139 - O céu acima, a esposa abaixo


Capítulo 139

O CÉU ACIMA, A ESPOSA ABAIXO


O pátio lateral onde o Príncipe de Yun e sua consorte estavam hospedados era propriedade privada de Qian Cheng Qi, o Governador da Cidade de Yun. A construção da residência oficial do Príncipe de Yun não havia sido concluída antes de sua chegada. Naturalmente, eles precisavam de uma moradia temporária.

Como governador da capital da Província de Yun, Qian Cheng Qi era uma das autoridades mais importantes da região. Ele havia ordenado que sua equipe preparasse adequadamente o pátio lateral para a estadia do Príncipe.

A Província de Yun ficava no Norte, e o estilo de suas construções diferia do estilo sulista, caracterizado por jardins com pequenas pontes e cursos d'água. Qian Cheng Qi era uma pessoa bastante refinada; por isso, seu pátio havia sido reformado em estilo sulista, com rochas singulares, pequenas pontes, água corrente e corredores sinuosos. Apesar de estar coberto de neve, era difícil esconder a elegância dos canais e cursos d'água.

O pavilhão maior e mais singular do local era o "Edifício Chunyu". Era ali que Luo Huai Yuan e Yan Yan estavam hospedados. Quanto às damas de companhia, eunucos e guardas que os acompanhavam, eles estavam acomodados em diferentes partes do pátio. Felizmente, o espaço era grande o suficiente para abrigar tanta gente.

Poder hospedar o Príncipe de Yun era uma grande honra para a autoridade da Província de Yun. Qian Cheng Qi deu ordens para garantir que tudo estivesse perfeito e ao gosto de Sua Alteza, o Príncipe de Yun.

Luo Huai Yuan e Yan Yan também não foram irracionais; comportaram-se como convidados, em vez de agirem como anfitriões. Eles não utilizaram nenhum dos criados do pátio, recorrendo apenas aos seus próprios servos trazidos da capital. Até mesmo o cozinheiro que trouxeram ficou encarregado do preparo das refeições.

O cozinheiro que Qian Cheng Qi havia providenciado chegou a apresentar alguns pratos típicos da Província de Yun, embora não se soubesse, por ora, se a comida agradaria ao paladar deles. De qualquer forma, o Príncipe de Yun e sua esposa preferiam, em sua maioria, os seus próprios cozinheiros.

Qian Cheng Qi sentiu-se um tanto desanimado com isso. Mais tarde, porém, ponderou que é difícil acostumar-se a novos sabores após anos consumindo os mesmos pratos. Portanto, concluiu que a situação não se devia a uma falha em seus preparativos, mas sim aos hábitos do casal.

Na verdade, Qian Cheng Qi não deveria ser culpado por tentar agradá-los tanto.

Em teoria, ele também era uma figura extremamente azarada. Os mandatos dos funcionários locais duravam três anos. Aqueles que apresentavam bons resultados ao longo de todo o período geralmente recebiam uma promoção de um nível ou meio nível, ou eram transferidos para um cargo em uma região mais próspera.

O governador da capital da Província de Yun ocupava um cargo de quarto escalão superior; qualquer promoção acima disso implicaria uma transferência para a capital do Grande Xi.

Qian Cheng Qi servia como funcionário público há uma década e seu maior desejo era atuar na sede do poder nacional. Ele sonhava em alcançar o primeiro escalão da hierarquia oficial.

Inesperadamente, faltando apenas um ano para sua transferência, a cidade onde servia foi designada como feudo de um príncipe-vassalo.

Ser designado para um feudo? Não havia nada pior do que isso!

Todos sabiam que um feudo era território particular do príncipe. Os funcionários locais podiam ser nomeados por ele ou pelo Ministério de Nomeações. E o sistema da Corte Imperial diferia do sistema do príncipe-vassalo.

Os funcionários do feudo encontravam-se, assim, em uma posição extremamente delicada: estavam sob o controle tanto da Corte quanto do príncipe-vassalo.

Se o oficial quisesse ser promovido e deixar o feudo-vassalo, precisaria da aprovação do príncipe-vassalo ou do Gabinete do Ajudante. Era por isso que Qian Cheng Qi bajulava tanto o Príncipe Yun. Ele queria evitar ficar preso ali, sem possibilidade de transferência e, por isso, esforçava-se para cair nas graças do príncipe. Também buscava se aproximar dele, para que o Príncipe Yun pudesse dar-lhe uma ajuda quando chegasse a hora certa.

Sempre que Qian Cheng Qi deixava seu escritório, corria de volta para o pátio, aguardando ser chamado pelo Príncipe Yun. No entanto, após esperar várias vezes, não recebia qualquer sinal. Será que o Príncipe Yun havia se esquecido de seu anfitrião?

Luo Huai Yuan realmente havia se esquecido do anfitrião Qian Cheng Qi.

Para ser mais preciso, ele jamais o havia guardado na memória.

No dia em que chegou à Cidade de Yun, havia muitos oficiais que tinham ido recebê-lo. Ele se lembrava de que havia um sujeito franzino – o oficial que estava no comando, mas não sabia o nome dele. Ele sabia que o local onde viviam era a residência particular do Governador, mas não sabia quem era o Governador da Cidade de Yun, especialmente porque ele havia trazido muitas pessoas da capital.

Quando Yan Yan descobriu que ficariam ali até que a Mansão do Príncipe de Yun fosse construída, ela imediatamente ordenou que todos os servos, cozinheiros e guardas fossem substituídos pelos seus próprios. Isso era para a segurança deles, e também um hábito pessoal de Yan Yan.

Eles estavam tão à vontade que parecia que o lugar era deles. Como poderiam se lembrar de quem era o verdadeiro anfitrião? O ditado sobre "a rola que ocupa o ninho da pega" referia-se exatamente a isso.

É claro que querer ocupar o ninho de outra pessoa dependia do apoio que se tinha. Na capital, no Palácio, entre seus outros irmãos, o Príncipe de Yun estava na base da hierarquia; no entanto, depois de chegar ao seu próprio feudo, o céu vinha em primeiro lugar, mas ele vinha em segundo!

Espere, não: o céu vinha em primeiro, sua esposa em segundo e depois vinha ele, que olhava todos os outros de cima para baixo!

No início, Qian Cheng Qi não entendia essa dinâmica, mas depois compreendeu.

Como parecia não estar chegando a lugar algum, ele pensou em sua própria esposa.

O Príncipe de Yun já tinha uma esposa oficial. Dizia-se que ele a estimava muito.

A Princesa de Yun era mulher, e a esposa dele também; naturalmente, havia muito o que conversar entre mulheres. Se ela conseguisse se aproximar da Princesa de Yun, será que continuariam distantes do Príncipe de Yun?

Por isso, Qian Cheng Qi voltou apressadamente para sua própria residência e pediu à esposa que fizesse as malas e se mudasse para o pátio lateral. A desculpa dada foi que ele estava ocupado com o trabalho, então pediu à esposa que viesse entreter os convidados e fazer companhia à Princesa de Yun. Como ele era o anfitrião, os guardas não criaram dificuldades.

Ao saber disso, Yan Yan não viu problemas e concordou. Afinal, aquela era a casa de outra pessoa; eles estavam sendo educados e atenciosos, então não seria correto recusar.

Ao perceber o que se passava na cabeça do marido, a Senhora Qian não pôde evitar um sorriso presunçoso e passou vários dias agindo com ares de superioridade. Ela pensava: não importa o quanto você mime aquelas raposinhas, ainda precisa desta senhora para assumir o comando, no momento decisivo.

Para agradar a esposa, Qian Cheng Qi passou alguns dias na residência principal, antes de conseguir convencê-la a ir ao pátio lateral.

…..ooo0ooo…..

Yan Yan era uma pessoa sensata e diplomática. Ao saber que a Senhora Qian havia chegado, ela a convidou para uma conversa no dia seguinte.

A Senhora Qian tinha cerca de quarenta anos, rosto alongado, olhos amendoados (estilo "olhos de fênix") e uma pequena pinta preta perto dos lábios. Ela estava sempre sorridente. Yan Yan achou a Senhora Qian uma pessoa bastante animada. Naturalmente, ela não sabia que aquela postura da Senhora Qian era apenas para ela; se fosse com qualquer outra pessoa, ela não agiria daquela maneira.

Quando mulheres se reuniam, costumavam conversar sobre coisas superficiais — roupas, joias e assuntos do gênero.

Yan Yan detestava esse tipo de conversa e, naturalmente, não tinha muito o que discutir com a Senhora Qian. A Senhora Qian apenas sentia que a Consorte Yun não parecia gostar muito dela, embora não soubesse o motivo.

Depois de algumas tentativas, Yan Yan parou de chamar a Senhora Qian para conversar.

A Senhora Qian inventou algumas desculpas para ver Yan Yan, mas na maioria das vezes recebia a resposta de que a consorte estava ocupada.

Na verdade, Yan Yan não estava ocupada; Luo Huai Yuan havia percebido que ela não gostava de socializar e a ajudava a evitar essas situações.

Inevitavelmente, a Senhora Qian guardou um certo ressentimento. Ela achava que a Consorte Yun era jovem demais para agir com tamanha arrogância.

No entanto, não havia nada que ela pudesse fazer. O status de nora do imperador realmente dava a Yan Yan autoridade para olhar com desdém para todas as outras nobres do reino.

Enquanto isso, Qian Cheng Qi perguntava à esposa sobre o andamento da situação.

Eles estavam casados ​​há quase vinte anos. Haviam se unido ainda na adolescência e se davam muito bem, tendo superado juntos momentos difíceis.

Contudo, à medida que Qian Cheng Qi ascendia na hierarquia, o número de mulheres em seu gineceu aumentava gradualmente.

Qian Cheng Qi era uma pessoa gentil e trabalhadora. Seu único defeito era a fraqueza por mulheres. Claro, isso não era realmente um problema. Que homem não tinha várias esposas e concubinas hoje em dia?

Os homens gostavam de ter uma mulher em cada braço e de desfrutar das alegrias de ter múltiplas parceiras. Para as mulheres, quanto mais satisfeito o homem estava, menos satisfeitas elas ficavam.

No entanto, devido aos preceitos morais confucionistas impostos às mulheres — bem como às diversas escrituras e disciplinas destinadas a subjugá-las —, a Senhora Qian só podia conter seu ciúme e voltar sua atenção para as flores do pátio dos fundos. Embora ela costumasse travar disputas incessantes com aquelas concubinas, já não sentia ciúmes com tanta facilidade. A Senhora Qian finalmente havia encontrado um propósito pelo qual lutar na vida.

Como Qian Cheng Qi precisava da ajuda da esposa, ele a cortejou e lhe fez muitos elogios. Os homens dispunham de poucas maneiras de fazer isso; ele escolheu algumas joias e roupas que agradavam às mulheres e também passava as noites com ela por vários dias, para elevar sua reputação.

Qian Cheng Qi estava usando com a própria esposa os mesmos truques que empregava com suas concubinas – mas, curiosamente, funcionava muito bem. Nada deixava aquelas concubinas mais enciumadas do que isso, e a Madame Qian sentia-se muito satisfeita.

Sabendo o que o marido buscava, a Madame Qian havia se esforçado bastante.

No entanto, se a Consorte Yun não entrasse no jogo, o que ela poderia fazer?

Ao notar a expressão de Qian Cheng Qi começando a mudar lentamente, a Madame Qian tentou uma nova abordagem.

…..ooo0ooo…..

Naquele dia, a Madame Qian pediu para ver Yan Yan novamente. Sua desculpa, desta vez, foi que havia trazido a filha para prestar seus respeitos à Consorte Yun.

Quando o assunto foi comunicado, Yan Yan e Luo Huai Yuan estavam recostados na grande plataforma aquecida, conversando descontraidamente. Ao ouvir isso, Luo Huai Yuan demonstrou impaciência, mas Yan Yan instruiu Mei Xiang a mandá-las entrar. Afinal, eles eram os anfitriões e não podiam continuar recusando a visita o tempo todo.

Embora Luo Huai Yuan fosse um príncipe-vassalo, ele ainda precisava estar atento às relações com as autoridades locais. Mesmo que Qian Cheng Qi não ocupasse um cargo de altíssimo escalão, eles estavam hospedados na residência dele. Yan Yan compreendia que, às vezes, era necessário conceder certa deferência. Ela desceu do kang e trocou de roupa por uma mais adequada para receber visitas, antes de sair do aposento aquecido.

Pouco depois, uma criada do palácio conduziu a Madame Qian e sua filha até ela. Seguindo a etiqueta, as duas fizeram uma reverência profunda em sinal de respeito.

Um lampejo de surpresa passou pelos olhos de Yan Yan ao dizer:

"Não há necessidade de tamanha formalidade." Ela pediu à criada que trouxesse assentos para as duas.

A surpresa de Yan Yan devia-se ao fato de ter presumido, ao ouvir a Madame Qian mencionar a filha, que a moça seria bem jovem.

Inesperadamente, tratava-se de uma jovem no auge da juventude. A garota parecia ter cerca de quinze ou dezesseis anos; era esbelta, delicada e graciosa. Sua pele clara lembrava jade branca da mais alta qualidade, e suas sobrancelhas levemente franzidas despertavam inevitavelmente um sentimento de compaixão.

“Consorte, esta é a filha desta súdita. O nome dela é Ying Ying e ela tem quinze anos. A Consorte possui uma presença majestosa, porém acessível; por isso, esta súdita desejava que minha filha aprendesse com Vossa Alteza. Espero que esta minha filha, de pouca importância, possa adquirir alguns dos modos refinados da Consorte.”

“Mamãe...” O rosto de Qian Ying Ying ficou vermelho enquanto ela falava, envergonhada.

“O quê? A mamãe disse algo errado? É bom que as mulheres sejam recatadas, mas precisam também ser magnânimas.” A Madame Qian sorria amplamente, parecendo estar instruindo a filha; no entanto, suas palavras não passavam de bajulação a Yan Yan.

Yan Yan curvou os lábios em um sorriso radiante como as flores da primavera:

“Madame Qian exagera nos elogios. Esta Consorte acha que a Senhorita Qian é muito agradável exatamente como é. Na capital, minha mãe sempre achava que eu não tinha o comportamento adequado para uma dama.”

A verruga no rosto da Madame Qian tremulou, enquanto ela ria:

“Deve ser porque a mãe da Consorte tinha padrões elevados demais. Aos olhos desta súdita, a Consorte é como uma fada vinda dos céus mais elevados. Se a minha Ying Ying pudesse ter metade do esplendor da Consorte, eu, como mãe, não precisaria me preocupar com a possibilidade de ela não conseguir se casar.”

O rosto de Qian Ying Ying estava vermelho de vergonha. Ela se escondeu nos braços da Madame Qian e não ousou levantar a cabeça.

Após uma breve conversa casual, Yi Yun trouxe uma bandeja laqueada de preto contendo uma bolsa de brocado:

“Este é um pequeno presente de boas-vindas desta Consorte para a Senhorita Qian. Espero que a Madame Qian e a Senhorita Qian não o rejeitem.”

“Claro que não, claro que não. Depressa, agradeça à Consorte pela dádiva.” A Madame Qian deu um leve empurrão em Ying Ying e disse a Yan Yan: “Veja só a filha desta súdita. Ela é tão desajeitada.”

Qian Ying Ying aproximou-se, fez uma reverência e recebeu a bolsa com ambas as mãos. Ela não ousou olhar para Yan Yan e manteve a cabeça baixa.

Ao ver a Consorte Yun levantar sua xícara de chá, a Madame Qian levantou-se discretamente, despediu-se e retirou-se com a filha. Somente depois de sair do Edifício Chunyu é que a Senhora Qian disse em voz baixa:

“Você viu? Aquela é a postura de uma nora da Família Real. Sua mãe é casada com seu pai há tantos anos, mas ele só conseguiu chegar ao posto de oficial de quarto escalão. É por isso que a mamãe sempre lhe disse que a felicidade de uma mulher depende do homem dela. Sua mãe já passou dos quarenta, mas ainda precisa se curvar diante de alguém que não tem nem metade da sua idade.”

Qian Ying Ying abaixou a cabeça e não disse nada.

A Senhora Qian falou novamente:

“A mamãe andou pesquisando. Dizem que Sua Alteza, o Príncipe Yun, tem apenas vinte anos. Ele é um jovem talento, notável e de espírito livre. Ele se casou com a Princesa Consorte Yun há pouco tempo, e as duas vagas para concubinas principais ainda estão livres. A posição de concubina principal de um príncipe-vassalo não é algo comum. Ela seria reconhecida como nora da Família Real e receberia uma classificação oficial.”

Qian Ying Ying continuou em silêncio.

A Senhora Qian, ansiosa, deu-lhe um beliscão:

“Você deveria dizer alguma coisa!”

Qian Ying Ying gemeu de dor, com os olhos, ficando vermelha de repente. Ela estava prestes a falar quando a Madame Qian lhe deu um puxão. Só então ela percebeu que alguém vestida como uma criada do palácio estava se aproximando.

A criada do palácio viu as duas e fez uma leve reverência. Ela só se endireitou depois que elas passaram.

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