Capítulo 75


 Shen Qi foi enviada pelo próprio filho do Marquês de Yongle, e este não teve pressa em partir. Depois que o Marquês de Yongle falou com ele sobre a situação em Shuzhong, sentiu-se bastante satisfeito. No entanto, como muitos príncipes estavam envolvidos, era inevitável sentir alguma hesitação. Quem poderia imaginar que Shen Qi enviaria alguém subitamente ao Palácio do Príncipe Rui? O Marquês pensou que o próprio Príncipe Rui tivesse algo a dizer e o apressou a ir até lá.

Mais tarde, percebeu que não era o Príncipe Rui quem o procurava, mas sim a Princesa Rui. O Príncipe já havia comentado com sua esposa sobre o assunto. Embora a Princesa Rui não entendesse muito de assuntos militares, perguntou quem havia solicitado ordens para ir à campanha e escutou com atenção. Após o Príncipe Rui terminar de explicar, ela percebeu que havia algo errado. Isso porque, apesar de haver oficiais militares que haviam se apresentado voluntariamente, nenhum dos que já tinham real experiência de batalha se manifestou. E mesmo sem entender de guerra, a Princesa Rui sabia que, se houver vozes demais em um exército, "quem será ouvido?"

— O general nomeado pelo Imperador Cheng será capaz de conter esses príncipes? — questionou a Princesa Rui, em dúvida. Ela também perguntou sobre a expressão de Chu Xiuming, e o Príncipe Rui respondeu apenas que ele não havia dito nada. A Princesa então pediu que Shen Qi chamasse de volta o filho do Marquês de Yongle, e também que enviasse um convite para Shen Jin. Embora o Imperador Cheng tivesse dito que Chu Xiuming não devia ser incomodado durante o descanso, Shen Qi e Shen Jin eram irmãs, e tão próximas que não havia qualquer inconveniente nisso.

O Príncipe Rui perguntou, ao ver a inquietação da esposa:

— Você acha que algo está errado?

A Princesa Rui balançou a cabeça.

— Só estou preocupada por ser a primeira vez que nosso genro sai em campanha. Uma espada não tem olhos[1]… Seria melhor ele buscar conselhos com nosso terceiro genro.

— Está certo — respondeu o Príncipe Rui.

A Princesa sorriu e comentou mais algumas coisas, e então o Príncipe Rui deixou de se preocupar e foi até o escritório. Depois, Shen Qi perguntou à mãe:

— Mãe, aconteceu alguma coisa?

— Eu também não sei. — A Princesa Rui respondeu. — Mas é bom que você vá junto com seu cunhado. Assim ele pode aprender algo com a experiência dele.

Shen Qi apertou os lábios e assentiu. A Princesa acrescentou:

— Vá se preparar. Assim que seu cunhado chegar, vocês já podem partir.

— Sim. — respondeu Shen Qi, sendo amparada pela criada enquanto se retirava.

Cuixi levou um copo de água para a Princesa Rui e perguntou:

— A princesa tem certeza de que há algo errado?

— Só espero estar pensando demais — suspirou a Princesa.

Por conta de suas palavras, o filho do Marquês de Yongle foi até Chu Xiuming acompanhado de Shen Qi. Graças à autorização de Chu Xiuming, ele foi conduzido diretamente ao seu escritório, enquanto Shen Qi e Shen Jin conversavam em outro aposento.

Ao escutar o relato do filho do Marquês sobre o caminho até ali, não pôde deixar de se sentir apreensivo. Por isso perguntou diretamente:

— Cunhado, essa viagem até Shuzhong é realmente segura?

Chu Xiuming respondeu:

— O cunhado conhece a situação atual em Shuzhong?

— Não muito — admitiu o filho do Marquês.

— Mesmo assim, o cunhado pretende ir?

— Sua Majestade mencionou meu nome — disse ele, com seriedade —. Se eu não for... terei que dar explicações ao meu pai.

Chu Xiuming compreendia bem essa posição, então orientou:

— Se for, lembre-se: não fale demais, não busque méritos, e não tente se destacar.

O rapaz franziu o cenho.

— Mas... haverá perigo? Não disseram que são menos de mil rebeldes?

— Quantos soldados oficiais havia em Shuzhong antes? — perguntou Chu Xiuming de volta. — E qual é a situação agora?

O filho do Marquês sentiu um frio na barriga.

— Mas... não foram enviados cinquenta mil soldados desta vez?

Chu Xiuming não respondeu. Afinal, grande parte do que sabia eram suposições — confiáveis, é claro, mas ainda assim suposições. Não é que ele não confiasse no rapaz, mas o que dissesse poderia ser repetido à Princesa Rui ou ao próprio Marquês de Yongle. E havia muitos laços entre essas casas nobres, parentescos, alianças. Certas verdades ditas com clareza demais poderiam trazer problemas.

Percebendo isso, o filho do Marquês não insistiu. Apenas assentiu.

— Entendi.

Chu Xiuming respondeu com naturalidade, sem alterar a expressão. O jovem então disse:

— Tenho comigo muitos tônicos e ervas medicinais. Mandarei entregar ao cunhado mais tarde. Por favor, cuide da sua saúde.

— Está bem — respondeu Chu Xiuming com um leve aceno de cabeça.

Com o coração cheio de preocupações, o filho do Marquês não se demorou muito mais e despediu-se:

— Já vou indo.

Chu Xiuming levantou-se para acompanhar o Shizi de Yongle Hou até a saída. Shen Qi ainda conversava com Shen Jin sobre a Mansão Zheng e não esperava que o cunhado saísse tão depressa, então murmurou, um pouco confuso:

— Outro dia volto para conversar com minha irmã.

Shen Jin apoiou-se na mão de Anping para se levantar e disse:

— Agora que minha irmã está com gravidez avançada, se for apenas para conversar, é melhor mandar uma carta pelo pessoal da casa.

— Tudo bem — respondeu Shen Qi com um sorriso, e as duas seguiram para fora. A criada ajudou Shen Qi a vestir a capa e ajeitou cuidadosamente antes de ela sair.

O Shizi de Yongle Hou a esperava do lado de fora. Estava visivelmente preocupado. Após cumprimentar, subiu na carruagem com Shen Qi e partiram de volta para o Palácio do Príncipe Rui. No caminho, ele não conseguiu conter-se e contou a Shen Qi tudo o que Chu Xiuming havia dito. Shen Qi, observando a expressão do marido, perguntou:

— O marido acha que meu irmão não confia em você?

— Não é isso — respondeu o Shizi de Yongle Hou, hesitante. — É que eu fiquei pensando... será que...

Shen Qi abaixou ligeiramente os olhos, passando as mãos com suavidade sobre a barriga, e disse:

— Será que meu irmão falou isso de propósito porque ele próprio não pode comandar as tropas?

O Shizi de Yongle Hou ficou visivelmente constrangido. Shen Qi, encarando-o com firmeza, disse em tom sério:

— Se o marido realmente pensa assim, então está subestimando demais o título de Yongningbo, a família Chu... e principalmente, minha mãe.

— Não foi isso que eu quis dizer — respondeu ele rapidamente, surpreso com a atitude de Shen Qi, algo que nunca havia presenciado. — Só pensei que talvez... seu irmão tenha sido cuidadoso demais?

— Marido — disse Shen Qi em tom incisivo —, com que idade Yongningbo começou a comandar tropas? A família Chu sempre defendeu as fronteiras. Quantas guerras já enfrentou? Só pelo mérito militar que acumularam, o título atual ainda é pouco.

O Shizi de Yongle Hou ficou sério e aproximou-se, admitindo:

— Eu estava julgando com malícia o que vem de alguém virtuoso.

Shen Qi balançou a cabeça:

— Minha mãe pediu para o marido consultar Yongningbo porque também acha que há algo errado.

Ao ouvir o nome da Princesa Rui, o Shizi lembrou do cuidado que ela teve com ele e disse:

— Vou te levar de volta ao palácio e verei minha sogra.

Shen Qi assentiu sem dizer mais nada. O Shizi tentou acalmá-la com carinho:

— Esposa, não fique zangada. Fui precipitado. Só estava pensando em conquistar algum mérito para deixar você mais confortável.

— Fui eu que me irritei demais — disse Shen Qi com suavidade. — Meu irmão está numa posição delicada na capital e ainda não participou da guerra. Se mesmo assim quis dizer isso ao marido, é porque está preocupado. Se isso se espalha, temo que seja ele quem...

— Assim que voltarmos, prepararei um presente e pedirei desculpas pessoalmente ao seu irmão — prometeu o Shizi.

Shen Qi deitou-se no ombro do marido e disse com leveza:

— Está bem. Coincidentemente, chegaram hoje muitos ingredientes frescos de Zhuangzi. Podemos mandar alguns junto com o presente.

Na mansão de Yongningbo, Shen Jin observava o cunhado e Shen Qi partirem apressados. Voltando-se para Chu Xiuming, perguntou:

— O que aconteceu?

Chu Xiuming não escondeu nada de Shen Jin:

— Houve uma rebelião de camponeses em Shu. Sua Majestade vai mobilizar tropas e ordenou que alguns filhos de nobres e príncipes participassem.

Shen Jin franziu o cenho:

— E quem vai comandar as tropas?

Chu Xiuming mencionou um nome e o cargo. Shen Jin ficou ainda mais confusa:

— Então... a quem os soldados obedecerão?

— Não sei — respondeu Chu Xiuming.

Mesmo sabendo que Chu Xiuming não brincava com assuntos sérios, Shen Jin não pôde evitar encarar o marido, tentando captar algo em sua expressão. Então compreendeu o motivo da preocupação que ele carregava desde que voltou para casa.

Chu Xiuming olhou para ela e perguntou:

— O que a senhora acha?

Shen Jin balançou a cabeça, incerta. Diante do silêncio, os olhos de Chu Xiuming brilharam levemente, e ele perguntou:

— A senhora acha que essa batalha será perdida?

— Muitas pessoas vão morrer — respondeu Shen Jin, apertando os lábios, com um tom melancólico.

Chu Xiuming sentiu, mais uma vez, que o imperador Cheng não conhecia sua esposa. Não podia dizer que ela tinha talento militar, mas, ao ver aquele olhar, suspeitou: "Será essa uma intuição natural de um pequeno animal diante do perigo?"

— Por quê? — perguntou ele, enquanto a ajudava a entrar na sala, tentando parecer casual.

— Um prego ou um prato de areia solta... qual fere mais? — respondeu Shen Jin.

— Mesmo que o número de pregos seja inferior a mil? E que haja cinquenta mil grãos de areia solta? E ainda com suprimentos adequados? — retrucou Chu Xiuming.

Shen Jin pensou por um momento e disse:

— Não sei. Mas, se fosse comigo, eu não iria.

Já dentro do estúdio, Chu Xiuming encontrou o retrato que havia deixado incompleto outro dia e retomou a pintura, perguntando:

— Por quê?

Shen Jin lançou-lhe um olhar estranho. Apesar de achar que ele estava cheio de perguntas naquele dia, respondeu:

— Por exemplo: hoje só dá para preparar um ensopado em panela de barro. Mas você quer sopa clara e eu quero sopa apimentada. Nós dois decidimos... mas a Vó Zhao vai seguir quem? No fim, se a comida não sai, é porque esse problema não foi resolvido. Então ninguém come.

Chu Xiuming soltou um suspiro lento e disse:

— Sim.

Shen Jin se inclinou ao lado de Chu Xiuming, observando a pintura tomar cor pouco a pouco, e de repente comentou:

— Eu não gosto de guerras.

— Eu também não gosto — respondeu Chu Xiuming após um instante. — Acho que ninguém gosta.

Quando o Shizi de Yongle Hou e Shen Qi voltaram ao Palácio do Príncipe Rui, foram juntos visitar a Princesa Rui. Naquele momento, o Príncipe Rui não estava. Havia apenas a princesa, que dispensou os demais servos, deixando apenas Cuixi, e perguntou:

— Mas o que ele disse?

Foi então que o Shizi contou tudo em detalhes. Como Shen Qi já lhe dissera algo na carruagem, ele não tinha intenções ocultas, e perguntou com sinceridade:

— Sogra, o que acha do meu cunhado?

A Princesa Rui suspirou lentamente:

— Se Qi’er e Jin’er não se dessem tão bem, temo que Yongningbo jamais teria lhe dito isso.

O Shizi corou, lembrando-se das palavras de Shen Qi. Baixou a cabeça, sem responder. Shen Qi olhou surpresa para a mãe, mas notou que ela parecia não ter percebido, e então disse:

— Vá chamar o príncipe.

— Sim — respondeu Cuixi, saindo rapidamente.

Agora que Chu Xiuming havia dito aquilo, era impossível esconder o assunto do Príncipe Rui. Quando o príncipe soube da visita, largou imediatamente a apresentação de dança da concubina e correu ao salão principal, ciente de que sua esposa não agiria assim sem um motivo sério.

Quando chegou, a Princesa Rui perguntou:

— O príncipe ainda se lembra de quando perguntei se alguém havia pedido ordens para ir a Shuzhong?

— Lembro — respondeu ele, um pouco confuso. — Não disse que estava tudo certo?

A princesa balançou a cabeça:

— Eu só não tinha certeza. Afinal, não entendo de assuntos externos.

O Príncipe Rui olhou para o Shizi e depois de volta à esposa:

— O que houve? Foi algo que o terceiro genro disse?

O Shizi repetiu as palavras de Chu Xiuming. Mesmo sem entender a fundo, o Príncipe Rui percebeu que aquilo tinha um significado oculto:

— Será que... o terceiro genro acha que é perigoso?

A princesa respondeu:

— Príncipe, entre os que foram citados para essa campanha, há algum que tenha de fato comandado tropas em campo?

O Príncipe Rui pensou um pouco e respondeu:

— Não... será que é por não gostarem?

A Princesa Rui disse com voz suave:

— Quem tem mérito militar demais?

O príncipe permaneceu em silêncio. A princesa prosseguiu:

— Príncipe, como um oficial militar de quarta patente pode conter príncipes e filhos de nobres? A quem os soldados vão obedecer?

— Mas... são menos de mil rebeldes. E desta vez mandaram cinquenta mil homens — disse ele, ainda hesitante.

Princesa Rui disse:  —  Mas com apenas esses mil homens, tantos oficiais e soldados no meio de Shu estão indefesos.

Yongle Hou Shizi, convencido, perguntou:
— Sogra, o que devo fazer então?

Princesa Rui suspirou e respondeu:
— Agora você precisa partir. Lembre-se das três palavras que Yong Ningbo lhe disse: é para viver.

— Não será tão sério assim — disse o rei Rui, sem muita confiança.

Princesa Rui não respondeu. O rei Rui refletiu por um longo momento e perguntou:
— Wang Hao, você acha que devo falar com Sua Majestade?

— Por que o príncipe acha que Yong Ningbo não falou no tribunal? — retrucou Princesa Rui.

Pensando no temperamento do Imperador Cheng, o rei Rui abriu a boca, mas acabou por se calar. O momento era delicado. Se ele dissesse algo que soasse como um banho de água fria, poderia haver consequências ruins. E, além disso, não era certo afirmar que o Imperador o ouviria. Shuzhong realmente causara um grande problema para Chengdi, mas ele poderia acabar sendo odiado.

Concubina Rui olhou para Yongle Hou Shizi e disse:
— Sobre esse assunto... se não for algo muito próximo, melhor não se adiantar a falar antes de ver como está a situação em Shuzhong.

Yongle Hou Shizi olhou para Princesa Rui e perguntou:
— Por favor, sogra, que conselho a senhora me dá?

Princesa Rui falou baixinho:
— Não é por outra coisa, mas temo que se isso chegar aos ouvidos de Sua Majestade, ele não vai gostar. E não podemos ser os únicos a agir com sabedoria. No caminho, observe tudo com cuidado, escolha bem as pessoas com quem convive, e espere. Tenho medo de que alguém venha pedir sua opinião sobre a situação em Shuzhong.

Yongle Hou Shizi compreendeu o recado e assentiu, dizendo:
— Sim.

Shen Qi olhou para Yongle Hou Shizi preocupada, depois voltou-se para a mãe e perguntou:
— Por que não deixa o marido adoecer?

Princesa Rui balançou a cabeça:
— Se o genro não for nessa missão, quando algo realmente acontecer... você poderá ser envolvida.

O rosto de Yongle Hou Shizi mudou, e ele disse respeitosamente:
— Sogra, não se preocupe, seu genro sabe disso.

Princesa Rui assentiu em silêncio.
— Deixe Qi'er acompanhá-lo de volta para a casa para arrumar as coisas hoje.

Yongle Hou Shizi concordou:
— Então, no máximo, depois de amanhã, levarei a esposa de volta.

Princesa Rui respondeu sem hesitar. Após o cumprimento formal a Rei Rui e Princesa Rui, Yongle Hou Shizi e Shen Qi saíram.

— Meu marido vai contar ao meu sogro? — perguntou Shen Qi, olhando para Yongle Hou Shizi.

Ele pensou por um momento e disse:
— Não fale nada sobre isso.

Shen Qi olhou com dúvidas, mas Yongle Hou Shizi não explicou, apenas pediu:
— Madame, confie em mim.

— Está bem — respondeu Shen Qi.

O abafar do caos em Shuzhong era um assunto de grande repercussão na capital. Não por sua gravidade, mas porque os príncipes e aristocratas enviados eram todos de prestígio. Alguns até se perguntavam por que não escolheram Yong Ningbo, e logo surgiram rumores de que Yong Ningbo estava sofrendo de velhas doenças.

Quando o exército foi mobilizado, era início de fevereiro. Os três príncipes escolhidos pelo Imperador Cheng estavam cheios de vigor. Vestindo armaduras prateadas especiais, estavam impecáveis e muitos espectadores aplaudiram. Diferente da partida discreta de Chu Xiuming, desta vez o Imperador pessoalmente despediu-os, com grande pompa.

Mas nada disso tinha a ver com Chu Xiuming. Ele permanecia em descanso absoluto por ordem do Imperador.

Segundo Shen Jin, o parto estava previsto para meados de março. A mãe Zhao já preparava o quarto e todo dia colocava o balde de carvão para aquecer. Princesa Rui e Concubina Chen vieram visitar especialmente. No dia seguinte, Princesa Rui enviou duas criadas, Cuixi as trouxe pessoalmente dizendo:
— A princesa disse que essas duas têm mais qualidades que a princesa Wang San. O quarto está mais animado, foram selecionadas pela própria Concubina Chen.

Shen Jin olhou para as duas moças e, ao não notar nenhuma hesitação, assentiu:
— Agradeço, mãe concubina.

Cuixi sorriu:
— Sim, a princesa disse que após o parto, pode devolvê-las.

— Entendi — disse Shen Jin.

Cuixi explicou:
— Quando a hora chegar, elas servirão na corte da Concubina Chen.

Shen Jin concordou, dizendo nada mais.

Após deixar as duas sob os cuidados do Treze e de Shen Qi, Cuixi se retirou. Shen Jin disse:
— An Ning deu a elas envelopes vermelhos.

— Sim — respondeu An Ning. As duas estavam muito bem treinadas; ao entrarem, olhavam firmes e não se distraíam.

Shen Jin disse:
— Quando chegar a hora, darei outro envelope maior.

As duas se ajoelharam e agradeceram. An Ning entregou o envelope, e elas novamente se curvaram a Shen Jin.

Senhora Zhao comentou:
— A velha escrava foi negligente.

Shen Jin balançou a cabeça:
— É que na fronteira não há essas regras.

Senhora Zhao sorriu, sem acrescentar nada. Shen Jin já estava com mais de oito meses e o parto previsto para meados de março.
— A propósito, o quarto da parteira está pronto? — perguntou.

— Está — respondeu Senhora Zhao. — A senhora realmente quer amamentar?

— Sim — disse Shen Jin, acariciando a barriga.

Senhora Zhao abriu a boca:
— A velha escrava escolheu duas moças prudentes para chamar de parteiras.

Na verdade, além da parteira, era para supervisionar as duas moças. Shen Jin estreitou os olhos e disse:
— Mande alguém vigiar aquelas duas moças.

Não era que Shen Jin não confiasse em Princesa Rui e Concubina Chen, mas ela precisava ser cautelosa, não podia correr riscos.

Senhora Zhao respondeu respeitosamente, e Shen Jin continuou:
— Quando forem embora, lacrem bem tudo, dêem um par de cetins e preparem roupas para a mudança.

— Sim — anotou Senhora Zhao. Quando viu que Shen Jin não tinha mais instruções, foi para organizar tudo.

Shen Jin abriu a carta que Shen Qi havia lhe escrito. Não havia muitas palavras, mas ele dizia que estava um pouco preocupado com Yongle Hou Shizi. Também mencionava que agora entendia o quanto Shen Jin havia sofrido naquele tempo. Shen Jin percebeu que a preocupação de Shen Qi não vinha de um carinho verdadeiro por Yongle Hou Shizi... Depois de pensar um pouco, ela quis responder apenas: “Pense só na criança que está na barriga.”

Na verdade, Shen Jin não sabia como explicar isso para Shen Qi. Eles eram diferentes dela e do marido. Ela confiava que seu marido voltaria em segurança, e que por causa da criança em sua barriga, ela conseguiria sobreviver — mas era assim que as coisas estavam. Só que isso não podia ser dito a Shen Qi.

Naquela noite, Shen Jin sentiu uma pontada no estômago. Antes que pudesse alcançar Chu Xiuming, viu que ele já havia se levantado. Quando olhou para Shen Jin, abriu os olhos um pouco fracos e a face ficou pálida. Ele murmurou:
— Está doendo um pouco.

Chu Xiuming estendeu a mão e tocou a testa suada de Shen Jin, perguntando:
— Mas seu estômago dói?

— Sim — respondeu Shen Jin, sentindo a dor no abdômen aumentar — Está um pouco desconfortável...

Chu Xiuming imediatamente gritou:
— An Ning, chame a mãe Zhao e a parteira!

Embora ainda faltasse tempo para o parto, a mãe Zhao já estava pronta. Pouco depois do chamado, ela saiu com as botinas, e a parteira também apareceu. Quando chegaram à sala principal, viram Chu Xiuming secando o suor de Shen Jin. A mãe Zhao parecia um pouco nervosa e perguntou:
— Mas a senhora vai mesmo ter o bebê?

A parteira avançou e tocou a barriga de Shen Jin, depois disse com um tom sério. Em seguida, tocou o edredom e comentou:
— Está realmente na hora de nascer, mas a bolsa ainda não rompeu. Vamos levá-la para o quarto de parto.

— Mas ainda não chegou o dia... — Shen Jin mordeu o lábio, com a expressão confusa — Ainda falta mais de um mês...

— Senhora, não se preocupe, está tudo bem — a parteira a tranquilizou rapidamente.

Chu Xiuming então a envolveu no edredom, pegou-a nos braços e a levou ao quarto de parto, confortando-a em silêncio:
— Não tenha medo.

Shen Jin quase chorou:
— Ainda não é o dia...

— Senhora, não se preocupe. O bebê está quase com nove meses — disse também a mãe Zhao, tentando acalmá-la.

O quarto de parto ficava próximo da sala principal. Chegaram rápido. O balde de carvão estava intacto e o ambiente ainda mais quente do que a sala. Chu Xiuming colocou Shen Jin na cama.

A mãe Zhao perguntou:
— A senhora quer algo para comer?

— É melhor esperar um pouco, depois a senhora pode comer algo — persuadiu a parteira.

A dor no estômago de Shen Jin já havia diminuído um pouco. Ouvindo isso, ela perguntou:
— Pode mesmo?

— A velha escrava promete — respondeu a mãe Zhao.

— Traga um prato de macarrão para mim — pediu Shen Jin.

A mãe Zhao respondeu e correu para a cozinha preparar. Anping e An Ning organizavam tudo no quarto de parto com precisão. A parteira olhou para Chu Xiuming e disse:
— General, o senhor...

— Ficarei aqui — respondeu Chu Xiuming. Ele pegou a toalha que An Ning lhe ofereceu, limpou o suor do rosto e pescoço de Shen Jin com as próprias mãos e segurou sua mão com a outra.

A parteira tentou dizer algo, mas vendo a expressão decidida de Chu Xiuming, não falou nada. Shen Jin, ao ouvir isso, se sentiu aliviada. Mas de repente lembrou do que a parteira havia dito e, surpresa, disse:
— De jeito nenhum, saia!

Chu Xiuming olhou para Shen Jin com carinho:
— Não tenha medo, estarei com você.

— Não — respondeu Shen Jin, empurrando-o com a mão — Saia!

A postura dela era tão firme que chegou a ser constrangedora...

Chu Xiuming percebeu que Shen Jin não estava brincando e acalmou-se:
— Saio depois que você comer um pouco.

Shen Jin finalmente se acalmou e falou:
— Você tem que sair, e não pode espiar.

— Está bem — prometeu Chu Xiuming — Vou esperar do lado de fora. Quando precisar, é só me chamar.

Shen Jin assentiu. Logo depois, mãe Zhao trouxe o macarrão, pediu para a cozinha preparar mingau e pãezinhos do tamanho de longan. A mansão Yongning Bo ficou movimentada.

Vovó Zhao lembrou da babá na mansão do rei Rui e rapidamente enviou alguém para informar a Princess Rui que Shen Jin havia entrado em trabalho de parto.

Chu Xiuming cuidou pessoalmente para que Shen Jin se alimentasse bem. Depois, ela o mandou sair. Ele não foi muito longe, ficou no pátio perto da porta. O Palácio Real recebeu a notícia e Princess Rui enviou alguém para chamar Concubina Chen. As duas chegaram e trouxeram a babá, que estava presente nesse momento.

Ao amanhecer, Shen Jin pediu outra refeição e logo depois caiu num sono leve. Princess Rui e Concubina Chen saíram para falar com Chu Xiuming. Depois de relatar a situação de Shen Jin, ele entrou para trocar de roupa, mas logo voltou, mantendo os olhos fixos na porta do quarto de parto.

Shen Jin sabia que Chu Xiuming estava ali fora e que Princess Rui e Concubina Chen estavam ao seu lado, então não sentia mais medo.

Princess Rui olhou para Shen Jin, que estava comendo, e perguntou:
— A sopa de ginseng está pronta?

— Tudo pronto — respondeu mãe Zhao — O médico também está a postos do lado de fora.

Quando Shen Jin estava no meio da refeição, sentiu uma dor forte e gritou. An Ning apressadamente colocou a comida de lado...

Chu Xiuming apertou os punhos próximo à porta. O grito de Shen Jin quase o fez invadir o quarto sem hesitar, mas An Ning saiu correndo e disse:
— General, a senhora mandou avisar que o senhor não pode entrar! Se entrar, ela vai parar o trabalho de parto!

— Entendi — a voz de Chu Xiuming ficou baixa — Diga à senhora que estou aqui para acompanhá-la.

Anping acenou e entrou de novo no quarto, ignorando tudo o mais.

Chu Xiuming sentiu que aquilo parecia durar uma eternidade. Do nascer ao pôr do sol, viu as criadas entrarem e saírem rápido, mas em seu rosto não havia pressa ou desespero. Nem ele mesmo sabia que poderia manter a calma assim, tão meticuloso na observação.

Finalmente, viu mãe Zhao sair com um sorriso no rosto e dizer:
— Parabéns, general, mãe e filho estão bem.


Quando ouviu a notícia, Chu Xiuming estremeceu e olhou abruptamente para a sala de parto. Mãe Zhao disse:
— General, aguarde um pouco, o quarto está sendo limpo.

O médico, com um sorriso no rosto, também disse:
— Parabéns, general.

Nem o médico nem a sopa de ginseng foram utilizados, era algo natural e que não causava preocupação.

Chu Xiuming não disse uma palavra, sem conseguir pensar em mais nada, e entrou direto, mas foi parado por mãe Zhao, que o impediu de passar para a parte interna:
— General, o ideal é que o senhor esquente o fogo primeiro para não entrar com o corpo frio.

— Está bem. — Chu Xiuming sabia que devia obedecer mãe Zhao naquele momento, então ficou ao lado da bacia de carvão, mas os olhos continuavam fixos na parte interna da sala — O bebê está chorando.

Mãe Zhao sorriu e disse:
— É assim mesmo. O jovem mestre está muito saudável, pesa cinco catties e seis taels [2], é bonito e delicado, parece um pequeno imortal.

Mal terminou de falar, Chu Xiuming ouviu a voz de Shen Jin da sala interna, reclamando:
— Por que Dongdong é tão feio...

A parteira, que ajudara Shen Jin a se arrumar, estava ali também. Shen Jin estava deitada na cama, olhando para a criança limpa nos braços de Concubina Chen, com os olhos um pouco embaçados. Concubina Chen respondeu com impaciência:
— Bobagem, que criança linda!

Princess Rui também lançou um olhar para Shen Jin e disse:
— Não fale bobagem.

Shen Jin, sentindo-se incomodada, respondeu:
— O bebê está todo vermelho, com a pele enrugada, o nariz meio amassado... Apesar de estar meio feio, eu gosto dele. Vou amamentar o bebê.

Ao ouvir isso, Princess Rui olhou para Shen Jin surpresa. Concubina Chen não impediu. Pediu para An Ning ajudar Shen Jin a sentar-se nas costas da cama, a despir a parte superior, e Shen Jin, com cuidado, segurou o bebê, posicionando a boca dele para mamar. O bebê abriu a boca e começou a sugar com força.

Quando Chu Xiuming já não sentia mais frio, entrou na sala. Shen Jin, ao vê-lo, disse:
— Tudo isso é culpa sua!

— Culpa minha? — Chu Xiuming não entendeu e respondeu rápido.

Princess Rui e Concubina Chen, ao verem Chu Xiuming entrar, saíram primeiro. Chu Xiuming percebeu o gesto, ficou grato mentalmente, mas não falou muito. Apenas assentiu; Princess Rui sorriu e Concubina Chen suspirou aliviada.

Mãe Zhao e Anping acompanharam as duas para fora, e Princess Rui disse:
— Irmã Chen, fique aqui para cuidar da senhorita Jin. Vou voltar para avisar o príncipe da boa notícia.

Concubina Chen não recusou:
— Vou voltar quando a senhorita Jin dormir.

— Fique mais alguns dias — insistiu Princess Rui — Eu cuidarei do Xiaosi, e depois enviarei alguém para levar suas coisas.

Embora Concubina Chen soubesse que fora meio rude, no fim Shen Jin era sua única filha, e ela a elogiou. Então Princess Rui olhou para mãe Zhao e disse:
— Você pode conversar com Yongningbo mais tarde.

Mãe Zhao respondeu com respeito e acompanhou Princess Rui e Concubina Chen até a carruagem. Concubina Chen perguntou onde ficava a cozinha e foi preparar algo para a filha. Mãe Zhao queria ficar, mas foi impedida por Concubina Chen:
— Os dois são jovens e é o primeiro filho. A mãe deve ficar para observar.

— Sim — respondeu mãe Zhao, deixando Anping para ajudar Concubina Chen, e voltou sozinha para o quarto de parto.

A parteira já tinha saído, mas a enfermeira ficou dentro, com An Ning ao lado. A enfermeira era uma mulher de vinte e poucos anos, com aparência limpa e honesta.

Shen Jin trocou o bebê de braço para que ele mamasse do outro lado. Chu Xiuming se aproximou, olhando o rostinho vermelho do pequeno em seus braços. Shen Jin comentou:
— Por que Dongdong é meio feio?

Ela realmente não desgostava do filho, mas parecia diferente do que esperava.

— É meio feio — concordou Chu Xiuming, acompanhando as palavras dela.

Assim que disse isso, Shen Jin arregalou os olhos e lágrimas começaram a cair.
— Você não gosta do Dongdong?

Mãe Zhao entrou nesse momento, ouviu a pergunta e viu Shen Jin chorar de novo, preocupada, falou:
— Minha senhora, não pode chorar.

— Eu gosto dele — disse Chu Xiuming.

— Mas você disse que ele é feio — Shen Jin ficou ainda mais magoada.

Mãe Zhao, sem poder se conter, lançou um olhar para Chu Xiuming e logo começou a consolar Shen Jin:
— Não é feio, o jovem mestre é o mais bonito.

Chu Xiuming não sabia se ria ou chorava, estendeu a mão para secar as lágrimas do rosto de Shen Jin e disse suavemente:
— Não chore, Dongdong é o filho que você gerou com tanto esforço, claro que eu gosto.

O bebê, cheio e satisfeito, adormeceu nos braços de Shen Jin. Mãe Zhao apressou-se para pegar o bebê, e Chu Xiuming ajudou Shen Jin a ajeitar as roupas, dizendo com voz baixa:
— Está doendo?

— Está — Shen Jin parou de chorar e respondeu — Sinto dor no corpo todo, e estou com fome.

Chu Xiuming olhou para mãe Zhao, que respondeu:
— Concubina Chen já está na cozinha, acho que vai trazer algo para ela em breve.

Ouvindo isso, Chu Xiuming ficou aflito. Olhando o rosto exausto e abatido de Shen Jin, baixou a cabeça, beijou suas sobrancelhas e disse:
— Eu gosto muito de vocês dois.

Não sabia o que dizer, parecia que o bebê falava de Shen Jin.

Vendo Shen Jin acalmada, mãe Zhao perguntou:
— General, pode chamar o médico para examinar o jovem mestre?

Como o bebê nasceu prematuro, seria melhor fazer um exame para ficar mais tranquilos.

— Tudo bem — respondeu Chu Xiuming.

Mãe Zhao mandou montar a cortina de privacidade, por isso o médico que aguardava do lado de fora entrou, examinou o bebê e respondeu com voz respeitosa:
— Não se preocupem, general e senhora, o jovem mestre está muito saudável.

Chu Xiuming e Shen Jin finalmente respiraram aliviados. Chu Xiuming disse:
— Doutor, obrigado pelo trabalho.

O médico recuou respeitosamente. Concubina Chen também trouxe algo: fez um mingau de milho com açúcar mascavo e ovos para Shen Jin. Queria alimentá-la, mas ao olhar para Chu Xiuming, ele passou a tigela e alimentou Shen Jin, dando colheradas devagar. Shen Jin sentiu o corpo muito mais confortável. Depois de comer, seus olhos ficaram pesados. Chu Xiuming disse:
— Vá descansar.

— Quero olhar o bebê mais uma vez — sussurrou Shen Jin.

Mãe Zhao pegou o bebê, e Shen Jin, bocejando, foi ajudada por Chu Xiuming a deitar-se, fechando os olhos para dormir.

Chu Xiuming olhou para Concubina Chen e disse:
— Mãe, vá descansar.

— Onde é que eu vou? — respondeu Consorte Chen — Vou ficar aqui.

Chu Xiuming balançou a cabeça, e mãe Zhao disse baixinho:
— Há alguns dias, Yongningbo procurou parteiras e velhas escravas para aprender tudo, então não se preocupe.

Concubina Chen não esperava que Chu Xiuming tivesse consultado especialistas e disse:
— Isso é ótimo.

Mãe Zhao pediu:
— Peça à consorte que cuide do jovem mestre.

Concubina Chen sorriu cheia de alegria. Era seu neto. Se não tivesse cuidado, teria vontade de pegá-lo no colo. Assentiu e disse:
— Pode deixar.

Mãe Zhao entregou o bebê nas mãos de Concubina Chen e a conduziu para o quarto ao lado, especialmente preparado para o menino. Naturalmente, a babá também foi chamada. An Ning acompanhou, e An Ping perguntou a Chu Xiuming:
— General, precisa de algo?

— Traga alguns pãezinhos no vapor e água pura — respondeu ele.

Essas duas coisas não têm cheiro forte, e Chu Xiuming temia que o cheiro da comida incomodasse o descanso de Shen Jin.

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Notas:


1 : Espadas não têm olhos (刀无眼): expressão chinesa que significa que, em batalha, uma arma não distingue amigo de inimigo — acidentes e mortes são imprevisíveis e perigos inevitáveis.

2:  Medida de peso chinesa antiga: 1 catty ≈ 500g, 1 tael ≈ 37,5g


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