Capítulo 53
PASTEIS CHINESES DE ALHO-PORÓ
O método de Shen Miao para preparar os pastéis de alho-poró era o mais rápido e eficiente, não exigia escaldar a massa nem tempo de fermentação: a camada externa ficava dourada e crocante ao ser frita na frigideira, enquanto o interior permanecia macio e tenro.
Ela retirou duas conchas de farinha de trigo do saco, acrescentou uma pitada de sal e misturou com hashis.
Em seguida, despejou uma quantidade de água fria ligeiramente inferior à da farinha, misturando continuamente até formar uma massa esfarelada. Essa massa era mais macia do que a usada para pãezinhos cozidos no vapor. Ela a cobriu com uma tampa de bambu e deixou descansar por quinze minutos.
O recheio também era simples – ela lavou os talos de alho-poró, secou-os bem e picou-os finamente. Depois, adicionou ovos mexidos já frios, juntamente com "macarrão de arroz fio-de-prata" — um termo da Dinastia Song para o macarrão de vidro (feito de amido), do tipo usado em pratos como ensopado de porco com macarrão. O povo da Dinastia Song parecia gostar de dar nomes elegantes até mesmo aos alimentos mais comuns.
Ela misturou tudo com os hashis, temperando com sal e óleo de gergelim, e acrescentou um pouco de molho de soja e pasta de camarão seco para dar ‘umami’ — substitutos para o glutamato monossódico e o molho de ostra, que ainda não haviam sido inventados.
Por fim, polvilhou uma mistura de especiarias caseira chamada "Virtude do Sul" — uma combinação de anis-estrelado, pimenta-de-sichuan, gengibre seco, canela, sal e sementes de erva-doce. Ela havia preparado uma boa quantidade desse tempero; ele também funcionava muito bem em marinadas para peixe grelhado, conferindo profundidade e um toque reconfortante de calor ao sabor.
Nesse momento, a massa já havia descansado. Ela a esticou formando uma tira longa, dividiu-a em pequenas porções, polvilhou-as com farinha e moldou-as em bolinhas lisas. Após abrir cada uma em um disco fino, colocou o recheio de alho-poró — de um verde vibrante — no centro, dobrou as bordas para dentro e as apertou para fechar, dando ao pastel o formato de meia-lua.
Ela pincelou óleo em uma chapa pré-aquecida e fritou os pastéis em fogo baixo até que ambos os lados ficassem dourados e o aroma do alho-poró se espalhasse pelo ar.
Assim que ficaram prontos, Shen Miao pegou um para si, soprando-o, antes de dar a primeira mordida. A camada externa estava crocante, quebrando-se ao menor toque dos dentes. Por dentro, o recheio se revelou: alho-poró verde-vivo — suculento, mas sem estar encharcado —, ovos mexidos fofos e macarrão de vidro de textura firme, embebido em um caldo saboroso.
Shen Miao assentiu, satisfeita. Alho-poró e ovos formavam, de fato, uma combinação perfeita, com um realçando o aroma do outro.
Ela trouxe uma pequena cesta com os pastéis de alho-poró para a Irmã Xiang e Chen Chuan:
"Aqui, comam logo — ainda estão quentes!"
A Irmã Xiang não se importou com o calor e deu uma mordida imediatamente. Normalmente, ela não gostava de alho-poró, detestando o cheiro forte que ele exalava ao ser refogado. Mas aquilo era diferente – só o aroma já lhe fazia a boca salivar. A massa crocante envolvia um recheio generoso, e a casca fina produzia um estalido satisfatório ao ser mordida. O alho-poró era aromático, sem aquele sabor picante ou agressivo; macio, porém crocante, equilibrado pelos ovos e pelo macarrão.
Ela devorou três de uma só vez, apenas para notar que Chen Chuan, ao seu lado, terminava silenciosamente dois deles.
Os dois estavam sentados no pátio, comendo com gosto, quando Liu Douhua passou por ali. Ela havia trazido de casa duas tigelas de pudim de tofu sedoso para trocar. A Irmã Xiang empurrou Chen Chuan para fora pela porta dos fundos e, logo, as três crianças estavam sentadas lado a lado nos degraus do quintal de Shen Miao, alternando mordidas nos pastéis de alho-poró com colheradas do pudim de tofu macio, absortas demais para conversar.
Li Gou'er, voltando da escola, viu os amigos saboreando aquele banquete no beco. Ele correu para casa, jogou a mochila de lado e atacou o pote de doces escondido pela Tia Li no topo do armário. Pegando um punhado de doces crocantes em formato de flor, ele os embrulhou na camisa e correu de volta para fazer a troca com a Irmã Xiang e Liu Douhua.
A Irmã Xiang aceitou os doces, dividindo metade com Chen Chuan, antes de entregar um pastel de alho-poró a Li Gou'er:
"Aqui, este é o 'bolo de lua' que minha irmã fez. Cheira bem, não é?"
Shen Miao não havia dado um nome específico àqueles pastéis de alho-poró, então a Irmã Xiang inventou um — afinal, eles pareciam luas crescentes douradas. Ficou decidido que seriam "bolos de lua"!
Liu Douhua também correu para casa, voltando com uma tigela transbordando de pudim de tofu. Ela a levou cuidadosamente até Li Gou'er:
"Aqui, troco com você por três balas."
Agora, as quatro crianças estavam sentadas lado a lado, balançando as pernas (Chen Chuan só conseguia balançar uma), aproveitando a brisa fresca, saboreando os "bolos de lua" recheados com alho-poró, comendo pudim de tofu macio e, de vez em quando, colocando uma bala doce na boca. Era pura felicidade.
Depois de comer seu quinto pastelzinho de alho-poró, a Irmã Xiang soltou um arroto de satisfação e inclinou a cabeça, enquanto Liu Douhua se gabava de que seu irmão mais velho e sua cunhada estavam abrindo uma nova loja de tofu na cidade externa:
"Minha mãe diz que a loja antiga na Alameda do Salgueiro do Leste será minha quando eu crescer. Vou aprender a fazer tofu, aceitar um marido que leve nosso sobrenome e nunca sofrer na casa de outra pessoa."
O cachorro, Vento Veloz, saiu de fininho do quintal, atraído pelo cheiro. Chen Chuan percebeu e destacou um pedaço da massa para lhe dar. O cachorro obedientemente deitava-se ao lado da cadeira de rodas dele, lambendo as patas depois de terminar o petisco.
"Vou começar a aprender a fazer tofu no ano que vem", declarou Liu Douhua, com orgulho.
Irmã Xiang sentiu uma pontada de inveja:
"Você já está aprendendo um ofício?" Mais cedo, sua irmã havia perguntado o que ela queria fazer, e ela não soubera o que responder. Ela não sabia em que era boa.
Liu Douhua inclinou a cabeça:
"Claro. O que mais eu faria? Você não vai aprender a fazer macarrão com sua irmã?"
Neste mundo, as crianças geralmente seguiam o ofício dos pais, a menos que estudassem muito e passassem nos exames imperiais — caso em que o destino de toda a família poderia mudar.
"Minha irmã diz que posso fazer o que eu quiser. Não preciso aprender a fazer macarrão. Posso estudar ou aprender a escrever; a escolha é minha." Irmã Xiang comeu o último pedaço de seu pudim de tofu, murmurando para si mesma: "Adoro comer coisas gostosas, mas acho que não gosto de cozinhá-las. Não quero fazer tofu, produzir vinho, extrair óleo, vender carvão ou lenha, nem consertar porcelana. Aff... Não gosto de nada. O que eu deveria fazer?"
Li Gou'er, com a boca cheia de um pastelzinho de alho-poró, intrometeu-se:
"Você gosta de brincar. E gosta de cortar cabelo."
Irmã Xiang lançou-lhe um olhar fulminante:
"Você também não gosta disso? A Tia Li arranjou um professor rigoroso para você, e ontem ouvi você chorando porque não queria ir para a escola!"
"Você chorou? Por causa da escola? Que vergonha!", Liu Douhua juntou-se à provocação.
Li Gou'er ficou vermelho e implorou para que Irmã Xiang parasse.
Ela deixou o assunto de lado, mas sua cabecinha estava cheia de grandes preocupações. Apoiando o queixo na mão, ela suspirou e virou-se para Chen Chuan:
"E você?" Mas ela mesma respondeu por ele: "Ah, já sei — você só quer ir para casa. Não adianta nem perguntar."
Chen Chuan permaneceu em silêncio o tempo todo. Depois de terminar seu pudim de tofu, ele segurou a tigela e observou, em silêncio, o pardal gordinho que se arrumava no muro da Família Gu. Ao contrário da Irmã Xiang, ele não parecia preocupado — como se já conhecesse o seu caminho.
Gu Tusu levou vários barris grandes de vinho para fora pelo portão dos fundos e avistou as quatro crianças sentadas ali, com pedacinhos de alho-poró grudados no rosto, discutindo seriamente as grandes questões da vida. Divertido, ele balançou a cabeça, espantou o pardal do muro, enxugou o suor com a toalha que trazia no pescoço e empurrou o carrinho para fazer as entregas.
O vinho que ele entregava destinava-se à confeitaria da Família Wei. Eles haviam contratado recentemente um novo confeiteiro e lançado uma linha de bolos recheados com vinho que se tornaram muito populares, ajudando-os a superar a fase de baixa nos negócios. Também haviam feito um grande pedido de vinho doce de ameixa à Família Gu, claramente preparando-se para uma grande expansão.
Enquanto empurrava o carrinho de vinho, ele passou pela loja de macarrão da Família Shen. Sem pensar, ele olhou para dentro e surpreendeu-se ao ver uma jovem vestida com roupas elegantes e de cores vivas, comendo macarrão àquela hora. Mais estranho ainda: ela chorava enquanto comia, com as lágrimas escorrendo pelo queixo.
Gu Tusu não se demorou. Após um breve olhar, seguiu caminho, intrigado. O macarrão da Irmã Mais Velha era realmente delicioso, mas... será que aquela moça estava passando fome? Seria tão bom a ponto de levá-la às lágrimas?
Shen Miao não havia notado a cliente que chorava. Depois de preparar o macarrão para a única freguesa da loja e desejar-lhe bom apetite, ela retirou-se para o quintal; com as mãos na cintura, examinou o local — era hora de uma limpeza geral! Num dia como aquele, com céu azul límpido e sol brilhante, Shen Miao não desperdiçaria nem um segundo.
Aproveitando o tempo livre, ela tirou toda a roupa de cama, lavou-a e estendeu-a nos varais que cruzavam o pátio. Também desentupiu o ralo da pia da cozinha, varreu o galinheiro, limpou a casinha do cachorro e até lavou com mangueira o caminho de pedra do pátio.
Como já não precisava acordar cedo para a feira matinal, Youyu chegou mais tarde do que o habitual. Ao chegar, a Tia Nian encontrou Shen Miao de cabelos presos e mangas arregaçadas, em meio a uma verdadeira maratona de limpeza, tendo já consumido um barril inteiro de água.
Sem sequer terminar a panqueca de alho-poró que lhe haviam entregue, Youyu pegou imediatamente uma vara de carregar fardos para buscar mais água. Aquela garota parecia ter uma necessidade compulsiva de carregar água.
Depois de limpar minuciosamente o pátio, Shen Miao viu a Irmã Xiang levando Chen Chuan de volta para casa. Sem hesitar, ela puxou a Irmã Xiang para um banho — ela não lavava o cabelo havia cinco ou seis dias. Shen Miao desfez as tranças dela e usou sabão caseiro para esfregar o couro cabeludo.
A Irmã Xiang não temia nada — exceto lavar o cabelo. Agora, presa nas mãos de Shen Miao, ela não teve escolha a não ser se agachar, curvando-se e cobrindo os olhos e o nariz com um pano, tomada pelo receio:
"O que há de tão assustador em lavar o cabelo? Abaixe a cabeça — lá vem a água!" Shen Miao encheu uma cabaça com água aquecida pelo sol e a despejou diretamente sobre a cabeça dela, sem piedade.
A Irmã Xiang soltou um grito agudo, prendendo a respiração e apertando os olhos com força, enquanto pressionava o pano contra o rosto — da última vez em que a irmã dela tinha lavado seu cabelo, ela deixou a água entrar pelo nariz e quase se afogou!
Ao olhar para o lado, Shen Miao notou o cabelo raspado de Chen Chuan, que já estava começando a crescer. Já que estava lavando uma criança, por que não lavar duas? Então, ela o puxou para perto também.
Como as pernas dele não podiam molhar, ela as cobriu com uma lona impermeável. Os ferimentos dele estavam cicatrizando bem — o velho médico dissera que ele não precisava mais de visitas diárias nem de remédios. Agora, era só uma questão de repouso até que as talas pudessem ser retiradas.
Meia hora depois, a Tia Gu chegou mais cedo para ajudar e paralisou na porta ao ver a cena: a Irmã Xiang, Chen Chuan e até os cachorros, Trovão e Vendaval, estavam sentados ao sol, úmidos e meio atordoados, com os pelos e cabelos secando na brisa enquanto as roupas lavadas balançavam ao redor deles. Se fosse possível lavar galinhas, elas teriam tido o mesmo destino.
Tia Gu balançou a cabeça, incrédula. Um momento depois, ela ouviu um movimento atrás de si e se virou para ver Youyu, ofegante, fazendo viagens incansáveis para buscar água.
Tia Gu: “…” A ética de trabalho da Família Shen a deixava impressionada — e até um pouco assustada.
Dentro da cozinha, a bancada estava repleta de panelas de barro para o peixe grelhado. Apesar de ter passado a manhã limpando a casa, Shen Miao já havia preparado a maioria dos acompanhamentos, organizando-os e separando as porções nas panelas.
“Tia Gu, por que chegou tão cedo?”, perguntou Shen Miao com agilidade, enquanto arrumava tiras de pepino em uma panela.
Tia Gu pegou um punhado de repolho picado e começou a fazer camadas com ele:
“Não adianta ficar parada em casa. Melhor vir ajudar logo. Já recebi o pagamento... como poderia simplesmente cumprir o horário certinho e ir embora todo dia?”
Shen Miao sorriu docemente:
“Tia Gu, a senhora é demais!”
Tia Gu riu, mas a repreendeu:
“Mas e você? Por que não descansa ao meio-dia?”
“Tenho dormido até mais tarde ultimamente, então estou bem descansada. Além disso, limpar a casa não me cansa — eu gosto!”
Em sua vida passada, Shen Miao era do tipo que aliviava o estresse fazendo uma limpeza profunda ou organizando as coisas. Ver tudo arrumado e em ordem lhe trazia uma sensação de satisfação inexplicável, e assim, o estresse desaparecia.
A Tia Gu não conseguiu convencê-la do contrário, então concentrou-se em ajudar a preparar os ingredientes.
No meio do processo, a Irmã Xiang — com o cabelo ainda quente do sol — espiou para dentro e anunciou:
"Irmã Mais Velha, o Vovô Yang chegou com as novas mesas e bancos!"
Shen Miao parou para examinar os móveis. Desde que incluíra peixe grelhado no cardápio, o número de assentos original da loja tornara-se insuficiente, obrigando-a a pedir mesas e cadeiras emprestadas à Tia Gu e aos vizinhos diariamente. Percebendo que aquilo não era sustentável, ela encomendara um novo lote ao Velho Yang.
Trabalhando horas extras com seu aprendiz, o Velho Yang apressara-se para concluir a encomenda, ciente de que Shen Miao precisava dela com urgência.
Embora Shen Miao adorasse pechinchar, ela também era sua maior cliente. Desde a construção de seu carrinho, a reforma da casa e a confecção de vários móveis, a marcenaria dele — que antes passava por dificuldades — havia prosperado.
Os designs inovadores dela atraíam muitos imitadores, o que lhe trazia mais encomendas. Por isso, quando ela negociava, o Velho Yang resmungava, mas ainda assim lhe concedia descontos.
Outros, no entanto, não recebiam tal benevolência. Ele aprendera a manter a firmeza: se um cliente insistisse demais, ele cedia apenas duas vezes. Caso contrário, as pessoas se aproveitariam da situação e o negócio não se concretizaria. Na maioria das vezes, aqueles que iam embora acabavam voltando.
As novas mesas e bancos foram feitos de acordo com as especificações de Shen Miao; cada peça trazia gravado o número da mesa e os caracteres "Shen Ji" nas pernas, destacados com laca vermelha brilhante.
Shen Miao passou a mão pelas superfícies lisas e uniformemente laqueadas e elogiou sinceramente o Velho Yang, enquanto lhe pagava:
"Vovô, seu trabalho está cada vez melhor. Estão perfeitas!"
Mas o Velho Yang interpretou mal o tom dela e ficou tenso:
"Eu já arredondei o preço para baixo — nada de brindes extras!"
A maioria dos clientes pechinchava por algumas moedas — digamos, reduzir de 282 para 280. Mas Shen Miao? Ela tinha a audácia de pedir um desconto de 82 moedas! Quem, em sã consciência, arredondaria o valor para baixo em oitenta e duas moedas? Aquilo era considerado um troco insignificante? Inicialmente, o Velho Yang não conseguia acreditar que havia sido tão tolo, mas, mais tarde, viu-se agindo como tolo inúmeras outras vezes.
Shen Miao conteve o riso, enquanto lhe entregava metade de um cordel de moedas:
"Eu estava realmente elogiando você, não pedindo algo a mais. Veja só como você está assustado. Aqui — esta é a quantia combinada; não falta uma moeda sequer." Então, apontando para o beco, ela acrescentou: "A propósito, a Família Liu, da loja de tofu, vai abrir uma nova loja na parte externa da cidade. Eles mencionaram que precisam de mesas, cadeiras e móveis novos. Quando me procuraram, recomendei você. Pode ir direto falar com eles mais tarde." Olhando ao redor para garantir que ninguém estava ouvindo, Shen Miao baixou a voz: "A Tia Liu também perguntou quanto paguei pelos móveis. Eu citei o preço que você costuma cobrar de estranhos. Quando for lá, negocie diretamente com eles — o que quer que vocês acordem é algo entre vocês dois. Não vou interferir."
Como ambas as partes eram conhecidas, dizer aos Liu que ela havia conseguido um desconto deixaria o Velho Yang em uma situação embaraçosa. Por outro lado, ajudá-lo a inflacionar o preço pesaria em sua consciência. Deixar que eles resolvessem a questão entre si era a solução mais justa.
Só então o semblante do Velho Yang se iluminou. Depois de ajudar Shen Miao a organizar os móveis, ele seguiu direto para a casa da Família Liu.
Shen Miao observou-o desaparecer na Residência dos Liu e, em seguida, voltou o olhar, pensativa, para a loja vazia ao lado — que antes pertencia a um comerciante de sabão e estava abandonada há muito tempo.
Recentemente, um corretor havia trazido possíveis compradores, explicando que o proprietário devia uma fortuna ao Templo Xingguo e fora forçado a vender o imóvel. No entanto, mesmo após o retorno de Shen Miao, o local continuava sem comprador.
Na cidade de Bianjing, a terra valia ouro. Uma loja bem localizada no centro da cidade podia custar três mil *guan*, enquanto aquelas situadas ao longo da Rua Imperial alcançavam preços astronômicos de vinte mil *guan*.
Não era de se admirar que o tio e a tia de Shen Miao — que já possuíam duas lojas e viviam com conforto — cobiçassem a loja de macarrão da família dela e relutassem em devolver a escritura. Três mil *guan* equivaliam a três mil taéis de prata — ou cerca de quatrocentos a quinhentos taéis de ouro, dependendo da taxa de câmbio da época. Tais quantias estavam muito além das possibilidades da maioria das pessoas comuns, e até mesmo de muitos funcionários públicos, a menos que viessem de famílias ricas.
A loja ao lado era menor que a de Shen Miao, por isso o preço pedido não era tão elevado. Quando os Liu estavam procurando um local para sua nova loja de tofu, chegaram a se informar sobre ela.
Inicialmente anunciada por dois mil *guan*, o proprietário — desesperado e pressionado pelos cobradores do Templo Xingguo — havia reduzido o preço para mil e quinhentos *guan*, temendo ter de se jogar no Rio Bian caso não conseguisse vendê-la.
Mil e quinhentos *guan* ainda era um valor alto. Os Liu optaram pela área externa da cidade, onde as lojas custavam metade do preço.
Shen Miao também havia se sentido tentada; ela chegou a fazer as contas, mas acabou desistindo.
Expandir o negócio era algo que ela planejava há muito tempo. Sua loja atual mal comportava cinco ou seis mesas. Mesmo com mais três do lado de fora, o espaço não era suficiente.
Recentemente, ela havia recorrido a colocar mesas no quintal e no beco — uma solução provisória, na melhor das hipóteses. Se ela continuasse invadindo o espaço público, os vizinhos acabariam reclamando. Em vez de arranjar problemas, ela cogitou expandir o negócio incorporando a loja vazia ao lado. Um espaço unificado seria mais amplo, acomodando mais clientes sem obstruir o beco.
Como alternativa, ela poderia alugar um ponto maior em outro lugar. Mas, como acabara de construir uma reputação no Beco Willow East, mudar-se parecia imprudente. Além disso, ser proprietária do imóvel significava não pagar aluguel — uma economia significativa.
O dilema persistia: ou contraía uma dívida para comprar a loja vizinha e se tornava escrava de uma hipoteca de longa data, ou se mudava, alugava o imóvel atual e recomeçava em um espaço maior.
Além das questões financeiras, a equipe era outro desafio. Na loja pequena, ela dava conta do recado como cozinheira-chefe, com Youyu como ajudante e Tia Gu servindo as mesas. Mas expandir o negócio exigiria, no mínimo, um cozinheiro-chefe, um assistente, dois ajudantes e dois garçons — o que implicaria três contratações extras e custos mais elevados.
Então, o que fazer? Aproveitar a oportunidade e dar um passo à frente, ou jogar pelo seguro e permanecer onde estava?
Absorta em pensamentos, Shen Miao voltou para a cozinha, sentindo o peso de uma preocupação pela primeira vez desde que chegara ali.
…..ooo0ooo…..
Enquanto isso, Shen Ji, após dias na academia, encarava sua tigela de mingau acinzentado e cheio de cascas, sem conseguir criar ânimo para comer. Todas as refeições na Academia Piyong tinham o gosto da gororoba do Cozinheiro Zhou, deixando-o igualmente irritado.
Ele se lembrava perfeitamente de sua irmã preparando farinha refinada e arroz descascado — como aquilo havia se transformado nisso? Ele quase foi até a cozinha tirar satisfações.
“Não aguento mais. Estou morrendo de fome’, resmungou Hai Ge’er, deixando-se cair ao lado dele com sua bandeja. “Como a cozinha da academia pode ser pior do que a comida da minha mãe? É intragável! Não é à toa que todo mundo aqui reclama da comida."
Shen Ji, ainda ressabiado com Hai Ge’er devido ao passado entre eles, vinha evitando o rapaz. No entanto, seus caminhos continuavam se cruzando — primeiro ao entregarem as rações de grãos e, depois, em todas as refeições. Era estranho. Ainda assim, eram primos e frequentavam a mesma academia; ignorá-lo parecia uma atitude dura demais.
Os colegas de quarto de Shen Ji eram gente boa — nada de tipos excessivamente competitivos ou mesquinhos. Ele se dava bem com eles.
Hai Ge’er, por outro lado, estava alojado no dormitório "Ding", onde os alunos estudavam incansavelmente, chegando a recitar textos até no banheiro. Um fanático pelo estudo copiava poemas de Du Fu todos os dias e depois comia o papel, na esperança de absorver a genialidade do poeta.
Hai Ge’er, que detestava estudar e só se importava com comida, acabou isolado. A condição social mediana de sua família fazia com que ninguém tentasse bajulá-lo, e sua preguiça despertava desprezo. Por isso, ele se grudou em Shen Ji, tentando cair nas graças do primo sempre que possível.
Shen Ji, agora mais seguro graças ao apoio da irmã, sentiu um lampejo de tolerância, parou de enxotar Hai Ge’er e, aos poucos, a relação entre eles começou a melhorar.
Agora, Hai Ge'er estava deitado, prostrado sobre a mesa; seu estômago estava completamente vazio e suas entranhas, em plena rebelião. Incapaz de suportar aquilo por mais tempo, ele sussurrou uma sugestão a Shen Ji:
"Por que não seguimos o exemplo daqueles estudantes e pagamos a alguns mensageiros, com moedas de prata, para buscarem comida para nós lá fora?"
Shen Ji ergueu levemente as pálpebras:
"Mandá-los ir lá, mesmo que apenas uma vez, custaria pelo menos vinte moedas de cobre — caro demais."
Embora sua irmã mais velha lhe tivesse dado bastante dinheiro, ele sempre fora econômico na academia. Cada moeda fora conquistada com muito esforço por ela; como poderia ele ousar gastar de forma tão imprudente?
Ele se perguntou como sua irmã mais velha e a Irmã Xiang estariam passando ultimamente. Como iam os negócios na loja? Estariam elas se sobrecarregando de trabalho?
"Por minha conta!", Hai Ge'er animou-se, cheio de entusiasmo. "Você leu aquele texto do Estudante Ning, da Primeira Divisão? Estão copiando e passando de mão em mão por toda a academia! Ele escreveu sobre comer peixe grelhado — descreveu como era delicioso e até incluiu ilustrações! Só de ler, fiquei com tanta água na boca que encharquei dois lenços!"
Shen Ji lançou-lhe um olhar, com um leve sorriso brincando nos lábios:
"Peixe grelhado?"
"Exatamente! O Estudante Ning escreveu: 'Ao passear pelo mercado noturno, um aroma tentador de repente flutua no ar... Uma panela de barro cheia de vegetais variados, com um peixe grande acomodado no centro e um pequeno fogareiro embaixo, contendo brasas incandescentes. Quando o caldo borbulha como pérolas, o peixe banha-se lentamente no líquido em fervura branda. Logo, a pele fica crocante e perfumada, e a carne, macia. Reúna dois ou três amigos e coma enquanto cozinha — o aroma, uma mistura de especiarias, picância, umami e riqueza de sabores, é inebriante, impossível de descrever…'"
Shen Ji deu um sorriso irônico:
"Você até decorou o texto."
"E daí? Hoje à noite, vou pagar esse prato para você — não precisará gastar uma moeda sequer. Os mensageiros não podem entrar na academia, então passarão a comida por cima do muro, lá nos fundos da montanha. Comeremos lá, antes de voltar." Hai Ge'er juntou as mãos em um gesto de súplica: "Faça-me companhia só desta vez. O instrutor da nossa divisão tem um tempero explosivo — tenho medo de que, se eu escapar para comer, acabe levando uma surra. Mas você é da Primeira Divisão. Com você lá, talvez a gente escape da punição. Por favor?"
Shen Ji ponderou e depois perguntou, curioso:
"Mas se for entregue vindo lá da Cidade Interior, não vai estar frio quando chegar? Como vamos comer?"
"Ah! Como você sabe que vem da Cidade Interior? Então você já ouviu falar disso também!" Hai Ge'er, que claramente havia pesquisado o assunto, explicou: "Por mais dez moedas de cobre, você leva a panela de barro. A loja coloca o peixe e os vegetais pré-selados dentro, com o caldo em tubos de bambu. Quando os entregadores trazem, a gente só precisa aquecer num fogareiro, despejar o caldo e esperar ferver. Os estudantes da Segunda Divisão já experimentaram!"
Então era assim que funcionava. Sua irmã mais velha era realmente esperta.
Shen Ji acariciou o queixo e concordou. Hai Ge'er imediatamente despejou sua papa rala no balde de restos e, vibrando de empolgação, arrastou Shen Ji para fora do refeitório, tagarelando sem parar sobre comida:
"A Cidade Interior tem muito mais a oferecer — você deve ter provado todas essas iguarias! Afinal, você levou macarrão seco no dia do exame, enquanto eu só descobri essas maravilhas depois. Ah, e ouvi dizer que tem novidades também: mini pãezinhos no vapor, macarrão com molho frito ao estilo de Yanzhou, macarrão no vapor... Ugh, minha boca enche de água só de pensar! Mas meus pais só vão à Cidade Interior para cobrar aluguel. Antes disso, eles me arrastaram para o campo por meio mês para colher grãos e depois me jogaram de volta nesta prisão assim que voltamos para a cidade de Bianjing! Perdi tudo! Senão, eu teria devorado até a última migalha — macarrão seco, mini pãezinhos, macarrão com molho frito... eu comeria tudo o que visse pela rua!"
Ele falava com grande fervor, com a saliva praticamente voando e as bochechas rechonchudas tremendo de empolgação, como se estivesse fazendo um juramento solene.
Shen Ji olhou para ele como se fosse um idiota. Quando as pessoas falavam sobre essas comidas, será que ele apenas ouvia dizer o quanto eram deliciosas, deixando passar completamente o nome da loja? Ou será que ele achava que havia tantas pessoas com o sobrenome Shen que jamais lhe ocorreu que aquelas poderiam ser criações da sua própria família? Falando sério, seria eventualmente possível que cada um daqueles pratos tivesse sido inventado pela sua irmã mais velha?

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