Capítulo 124




 Capítulo 124


Luo Han tinha certeza de que ele estava tramando algo. Ela suspirou interiormente. Quão longe o mundo havia caído — onde antes se erguia um nobre e cortês Ling Qingxiao, agora sentava este manipulador ardiloso.


Antigamente, ele se virava e vedava seus sentidos só porque ela estava trocando de capa.


Agora? Ele era uma pequena raposa manipuladora.


— Eu falo sério — disse ela. — Vou olhar mesmo.


Ela estendeu a mão para o laço do manto dele. Ling Qingxiao não recuou, nem mesmo piscou. A expressão em seu rosto dizia tudo: quem de nós recuar primeiro é um covarde.


No fim, ela cedeu.


Retirando a mão com um resmungo, ela murmurou: — Está bem, vou parar. Mas, falando sério, como estão os ferimentos?


— Eu não estava brincando — respondeu Ling Qingxiao.


Ele puxou a gola, revelando uma cicatriz longa e avermelhada. — Não é nada grave.


Seus movimentos eram calmos e casuais. Se Luo Han agisse de forma tímida agora, só a faria parecer inexperiente. Então, ela se inclinou e inspecionou o ferimento sem hesitar.


O que ela viu, porém, fez seu coração doer. Tantos dias haviam se passado. Apesar dos melhores remédios espirituais entregues diariamente, a ferida ainda não havia cicatrizado. E esta era apenas uma de muitas.


Luo Han não disse nada. Sua mão começou a brilhar com uma luz branca suave enquanto ela a pressionava gentilmente sobre a cicatriz. Energia de cura fluía de seus dedos, lenta e constante.


Isso... isso era mais uma fronteira que eles haviam cruzado. Eles já tinham dado as mãos, se abraçado, mas sempre com uma camada de roupa entre eles. Esta era a primeira vez que pele tocava pele.


Ling Qingxiao instintivamente quis se afastar. Mas ele resistiu.


O desconforto desapareceu rapidamente. Em seu lugar veio um calor formigante, sutil e persistente, atraindo-o.


Talvez fosse o feitiço de cura. Ou talvez... fosse o toque dela.


Luo Han continuou tratando seus ferimentos e, enquanto trabalhava, suas vestes inevitavelmente se afrouxaram ainda mais. Assim que terminou de cuidar dos ferimentos externos, ela hesitou em ir mais fundo. Retirando a mão, perguntou suavemente: — Pronto. Como você se sente agora?


Ling Qingxiao voltou a si, juntando suas vestes. — Muito melhor. Obrigado.


Suas roupas atuais eram simples e largas, apenas duas camadas finas — adequadas para descanso e recuperação. Mas, quando ele ajustou a gola, Luo Han avistou uma cicatriz antiga em seu peito. Ela rapidamente deteve a mão dele. — Não se mova. O que é isso?


Ling Qingxiao baixou o olhar. — Isso? — Ele falou levemente. — É uma cicatriz antiga. De quando meu núcleo de dragão foi extraído. Faz quinhentos anos. A cicatriz desbotou.


O corpo de um imortal era puro e sem falhas; ferimentos raramente deixavam vestígios. Ao longo dos anos, Ling Qingxiao havia sofrido inúmeros ferimentos e, ainda assim, sua pele permanecia imaculada, como jade branca esculpida. Apenas esta cicatriz restava, uma marca que o tempo não conseguiu apagar.


Ela tinha ouvido falar sobre o que aconteceu, mas ouvir era diferente de ver. No momento em que pousou os olhos sobre ela, ela entendeu. A cicatriz ainda era tão nítida após tantos anos que devia ter sido profunda, dolorosamente profunda.


Incapaz de se conter, Luo Han estendeu a mão, tocando suavemente a marca. — Doeu... naquela época?


— Já faz muito tempo — respondeu Ling Qingxiao. — Parece pior do que foi. Não foi fatal.


— Não foi fatal? — Luo Han não sabia se ria ou se o repreendia. — É bem perto do seu coração. Se isso não é fatal, o que é?


Ling Qingxiao sorriu levemente e mudou ligeiramente de posição. Três dedos à esquerda de seu coração, uma luz prateada bruxuleava sob a pele; uma única escama começou a brilhar.


Os olhos de Luo Han se arregalaram. — Isso é...


— Minha escama inversa — disse ele. — O corpo de um dragão é coberto por uma armadura, impenetrável a lâminas, fogo ou água. Mas a escama inversa... uma vez danificada, nunca cicatriza. É a única fraqueza real.


Então esta era a lendária escama inversa. Luo Han não pôde evitar a curiosidade — ela estendeu a mão e tocou-a levemente.


Fria e lisa, a escama parecia jade polida, resiliente, porém refinada. Fascinada, Luo Han acariciou-a novamente. Mas, assim que começou a ficar absorta, seu pulso foi capturado.


O aperto de Ling Qingxiao era firme, quase instintivo.


Assustada, Luo Han piscou e rapidamente o tranquilizou: — Você está preocupado? Não fique. Eu nunca machucaria você.


Fazia sentido; este era seu ponto mais vulnerável. Estar em guarda era natural.


Mas Ling Qingxiao deu um suspiro impotente. — Não é isso. Mesmo que você viesse contra ela com uma lâmina, eu não a impediria.


Ela o encarou, confusa. Ele não tinha medo, nem dela, nem mesmo dessa escama que poderia lhe custar a vida.


— Você acha que estou protegendo minha escama inversa? — disse Ling Qingxiao, exasperado. — Não é a fraqueza que eu temo. Eu a impedi porque... por outro motivo.


Luo Han franziu a testa, sentindo sua hesitação. — Este é o escudo do seu coração — sua única ferida incurável. E você confia isso a mim?


— O que a confiança tem a ver com isso? — ele respondeu calmamente. — Se é você, e você quer algo, eu mesmo lhe darei. Você nem precisa pedir.


Tais palavras... eram aterrorizantes em seu peso.


Luo Han precisava falar. — Você não pode ser assim. Você precisa se proteger. Nunca baixe a guarda — nem perto de mim. Você tem que colocar sua segurança em primeiro lugar.


Mas o olhar de Ling Qingxiao permanecia calmo, inabalável.


— Eu nunca ergui barreiras com você — disse ele. — Se você quisesse me machucar, não precisaria da minha escama inversa.


O coração de Luo Han agitou-se. Ela quis responder, mas as palavras não vieram.


Sentindo seu silêncio, Ling Qingxiao não pressionou o assunto. Ele endireitou a gola e disse: — Há duas coisas que eu queria lhe dizer.


Luo Han olhou para fora da janela. — O remédio deve estar fazendo efeito. Você deve dormir. Conte-me depois que acordar.


O que quer que ele pretendesse dizer, não seria breve.


Ling Qingxiao não discutiu. Ele assentiu, deixando que ela o ajudasse a deitar. Ela o cobriu com mãos gentis. — Descanse bem. Estou bem aqui.


A sonolência logo o dominou. Pouco antes de perder a consciência, ele viu Luo Han se inclinar e apagar a vela. A chama tremeluziu e então desapareceu.


O palácio foi engolido pelo silêncio. O luar entrava pelas janelas, banhando tudo em um tom prateado, frio e tranquilo. A silhueta dela permanecia emoldurada pela noite, suave e etérea, como algo saído de um sonho.


Ling Qingxiao fechou os olhos. O sono o tomou.


Luo Han apagou as lâmpadas, fechou as cortinas da cama e saiu do salão na ponta dos pés. Lá fora, as pétalas da árvore noturna brilhante flutuavam como estrelas cadentes, pulsando suavemente ao tocarem o solo.


Aqui, os ventos eram mais fortes, o ar mais rarefeito. Luo Han afastou distraidamente o cabelo batido pelo vento, vagando sem rumo entre os edifícios palacianos.


Este era o domínio do Imperador Celestial, um lugar proibido de entrar sem ordem expressa. O restante do Reino Imortal fervilhava à noite, mas o Grande Céu Luo permanecia em silêncio, como se estivesse desabitado.


O que, de certa forma, era verdade.


Ling Qingxiao não gostava de multidões. Ele não tinha família, nem clã. Além dele próprio, Luo Han e alguns atendentes essenciais, o reino inteiro permanecia vazio.


Seus passos ecoavam pelos caminhos de pedra.


Inquieta com seus pensamentos, ela finalmente parou em um pavilhão aberto, debruçando-se no parapeito enquanto observava as nuvens revoltas abaixo.


Ling Qingxiao disse que tinha duas coisas para lhe contar. Ela não sabia quais eram, mas podia adivinhar uma delas.


Muito provavelmente... era sobre o demônio em seu coração. Ele estava pronto para enfrentar a distância entre eles. Mas ela estaria?


Quando ela estaria pronta para cruzar o abismo invisível entre eles? A verdade sobre sua transmigração, o enredo da história original, o aviso da Árvore Bodhi — cada um pesava fortemente em seu coração.


Ela havia prometido tratar Ling Qingxiao como uma nova pessoa, não o julgar pelas ações futuras de outra versão dele mesmo.


Mas como ela poderia separar os dois completamente, quando eles eram um só? Esse tempo que eles tinham juntos... parecia muito com um momento roubado. Uma indulgência fugaz.


No fundo, Luo Han frequentemente se perguntava: se não fosse por ela... quem Ling Qingxiao teria escolhido?


Ela havia interceptado o enredo. Ela tinha caído do céu em sua hora mais sombria e se tornado aquela que permanecia ao seu lado.


Mas, se o destino tivesse seguido como pretendido, se ela nunca tivesse caído no Abismo, Ling Qingxiao teria a amado? Ou estava destinado a ser outra pessoa desde o início?


Luo Han encarou as estranhas nuvens revoltas sob seus pés. Seu olhar permaneceu fixo por um longo tempo, imóvel. Finalmente, ela piscou e, naquele exato momento, notou as nuvens abaixo se retorcendo em um grande vórtice, uma espiral rugidora como o sopro de um dragão varrendo os céus.


Ela franziu a testa. *O que é aquilo?*


Assim que se levantou do parapeito para chamar alguém, o token que a Tartaruga Negra lhe dera de repente brilhou com um pulso fraco. Era assim que a Árvore Bodhi se comunicava com ela. Seria esse caos... obra dela?


Ela nem teve tempo de formular um pensamento claro antes que o chão sob seus pés desaparecesse. Uma força estranha a puxou de forma rápida, silenciosa e irresistível. Ela não teve tempo de reagir, não teve tempo de resistir. Em um piscar de olhos, ela se foi.


A escuridão tornou-se luz. Ela levantou a mão reflexivamente para proteger os olhos. Mas ela não era a mesma garota de antes; seus sentidos se adaptaram rapidamente. Quando ela abaixou a mão, vários pares de olhos já a encaravam, arregalados de surpresa.


A Árvore Bodhi. A Tartaruga Negra. Vários seres antigos estavam reunidos ali, suas expressões pintadas de choque.


As folhas da Árvore Bodhi tremiam violentamente. — Por que você voltou? A viagem no tempo falhou?!


Os olhos de Luo Han também se arregalaram. — Eu... eu ia perguntar o mesmo a você. Por que voltei?!


Virando-se, ela percebeu que estava novamente no solo chamuscado e árido, o mesmo lugar onde tudo começara. Ao seu redor estavam a Árvore Bodhi, a Tartaruga Negra e as outras criaturas antigas que raramente saíam de seus domínios. A fronteira tremeluzia com um brilho esverdeado.


*Este... foi onde cruzei os mundos pela primeira vez.*


A Árvore Bodhi, perturbada e pressionada pelo tempo, nem parou para confirmar nada. Apenas presumiu que o vórtice espacial havia colapsado e que a transmigração de Luo Han falhara.


Apressada, reuniu seu poder espiritual. — Rápido! Vamos abrir outro caminho através da fenda temporal. Devemos enviá-la de volta imediatamente antes que seja tarde demais!


As palavras mal tinham saído de sua boca quando ela parou abruptamente.


— ...Tarde demais.


A barreira se estilhaçou, fragmentos de luz verde caíram como vidro quebrado. O ar externo invadiu o local, pesado com o cheiro de guerra e fumaça. Luo Han virou-se, atordoada, e viu alguém parado na borda da barreira quebrada.


Alto. Frio. Radiante como uma lâmina de gelo sob os céus.


Ele vestia as insígnias completas do Imperador Celestial, cada detalhe imaculado e imponente. E ele olhava para ela não como se visse uma velha conhecida, mas como se ela fosse uma completa estranha.


Luo Han paralisou.


— ...Ling Qingxiao.


Poucos instantes atrás, eles estavam juntos. E, ainda assim, aquele Ling Qingxiao olhava para ela como se nunca a tivessem se encontrado.


— Então é o Dao Celestial — disse ele calmamente. — Perdoe-me por não recebê-la pessoalmente.


Sua voz era educada. Mas o peso por trás de suas palavras era mais frio que o aço.


— Homens — ordenou ele. — Escortem o Dao Celestial de volta ao Palácio Celestial.

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