Capítulo 112: Banquete em Família


 Quando Yue Lingxi entrou no Palácio Taiji e ficou diante dos dois anciãos, prendendo a respiração, seu coração pareceu ser tomado por uma onda gigantesca, deixando-a por um instante em branco.

Com pais tão elegantes, não era de se admirar que Chu Xiang tivesse nascido extraordinário.

No salão refinado, pendia uma delicada e complicada lâmpada de cristal. A luz das velas se refratava, iluminando os dois que jogavam xadrez. O homem já passara da meia-idade, mas sua figura permanecia ereta como um pinheiro. Apenas sentado, exalava uma dignidade natural e inatingível. Embora tivesse barba e algumas rugas, Yue Lingxi pôde perceber de imediato que os traços de Chu Xiang vinham dele — indescritíveis.

Ao olhar mais de perto, os dois eram diferentes. Chu Xiang sorria com frequência, transmitindo calor nos olhos e sobrancelhas. Já o outro parecia frio e calmo, como uma lua gelada suspensa no fim do céu, tornando difícil aproximar-se. Contudo, durante o jogo, ao olhar para a mulher, a frieza em seus olhos transformava-se claramente em ternura.

Yue Lingxi não pôde evitar de olhar também.

Em comparação, a mulher parecia muito mais jovem. Embora não fosse deslumbrante, sua expressão continha vivacidade e inteligência, como uma jovem de dezessete ou dezoito anos, mas seus gestos e maneiras eram maduros. O encanto de uma mulher experiente e o nobre temperamento de uma mãe da nação se fundiam nela sem qualquer estranheza. Yue Lingxi ficou atônita e esqueceu-se de se curvar, até que a voz de Chu Xiang a despertou.

— Seu filho presta respeito ao pai e à mãe.

Num instante, os pensamentos dispersos de Yue Lingxi voltaram. Ela ajoelhou-se sobre o tapete tecido por artesãos celestiais e cumprimentou com reverência:

— Saudações, Imperador e Imperatriz Viúva.

Não tinha problema em chamá-los pelos títulos em privado, mas diante deles não pôde evitar a hesitação.

Os dois, que estavam concentrados no jogo, só então notaram sua entrada. Puseram as peças de jade de lado e voltaram-se.

— Depressa, levante-se. — Ye Huaiyang ergueu a mão e suavizou as sobrancelhas ao ver Chu Xiang ajudar Yue Lingxi a se levantar. — Xi Xi, não precisa ser tão formal em casa daqui em diante. Trate-nos como trata Xiang’er.

Yue Lingxi percebeu que ela não tinha qualquer arrogância e ainda a chamava pelo apelido com intimidade. Todos os obstáculos em seu coração desapareceram de repente, como se estivesse aquecida por um fogão. Contudo, não era boa em expressar sentimentos e não sabia como responder. Nesse momento, Chu Xiang inclinou-se e sussurrou em seu ouvido:

— Diga que entendeu.

O gesto foi pequeno, mas suficiente para que os outros vissem claramente.

Yue Lingxi não esperava que ele fizesse algo tão íntimo diante dos pais. O sopro quente em sua orelha a fez sentir-se em chamas. Envergonhada, apenas abaixou a cabeça e repetiu suavemente:

— Eu entendo.

Ye Huaiyang viu a cena do jovem casal e não conteve o sorriso.

Logo, os quatro foram ao salão lateral para jantar.

As velas douradas tremeluziam, os biombos pintados pareciam leques, e uma mesa redonda de madeira de roseira amarela sustentava o espaço no tamanho exato. Sobre ela, diversas iguarias: camarão com lótus, cubos de peixe esmeralda, tofu de sementes de lótus, inhame com mel e brotos de dragão salteados. Todos frescos da estação, com carne e vegetais bem equilibrados. Em instantes, o aroma encheu o ambiente.

Yue Lingxi sentou-se diante de Chu Xiang, surpresa.

Dizia-se que famílias nobres tinham muitas regras, e a realeza ainda mais. Imaginava que o banquete seria como de costume: cada um ajoelhado atrás de mesas longas, separados por corredores espaçosos, ouvindo música e vendo danças de mangas, sem poder ver as expressões dos outros, apenas sombras fugidias e a lua derramando luz nos corredores. Mas não esperava que, quando Chu Xiang falara em compartilhar uma refeição, fosse realmente isso. Os dois no topo estavam ali como simples pais, dividindo a mesa e conversando sobre assuntos familiares.

Um suor frio escorria em suas costas, e Yue Lingxi tentava acalmar-se. De repente, uma sombra surgiu no canto de seu olho. Virou-se e viu Chu Xiang segurando uma taça de jade, meio cheia de vinho doce e perfumado.

— Nestes dias, Pai e Mãe sofreram muito. Sinto culpa em meu coração, então me punirei com uma taça primeiro.

Depois de falar, ergueu a cabeça e bebeu tudo. Ao pousar a taça, ouviu Chu Jinglan dizer calmamente:

— Apenas tome o Passo Lingxiao.

Chu Xiang sorriu e olhou para Yue Lingxi ao lado:

— Metade desse mérito é de Xi Xi. Nossos feitos se anulam. Pergunto qual recompensa Pai dará a Xi Xi?

O coração de Yue Lingxi quase saltou. O Imperador e a Imperatriz já haviam sido indulgentes ao não investigarem seu passado. Como ele ousava pedir recompensa para ela?

Surpreendentemente, Chu Jinglan não o repreendeu. Apenas o olhou e perguntou:

— O que você quer?

— Quero um decreto imperial. — Chu Xiang ainda sorria, com estrelas brilhando nos olhos, cheios de determinação. — Não importa o que eu faça no futuro, Pai nunca culpará a mim ou a Xi Xi com esse decreto.

O que ele estava fazendo?

Yue Lingxi quis impedi-lo, mas antes que falasse, Yue Momo trouxe uma tigela de sopa de galinha preta com tâmaras vermelhas e codonopsis. O caldo brilhava, a carne era macia e ainda fumegava. Enquanto ela se distraía, Chu Jinglan já dera a resposta.

— O mundo é seu, então o que fizer é da sua conta.

Ao ouvir isso, o sorriso de Chu Xiang se ampliou, como se tivesse conseguido o que queria.

— Seu filho agradece ao Pai.

Era só isso?

Yue Lingxi estava confusa, sem entender o enigma entre pai e filho. Ye Huaiyang, porém, compreendia e nada revelou. Apenas se voltou para Yue Lingxi e falou suavemente:

— Xi Xi, a Mãe ouviu de Xiang’er que você caiu de um penhasco quando criança, e sua saúde nunca foi boa. Acontece que o Imperador Pai também sofreu ferimento semelhante, e precisou de remédios e dieta para se recuperar. Como você está grávida e não pode tomar remédios, a Mãe mandou preparar alimentos segundo a mesma receita. Experimente.

Essas palavras sinceras fizeram Yue Lingxi esquecer qualquer outra coisa. Baixou a cabeça e tomou um gole da sopa, saboreando com cuidado antes de dizer:

— É um pouco amarga, mas muito confortável de beber.

Que criança honesta.

Ye Huaiyang sorriu com afeto:

— Então que o Palácio Xuanqing prepare todos os dias, em diferentes estilos, sem medo de enjoar. Veremos o efeito depois de um tempo.

Yue Lingxi assentiu obediente:

— Obrigada, Mãe.

Assim que falou, Chu Xiang, que escutava, sorriu sem jeito.

Ele a instruía dia e noite, mas ela ainda tremia diante deles. Bastaram algumas palavras de Ye Huaiyang para que chamasse “Mãe” e aceitasse o cuidado de sua saúde. Os anciãos eram mesmo sagazes...

Ao pensar nisso, Chu Xiang olhou para Yue Lingxi. Ela bebia a sopa em silêncio, ouvindo atentamente Ye Huaiyang. Sua aparência era dócil, respondendo em voz baixa, e ao terminar olhava para a sogra como um cervo, olhos brilhando de expectativa.

Nunca tivera interação assim com sua própria mãe.

Ye Huaiyang também percebeu algo diferente. Aproveitando uma pausa na conversa, lançou um olhar a Chu Xiang. Ao receber sua confirmação, sentiu ainda mais compaixão.

Todos ali haviam enfrentado grandes provações e sabiam que não teriam chegado até aquele dia sem apoio familiar. E aquela criança sobrevivera carregando feridas e um coração que talvez nunca se curasse. Fora corajosa e resiliente, despertando admiração.

Era raro manter a intenção original em tais circunstâncias.

Mais tarde, conversaram sobre trivialidades, em vozes suaves, às vezes abafadas pelo tilintar das taças. Os homens comiam em silêncio, sem perder uma única palavra, apenas escutando atentamente, ocasionalmente movendo as mãos para servi-las. Havia uma atmosfera de calor indescritível.

O jantar terminou assim.

Chu Xiang e Yue Lingxi voltaram cedo para descansar, cansados dos dias de viagem. Chu Jinglan e Ye Huaiyang caminharam pelo jardim por um tempo, apreciando a lua outonal e a brisa fresca.

— Dizem que esposas ficam nervosas ao conhecer os sogros, mas você estava suando.

Chu Jinglan enxugou os fios prateados na palma de Ye Huaiyang sob a luz tênue. Seus gestos eram sérios, mas o tom era brincalhão. Ye Huaiyang ouviu atentamente e imediatamente envolveu o pescoço dele, dizendo de propósito:

— Ela me vê pela primeira vez, mas eu também estou sendo sogra pela primeira vez. Por que não posso ficar nervosa?

— Claro. — Chu Jinglan olhou para sua adorável esposa, o canto da boca curvado. — Não há problema em ficar nervosa, provavelmente não haverá uma segunda vez.

Ye Huaiyang riu e o golpeou de leve antes de dizer:

— Nunca vi Xiang’er proteger alguém tão intensamente antes, talvez você tenha razão.

Chu Jinglan respondeu com naturalidade:

— Ele realmente puxou você...

Ye Huaiyang suspirou e recostou-se no abraço dele. A luz da lua refletia em seu rosto de jade, irradiando satisfação. Chu Jinglan a segurava firme, seus braços envolvendo-a. Eram como duas sombras sob flores e salgueiros, alheios ao mundo, com ela agarrada a ele como uma jovem apaixonada.

A lua era bela, mas não brilhava apenas ali. Sua luz se espalhava por milhas, complementando as luzes de incontáveis lares.

Na Mansão Song, ao norte da cidade, acabara de haver um grande banquete. As luzes ainda estavam acesas, com taças e pratos espalhados, e o aroma de comida e vinho permanecia no salão. Contudo, para alguns, parecia cheiro de podridão. Com as sobrancelhas delicadas franzidas, ela cobriu o nariz e saiu apressada. Ao entrar em seu quarto, uma criada trouxe água morna e massageou suas costas, mas foi empurrada com impaciência.

— Há notícias do lado dos Yi Ocidentais?

— Senhorita, ainda não.

Ao ouvir isso, Song Yujiao ficou inquieta e irritada, sem beber a água. Levantou-a da mesa, respingando gotas sobre a toalha bordada de flores e borboletas, encharcando-a.

Vendo seu humor, a criada aconselhou cautelosamente:

— Senhorita, sem notícias é bom sinal. Agora que o Imperador voltou à corte e o Príncipe Ning está dedicado à guerra, ninguém procurará pelo Conselheiro. A relação da família Song com ele naturalmente...

— Você entende alguma coisa? — Song Yujiao a encarou com severidade, repreendendo: — Tuoba Jie quase matou Duan Yuzheng e ainda levou Yue Lingxi. Só por isso, Sua Majestade e o Príncipe Ning não o deixarão escapar! Espero apenas que Yelu Fan já o tenha capturado e eliminado sem deixar vestígios. Não venha arrastar nossa família Song para baixo!

Enquanto falava, apertava o braço da cadeira, furiosa.

Quando colaborou com Tuoba Jie, queria apenas livrar-se rapidamente de Yue Lingxi, aquele espinho em seu lado. Assim, o incidente de dez anos atrás estaria encerrado. Quem diria que Tuoba Jie seria tão inútil, incapaz de proteger seu próprio território, deixando Chu Xiang resgatar a mulher diante de seus olhos! Agora perdera marido e exército, preocupando-se não só com a identidade exposta, mas também com sua situação atual.

Ao pensar nisso, baixou os olhos para a barriga, seus dedos se apertaram novamente, e o braço da cadeira estalou.

— Senhorita, deve cuidar de si. Afinal, as coisas mudaram. É melhor se preocupar menos...

Era como tocar em uma ferida.

Song Yujiao lançou a mão com força, e a xícara voou, atingindo a criada. A moça encolheu-se de dor, mordeu os lábios sem emitir som, tremendo no chão, com medo de falar.

— Saia daqui!

Song Yujiao gritou, o peito arfando, ainda cheia de raiva. Mas uma dor súbita veio de seu ventre, e ela pressionou a mão contra ele. Incapaz de resistir à dor crescente, teve de se deitar na cadeira de balanço. O ímpeto feroz de antes se dissipou pela metade, mas seu coração se encheu de repulsa por aquela pequena vida.

Nunca pensara que ficaria grávida do filho daquele velho miserável.

O homem nunca fora capaz, e o “decocto para evitar descendência” nunca funcionara. Mas aquela criança parecia ter criado raízes em seu ventre e não podia ser removida. Teve de renunciar ao cargo e esconder-se em casa todos os dias, como um rato. Todos os esforços anteriores foram em vão e nunca poderiam ser recuperados.

Ainda era jovem, como poderia aceitar isso?

Song Yujiao fechou os olhos e tentou acalmar a raiva, mas foi inútil. Só de pensar que Yue Lingxi, também uma Xiuyi como ela, já se tornara a mulher mais respeitada do Reino Chu ao entrar no Palácio Oriental, enquanto ela só podia permanecer no escuro, fazendo coisas sujas, tornava impossível encontrar paz.

Pessoas diferentes têm destinos diferentes, é assim que costuma ser.

O que a indignava era que Yue Lingxi sempre estava protegida sob as asas de Chu Xiang. E se um dia tivesse de enfrentar seu próprio destino, talvez não fosse tão resiliente. Felizmente, já preparara um grande presente para oferecer à recém-coroada imperatriz, e mal podia esperar para ver o espetáculo.

Com esse pensamento, Song Yujiao sorriu suavemente.


N.T:

A Tradução “Imperatriz Viúva” deve ter confundido, então darei uma explicação:

Na história Chinesa e Asiática em geral não era nem um pouco comum, e existem poucos casos de Imperadores vivos deixarem o cargo, então o título de “Imperatriz Viúva” era dado as Imperatrizes que ficavam após a morte deles, seria uma forma de dizer que era Imperatriz mas não do Imperador atual. Na história o Antigo Imperador ainda vive, mas ele passou o cargo para o filho. Logo, no original não existe um termo para um “Imperador Viúvo”, mas usam o termo da Imperatriz para indicar que ela não é a Imperatriz do novo Imperador, que na tradução fica Imperatriz Viúva.


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