriorado, mas, ainda assim, era bom ter um lugar para viver.
Depois que o terceiro ramo partiu, a imponente Mansão do Marquês de Weiyuan finalmente ficou vazia. Em seguida, selos oficiais foram afixados nas portas, aguardando o dia em que o Imperador a concederia a outra família.
Certo dia, uma carruagem de aparência comum parou diante das portas da Mansão do Marquês de Weiyuan — portas que, agora, não ostentavam mais nenhuma placa de identificação. Ninguém desceu da carruagem. Após um longo tempo, ela se afastou lentamente.
…..ooo0ooo…..
Notas do autor:
A decisão da Velha Senhora não se baseou apenas em Yan Hong ou Yan Ting; foi também em prol do terceiro ramo. Yan Yan estava à espreita, como um tigre observando sua presa. Se o caso chegasse às autoridades, a palavra da Velha Senhora teria valor apenas dentro da família, pois, legalmente, os bens estavam em nome de Yan Ting.
Na realidade, o Terceiro Senhor havia, de fato, usurpado os negócios de Yan Ting. Yan Yan os pegou de volta e os entregou a Yan Hong e ao quinto jovem mestre — não por compaixão, mas por causa do suicídio da Concubina Wu. Ela temia que os outros pudessem arquitetar novos planos; afinal, quem não tem mais esperança é capaz de qualquer coisa.
Para Yan Yan e Luo Huai Yuan, questões que podiam ser resolvidas com dinheiro não eram um problema real. No fim das contas, Yan Hong e Yan Qing não haviam feito nada e podiam ser considerados inocentes. É claro que a vida deles não seria fácil dali em diante; as escrituras de propriedade eram seu único amparo. Ambos eram jovens e precisariam viver sob a tutela do terceiro ramo da família por muitos anos.
A Concubina Wu também era uma mulher implacável. Ela sabia que, se não morresse, Shen Yi Yao não se importaria com ela nem com Yan Chan, devido a desavenças passadas. Pode-se dizer que ela cortou sua própria rota de fuga. Infelizmente, Shen Yi Yao já não era a mesma pessoa de quem ela se lembrava. Ainda assim, a atitude surtiu algum efeito: pelo menos Yan Chan foi acolhida pelo ramo principal da família e, após o casamento, teria um lugar para se estabelecer.

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